domingo, 26 de maio de 2013

aos piolhos dos meus oito anos que os anos não trazem mais

A gente sabe que cresceu quando esquece o rancor pela infância e quer voltar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Eu disse não escrevo

Eu teria história pra contar. Não história minha, porque a minha vida não é que seja muito romanesca. Mas aquela história do pai da babá sueca dos meus sobrinhos, fugido do Irã como num filme de aventura. Aquela história da perna quebrada do meu avô e as pipas que vendia pela janela, na Ilha do Governador. A história de um incêndio na casa do melhor amigo do meu pai, no Japão, naquela época em que ele comia arroz e gafanhotos na miséria do pós-guerra. Gostaria de contar as histórias em tapetes mágicos da minha irmã no Marrocos. Mas em vez disso eu disse... eu disse não escrevo, não escrevo histórias.

Estou escrevendo isso só para não escrever outra coisa – a tese, largada em outro Word.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

o corpo da menina

 

Não é só o estupro que destrói o corpo da menina. Acontece também quando ela tem doze anos, menstruada aos onze e de sutiã 44 aos treze. Acontece então também quando ela tem doze anos e sai sozinha na rua pela primeira vez e para sozinha no sinal pela primeira vez. Num sinal que nunca fecha, numa curva, onde às vezes não atravessa ninguém. Acontece então quando ela tem doze anos e três entre quatro carros que passam buzinam e gritam coisas que ela não entende. Quando a olham diferente porque ela tem peitos e tem cintura e raspa os pelos. Acontece quando ela passa as tardes comendo batata frita e bebendo refrigerante pra não ter mais cintura. Quando ela se veste com roupas largas de garoto pra não ter mais peito. Acontece então quando ela quer finalmente mudar essas roupas e agora ninguém olha e nem buzina e nem grita e nem nada porque ela é gorda. E depois que ela fizer dietas, botar uma blusa decotada e disserem que ela é bonita, ela não vai acreditar porque quando ela tinha doze anos três entre quatro carros buzinaram e gritaram alguma coisa pra ela, quando ela tinha doze anos e não pensava em ser bonita e nem era bonita de buzina de carro.