Eu te procuro e não te acho. Cadê você? Eu cruzei o oceano, fui atrás de você em outros países, aprendi outras línguas só para o caso de você não falar a minha, te procurei às cegas, perguntei pros amigos, pros conhecidos, perguntei pra qualquer um, te procurei na internet, também, mas te procurei em vão, você não estava. Nem na internet você estava, nem na internet. Então te procurei na esquina. Até na esquina eu te procurei. Até na esquina e não te achei. É porque eu passei dias e dias em bibliotecas, não é? É por isso que você não me quer? É porque eu não sou muito experiente? Porque você acha que eu não conheço nada da vida real? Porque eu nunca tive primeira vez?
Primeiro emprego, eu juro que não vou te decepcionar quando você me deixar eu te encontrar.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
O primeiro
sábado, 9 de novembro de 2013
Dos nós que não se apertaram
A gente vai embora porque outra ponta da vida está chamando. Porque a idade permite, alguém outro virá. Porque a idade é supersticiosa, não era para ser. Ou porque a idade confia, o que tiver de ser será. E a idade confia sempre, mesmo sem querer.
A gente tem que ver indo embora porque o chão dos outros não é nosso para asfaltar. Porque se acredita, o que foi sabe voltar. Porque se espera, o que tiver de ser... sim, já sabemos.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
algum amor
Inebriada pelo melhor sono da manhã, ela nem se dá conta da breve aragem pelo cóccix. Ele soprando, como se sopra uma pétala, a etiqueta da calcinha, que nunca ficava para dentro. Ela permanece quieta e plácida, estátua escondendo os seios enterrados na cama, oferecendo apenas, como relevo eriçado, o poliéster levemente puído da calcinha rosa, como oferecia também as das que eram brancas, azuis ou beges.
As primeiras horas da manhã e as da noite, além dos domingos, eram as únicas que se podiam ouvir a respirar e a pensar. No restante do tempo, sons sem fronteira esburacavam o silêncio do roçar de seus cílios e o trocar de seus hálitos com britadeiras e marretas. Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronto o novo prédio, estalagmite urbana.
Mas ela não acordava pela manhã e, embora ele a tivesse a ela e as etiquetas de suas calcinhas, ela não tinha a ele e, portanto, sempre saía perdendo no final das contas – sentia mais falta dele do que ele dela e assim ela ia, sempre se achando mais amante que amada, menos querida do que de fato era. A pena é que ao dormir não tenhamos nem o mínimo de nós mesmos – privados do melhor ruído da chuva e da brisa da respiração de um homem pelas costas, à mercê de toda boa e má intenção. Ela, nessas horas de silêncio e brisa, estava presa não se sabe em qual sonho, ao que se agarrava inconscientemente, mesmo que fosse para depois perdê-lo, uma vez abertos os olhos. Acordava só quando o barulho era forte demais, o sol já batia na altura de suas coxas e ele já se tinha ido. Nunca nenhum recado que dissesse meu bem, eu te amo, trago as tangerinas quando voltar. Só alguma louça de café da manhã no fundo da pia da cozinha, alguma poça d’água nos azulejos do banheiro. Ela nunca o havia sabatinado e sabido o que era de importância saber. Presa nos detalhes da desordem, ficava feliz com a tampa da privada abaixada e tirava daí algum amor.
sábado, 19 de outubro de 2013
Rio, apesar de muito
É triste, mas é apesar de muito que a gente ri. É por essa vida que é só aqui, só daqui, que é muito pior do que noutro lugar, mas muito pior noutro lugar. O ponto de vista sempre serve para consolar, porque carioca precisa de alguma consolação. Talvez seja o que faz o mendigo da Lapa parar na janela de um sobrado pra escutar o samba de dentro, com muito mais gosto do que nós, que pagamos vinte reais para entrar, estamos pagando quinze na longuinec e ainda, mesmo assim, estamos fora, muito por fora, sem muito samba no pé, olhando do segundo andar. A cantora sabe que qualquer canto é menor do que a vida dessas pessoas, ela se vira mesmo assim e canta praquele público que não pagou, porque é a coisa mais honesta a se fazer. Nosso samba não é de preto velho e a gente tem jogo de cintura só pra dizer pro mendigo que nosso dinheiro acabou e, desculpa aí amigão, não vai dar não. E ele diz, com jogo de cintura pra viver, chateado, indo embora, que poxa vida, ele sempre chega atrasado, quando o dinheiro das pessoas já acabou. A gente sorri, apesar disso, porque é lindo, apesar de tudo. Mas esse jogo de cintura pra viver um dia acaba e a gente não tem jogo de cintura pra dizer mais nada, vendo o iPhone ir embora, na baia de um malandro com uma pistola. A gente fica chateado, desculpa aí amigão, perdeu. Perdi, perdemos, perdemos tudo. Somos roubados dentro das lojas porque temos que comprar, temos que beber aquela água de cinco reais e aquela longuinec de quinze, porque temos que nos vestir e porque temos que. Somos roubados fora das lojas porque temos que viver. Somos roubados, de um jeito ou de um outro, porque o bicho pega e, bicho, o bicho come, mas tá todo mundo rindo. Viver é melhor que chorar. E faz tempo, eu não vi você na rua, mas sei que seu cabelo esteve ao vento com outros cabelos de gente jovem. Você hoje é gente velha e eu tenho visto novos cabelos jovens reunidos. E esse é o quadro que dói mais, porque doemos como os nossos pais doeram. Ainda. E de novo. Mas de noite, ali na Lapa, na chuva, com o pivete, a gente ri porque nuns mais, noutros menos, a ferida é viva, mas viver é melhor que chorar.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A vida dos outros
Não há muito além da vida dos outros. A vida dos outros é pelo que se acorda toda manhã, é pelo que se vai ao bar, é pelo que se marca encontro, é o que se suspira pelas alcovas e o que se fala alto pelos botecos. A vida dos outros é a razão de viver do palpitar, do mexerico, do disse me disse que me disse. A vida dos outros é pelo bem do assunto, é só porque se ela não existir, vai-se embora e não se falou nada. Palpitar igual sobre a vida dos outros é virar unha e carne, é ser do mesmo time. A vida dos outros serve para colocar os outros em nossas vidas. A vida dos outros é a mãe do Fulano e do Cicrano, que sou eu e é você. A vida dos outros é a mãe da Puta e do Filho dela também, que sou eu e é você, também. Digamos, a vida dos outros é a mãe do Vagabundo, do Cafajeste, da Maluca, da Histérica, é a mãe da Gostosa e da Gorda, também. A vida dos outros pariu a porra toda e é pela porra toda que afinal estamos todos aqui. A vida dos outros é pelo que se vive a própria vida, vida própria que é a vida alheia dos outros. Falem mal ou falem bem, que falem dos outros, a minha alteridade é minha e não é de mais ninguém, que eu não vou ficar sendo o Fulano de alguém – quer dizer, não vou ficar sendo o Fulano do Cicrano como o Cicrano é o meu Fulano. Entendeu. Não. Deixa pra lá, deu quatorze linhas de assunto.
domingo, 2 de junho de 2013
saber querer
Para experiências futuras, eu perguntei, o que eu deveria saber? e ele pensou um pouco sem querer imaginar que haveria para mim um futuro outro, olhou para baixo e olhou para mim e me disse enfim saiba querer, diga o que quer, porque é muito difícil não saber o que você quer e você deveria querer com toda a força, mesmo que tanto faça, não deixe que os outros escolham por você porque essa é a sua vida e pronto, não dá pra saber quando ela vai terminar. De improviso comecei a chorar e num soluço feio e sem nenhum ar disse eu não sei o que fazer da minha vida, isso está acabando e eu não sei o que fazer comigo. Além do mais tenho medo de incomodar o querer dos outros querendo demais, mas isso eu não disse porque tinha acabado o ar e se eu não pegasse a bicicleta e fosse embora teria desfalecido ali, sem nenhum querer.
domingo, 26 de maio de 2013
aos piolhos dos meus oito anos que os anos não trazem mais
A gente sabe que cresceu quando esquece o rancor pela infância e quer voltar.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Eu disse não escrevo
Eu teria história pra contar. Não história minha, porque a minha vida não é que seja muito romanesca. Mas aquela história do pai da babá sueca dos meus sobrinhos, fugido do Irã como num filme de aventura. Aquela história da perna quebrada do meu avô e as pipas que vendia pela janela, na Ilha do Governador. A história de um incêndio na casa do melhor amigo do meu pai, no Japão, naquela época em que ele comia arroz e gafanhotos na miséria do pós-guerra. Gostaria de contar as histórias em tapetes mágicos da minha irmã no Marrocos. Mas em vez disso eu disse... eu disse não escrevo, não escrevo histórias.
Estou escrevendo isso só para não escrever outra coisa – a tese, largada em outro Word.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
o corpo da menina
Não é só o estupro que destrói o corpo da menina. Acontece também quando ela tem doze anos, menstruada aos onze e de sutiã 44 aos treze. Acontece então também quando ela tem doze anos e sai sozinha na rua pela primeira vez e para sozinha no sinal pela primeira vez. Num sinal que nunca fecha, numa curva, onde às vezes não atravessa ninguém. Acontece então quando ela tem doze anos e três entre quatro carros que passam buzinam e gritam coisas que ela não entende. Quando a olham diferente porque ela tem peitos e tem cintura e raspa os pelos. Acontece quando ela passa as tardes comendo batata frita e bebendo refrigerante pra não ter mais cintura. Quando ela se veste com roupas largas de garoto pra não ter mais peito. Acontece então quando ela quer finalmente mudar essas roupas e agora ninguém olha e nem buzina e nem grita e nem nada porque ela é gorda. E depois que ela fizer dietas, botar uma blusa decotada e disserem que ela é bonita, ela não vai acreditar porque quando ela tinha doze anos três entre quatro carros buzinaram e gritaram alguma coisa pra ela, quando ela tinha doze anos e não pensava em ser bonita e nem era bonita de buzina de carro.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
E era bonita
Ainda se fosse feia... Mas era bonita. Olhos verdes e tudo o mais. Fumava pelo bem da pose, um atrás do outro. Em público, no início, com vinho em copo de plástico, e depois até sozinha, com o rímel nas bochechas, logo depois de acordar, com café puro. Às vezes colocava um arco no cabelo, e fumava. O arco e o cigarro eram a combinação perfeita, ela tinha certeza. Tudo junto, porque tudo junto era complicado, era uma pergunta na beira do precipício. Ela pensava que todos eles morriam por uma pergunta na beira do precipício. Ela se punha perto dos que tinham um violão, dos que cantavam músicas antigas, dos que falavam de filmes antigos e de livros do underground. Falava por citação e tudo era lindíssimo. Dançava com o pescoço inclinado para trás, os olhos à metade fechados, fechados o suficiente para lembrar as letras, abertos o suficiente para ver quem a via. Desses chegava mais perto, tocava o braço, a culpa é da cerveja, a música é tão boa, não é? Belíssima. Então com esses cantava inclinando o pescoço para frente. Inclinava o pescoço para frente a todos os que via que a viam. Pensava pode ser esse, mas esse nunca era.