A palavra da pauta é empreendedorismo, que carrega no calhambeque toda a família buscapé: inovação, mudança, originalidade, risco, loucura, coragem. Todo mundo tá lendo a biografia do Steve Jobs, Eike Batista só pensa em inovação, os publicitários brasileiros tão bombando nos prêmios de criatividade, o Brasil deu que deu pra investir em pesquisa, pra investir no jeitinho.
Todos sabemos que se destaca quem descobre, entende ou cria um negócio novo, no esquema das três maçãs, Adão, Newton e Jobs. Cada um no seu galho, todo mundo quer dar novos respiros ao próprio campo de ação, e não é que seja antes pelo bem desse campo de ação do que pela autopromoção, por um nomezinho na História... E não há nenhum mal nisso, diga-se de passagem (que nem a história do voluntariado, que tem gente que critica porque o outro tá fazendo só pra botar no CV etc; eu não critico, pelo menos tá fazendo andar pra frente, porra. E vê se levanta também e vai fazer. Palhaçada...). Foi só pra criticar a tradição artística meio chulé anterior e pra “fazer refletir sobre a arte” que o Duchamp assinou aquela porcaria de penico? Não, né? Ninguém se lembra de nenhum nome de trovador da Idade Média (até porque era tudo igual mesmo e ninguém assinava), mas todo mundo já ouviu falar do trio ternura Dante, Petrarca e Boccaccio (apesar de não podermos afirmar que eles tivessem plena consciência, ali no final da Idade Média quando a figura do autor ainda era meio desprezadinha, da importância que iriam tomar).
Ninguém estuda o que é igual na Universidade; estudamos aquilo que tem seu valor de originalidade, de ruptura, e acabamos sem conhecer aquilo com o qual essa coisa maravilhosamente nova rompeu, pra início de conversa, o que torna as coisas bastante abstratas. Então, paradoxalmente, ficamos repetindo uma historiografia literária cheia de monumentos de ruptura (sabe-se lá exatamente com o quê) até alguém descobrir (e se tornar uma estrela da Teoria!) aquela história de “kafkianos antes de Kafka” – e você pensa que realmente deveria ter ido fazer faculdade de estatística, que é muito mais exata do que literatura.
Os aspirantes a escritor, sem conseguir escrever uma história simples e boa, arrancam os cabelos pensando que sua única solução para a glória (provavelmente póstuma) é escrever algo mirabolante, mas que Joyce e Virginia Woolf já existiram. O aspirante a escritor passa então à glória bastarda, a do best-seller, mas já existiram triunfalmente elfos e hobbits, bruxos e trouxas, já existiram infelizmente vampiros fosforescentes. O aspirante a escritor pensa que nasceu tarde demais. Ele começa a fazer experimentações de como bater com a cabeça na parede e de como torturar o Word com coisas. Será publicado alguma hora. Ninguém mais ousa recusar empreendedores literários por medo de serem chamados de críticos imbecis num futuro próximo. A crítica ruim é necessariamente imbecil... há que se ver potencial em todo espetáculo débil de teatro, em todo penico assinado num canto de museu. O crítico tem que ser prafrentex e iluminar um hermetismo qualquer. O crítico também é a figura que quer a autopromoção, ele quer ser dotado da visão. Feliz do aspirante, não terá que esperar até a era póstuma. De todo modo, também acontecem coisas estranhas com os póstumos. Os póstumos são descobertos no fundo de uma estante empoeirada de biblioteca por estudantes de mestrado ou doutorado que precisam de um autor obscuro pra conseguir estudar alguma coisa que ninguém estudou ainda...
Diferentemente do empreendedorismo empresarial, o empreendedorismo literário não dá resultados imediatos (ou relativamente rápidos). De modo geral, o investimento em inovação literária dá lucros a longuíssimo prazo e o investidor tem 80% de chances de estar gelado de tão morto quando vierem os frutos, através desse estudante de mestrado e doutorado, depois de passar uma vidinha de mendigo. Mas a literatura não precisa sempre de coisas mirabolantes, a literatura precisa de boas histórias. Ela está cheia de boas histórias, mas, diferentemente de outras áreas, uma boa história a mais na literatura não é algo medíocre. É algo que talvez esteja em falta, em meio a tantas experimentações espalhafatosas e enfadonhosamente metalinguísticas... Escreva um bom soneto. E bastará.
Infelizmente nesta Páscoa não estarei em casa pra ver as pegadinhas de coelho em talco que minha mãe faz no corredor pras crianças da vizinha. Sempre gostei da Páscoa, evidentemente porque tem chocolate, mas também porque os ovos de chocolate nunca me deram tanta dor de barriga quanto a ansiedade da véspera de Natal – os presentes sempre chegaram, mas o fato de não ter uma chaminé sempre me deixou aflita. A caça aos ovos, as pegadas em talco, que eram para mim nessa época... Essas patinhas de coelho tiveram que desaparecer alguma hora (até ressurgirem para os vizinhos), mas ainda durante algum tempo pedi aos meus pais para continuarem escondendo os ovos, só porque era divertido procurar... eu dizia. Mas havia um coelho – um coelho que murmurava, de alguma parte, não acredite que foram eles, não, não, fui eu! Um dia minha mãe me entregou um ovo em mãos: feliz Páscoa, ela disse, e o coelho se calou para sempre.