quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Fundilhos de memória

 

      Eles falam de música, de artistas, mortos ou vivos, jovens ou velhos, de artistas, melhores ou piores, vendidos, vendáveis, sei lá eu. Uma cartilha de nomes e acordes. Eu não digo nada, não sei nada... de muita coisa. Nem de literatura eu sei grande coisa, quando eu deveria saber. Saber cansa, não sei como minha sobrinha faz caber tanto de tanta coisa em seus dez anos. Saber consome vários decibéis de memória e eu não consigo nem lembrar, na bancada da cozinha, que tem que deixar a cebola ficar transparente na panela primeiro, antes de misturar com a comida. Alzheimer precoce, eita ferro, se me colocarem Mario Quintana na frente é capaz de eu não saber mais quem é. É verdade, meu poeta mais querido não me veio às idéias quando a Marie me pediu poetas brasileiros. Veio só depois, e a partir de Proust, que horror, porque ele traduziu Proust pra português. Talvez eu lembre mais de Proust do que de Quintana, apesar de ter dedicado doces horas a quintanares, porque Proust é aquilo de que sempre se lembra sem nunca se ter lido. Que horror. Acho que perdi tudo, centenas de árvores desperdiçadas em papel, no fundo do meu armário, no meu quarto, no Brasil. Tudo o que não trouxe e que não coube nos meus vinte e um anos, perdi tudo. Trouxe Budapeste, mas acabei emprestando pro Paolo e não sei o que foi feito dele. Perdi Budapeste. “Ninguém deveria debochar de quem se aventura em língua estrangeira...” E o resto? Perdi Budapeste. Que terror. E esses escritores migrantes que estou prestes a tentar estudar, eles também perderam suas coisas? A gente nunca perde nada, dizem. O que nos acontece fica em algum fundilho, daí vêm os traumas, os tiques, o estilo, num subconsciente qualquer, sei eu? E enquanto ainda não acumulei novas árvores no meu armário, no meu studio, na França, fico sem nada? Qual é o nome da autora que escreveu Un plat de porc aux bananes vertes? Era esse mesmo o título? Ah, não era uma autora, era um casal... Ah, sim... E o que foi que li de Corneille? Só sei que era um quadrado. Assim, sem eira nem beira...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A vida, Strasbourg, esse momento de dezembro…

 

Alguma coisa está a ponto de acontecer. Não sei se é porque leio Mrs Dalloway e porque aquela mendiga canta através dos séculos na boca do metrô e eu me esfolo porque preferi pegar a redução de seis euros no supermercado pra mim em vez de doar aos sem-teto – faz tanto frio na Europa. Ai, é só o medo que nos dá a medida do sofrimento dos outros. A mendiga eterna de Mrs Dalloway, aquele maluquinho que sacudia a cabeça na igreja do Largo do Machado e que depois mudou para Copacabana. Aquele que andava de terno e calça social em Laranjeiras. As crianças crescem pela primeira vez quando, andando na rua, pequenas, do mesmo tamanho de uma pessoa sentada no chão, são ensinadas a não olhar, a desviar seu ponto de vista privilegiado pela primeira vez. A humanidade se perde logo na primeira infância. Não nos perdemos quando nos desviamos do bom, nos perdemos quando nos desviamos do ruim. As roupas pesam tanto, as camadas de lã, as luvas, os chapéus, as botas... o peso da Europa, alguma coisa horrenda parece prestes a acontecer, estamos a dois anos dos cem anos do 14-18; uma ameaça, esse peso, o euro, a irmandade financeira para as cucuias, os gregos, os portugueses, os italianos, os árabes – sejam os árabes quem forem, são quase judeus (nunca aprendemos nada); em Strasbourg 80% dos estudantes sofrem de depressão. Os anos maravilhosos da juventude... deprimida, desempregada, suicida. Anthony Patch estava certo? Não se entende a melancolia pela infância antes de crescer. O que fez Gloria sair e comprar uma boneca, para conseguir dormir; o que faz uma mulher deitar a cabeça no travesseiro e chupar o dedo, para conseguir dormir. Sabemos que crescemos quando entendemos. Até as estrelas são canibais – é verdade, vi hoje cedo no jornal que uma estrela comeu uma outra – por que chorar de susto pelas pessoas canibais, pelas moedas canibais? E mesmo assim, contra essa natureza, não parece direito que nos engulamos uns aos outros. As favelas foram pacificadas, o G1 varreu as notícias de assalto e assassinato – quero acreditar nisso como acredito que uma estrela comeu a outra. Clarissa, eu também confundo os armênios e os turcos, também não toco piano, oh não, sou meio esnobe também, Clarissa. Que horror. Mas diferente de Micòl, porque não estou convencida de que Micòl Finzi-Contini fosse esnobe. Mas e a vida, essa chuva, Strasbourg, nesse momento de dezembro...

domingo, 14 de agosto de 2011

Grande-pai

 

     Nesse dia dos pais, vou falar do meu avô.    

     Meu avô mancava de uma perna e usava uma bengala de madeira clara, bem lisa, gasta, no formato daqueles docinhos que aparecem no Natal. Ele usava um All Star preto de cano alto, era careca, tinha bigodes brancos e orelhas grandes. Nunca descobri se usava dentadura, mas tenho minhas dúvidas. Ele lia todos os livros que me mandavam ler na escola (o preferido era A Bolsa Amarela), lia todas as partes do jornal, todos os classificados. Também desenhava barcos e via todas as novelas. Contava piadas, sempre as mesmas, mas demorava à beça pra chegar ao final porque sempre começava a rir no meio. Ele ria engraçado, não abria a boca, era uma gargalhada pra dentro que tremia o corpo inteiro e ele se chacoalhava todo, ficava com a careca rosada. Foi dele que eu mais ri na vida. Ele jogava damas comigo e deixava eu apoiar a cabeça em sua perna coxa quando queria dormir no carro. Era para o quarto dele que eu corria quando minha mãe brigava comigo. Ele contava sempre as mesmas histórias e me deu algumas lembranças preciosas, uma casa na Ilha do Governador, pipas, uma perna quebrada num jogo de futebol, o mar; esses lugares são como se fossem meus. A última coisa que ele me disse foi feliz aniversário. Ele andava muito devagarzinho pela casa, arrastando os chinelos, apoiando-se na bengala e nos móveis, eu quase o derrubava passando pelo corredor estreito. Foi por ele que eu mais chorei até hoje. Molhava dois pães de fôrma no café todas as tardes, e no café-com-leite todas as manhãs. Foi com ele que eu aprendi a levantar uma sobrancelha. E fazíamos o jogo do sério, eu sempre perdi. Ele era resmungão e falava com a TV. A letra dele era linda. E ele começa a ficar rarefeito. Às vezes saio correndo e consigo puxar de volta uma mancha no braço ou um gesto de mão quando já começam a desaparecer, mas o nariz já foi.

domingo, 31 de julho de 2011

Hakuna matata

 

blog

     Quando me perguntam por que eu resolvi estudar Letras, algumas coisas me vêm à cabeça. A primeira talvez seja: por amor. E logo depois: por inconseqüência. Só os loucos fazem coisas por amor nesta vida.

      Não sei aonde Letras vai me levar, mas tô indo.       

domingo, 24 de julho de 2011

Para prestar atenção nos homens

 

     Somos poderosíssimas. Às mulheres é dedicado um dia do ano, três vagões exclusivos no metrô e 80% do shopping. Temos clínicas de exame especiais, sabonetes de higiene íntima especiais, academias de ginástica especiais. Para os homens qualquer coisa serve (se bem que os metrossexuais... hum). Ocupamos 95% da banca de jornal e 99,9% dos temas literários. Há uma etiqueta secular para tratar a mulher: abrir as portas, puxar as cadeiras, oferecer flores, pagar a conta, dar a mão para descer escadas, deixar que ela passe sempre na frente, deixá-la protegida do lado de dentro da calçada (agradecemos silenciosamente às mães dos homens que aprenderam tão direitinho). Não há uma etiqueta para tratar os homens. Nós limitamos nossas análises sobre os homens em três categorias: “imaturo”, “só quer me comer” e “não quis me comer, é viado”, parafraseadas de vários jeitos. Da parte deles, no entanto, há uma série ilimitada de reflexões, blogs, vlogs e conversas chorosas entre amigos sobre como as mulheres são complicadas, sobre como conquistá-las, sobre como funciona a nossa lógica sentimental e sobre como eles nunca vão conseguir descobrir completamente absolutamente nada. Nosso enigma é difícil demais, esfinges que somos. Legiões de bravos homens definham estrangulados entre nossas pernas! Sofrem tanto por essas vagabundas sem coração, interesseiras, exploradoras ditatoriais, meninas dos olhos sem menstruação! Oh Deus, por que ela não te ama?

     Bullshit. Tudo fachada.

     A mulher já foi espremida over and over again, só não entendeu quem é burro. Mas nós queremos continuar sendo espremidas porque gostamos de ser amadas contra a parede. Só que enquanto todas as atenções estão viradas para nós, enquanto estamos lá observando os homens “se contorcendo” de dor tentando descobrir nossos mistérios, enquanto nos achamos o máximo com tantos direitos e conquistas e carros exclusivos no metrô, os homens ficam confortavelmente protegidos no anonimato, com seu próprio mistério resguardado, com sua masculinidade imensamente complexa dissimulada em explicações simplórias e neandertais, reduzidos a sexo, futebol, carro e cerveja. Estratégia muito bem planejada. Tagarelar sobre as mulheres desvia a atenção das mulheres para as próprias mulheres, fazendo com que elas pensem mais sobre si mesmas do que sobre os homens. Eu já me peguei escrevendo sobre cinturas, mas nunca sobre peitorais, sobre jeitos de mexer no cabelo, mas nunca sobre jeitos de pegar o volante do carro. Não sabemos pensar os homens, nem escrever os homens, nem nada que não termine numa resolução superficial e denegridora! Teria até pena deles por esse pouco caso, se não estivesse plenamente convencida de que se trata de uma conspiração proposital! Faça a mulher pensar que está no controle e controle-a.

     Vejamos.

     Começou com os trovadores, primeiros poetas populares que vagavam de lugar em lugar entretendo a corte com canções em rima, na Idade Média. Um dos temas dessas canções era o amor – o amor cortês. Apesar de o trato com as mulheres não ser nada cortês naqueles séculos medievais, pode-se reconhecer aí as primeiras origens de toda uma enjoativa literatura-ode às mulheres, assim como de parte da criação do imaginário que nos cerca e nos assombra. Nas cantigas de amor desses trovadores, a característica principal da amada, além de ser linda e virgem, era ser inatingível. Estivesse ela muito longe, muito casada ou muito morta, o importante é que permanecesse eternamente inacessível. Num pedestal, numa redoma, intocável. É por isso, senhoras, que ainda hoje precisamos ser difíceis. Este nosso principal e mais atraente atributo remonta da Idade Média. Também é imprescindível que sejamos lindas (of course) e é bonitinho se ainda formos virgens (até uma certa idade). Para os poetas de hoje (que, é claro, disseminam o imaginário geral), legal é ser o fenômeno natural mais complicadamente delicioso que existe. Quando gritamos, o homem não deve se incomodar, deve apenas baixar a cabeça, prestando atenção: são gritos divinos. Somos perfeitas com nossas gordurinhas, celulites e estrias, eles nem as perceberiam se não fôssemos nós a apontá-las a cada vez, cheias de charmosa insegurança e timidez. Estamos sempre com cheiro de xampu e é sublime quando dizemos que estamos sem calcinha ou quando vestimos suas camisas sociais de manhã ou simplesmente quando encaixamos perfeitamente nossa cabeça em seus ombros.

 

     Confesso, é quase inevitável não nos sentirmos especiais e ficarmos todas derretidas com a poética da coisa. Mas olhando com mais cuidado, dá pra perceber que não se trata de uma simples poética cheia de atenções e admirações puras ao feminino, mas antes um manual de como uma mulher deve se comportar para conseguir tamanha admiração. Nenhuma dessas literaturas-ode é melhor do que qualquer revista de beleza. É evidente que não estar com a cabeça cheirando a xampu torna-se algo a ser corrigido imediatamente, e vestir a camisa social dele (apenas a camisa social dele) e ficar deslumbrante (descabelada, de preferência) passa a fazer parte da burocracia de um relacionamento. A verdade é que iremos ensaiar no espelho e prender a respiração diversas vezes até conseguirmos chegar pertinho dele, do modo que nos parecer menos ridículo, no meio de um jantar de família ou de negócios, e dizer, ao pé de sua orelha, estou sem calcinha...

sábado, 11 de junho de 2011

Conversa de pai e filha

 

    Depois do Dia das Mães, post temático do Dia dos Namorados (é, o blog é brega mermo). Desencavado de 2009, em diálogo com uma crônica lindinha de Antonio Maria, de mesmo título, mas do ponto de vista do pai. Se alguém quiser, posso passar por e-mail.


     - Pai, eu tenho um namorado.

     Menina, que tem que dizer isso pro pai, pela primeira vez, sente um medo muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o chão do mundo roda sob seus pés. A menina que um dia jurara que o único homem da vida dela seria ele, o pai. Ela deve agora, timidamente, olhando de baixo, dizer com jeitinho que não. Ela jurara errado.

     Pai, agora eu tenho um namorado. Sei que prometi, mas ele gosta tanto de mim! Me desculpe, eu gosto dele, também. Tenho certeza de que gosto, gosto muito, gosto mais do que tudo. Não, não mais do que de você, pai. Foi modo de falar...

     Mas ela gosta dele, sim, do namorado, mais do que tudo. Quando ele levanta o braço da cadeira no cinema e a beija na boca, a língua tem gosto de Mentos. E o filme todo fica com gosto de Mentos. Quando ele pega a mão dela na frente de todo mundo, a mão dela sua. E ela precisa disfarçar, fingir que vai arrumar o cabelo, secá-la rapidinho na roupa e devolvê-la a ele.

   Ele é um bom menino, sim, pai. Você não pode dizer nada, nem o conhece! Ele não vai se aproveitar de mim... ele me ama.

     E ela virará as costas e baterá a porta. Chorará e telefonará ao namorado, dirá que o ama infinitamente e perguntará se ele a ama também. Ele dirá que sim, e possivelmente será verdade. Ele a amará, sim, por duas ou dez sessões de Mentos no cinema. E então não amará mais. E nem ela a ele.

     Ela chegará em casa com os olhos inchados e dirá que não tem mais namorado nenhum. E jurará que nunca mais quer ter. O pai a olhará por cima do jornal e a acolherá em seus braços como antigamente, pequena e frágil, e com um amor só pra ele. Até que alguns dias ou semanas depois, ela entrará tímida em casa e dirá uma vez mais que jurara errado e que ama o novo namorado mais do que tudo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Técnica literária da Felicidade

 

     “What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss - absolute bliss! - as though you'd suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe?” ~Katherine Mansfield


     Fala-se muito sobre a dificuldade de escrever sobre a catástrofe, de representar artisticamente aquilo que é tão mau e tão hediondamente real que não pode ser diminuído por nenhuma palavra ou nenhuma tinta. Aquilo que gostam de chamar de “irrepresentável” ou “indizível” porque está destinado a permanecer eternamente alojado na experiência bruta, como se alguém tivesse esquecido uma faca dentro do corpo depois de uma operação.

     Mas e o indecentemente delicioso? Como representá-lo para que também não seja diminuído por palavras; para que, sobretudo, não pareça… bobo? Para que não seja um gritinho fútil e histérico de uma menina de quatorze anos diante de Justin Bieber… A alegria parece sempre tão tolinha... Boba, boba, boba… bobona eu. Como escrever o sol fresco sem que ele pareça uma luz clichê? E o verde das folhas sem que pareça sátira ou paródia árcadblisse? Eu que andei vendo um sol e umas árvores tão

(cadê a palavra… palavra…? … fico com lindas mesmo)

lindas hoje. Tirei uma foto por falta de jeito de escrever. (Pode ser dor de cotovelo, mas) desconfio de que a extrema felicidade e a extrema dor são egoístas, incompartilháveis, verdadeira e unicamente nossas, não podemos dividir nem que queiramos.

     Escrever a tristeza e o amor é muito fácil, as metáforas chegam, elas se apresentam como uma legião de dominós. A felicidade no entanto exige um talento absolutamente maior. Ela demanda uma técnica muito mais delicada. Como é que se faz um texto sorrir? Cadê a bochecha do texto pra doer de sorrir?

     Será que se pode encarar a felicidade, em vez de escrever sobre ela dessa forma enviesada, perguntando como escrever sobre ela? Porque, bem, isso é roubar. Perguntar o que fazer com a felicidade é não fazer nada com ela. É um jeito fácil e malandrinho de se livrar do tête-à-tête. Técnica utilizada repetidas vezes ao longo de diversos escritores (maus escritores, suponho) para fugir de um determinado tema – perguntar como escrever sobre. É colocar a dúvida para dissimular a incompetência. É o mesmo que preencher páginas e páginas com a inquietação de não ter nada o que falar. Falou-se algo, um espaço foi preenchido, umas palavras foram borradas e pronto, já está, pode-se mandar para o jornal do dia seguinte.

     Meu caso aqui é um tiquinho pior porque não tenho obrigação nenhuma de escrever com prazos, nem escrevo sob encomenda, então meus temas são de minha responsabilidade, preciosamente escolhidos (não necessariamente bem tratados). E eu pateticamente escolho escrever sobre a felicidade com essa técnica insuportável e vagabunda dos incompetentes que não cansam de recorrer à metalinguagens fuleiras...

     Essa angústia vem muito de a minha memória literária ser despovoada de narrativas de felicidade. (E todo mundo sabe que os iniciantes escrevem amparados em exemplos – seja pra fazer parecido, seja pra transtornar). De furor romântico, sim, de momentos alegres, talvez, de enjoada cafonice, com certeza, mas a grande parte sempre termina com uma súbita melancolia, com um balde de água fria, com a derradeira verdade inconsolável: a felicidade é ilusória, é um desodorante de prazo pequeno para a podridão, que logo começa a feder. Não é essa que eu quero.

     Como se fala da felicidade de exatamente agora? Não da felicidade infantil de outrora, essa felicidade inventada com cheiro de bolo de fubá, mas uma felicidade genuína, que se sente na hora, que tá aqui, estalando, berrando, que sai desembestada campos fora como um potro que acaba de cair da mãe. Uma felicidade que não pode ser do tipo que é ficcionalmente lembrada (a felicidade de algum passado), mas esta que simplesmente não pode ser lembrada porque está acontecendo, no delicioso gerúndio do presente… Esta que me veio hoje, numa quarta-feira mediana extremamente cedo pela manhã, assim do nada, pulando como uma pulguinha, surgida de nenhum motivo assim muito óbvio, e que destrambelhou a me comichar para sorrir - “I must laugh or die!”

     Dizer que se está feliz a ponto de chorar, isso é tão bobo, mas e se eu realmente estiver com os olhos chuviscados, como se tivesse acordado marejada de orvalho fresco para um dia lindo… toda brega… e se meus lábios estiverem realmente tremendo de tanto eu tentar controlar esse choro para não parecer tão patética? Há tanta coisa ruim no mundo e eu gastando lágrimas com felicidade! Chorar tem que ser por coisas bem mais importantes. Ai meu Deus, como sou fútil, que não vejo nada de mais importante do que isso!img077

 

    Boba, que bobona…

domingo, 22 de maio de 2011

Um insignificante domingo por semana

 

dog

      O sambinha meio pulguento dos vizinhos fica flutuando aqui no vale, a voz de um outro desce pelo vão da coluna do banheiro social, um fulano ensaia uma guitarrinha, alguém no andar de cima (ou será embaixo) fica falando no skype sem fones de ouvido e fico ouvindo essa voz encaixotada de eco digital – sem entender, o que é pior. Na Igreja tem missa e coro. Tudo meio longe, mas não longe o suficiente, e fico com esses zumbidos amortecidos, chatiiinhos... o som é leeeento... mole que nem um vira-lata se espreguiçando e bocejando. Zumbidinhos que não são isso, nem aquilo, tudo a meio tom, sussurrento... Um incômodo, domingo é um encosto que não deixa seguir adiante... Tanto pra se fazer e não dá pra fazer nada. Domingo é um rodo que empurra tudo pra segunda. Pra piorar ainda é outono aqui. Você sabe que as tardes de outono aqui são insuportavelmente velhas. A temperatura é boa, o sol é amarelado como foto velha, até o verde fica meio sépia, tudo é velho no domingo de outono. E esse sambinha encardido, mas que merda! É chato o samba dos outros. Você sabe que eu gosto de música, mas não a música dos outros, que invade aqui meu campo acústico sem eu pedir. Os olhos a gente pode fechar, virar pro outro lado, a gente não precisa ver. Mas ouvir é ruim, ouvir é involuntário demais pra quem não se concentra. Eu não consigo me concentrar ainda... É, ainda não consigo... Nada me interessa tanto assim a ponto de eu não ouvir. Eu fico chateada de não estar inteira pro Lobo Antunes. Não é muito esperto ficar com ele num domingo, mas às vezes a gente não tem escolha, você sabe. Às vezes tem de ser, como domingo tem de ser.


Foto: http://www.flickr.com/photos/szalik/

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os bichinho tudo tão aprendenu errado…

 

     Eu tinha obscenamente pensado em não comentar sobre a polêmica do livro aprovado pelo MEC que “ensina a falar errado” só porque ai... que preguiça... Mas eu sei (EU SEI, diabo!) que recuar é simplesmente

UMA INDECÊNCIA!

     Como foi muito bem esbofeteado pela (mais recente estrela youtubiana) professora Amanda Gurgel, é preciso falar sobre a Educação, é preciso fazer pela Educação.

     Este tumulto em torno do livro é um assunto que me concerne diretamente enquanto estudante de Letras, (possivelmente) futura professora e futura mãe. Mas é, antes de tudo, (atenção, clichê) um assunto que concerne a todos nós enquanto cidadãos. Então vou dar meu pitaco aqui também.

     Apesar de ser quase contraproducente separar a língua da sociedade, uma vez que ela só pode acontecer em sociedade, me incomoda – ou melhor (mesmo?) incomoda-me – um tanto o borrão entre conceitos estreitamente lingüísticos e questões político-sociais. É obviamente claro, como já disse, que os dois se misturam forçosamente já que a língua é um objeto político-social, mas quando se entra no vocabulário “certo” e “errado”, estejamos atentos: há estações se encrencando aí. Primeiro porque certo e errado são da ordem do metafísico, da complexa Verdade pessoal e intransferível de quem está falando, de quem detém o poder no momento; ou seja, certo e errado pressupõem sempre um ponto de vista.  Por isso, a troca muito bem ajustada de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado” (como sugerido pela autora) vem, entre outras, de uma linha da teoria linguística, encabeçada por Noam Chomsky, da Gramática Interna, que estuda a língua antes de qualquer picuinha social, como função humana (como respirar, comer, andar…). Isto é, considera a linguagem como faculdade própria e inata de todo ser humano, que permite à criança o desenvolvimento natural de uma gramática interna, de acordo com a língua a que é exposta (e que não é, certamente, sempre a padrão). Aqui, todas as línguas e variedades intralingüísticas são colocadas “cientificamente” em pé de igualdade, já que toda gramática possui uma lógica interna inquestionável (mesmo – pasmem! – aquelas diferentes da norma culta). Nenhuma língua é burra. Não tenho nenhuma pretensão de explicar Chomsky a ninguém nestas linhas tão singelas (nem em muitas linhas, se fosse o caso), estou só apontando para um fato linguístico. É um contrassenso, sob o ponto de vista da Linguística, dizer que alguém fala errado ponto. O que podemos, talvez, dizer é que se fala errado em relação à norma culta padrão. Portanto, falar “os peixe” na Academia Brasileira de Letras é inadequado, mas é perfeitamente adequado num churrasquinho em que esse seja o hábito do grupo de pessoas ali presentes e até, em alguns casos, firmemente recomendável. Pronto, é só isso.

     Quanto às politicagens, é preciso ter em mente que, se todas as línguas e variedades possuem uma lógica interna inquestionável, servem ao seu propósito comunicativo e constituem um código entendido sem problemas e passado de geração em geração num determinado grupo social, então é claro que a Variedade Padrão não é a padrão simplesmente porque linguisticamente/gramaticalmente é a melhor, mas porque é aquela falada pela “melhor” classe, ou seja, pela elite, pelo grupo que está no poder. Isso é um fato, não é discurso de direita ou de esquerda. O esquerdismo e o direitismo entram quando a lógica (dubitosa) nos leva a concluir que legitimar a variedade das classes mais baixas seria passar o poder de mão, num movimento “petista” do mal – como se houvesse neste livro um grito socialista: entreguemos o país ao mulato side of the force! A classe A entende que começa a perder o prestígio quando a sua variedade linguística começa a perder o prestígio. Mas, entendamos, o prestígio não está na língua, está no dinheiro ‘mermo’, ‘mermão’. A língua é apenas mais um apetrecho que marca o nosso lugar na pirâmide social, junto com as roupas que vestimos, o meio de transporte que usamos, os restaurantes em que comemos, os cachorros que temos e as petshops a que os levamos. Não importa se toda a sociedade de repente começar a marcar os plurais só nos artigos (o que não vai acontecer, pelo menos por agora), quem mora no Leblon vai continuar morando no Leblon, quem mora na periferia vai continuar morando na periferia. Portanto, não criemos cânico! Se este é o medo, não é o reconhecimento das variedades linguísticas que vai dar, de fato, voz às massas.

    Além disso, de todo modo ninguém quer desprestigiar a variedade padrão. Destitui-la de pompas e circunstâncias, de ares de tanta importância e medalhas de honra, pode ser, mas jogá-la no cemitério de línguas, não. (Talvez Marcos Bagno, mas isso é outra coisa).

     É evidente, ponto pacífico, que o preconceito linguístico reflete o preconceito social. Identifica-se o lugar social de alguém a partir da sua fala, dos seus “erros”, das suas cadências de sotaque. No Brasil isso é extremamente forte e, sobretudo na escola, não podemos passar por cima das variedades faladas pelos alunos, não podemos deixar de reconhecê-las e de ser pacientes com elas. Não podemos, principalmente, esquecer que os professores tantas vezes falam uma variedade que também não é a padrão (Houston, we have a problem!). Ignorar essas variedades e apagá-las com a norma culta é, antes de tudo, uma violência. A variedade padrão muitas vezes é praticamente uma língua estrangeira para muitas pessoas. Se estudar gramática já é chato para quem nasceu na classe A (não sejamos hipócritas!), imagine para quem nasceu na classe Z... é um negócio pavoroso! O mais sensato a ser feito é apresentar a esses alunos modos de dizer, especialmente aquele aceito pela sociedade A, aquele que é cobrado pelo Vestibular, aquele que é cobrado em entrevistas de emprego... enfim, aquele que impõe respeito, aquele que é necessário dominar para ser levado a sério perante a sociedade dominante (que, não nos enganemos!, é a classe A). Na verdade, essa “conscientização linguística” não deve ser feita só com esses alunos, mas também com os que já falam de berço a língua padrão, porque não adianta tomar cuidado com a auto-estima daqueles se estes vão continuar apontando o dedo preconceituoso na cara dos outros. Sim? Ótimo. A escola deve, sim, mostrar a existência dessa diferença de adequação/inadequação diante de contextos diversos  e ensinar “olha, a variedade adequada na escola e na sua vida profissional é a padrão, é essa aqui da Gramática do senhor Bechara, que vocês vão aprender agora”. Mas também é preciso que os professores estejam plenamente capacitados para expor este assunto de modo lúcido e competente, já que não é (como estamos vendo com esse burburinho todo) nada simples, para que a língua não comece a parecer um sarapatel de cachorro doido. Este me parece ser o desafio maior.

      Agora sobre o Marcos Bagno. Ele é professor da UnB, linguista inflamado e radical quanto à questão do preconceito linguístico, e um autor pelo qual todo aluno de Letras passa obrigatoriamente logo na Introdução à Linguística, arrancando os cabelos (principalmente porque este assunto não é introduzido na escola e constitui, sim, um negócio complexo e de extrema importância, cuja apreensão não é tão fácil e óbvia. Demanda, sim, um tempo e um conhecimento menos superficial de linguística). Aqui está o link para o comentário dele sobre este livro – a favor do livro, é claro, e azedamente contra a oposição. Acho o texto dele bastante divertido e, bom, ele fala basicamente as mesmas coisas que eu falei aqui em cima (obviamente bem melhor e com bem mais autoridade), mas o que sempre me incomodou nele é que ele cria um preconceito ao revés, isto é, em relação à variedade padrão, e acaba caindo na própria armadilha, come o próprio rabo etc. Façamos discursos inflamados, sim, acho que têm seu mérito, mas muitas vezes eles perdem pontos, MUITOS pontos, e tornam a argumentação um pouco mais fraca. Não é denegrindo a língua padrão que vamos ganhar nenhuma briga.

     Para “terminar”, finalmente (benza Deus), está tudo muito feio, muito grosso e muito desrespeitoso nessa discussão. Na escola, levantamos o dedo e esperamos que o professor nos passe a palavra. Com bons modos, levantemos o dedo e nos dirijamos com um mínimo de respeito à Educação. Não saiamos cheios de dedos e propriedades pra cima de algo que não entendemos. Questionemos, sim, mas com um mínimo de bom senso e respeito.


O GLOBO: Haddad defende livro, mas Enem exige norma culta; Haddad falta a audiência do Senado sobre livros didáticos e líder do PSDB pede recolhimento de obras com erros; Procuradora da República prevê ações contra uso de livro com erros pelo MEC; autora se defende; Para presidente da ABL, livro adotado pelo MEC valida erros grosseiros.

terça-feira, 17 de maio de 2011

I believe I can fly–Travessuras no céu

 

“Il faut être léger comme l’oiseau et non comme la plume”* ~ Paul Valéry

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     Andei uma época da minha vida querendo ser piloto de avião. Aeromoça não, piloto mesmo. Mas bom... para o bem e saúde geral de muitos viajantes, acabei indo estudar Literatura, que no fim das contas também não deixa de ser um jeito de estar nas nuvens.

     Minha palavra preferida era Varig. Eu gostava de viajar só por estar a bordo. Hoje isso mudou um pouco porque só sendo muito pancado da cabeça pra gostar de estar a bordo na classe econômica.

      De todo modo, voar e ideias afins sempre povoaram a minha afeição. Portanto, cama elástica, dança de salão e cavalos são super bem cotados por aqui. Tudo no mesmo campo semântico do ir pelos ares. Se eu fosse circense, seria trapezista. Simpatizo particularmente com teleféricos também.

      Não gosto muito de cair, no entanto.

     Veja bem, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: cair é propriedade de um outro departamento, o buraco é bem mais embaixo. Eu não gosto nem de tropeçar. Tudo bem que estar no ar já traz em si um cair em potencial, mas eu confio em aviões, balões e parapentes (sobre a asa-delta ainda estou refletindo). Agora… atirar-se em queda-livre eu acho mais medonho. Nem cabum né nada comigo, me borro toda. Bungee jumping está na lista de afazeres, mas… A graça do ar, pra mim, não está na adrenalina de continuar vivo literalmente por um fio, de mergulhar na morte por estatelamento e ser (se Deus quiser) puxado de volta, de entregar-se de corpo e berros ao abismo V = g x t. Como diz um amigo, live fast, die young, fuck yeah! Não descarto absolutamente, que eu também sou meio lelé da cuca, mas talvez em outra ocasião. Hoje estou pensando em outro tipo de sensação.

GOPR0766     Quando eu fui voar de parapente, confesso que também pensei “radicaaaal!” e só a ideia de estar parada de cara pro abismo da Pedra Bonita já me parecia o suficiente pra me elevar ao estágio absoluto da coragem. Chegar ao voo de fato, então… Kemi, a destemida. Contudo, uma conversa com um entendido do assunto tirou alguns “a” do “radicaaaal!” e fiquei só com um “radical” mais singelo, mas nem por isso menos destemido. Realmente, algumas pessoas disseram que o paraquedas é mais irado. Sei lá. Como esse mesmo entendido do assunto me explicou, a vibe é diferente. Disse ele assim: “a onda do voo livre é outra, tá muito mais pra curtir o visual, em paz, uno com a natureza, do que adrenalina ou coisa do tipo faca na caveira”. E então, depois de ouvir isso, curti ainda mais a onda do parapente porque me pareceu tão sossegado, tão (why not?) poético.

     Ok, ok, tô ouvindo vocês chiando… “sossego a 520 metros de altura HAHA que desmiolada”. Mas é. Acreditem. Não sei se por eu ter uma quedinha por alturas ou pela segurança absurda que o instrutor passa ou sei lá eu o quê, mas medo é o que menos seDCIM\100GOPRO sente lá em cima. Tá, também não vou dizer que não dei uma tremidinha ali na pista porque seria parecer machona demais, mas passados os primeiros gritinhos da decolagem, os vinte minutos que seguem são nada menos do que sensacionais. Estar lá em cima, sentada no vento, sobrevoando a montanha e o mar, compartilhando do espaço dos pássaros e sorrindo sem parar é… Não vou ficar enchendo esse parágrafo de adjetivos da ordem do espetacular, vocês podem preencher isso sozinhos abrindo o dicionário. (Má blogueira que bota os leitores pra trabalhar…).

     De todo modo, para quem me parabenizou pela coragem… Bem, se considerarmos que buscar a liberdade é um ato de coragem e que a felicidade é valente, até que sim.   

      Uma vez me perguntaram se eu tinha vertigem nas alturas. Como podem ver, obviamente que não. Eu tenho medo é do rasteiro…


* ”É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”, Paul Valéry

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ah! Uma infância errada…

 

     Nunca naveguei bucolicamente em córregos de carás dourados. Nadava de peito nos afluentes caudalosos de carros e faróis de freio. Nunca subi em árvore pra pegar fruta. Me empoleirava no carrinho de supermercado e catava biscoito de chocolate das prateleiras. Nunca corri por campos impressionistas com animais e nem assustei galinhas. Levava meu cachorro pra passear aqui na rua mesmo e os dois nos espantávamos, contemplativos, vendo um miquinho passear pelos fios de telefone. Nunca senti os cheiros dos doces da avó que nunca tive nas visitas de domingo que nunca fiz. Me regalava com o pudim da padaria ao lado de casa. Nunca galopei na correnteza que nem cavalo solto. Brincava de rema-rema-remador no sofá da sala com a empregada.

     Nunca vivi de infância lobateanamente prometida. Vivi de um não sei o quê urbano que parece não servir pra história, nem sonho e nem delícia.

     A literatura repetidamente me frustra com infâncias rurais oníricas, onde eu não estou… será que não fui criança, Deus meu? Ah! Que horror ter sido desviada da infância certa! A infância certa, aquela que dá colo e aconchega, é rural, tem cheiro de bosta de cavalo, é molhada de esguichos de córrego, é pulguenta e infestada de cicatrizes fundas. A infância certa sobe em árvore e come fruta do pé. A infância certa tem quintal. A infância certa tem sempre oito anos. A infância certa tem avós gordas e cozinheiras. A infância certa passa férias em sítios nas Minas Gerais. A infância certa pune todas as outras com seu tom de sépia bucólico e rústico e árcade, tão perfeito… se agasalha em lugares-comuns e neles permanece… inocência querida da infância perdida!

     Ah… pobre da minha infância errada…

 


Imagem: Renoir, L'enfant au fouet, 1885

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O brinco

 

     O pai não deixava a filha furar a orelha. Bebezinha, saíra da maternidade de cara limpa. Na escola, todas as meninas da sala usavam brincos. Pendurados havia ursinhos, pedrinhas, pokémons e argolas. Ela, coitada, levava o lóbulo nu.

     O pai não a deixava furar a orelha. O corpo é feito de pontos de energia, o que faz com que todo ele seja um sistema conectado e coeso. Um furo na orelha significaria a perda de alguma outra função corporal. Se ela nascera sem furo, é porque não era pra ser furada. Além disso, dói, sangra e o escambau. Trata-se de um costume primitivo. Era estranho para o pai que a filha procurasse a dor, o pus e o escambau.

     Então a frustração dos brincos de pressão. Dos brincos adesivos...

    Aos onze anos, contudo, não deu mais. Foi escondida à farmácia e pediu a pistola. Imediatamente a dor procurada. Uma dorzinha salgada, o tempero da vitória. O metal atravessado na carne, atarraxado nalgum ponto de energia. Você é uma mulher. Pai, eu não sou mais uma menina. Eu uso brincos. Eu uso brincos porque eu escolhi.

sábado, 7 de maio de 2011

Para Maitê, da mamãe

 

“Une mère, ça fait ce que ça peut,
Ça ne peut pas tout faire, mais ça fait de son mieux”
~Lynda Lemay


  Nesse dia das mães, para a minha filha:

     Aos dezessete anos descobri que o nome da minha filha será Maitê. Não sei por quê, não lembro como descobri Maitê. Reparei depois que rima com os nomes das sobrinhas e talvez isso seja bom pra poética familiar. Não conheço nenhuma Maitê e só tinha notícias de uma, a atriz. Mas isso não influencia em nada, que eu odeio essas coisas de homenagem, e minha Maitê passará longe da Proença, de cabelos alourados, mesmo que o pai venha a ser um norueguês louro de olhos claros. O sangue é forte desse lado. Não digo que Maitê terá os cabelos pretos como os meus, mas serão certamente mais para escuros, e os olhos também, talvez meio acastanhados. Talvez não tenha os olhos puxados, mas  digo isso porque nenhum dos meus sobrinhos tem, senão seria o mais provável.

     Reparou, Maitê, estou até rimando, mas é sem querer... mãe é um bicho cafona de dar dó. Coitadinha... Ainda é um anjinho lá no céu e eu aqui a profetizar como será, que tipo de cabelo, formato de unha... É preciso que baste que tenha todos os dedinhos, e que tenha cabelos. Era só isso que eu deveria dizer. Ai Maitê... desculpa a mamãe. Ainda estou na idade de brincar de Barbie, e quando se brinca de Barbie se é muito mimada. Você será como for. O que importa é que você será um grande sorriso, desenhado na minha grande barriga planetária, e eu, sem a menor culpa, poderei finalmente dizer que sim, só me preocupo com o meu próprio umbigo.

     Ai, te juro... tentarei não te sufocar de lirismo. Não te sufocar de amor... Assim a gente não ama bem, não é? Mas gritarei, sim, gritarei. Me chame louca, eu provavelmente estarei bem louca mesmo. Desculpa por todo o chocolate que eu não te deixar comer, por todas as balas proibidas, pelos penteados constrangedores, pelos beijinhos na frente da escola, pelo controle do boletim, pelos horários de dormir, pelos castigos, por não te deixar sempre dormir na casa das suas amigas, por não querer que suas amigas durmam sempre na nossa casa, pelos presentes que eu não te der, por frear a sua avó quando ela te mimar demais. Desculpa por todos os namorados que eu talvez não te deixe ter, pelos horários de chegar em casa, por não conseguir dormir enquanto você não chegar, por insistir em te levar e te buscar de carro e te deixar sempre na porta dos lugares, por te fazer ficar sem graça – e por dizer que bobagem, menina! quando você reclamar que tô te fazendo pagar mico… Desculpa por prestar atenção às suas amizades, por às vezes querer ser sua melhor amiga, por insistir que você é linda quando você se achar horrível, por arrumar seu armário e dizer que você é bagunceira, por não saber exatamente quando você me quer por perto e quando você me quer longe, e trocar as bolas na maior parte das vezes. Desculpa por te apontar o dedo na cara e dizer que você errou, mas será necessário – ah, Maitê! Será necessário... Desculpa por chegar a pensar que você não me ama tanto assim, eu sei que ama, estou só carente. Perdoa quando eu, sem mais nenhum argumento plausível, espernear que você vai entender tudo quando for mãe também – perdoa quando eu disser não, porque alguns sins, talvez eu jamais consiga me perdoar se os disser. Perdoa também por eu tantas vezes não entender direito o que você quer me ensinar, o que só você pode me ensinar. Tem paciência com a mamãe, Maitê… Desculpa pelas milhões de outras coisas que eu farei, das quais não faço a menor idéia hoje – por tudo o que eu farei, entre erros e acertos, na esperança de que um dia você me diga obrigada, mãe. Ou não esperando mesmo nada além de uma mulher cheia de luz, para a qual eu orgulhosamente darei a primeira faísca.

     Meu amor, não posso te dizer muito agora… Te espero, quando estivermos as duas prontas. E obrigada, por me engravidar já de tanto amor. Obrigada.

 


Obrigada, Mãe
~Akemi Aoki


[1] Uma mãe, ela faz o que pode / não pode fazer tudo, mas dá o seu melhor.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

everybody loves… Babies

 

    “On est né tout court avant de naître à la loi” ~ Jean François Lyotard1


      Igualdade é daquelas palavras que estufam o peito, é aquela palavra bonita de defender, que nos confere mais humanidade, mas no final todos sabemos que a minha igualdade depende do quão mais igual eu for a você, o gostosão do momento. Liberdade, igualdade e fraternidade!, grita uma mulher com o peito de fora – e ai de você se ousar meter uma burka aqui nas minhas fronteiras! Nesses dias turbulentos de “mundo árabe” e casamento gay, a polêmica dessa palavrinha fica a sassaricar por aí. Mas chega, não vou me enroscar mais em politicagens porque disso eu absolutamente nada entendo e por mais que eu seja corajosa no blog, isso já seria me encrencar demais.

     De todo modo, falem o que falem as revoluções, os livros, os socialistas, os ativistas, os humanistas, os valhamedeusistas, ninguém fala melhor do que um bebê. Ora, que contrassenso, ninguém fala melhor do que um infante, um in-fans, aquele que ainda não fala? Confirmo: ninguém evoca melhor a humanidade do que um bebê.

     Ontem tive o enorme prazer de ouvir quatro deles, na obra-prima de Thomas Balmès, “Bebês”. A sinopse já diz que ao seguir simultaneamente quatro bebês, do nascimento aos primeiros passos, na Mongólia, Namíbia, São Francisco e Tóquio, Bebês captura em filme os primeiros estágios da jornada da humanidade, que são ao mesmo tempo únicos e universais a todos nós. São três meninas e um menino, acompanhados desde a barriga da mãe até mais ou menos 1 ano, e para quem o mundo precisa abrir um espaço.

     A câmera é toda para o bebê. As mães são elementos secundários, conservatórios de leite; os pais praticamente não existem e quando aparecem fazem merda. Mais relevante que o seio materno é, evidentemente, o seio cultural. Através de diferentes espaços, lindamente fotografados, Balmès faz aparecer um mesmo chão humano. Não à toa escolheu crianças de, literalmente, quatro cantos do mundo. Aqui, as diferenças gritantes evidenciam a semelhança proporcionalmente estridente. 

     A esses bebês são oferecidos modos diversos de começar ‘the adventure of a lifetime’, mas o que eles nos oferecem de volta é uma mesma atitude primeira para estar no mundo. Antes de qualquer acostumar-se a um modo específico de viver e a alguma língua para enxergar, há o mesmo susto, o mesmo choro, o mesmo riso. O ‘oups’ dos acidentes, o choro das frustrações, a alegria do sucesso, a sobrancelha da dúvida. O mesmo estar rente ao chão, não importa se na terra ressecada ou num tapete persa, com vacas ou gatos de estimação ou os dois – temos todos a mesma cara abestalhada e nua, divertida ou apavorada,  de todo modo sempre perplexa diante de tudo, pois que tudo é deslumbramento. Não há filósofo que seja mais perplexo do que um bebê, não há poeta mais atarantado. A primeira infância é um espanto atrás do outro e é preciso realmente ser muito forte para aguentar o tranco de ser bebê. Nascemos fortíssimos e vamos murchando… Em pouquíssimo tempo fazer uma permutação entre essas crianças seria quase trágico, quem sabe o quanto essas crianças já não teriam deixado de ser simplesmente bebês e passado a ser crianças africanas, mongois, japonesas e americanas – crianças com o predicado da cultura (e potenciais adultos com o predicado da intolerância). O filme as acompanha cambalearem até o primeiro erguer-se e o primeiro caminhar, o primeiro afastar-se da terra e olhar o chão de cima, olhar para frente e não mais ao redor. O primeiro afastar-se do humano e da terra sem fronteiras e aproximar-se do Homem, das civilizações marcadas, demarcadas, cartografadas? O fim do tudo-junto-e-misturado e o começo do cada-um-no-seu-quadrado?

baby 1

      É um ponto de interrogação pessimista e broxante, mas ainda assim um ponto de interrogação que permite uma resposta confiante. Antes um ponto de interrogação que um ponto final definitivo e derradeiro. A filósofa Hannah Arendt2 tem um pensamento que me é muito querido. Diz ela que o nascimento de cada ser humano carrega potencialmente consigo um novo começo: “o milagre do aparecimento da novidade radical no mundo e a possibilidade sempre aberta da inauguração de um novo começo na história. O nascimento […] é o acontecimento inesperado que interrompe a segurança do mundo e a continuidade da história”. Nunca o corriqueiro e quase banal “as crianças são o futuro” me pareceu tão potente quanto depois de ler Arendt. Há aqui um grito coletivo pela humanidade, uma convocação a qual precisamos deixar que a infância responda. É papel dos adultos, da cultura. E este é o nó… Ajudar uma criança a crescer nunca pareceu tão dífícil.

      “Bebês” nos deixa com o primeiro erguer-se dessas crianças, que acompanha um grande ponto de interrogação. O que será delas a partir de então? Não podemos saber. Rezamos apenas para que as circunstâncias sejam favoráveis a um novo começo em direção ao bem…

     Mas me alegro de saber que elas tropeçarão ainda muitas vezes… Que tropecemos eternamente para que possamos ralar os joelhos no chão e nos lembrarmos dele, da terra que nos é comum e da humanidade que nos é infante.

baby 2


[1] “Nascemos tout-court antes de nascermos à lei”, p. 40 de LYOTARD, Jean-François. Lectures d’enfance. Paris: Galilée, 1991.

[2] ARENDT apud LARROSA, Jorge. “O enigma da infância”. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A palavra grávida

 

     Ainda sobre o angu de caroço da representação, é contraproducente apontar formas melhores ou piores de narrar. É comum que gostemos de assuntos sérios tratados com sisudez, assuntos leves escritos à pluma, assuntos áridos talhados com a secura de Guimarães e assim por diante. A forma coladinha ao conteúdo é a boa fórmula da boa literatura. Por isso também analisar literatura descolando pai e mãe não dá muito certo, o filho fica órfão e não há psicólogo que dê jeito no menino.

     Mas uma pergunta que me faço com toda humildade é – é mesmo só assim que funciona bem? É só quando a linguagem fala não só o conteúdo, mas pelo conteúdo? Não é uma pergunta retórica, é uma dúvida sincera, uma dúvida quase burra, maybe.

     Fico cismando que o ponto talvez não seja a gravidade, mas a gravidez. Não que a forma deva estar sempre “adequada” ao conteúdo (o significante é sempre arbitrário em relação ao significado?), mais importante que isso é que ela esteja grávida de um pensamento para além, que este filho possa abrir um espaço no mundo e correr.

     Não sei se me fiz entender, não sei se me entendi. Hum.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O joelho no milho

 

     Aprendemos o samba do crioulo doido da vida lá no pátio da escola, brincando de telefone sem fio. Não tem a menor graça que a mensagem chegue intacta. Que ela chegue toda torta, desfigurada, assim é que queremos, assim é que tem de ser – para que reste a graça, para que reste a dúvida. Por onde é que ela foi se perdendo, em quais ouvidos? Foi de surdez, foi de propósito? E se ela chega igualzinha à última pessoa, quem garante que a primeira – a autora da frase – não vai mentir e dizer que algo está trocado, só pelo prazer? Pelo prazer de o caminho não ter sido em vão. Também não é possível afirmar que essa primeira pessoa já não se terá esquecido a frase tão logo ela tenha completado o círculo. A memória caduca no tempo e no espaço. Aquilo que foi não retorna igual, Ulisses transfigurado.

     Que isto é é fato. Mas até onde isto pode?

     Esta é uma das pinimbas da Arte e da História diante das catástrofes da humanidade. A catástrofe e os limites de sua representação se impuseram com mais força nas discussões do meio artístico e acadêmico depois da Shoah, perfurando todo um restante de ditadores e torturados. É um discurso mais gago que o do Rei. Tão perturbador porque não encontra ginkgo biloba para a caduquice da memória, não sabe como fazer para que a mensagem não se entorte. Esta mensagem de horror não pode vagar para águas mais brandas, não pode se deixar soprar com leveza entre os ouvidos – ela precisa continuar gritando para sempre. Chamaram de irrepresentável o horror em seu limite, o horror que o corpo sentiu, mas a mente não alcança, a tortura que é incognoscível. Como representar esse irrepresentável? Como tratar o intratável que precisa e grita por ser registrado para que continue pulsando através das gerações a fim de que justamente não seja esquecido; para que não seja, principalmente, negado – para que todas as gerações por vir possam continuar dizendo “nunca mais”?

     São palavras de Milan Kundera, no popularíssimo A insustentável leveza do ser: “Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina”, até mesmo Hitler, Hiroshima, Ruanda, até mesmo – pasmem – Onze de Setembro e Osama Bin Laden. Que alegre desespero saber que nunca mais teremos Robespierre a cortar as cabeças dos franceses e nem Hitler a jogar judeus em campos de concentração, mas que teremos outros a fazerem outras coisas... A tacarem aviões em torres gêmeas, a matarem nomes terroristas (só nome, porque corpo ninguém sabe ninguém viu), a brincarem de tiro ao alvo em escolas. Nick Kristof, jornalista de guerra, resume assim essa papagaiada toda: “Se o século XX e o começo do século XXI nos ensinaram algo é que haverá uma próxima vez”. Não há nada que o tempo não cure, mas há muitas coisas que ele pode adoecer. Entre elas, a memória.

Que prejú.

     Esta é a única lição que tiramos da História? Maus alunos que oferecemos a mão à palmatória e sentimos um prazer feroz com o joelho no milho, não aprendemos muito.     

Poema do Alegre Desespero - António Gedeão

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

domingo, 24 de abril de 2011

Contra o bullying vocabular

 

Ainda no PROCON escolar…


     Me sinto esquisita. Meus posts, consciente e blogueiramente elaborados, que eu pensava derivar dos anos de faculdade, na verdade não são mais do que um grande regresso aos meus doze anos, a um jeito primeiro e pré-adolescente de escrever. Pode? Chegar ao final da faculdade e reparar que meu estilo, depois de ter vagabundeado por vários rebuscados, fez um círculo e voltou ao ponto inicial. Voltei quase às primeiras letras quando deveria estar tinindo nas belas letras.

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      No dia 27 de maio de 2002, esta que vos fala tinha então 12 anos e escreveu, no caderno de português cor-de-rosa, uma redação com o título “Astrologia”, que começava assim: Eu não sei se acredito muito nesse negócio de Astrologia. Esta é uma frase que, palavra por palavra, certamente estaria presente num texto de 2011, caso me pedissem para escrever sobre Astrologia. Não apenas em afeto, mas linguisticamente, tecnicamente falando, eu ainda estou nesse caderno – ou este caderno ainda está em mim e por isso eu o reconheço. A menina sobreviveu. 

     Aos trancos e barrancos ela sobreviveu. Muito infelizmente, não há espaço para o cronista na escola. Depois da sexta série, quando todos começam a ficar preocupadíssimos com o vestibular, redações com notas melhores que medíocres são raras. Tanto tormento! Textos argumentativos numa terceira pessoa distante e apagada, mas que mesmo assim precisa dar uma opinião, camufladinha em sujeitos ocultos e pronomes apassivadores. Eu não pode dar a cara a tapa, ousar colocar a ponta do nariz num cantinho entre parênteses. Nem isso. A redação argumentativa vestibularesca perfeita possui trinta linhas bem dispostas em quatro parágrafos, sendo o primeiro para a introdução do tema e a exposição da tese, o segundo para argumentação a favor, o terceiro para contra-argumentação (que começa com no entanto, entretanto, porém, contudo; o mas é comum demais e não é de bom tom começar um parágrafo com ele), e o último, finalmente, para a conclusão (que deve começar com sendo assim, portanto, em resumo, para concluir). O escrever bem está equivocado e nos equivoca. Espremidos nessa fôrma insossa, ainda fazem questão de que sejamos espertos. Ninguém, isto é, ninguém em boa saúde literária, vai sentir prazer escrevendo assim. E a escrita deve ser, antes de tudo, um prazer. Uma masturbação, for Christ’s sake! Mas, bastante ao contrário, a redação escolar vestibularesca nos violenta.

     Nenhuma coloquialidade, nenhuma frase de efeito, nenhum proverbiozinho e – deus que me livre – nenhum clichê. Canetas vermelhas sedentas contra a máfia do clichê! Não vale palavra chula, mas também não vale palavra requintada demais. Um dia eu ousei soltar um “não obstante”… putz. A BIC vermelha sangrou em cima e eu fiquei encabulada.

    Saímos da escola cheios de preconceitos. Nada presta, qualquer palavrinha mais engraçada deve ser escorraçada, substituída por um sinônimo mais comportado. Sujeito bom é sujeito nulo (!). Não enganamos ninguém com adjetivos, advérbios também não são muito bem-vindos. Metáfora também não pode, pff, imagine! No final, o que acontece é que quase não sobra nada de interessante pra fazer, a não ser bocejar durante trinta linhas.

     Concordo absolutamente que também não podemos avacalhar. Virgular um texto escolar com “porra” e “tipo assim mano”... não. Só estou defendendo o lugarzinho ao sol a que todos têm direito. Todas as palavras são “escrivíveis”, clichês podem ser de lamber os beiços. É preciso apenas mostrar como aproveitar as brechas da escrita, dar aquele jeitinho, sabe coé? Abaixo o bullying vocabular! Tudo pode caber numa mala bem arrumada. Mais do que regras e proibições, é preciso ensinar o bom senso. Por exemplo, palavrões nunca são de bom tom, mas eu acabei de escrever “porra” ali em cima – ops, fiz de novo!

     Tive que dar de cara com esse meu caderno de português de nove anos atrás para perceber que eu me tornei proficiente em todo tipo de escrita para, afinal, escolher como minha justamente aquela que eu nunca precisei que me ensi

nassem. Aquela que é cara de pau, (mais ou menos) honesta e singela, que usa “acho” em vez de “penso”, “acho” em vez de “diz-se”, que se derrete com expressões coloquiais e palavras gostosas, que não dá tanta pompa para as mais sisudas e as enfeita com outras. De putasqueopariu à mesóclises de Matusalém, amo a todos.

     Mas é aquilo, não é…? Aquela velha medida hierárquica da sabedoria aristotélica: é mais sábio aquele não apenas faz, mas faz sabendo o que faz, as inúmeras regras e todos os porquês. Hoje, faço com a autoridade do diploma. Só tem licença poética quem sabe as regras e as quebra conscientemente. A criança que desconstroi a gramática, faz frases tortas, interseccionadas, sem pé nem cabeça, está só falando errado e maltrapilhando a língua porque ainda não a domina. O cara estudado, com um Bechara na mesa de cabeceira, no entanto, está fazendo poesia. Suas linhas tortas, muitas vezes ótimas mas tantas vezes feias, são protegidas por longos “uaus” de perplexidade vazia. 

     Escrever é brincar, no fim e no início das contas. Eu gostaria de poder me ter avisado isso mais cedo, mas ainda bem que acabei descobrindo mesmo assim. Escrever é escolher como brincar.

Mas, de todo modo, é natural que eu encare as coisas assim, desse jeito mais livre, lúdico e risonho… afinal eu sou sagitariana. Mas, quero dizer, isso já é outra coisa, porque esse negócio de Astrologia…

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ai, não seja tonto! 2

 

    Antes de tudo, perdoem pelo post rechonchudo. Não tive tempo de ser breve.[1]  


    Achei muito difícil falar sobre inteligências e burrices sem falar sobre a escola, o sistema escolar, onde se espera que nossa instrução comece. Por mais que seja generalista fazer esta afirmação, creio que todo mundo guarda certos traumas… E eu não tô falando só do pentelho que grudava chiclete no seu cabelo.

     Eu não sou da área de Pedagogia nem de Neurologia, pouco ou nada li sobre o assunto, mas meu (e de uma cambada de gente também) modelo utópico de educação (sobretudo no nível fundamental/médio) seria aquele em que as disciplinas trabalhariam em colaboração. Colocar realmente em prática aquilo que chamam de interdisciplinaridade. Na Academia e na vida prática, os saberes foram divididos assim como na indústria o artesão foi substituído por empregados fordistas. Em nome da rapidez da produção em massa (e outras cositas más…), enquadradamos os homens num único espaço, tampamos a visão periférica, assim como se colocam viseiras em cavalos de charrete. Nós, assim como os cavalos, nos assustaríamos se pudéssemos ver mais do que a bosta do outro que vai na nossa frente.

     Lá nos primórdios gregos já havia os funis escolares, em que crianças “mais espertas” eram selecionadas para uma educação diferenciada. Não sei exatamente como elas eram distinguidas, mas o importante é que esse tipo de funil continua e é responsável por várias frustrações. Me parece que a Teoria das Inteligências Múltiplas (que sugere basicamente as seguintes inteligências: lingúística, lógico-matemática, espacial, musical, cinestésica, interpessoal e intrapessoal) ainda não foi completamente reconhecida pelo sistema educacional a ponto de ser viavelmente aplicada na escola.

     A criatividade ainda não é suficientemente valorizada, a Arte é de importância menor, e a divisão dos campos de saber é insistente. Por mais que possa haver esforços nesse sentido, ainda precisamos caminhar muito para que a prática de fato funcione.

Parte 1

     Não quero botar abaixo as peculiaridades de cada área e os gostos particulares de cada um para domínios específicos. Mas sinto que me faltou quando criança, enquanto escolar e aprendiz de aprender, o link. Eu simplesmente não clicava para a continuidade dos tempos quando batia a sirene e os professores passavam a batata quente. Talvez (bastante talvez) eu tivesse simpatizado mais com a Matemática e meu amigo engenheiro, com a Filosofia, se eu tivesse sabido que a Matemática nasceu na Filosofia – e isso já é História, by the way! Trazendo o assunto aqui para mais pertinho do “meu campo de saber”, me pasma absolutamente que a Gramática nada tenha tido a ver com Redação. E que a Redação não estivesse minimamente ligando para a Literatura. Eu, graças a Deus, comecei a gostar de ler porque fui apadrinhada por Harry Potter aos 10 anos. A partir daí, eu quis me meter a escrever. Me metendo a escrever, passei a me interessar profundamente por Gramática. E, não fosse o-menino-que-sobreviveu, eu não teria sobrevivido a José de Alencar.

Parte 2

     A frase que eu mais ouvi na época de escola, enquanto me descabelava entre fórmulas, regras e linhas do tempo, foi “não adianta decorar[2], você precisa entender”. De fato, de pouco adianta decorar muita coisa e não entender quase nada. Decorar pode estar ligado ao conhecer, mas não entender é o primeiro passo para não saber. Com saber, eu me refiro a juntar lé com cré. Decorar regras gramaticais e passar a caneta vermelha com categoria não vai te fazer escrever bem, assim como decorar a fórmula de Bhaskara não vai me fazer resolver aquele problema daquela prova de matemática em que eu tirei 0,1. Como disse um amigo, “fundamental é saber o que fazer com o que você sabe, saber fazê-lo bem”. “Mais fundamental que tudo”, continua ele, “é saber organizar bem as ideias”. Não podemos ser apenas tupperwares de informações. É preciso que esse acúmulo de informações seja um trampolim para algo além. É preciso dar o salto do que se conhece para o que se sabe. Disse um outro amigo que a sabedoria coloca a erudição no bolso. A erudição é o que fica no bolso para ser citada quando necessário e, penso eu, é tanto mais válida quanto mais misturada. É preciso que se faça o link.

      Para simplificar: você tem Facebook? Show, lek! Mas todos nós temos. O importante é o que você faz com ele, o que você compartilha, com quem você está conectado e as pessoas que você ajuda a conectar.


[1] Padre Antônio Vieira: Peço desculpas por ter sido prolixo, porque não tive tempo de ser breve. Encontrei diversas paráfrases na internet e fico sem saber como foi a frase original, mas a ideia é essa e quem disse foi ele.

[2] Em português, a gente nem liga muito para as expressões “decorar” e “saber de cor”, mas se vemos os equivalentes em francês e inglês, é mais evidente: savoir par coeur, to know by heart. Eu não saberia explicar sobre os caminhos obscuros da etimologia, mas é visível que em alguma parte essas línguas pegaram atalhos diferentes ao se afastarem do latim. Acontece que “cor” em latim é coração. Suponho eu que do “cor” os franceses chegaram com mais simplicidade ao “coeur” e os ingleses simplesmente traduziram literalmente a expressão francesa, enquanto os portugueses foram mais eruditos e preferiram continuar usando a palavra latina (ou somente também imitaram os franceses, mas não conseguiam pronunciar “coeur” e, no meio das adaptações, virou “cor” mesmo, que por acaso, coincide com o “cor” latim). ENFIM, especulações linguísticas tão inúteis quanto guarda-chuva furado.

     Mas a desculpa é que o coração era considerado como a sede da afetividade, mas também da inteligência e da memória. Me desculpe, mas vamos combinar que na maior parte das vezes o coração é responsável por algumas das nossas maiores burradas. Concordemos que a sede da inteligência e da memória é o cérebro/razão mesmo. Os hispanófonos e italófonos foram, nesse ponto, mais dignos. As expressões equivalentes deles para “saber de cor” são, respectivamente, “saber de memoria” e “conoscere a memoria”. Concordo que retemos melhor na memória aquilo que sabemos “de coração”, aquilo que amamos e pelo que nos interessamos com todas as veias e artérias dos nossos átrios e ventrículos. Contudo, não é para esse tipo de memória que a expressão é empregada. Precisamos decorar aquilo que simplesmente é assim (como as capitais) ou cujas explicações simplesmente não conseguimos alcançar (como as fórmulas matemáticas). Decoramos aquilo sobre o que não refletimos.


Em tempo:

No reino das firulas do saber, existem três tipos de sabedores: os sábios, os sabidos e os sabichões. Os sábios são discretos. Os sabidos são interessantes. Os sabichões são um pé no saco. 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ai, não seja tonto!

 

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     Toda e qualquer possível imagem de intelectualoide que eu tenha deixado até aqui irá, doravante, descarga abaixo. Se você não quer se decepcionar, não prossiga. Espere o próximo post, em que eu tentarei parecer mais esperta de novo.

     Em alguma hora da vida precisamos assumir nossas falhas, nossos curtos-circuitos, nossas burrices – como chamam popularmente. Talvez não precisemos todos expô-las necessariamente em público, mas já que eu tenho um blog e não tenho papas na língua… bem. Além disso, não podemos ser tão solares e pensar que só vão coisas boas para os nossos tabuleiros. Essa massaroca que chamamos “eu” também acolhe tremendas burrices, alienações, ignorâncias, arrependimentos que (in)felizmente não matam e tonterías que tais.


     Lembro que quando eu era pequena, endiabrava o meu pai depois que ele chegava do trabalho e queria sentar sossegado pra ver Jornal Nacional. Eu tinha a minha TV e podia muito bem ver o Cartoon Network no meu quarto, mas na época era extremamente necessário para o meu crescimento saudável essa relação judoca pai & filha, em que eu ficava tentando roubar o controle remoto dele e mudar o canal. Tentei ser boazinha algumas vezes (poucas) e simplesmente sentar lá comportada pra assistir ao noticiário, mas era tão aborrecido que eu logo recomeçava a batalha pela hegemonia televisiva.

      Só que a gente cresce, eventualmente. E faz parte da vida adulta ver, gostar e comentar as notícias, as tragédias, os Bolsonaros da galáxia etc e tal. É feio trocar o Bonner, a Fátima e a Maria Beltrão pelo TVZ, Esquadrão da Moda e Truques de Oliver. Mas… pode acontecer de esbarrarmos acidentalmente no controle… é que me escapuliu.

     Nesse mundo algumas coisas nos escapolem, assim, numa buzina de bicicleta. Ops, fui desviar, pisquei, perdi, playba!

Muito me escapa, sem dó nem piedade. Vejam só, escapava-me há pouco que a capital da Austrália é Camberra. Ó dó. Também não sei em que momento desafortunado eu papei mosca e perdi a pérola youtubiana do carioca revoltado com a enchente – fui compartilhar no Facebook toda feliz e me avisam que se trata de um clássico há muito tempo. Que embaraço. Não me inteirei do caso Bolsonaro logo de cara e não estou mais sabendo a quantas anda a panela de pressão lá no Mundo Árabe, a não ser que as pipocas estão estourando.

 

     Eu não me salvo da desculpa ready-to-go para a alienação: é tanta coisa pra fazer, tanto pra ver, ler, reclamar, xingar e mandar tudo para o diabo que o carregue que fica difícil não ofegar no final do dia. Quero só brigar pela supremacia do controle com meu pai – e luto a favor de desligar. Mas ele insiste em ver aquele diabo daquele Conta Corrente…

      Repense bem aí aquela sua ideia de me apresentar aos seus amigos, tomar chopp e tal. Aquele livro mega cult de 1340? Eu não li. Aquele filme alemão do início da década? Eu não vi. Aquela bebida peruana? Eu não bebi. Aquela ex BBB que tá dando praquele empresário ali? Ãhn, cuma? Campeonato Brasileiro? Últimas fraudes do Senado? Er… Eu abro seis saquinhos de sal e fico brincando de desenhar na mesa, ketchup também é bacana. Morro de admiração e inveja de pessoas que conseguem se adaptar a qualquer roda de conversa, que têm comentários e opiniões sobre tudo, cospem citações e nomes e referências das mais variadas. Já leram de tudo, já viram de tudo, conhecem de tudo. Aqueles indivíduos que são antenados, tá ligado? Tenho um professor que é assim, e sem o menor topete – ele é capaz de juntar Ópera e Milan na mesma frase com uma naturalidade de tocar o coração. Uma outra professora estuda Caras e Tititi antes de ir ao salão de beleza. Tenho amigas que têm amigos dos 06 aos 60 e falam desenvoltamente com todos – de maquiagem Dior à Simone de Beauvoir, vem quente que eu tô fervendo.

      I wish.

     Primeiro que minhas cordas vocais são preguiçosas e eu não gosto muito de falar. Segundo que se for depender das informações gerais que eu acumulei ao longo da vida, ihhhh. Minha memória é ruim. Por mais que eu já tenha amado Chico Buarque em algum momento da minha vida, já devo ter esquecido 80% das letras, por exemplo. Meu pai lembra de coisas que aprendeu na escola aos oito anos e minha mãe, bem, eu já mencionei aqui que a memória dela é de elefante. Já eu – eu mal me lembro como se monta uma conta de divisão no papel (não, peraí também, essa parte é uma hipérbole).

     Citei Camberra ali no terceiro parágrafo – eu sempre fui péssima pra capitais. Foi um sufoco na 4ª série ficar com aquela listinha de estados e capitais na mão e só conseguir memorizar Rio de Janeiro – capital do Rio de Janeiro, e São Paulo – capital de São Paulo, enquanto poderia estar vendo Power Rangers no programa da Angélica. Eu posso entrar na Wikipedia agora e descobrir todas as capitais de todos os países do mundo, além das cidades mais populosas, mais poluídas, mais ecológicas, aquelas com maior risco de sofrerem abalos sísmicos e também aquelas com altas chances de virarem a próxima Pompeia debaixo de lava vulcânica – não importa. Posso fazer isso agora e amanhã já terei esquecido a maior parte do que li. Também não adianta me cantar os cálculos de probabilidade ou me explicar por que os vidros do carro ficam embaçados com o ar condicionado. Minha esponja cerebral não retém esse tipo de informação, não apreende, não aprende, não porra nenhuma.

     Imbeciloide? Alienada desvairada? Não sei. Desmemoriada e distraída, com certeza. Seja como for, eu tenho outras qualidades, estou completamente certa disso – e que exploda um bueiro de Copacabana sob os meus pés se for mentira!


Continua…