sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Bolonha § comprei uma almofada de adulto

Minha almofada é bege. Ela não é cor de rosa. Ela não é estampada. Ela não tem frufru. Ela é singelamente bege.

Explico: há algum tempo atrás, me tornei uma rosa-compulsiva. Foi quando me libertei da idéia de que rosa era aquela cor brega para meninas. Eu não gostava do rosa do mesmo modo como não gostava do azul. Eu era politicamente correta e repudiava as coisas que corroboravam para a distinção entre as massas. Ter coisas cor de rosa era como anunciar a minha condição de mulherzinha: não, eu era uma pessoa cheia de personalidade que gostava de vermelho. Em algum momento, tudo mudou. Eu continuo não gostando muito de azul, mas tudo ao meu redor é hoje uma viadagem cor de rosa colossal – e o que não é rosa... tem tendências.

Com o rosa, veio uma trombada de outras infantilidades. A aceitação do rosa deveria ter sido um passo para a maturidade: eu não era mais uma pré-adolescente cheia de merdinhas, eu tinha aceitado todas as cores independentemente do seu valor social, eu tinha ido além. Mas a verdade é que o rosa é uma cor infantil e acaba infantilizando todo o resto da sua vida. Na faculdade, comecei a pesquisar sobre a infância. Aos poucos, comecei a simpatizar com as crianças e com toda a porcaria da indústria fofa e colorida para crianças. Quando você aceita o rosa, você não está aceitando somente o rosa, você está fazendo um pacto com o arco-íris e com a creche. Que nem quando você compra o primeiro produto Apple. E você nem está consciente.

brancadeneveA consciência me veio anteontem enquanto conversava com o meu room-mate. Estava eu dizendo que uma coisa que eu não gosto no Japão é o fetiche que eles têm por mulheres se comportando como garotinhas e o escambau do kawaii. Momento de embaraçosa queda da ficha. Momento em que a ficha cai com tanta força que faz um furo no chão, onde eu tenho vontade de enfiar a minha cabeça e a minhabonecada BrancadeNeveediçãocolecionadorqueestánaminhapoltrona, prontofalei. Olha, ela é simplesmente linda demais e nenhuma porcaria de maturidade vai tirá-la de mim, mas foi tudo culpa do rosa.

No entanto, a minha nova almofada... a minha nova almofada é bege. E uma nova era está para começar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O chocolate dos dedos

As unhas quadradas ao final da semana já estavam com o esmalte lascado. Eu percebia porque ela me pegava olhando pra mão dela e me mandava não olha, tá horrível! Ela não sabia que o que eu olhava eram os ossinhos, aqueles onde a gente conta os meses intercalando... Por mim, eu contaria tudo ali... os meses, os anos... contaria todos os meus segredos para aqueles ossinhos. Mas eu não dizia isso. Pegava-lhe as mãos e colocava atrás do meu pescoço, entre meu cabelo, forçava aquelas unhas de esmalte lascado pra dentro da minha pele e lhe beijava a boca.

De manhã ela se trancava no banheiro pra tomar banho e secar o cabelo. Quando o secador começava a roncar, eu entrava. Ela estaria nua, com os cabelos lambidos ainda pingando o meio das costas, a pele fria, o banheiro quente. O espelho embaçado, ela quase não percebia que eu entrava, só quando eu lambia uma gota de água do meio de sua espinha dorsal. Tremelicava, apavorada. Você sabe que eu não gosto que você me veja de cabelo molhado! Eu fechava os olhos e me abaixava até seus outros cabelos... O espelho se desembaçando se embaraçava agora...

Às vezes ela cismava de fazer bolo. Não queria que eu entrasse na cozinha, dizia que eu me metia. Mas eu calculava a hora em que ela estaria fazendo a cobertura e entrava. Ia direto na panela, ainda não muito quente. Não mete a mão na minha panela! Então eu a pegava pelo pulso, metia a mão dela na panela. E chupava o chocolate de seus dedos...

2008