sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Foi-se uma vez um bruxo

- Sim, diga-me.

- Me aconselha um livro de fantasia?

- Que fantasia você quer?

- Uma com personagens não-reais, mas...

- Eh! Mas...

- Só não queria o Harry Potter que não...

- Ah, tranqüila que Harry Potter não aconselho a ninguém!

A esse ponto vieram andando o bibliotecário e a menina em direção às estantes às minhas costas. Eu sorria ainda do modo com que ela encomendou um conselho de livro de fantasia. O bibliotecário me viu sorrindo e, provavelmente achando que eu era solidária ao seu mal-estar potteriano, me sorriu de volta trocando comigo um olhar presunçoso de literato: pff, Harry Potter... haha. Soubesse ele que eu estava ali naquele momento em grande parte graças ao Harry Potter, teria me caçado da biblioteca. É quase um horror dizê-lo em voz alta. Gostar de Harry Potter é fora da lei. Ele é um clandestino na estante, camuflado com dificuldade (afinal é um catatau de volumes) em meio aos maravilhosos herméticos da Grande Literatura. A Academia tem uma odiosa tendência a escorraçar o que faz sucesso. Os entendidos de Literatura Infantil analisam com olhos adultos e oferecem coisas que as crianças tantas vezes deixam pela metade. Depois começam a oferecer uma Literatura que a idade ainda não permite, que lêem com a obrigação da prova. Eu não gostava de ler até os dez anos. Com todos aqueles Machados de Assis e Josés de Alencar, teria continuado a não gostar de ler. E não creio que seja uma experiência idiossincrática. Você aí, admita. ADMITA! Nós, da geração de ‘90, estamos no mesmo barco furado. Uns mais esperançosos do que outros, nós esperamos a coruja na noite dos onze anos.

Hoje, dou a Machado a chance de ser a obra-prima que é, mas não dou a Harry Potter a derrota de se mostrar como a porcaria que dizem ser. É como descobrir que Papai Noel não existe. É triste. Dos livros muitas vezes não resta nada a não ser a impressão que deixou, a atmosfera do lugar em que líamos, a maciez do sofá, os pés para cima. De Harry Potter não me resta muito a não ser os pés para cima, a clausura no quarto até a última página, os amigos em vários cantos do mundo. Que fique assim. A adulta hoje cheia de não-me-toques não tem nenhuma autoridade sobre a criança que botou os pés para cima e leu. O cânone da Literatura Infantil não pode ser forjado a partir da Academia. O cânone da Literatura Infantil é pessoal e intransferível. Os sete volumes permanecerão intocados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ah, a revolução…

Não me pego cantando, com a mão no peito, os olhos fechados e a boca no vinho, músicas de revolução. Difícil me lacrimejarem histórias de ditadura, revoltas estudantis, cassetetes esfolando um e outro. Pecado, eh! Pecado... Burrice juvenil, que soe como soe. As pessoas são ruins, criança, a tua coragem escandalosa não salva o mundo da cinta. A tua blusa comunista nunca pôs feijão no prato de ninguém. Fosse homem, não faria crescer a barba. Mulher, não faria crescer os pêlos do sovaco. Resolve o grito? A mim nunca sucedeu. Pecado! Nunca tive mãe que ouvisse a gritos. Talvez eu hoje acreditasse em músicas de revolução. Vida e liberdade sempre me pareceram outra coisa, coisa longe da morte. Mas a cada um a vida como lhe parece. Gritar só me escalpelou a vida sem nada me dar de resultado. Coragem maior é a de calar, de fazer a tua revolução no silêncio. Não é de uma vez que se ganha. Não é de duas. Um grito tem sempre um fôlego. E um fôlego acaba no zunido de uma cinta.