Ainda no PROCON escolar…
Me sinto esquisita. Meus posts, consciente e blogueiramente elaborados, que eu pensava derivar dos anos de faculdade, na verdade não são mais do que um grande regresso aos meus doze anos, a um jeito primeiro e pré-adolescente de escrever. Pode? Chegar ao final da faculdade e reparar que meu estilo, depois de ter vagabundeado por vários rebuscados, fez um círculo e voltou ao ponto inicial. Voltei quase às primeiras letras quando deveria estar tinindo nas belas letras.
No dia 27 de maio de 2002, esta que vos fala tinha então 12 anos e escreveu, no caderno de português cor-de-rosa, uma redação com o título “Astrologia”, que começava assim: Eu não sei se acredito muito nesse negócio de Astrologia. Esta é uma frase que, palavra por palavra, certamente estaria presente num texto de 2011, caso me pedissem para escrever sobre Astrologia. Não apenas em afeto, mas linguisticamente, tecnicamente falando, eu ainda estou nesse caderno – ou este caderno ainda está em mim e por isso eu o reconheço. A menina sobreviveu.
Aos trancos e barrancos ela sobreviveu. Muito infelizmente, não há espaço para o cronista na escola. Depois da sexta série, quando todos começam a ficar preocupadíssimos com o vestibular, redações com notas melhores que medíocres são raras. Tanto tormento! Textos argumentativos numa terceira pessoa distante e apagada, mas que mesmo assim precisa dar uma opinião, camufladinha em sujeitos ocultos e pronomes apassivadores. Eu não pode dar a cara a tapa, ousar colocar a ponta do nariz num cantinho entre parênteses. Nem isso. A redação argumentativa vestibularesca perfeita possui trinta linhas bem dispostas em quatro parágrafos, sendo o primeiro para a introdução do tema e a exposição da tese, o segundo para argumentação a favor, o terceiro para contra-argumentação (que começa com no entanto, entretanto, porém, contudo; o mas é comum demais e não é de bom tom começar um parágrafo com ele), e o último, finalmente, para a conclusão (que deve começar com sendo assim, portanto, em resumo, para concluir). O escrever bem está equivocado e nos equivoca. Espremidos nessa fôrma insossa, ainda fazem questão de que sejamos espertos. Ninguém, isto é, ninguém em boa saúde literária, vai sentir prazer escrevendo assim. E a escrita deve ser, antes de tudo, um prazer. Uma masturbação, for Christ’s sake! Mas, bastante ao contrário, a redação escolar vestibularesca nos violenta.
Nenhuma coloquialidade, nenhuma frase de efeito, nenhum proverbiozinho e – deus que me livre – nenhum clichê. Canetas vermelhas sedentas contra a máfia do clichê! Não vale palavra chula, mas também não vale palavra requintada demais. Um dia eu ousei soltar um “não obstante”… putz. A BIC vermelha sangrou em cima e eu fiquei encabulada.
Saímos da escola cheios de preconceitos. Nada presta, qualquer palavrinha mais engraçada deve ser escorraçada, substituída por um sinônimo mais comportado. Sujeito bom é sujeito nulo (!). Não enganamos ninguém com adjetivos, advérbios também não são muito bem-vindos. Metáfora também não pode, pff, imagine! No final, o que acontece é que quase não sobra nada de interessante pra fazer, a não ser bocejar durante trinta linhas.
Concordo absolutamente que também não podemos avacalhar. Virgular um texto escolar com “porra” e “tipo assim mano”... não. Só estou defendendo o lugarzinho ao sol a que todos têm direito. Todas as palavras são “escrivíveis”, clichês podem ser de lamber os beiços. É preciso apenas mostrar como aproveitar as brechas da escrita, dar aquele jeitinho, sabe coé? Abaixo o bullying vocabular! Tudo pode caber numa mala bem arrumada. Mais do que regras e proibições, é preciso ensinar o bom senso. Por exemplo, palavrões nunca são de bom tom, mas eu acabei de escrever “porra” ali em cima – ops, fiz de novo!
Tive que dar de cara com esse meu caderno de português de nove anos atrás para perceber que eu me tornei proficiente em todo tipo de escrita para, afinal, escolher como minha justamente aquela que eu nunca precisei que me ensi nassem. Aquela que é cara de pau, (mais ou menos) honesta e singela, que usa “acho” em vez de “penso”, “acho” em vez de “diz-se”, que se derrete com expressões coloquiais e palavras gostosas, que não dá tanta pompa para as mais sisudas e as enfeita com outras. De putasqueopariu à mesóclises de Matusalém, amo a todos.
Mas é aquilo, não é…? Aquela velha medida hierárquica da sabedoria aristotélica: é mais sábio aquele não apenas faz, mas faz sabendo o que faz, as inúmeras regras e todos os porquês. Hoje, faço com a autoridade do diploma. Só tem licença poética quem sabe as regras e as quebra conscientemente. A criança que desconstroi a gramática, faz frases tortas, interseccionadas, sem pé nem cabeça, está só falando errado e maltrapilhando a língua porque ainda não a domina. O cara estudado, com um Bechara na mesa de cabeceira, no entanto, está fazendo poesia. Suas linhas tortas, muitas vezes ótimas mas tantas vezes feias, são protegidas por longos “uaus” de perplexidade vazia.
Escrever é brincar, no fim e no início das contas. Eu gostaria de poder me ter avisado isso mais cedo, mas ainda bem que acabei descobrindo mesmo assim. Escrever é escolher como brincar.
Mas, de todo modo, é natural que eu encare as coisas assim, desse jeito mais livre, lúdico e risonho… afinal eu sou sagitariana. Mas, quero dizer, isso já é outra coisa, porque esse negócio de Astrologia…





Citei Camberra ali no terceiro parágrafo – eu sempre fui péssima pra capitais. Foi um sufoco na 4ª série ficar com aquela listinha de estados e capitais na mão e só conseguir memorizar Rio de Janeiro – capital do Rio de Janeiro, e São Paulo – capital de São Paulo, enquanto poderia estar vendo Power Rangers no programa da Angélica. Eu posso entrar na Wikipedia agora e descobrir todas as capitais de todos os países do mundo, além das cidades mais populosas, mais poluídas, mais ecológicas, aquelas com maior risco de sofrerem abalos sísmicos e também aquelas com altas chances de virarem a próxima Pompeia debaixo de lava vulcânica – não importa. Posso fazer isso agora e amanhã já terei esquecido a maior parte do que li. Também não adianta me cantar os cálculos de probabilidade ou me explicar por que os vidros do carro ficam embaçados com o ar condicionado. Minha esponja cerebral não retém esse tipo de informação, não apreende, não aprende, não porra nenhuma.