sábado, 29 de dezembro de 2012

Livros de colorir

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Eu fui uma criança com lindos livros de colorir e bons lápis de cor. Para minha mãe, eram objetos de preservação: eu pintaria apenas as cópias das páginas, com lápis vagabundos. Aqueles lápis caros, em caixas lindas, presentes de gente que vinha do estrangeiro, tinham sido feitos para o sono eterno. Jazem aqui nesta gaveta lápis de cor holandeses, japoneses, franceses. Os livros e os bons lápis seriam conservados para um futuro misterioso, para um cuidadoso que um dia surgisse e não deixasse os lápis caírem e quebrarem por dentro. Um artista sobretudo respeitador das bordas dos desenhos. A única cor que há hoje nos originais é um amarelado antigo e triste, o sinal de que nunca nenhuma criança passou por ali. Os livros de colorir fornecem a didática dos limites, ensinam as fronteiras. Quando não há mais borrões para fora, é o final. Significa que o ensinamento se completou. Aprendeu-se a respeitar os limites. Uma mão que aprendeu a não borrar não borrará nunca mais. Essa é toda a tristeza dos livros de colorir: ninguém entendeu que seu verdadeiro ensinamento é o borrão.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Foi-se uma vez um bruxo

- Sim, diga-me.

- Me aconselha um livro de fantasia?

- Que fantasia você quer?

- Uma com personagens não-reais, mas...

- Eh! Mas...

- Só não queria o Harry Potter que não...

- Ah, tranqüila que Harry Potter não aconselho a ninguém!

A esse ponto vieram andando o bibliotecário e a menina em direção às estantes às minhas costas. Eu sorria ainda do modo com que ela encomendou um conselho de livro de fantasia. O bibliotecário me viu sorrindo e, provavelmente achando que eu era solidária ao seu mal-estar potteriano, me sorriu de volta trocando comigo um olhar presunçoso de literato: pff, Harry Potter... haha. Soubesse ele que eu estava ali naquele momento em grande parte graças ao Harry Potter, teria me caçado da biblioteca. É quase um horror dizê-lo em voz alta. Gostar de Harry Potter é fora da lei. Ele é um clandestino na estante, camuflado com dificuldade (afinal é um catatau de volumes) em meio aos maravilhosos herméticos da Grande Literatura. A Academia tem uma odiosa tendência a escorraçar o que faz sucesso. Os entendidos de Literatura Infantil analisam com olhos adultos e oferecem coisas que as crianças tantas vezes deixam pela metade. Depois começam a oferecer uma Literatura que a idade ainda não permite, que lêem com a obrigação da prova. Eu não gostava de ler até os dez anos. Com todos aqueles Machados de Assis e Josés de Alencar, teria continuado a não gostar de ler. E não creio que seja uma experiência idiossincrática. Você aí, admita. ADMITA! Nós, da geração de ‘90, estamos no mesmo barco furado. Uns mais esperançosos do que outros, nós esperamos a coruja na noite dos onze anos.

Hoje, dou a Machado a chance de ser a obra-prima que é, mas não dou a Harry Potter a derrota de se mostrar como a porcaria que dizem ser. É como descobrir que Papai Noel não existe. É triste. Dos livros muitas vezes não resta nada a não ser a impressão que deixou, a atmosfera do lugar em que líamos, a maciez do sofá, os pés para cima. De Harry Potter não me resta muito a não ser os pés para cima, a clausura no quarto até a última página, os amigos em vários cantos do mundo. Que fique assim. A adulta hoje cheia de não-me-toques não tem nenhuma autoridade sobre a criança que botou os pés para cima e leu. O cânone da Literatura Infantil não pode ser forjado a partir da Academia. O cânone da Literatura Infantil é pessoal e intransferível. Os sete volumes permanecerão intocados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ah, a revolução…

Não me pego cantando, com a mão no peito, os olhos fechados e a boca no vinho, músicas de revolução. Difícil me lacrimejarem histórias de ditadura, revoltas estudantis, cassetetes esfolando um e outro. Pecado, eh! Pecado... Burrice juvenil, que soe como soe. As pessoas são ruins, criança, a tua coragem escandalosa não salva o mundo da cinta. A tua blusa comunista nunca pôs feijão no prato de ninguém. Fosse homem, não faria crescer a barba. Mulher, não faria crescer os pêlos do sovaco. Resolve o grito? A mim nunca sucedeu. Pecado! Nunca tive mãe que ouvisse a gritos. Talvez eu hoje acreditasse em músicas de revolução. Vida e liberdade sempre me pareceram outra coisa, coisa longe da morte. Mas a cada um a vida como lhe parece. Gritar só me escalpelou a vida sem nada me dar de resultado. Coragem maior é a de calar, de fazer a tua revolução no silêncio. Não é de uma vez que se ganha. Não é de duas. Um grito tem sempre um fôlego. E um fôlego acaba no zunido de uma cinta.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Bolonha § Bologna

 

“Bologna grows on you” ~Teo Green


20120914_112608Bolonha é uma cidade que te pára no meio da rua. Em Bolonha não se caminha em linha reta, com um único pensamento tranquilo desde o quarto até a destinação final, sem que algo te atropele com barulho e violência; violência feia ou bonita. Alguns passos fora de casa e poft, já tá escorregando em caca de cachorro. Mais alguns passos e... mas muita atenção ao dar esses passos, por favor! Não tropece nos punkabbestia, nos mendigos. Atenção às garrafas quebradas de cerveja, aos rabos dos cachorros, esteja atento! É a cidade dos cachorros, Bologna; dos cachorros abandonados adotados pelas pessoas abandonadas. “Temos fome, ajuda”, dizem os papelões.

Passos dados, nenhum rabo ferido, começa a ouvir uma música. Coisa boa na Piazza Maggiore. Jovens que se metem juntos pra fazer um dinheirinho dentro de um chapeu. Pensa que se soubesse tocar faria o mesmo. Que desgraça não saber nem segurar um violão. Sorri, lhes dá uma moedinha, agradece pela alegria, continua. Lá pela metade da Piazza te encontram os vendedores de livros de fábulas africanas. Você não sabe muito bem o que fazer, não é que as fábulas africanas te interessem assim tanto e além disso você já comprou um desses livros outro dia. Bate um papinho, diz não, obrigada, segue adiante. Vai fazer o aperitivo (evitar a Via Del Pratello!). Senta, e antes que te tragam o Spritz, te chegam os paquistaneses. Um atrás do outro, com flores murchas, chaveiros de plástico, coisinhas de todo gênero pra fazer luz de maneiras mil. Insistem, te tocam, ficam ali perto de você por alguns segundos de agonia. No início você diz não, obrigada querendo de todo o coração dizer sinto muito. Depois de um tempo diz não, obrigada querendo gridar não enche a porra do saco!

Termina de comer, dá uma volta na Via Zamboni, das sombras te sai uma voz... da escuridão te faz a oferta... “Bicicleta?”. Imediatamente te vem a angústia. Nem bem ontem te surrupiaram a tua bicicleta. Talvez seja exatamente a tua que agora querem te vender. Dá uma olhada. Não é a tua. Mas é a de uma outra pessoa. O cara te olha. Você olha o cara. Segundos horrendos se passam entre você e ele até que você finalmente diz: “STRONZO!”. Grita como nunca havia gritado antes, mas você se sente tão impotente por saber gritar só isso. Você é uma menina ridícula. “FILHO DA PUTA!”. Agora é uma estranheira ridícula. Mas o filho da puta já foi embora e todos te olham. Paciência. Eh, é preciso ter paciência, você desde ontem está a pé.

Chega ali onde vêm dar Via Zamboni, San Vitale e Strada Maggiore, em frente às Duas Torres. Eis-te quase atropelada por carros, vespas e bicicletas. Mas sobrevive. Volta à Piazza Maggiore, ali estão os paquistaneses fazendo voar luzinhas azuis pelos ares. É linda a Piazza Maggiore. “A piazza mais linda do mundo”, te disse um dia uma amiga numa época em que você ainda não podia entender. Agora preenche essa piazza de lembranças e a olha dizendo você também que está na piazza mais linda do mundo. Sem bicicleta, sem moedinhas, com caca de cachorro no sapato, mas com uma bela de uma janta na pança, com bons amigos no peito e com as chaves do apartamento no bolso. Esta é a minha casa. E eu gosto dela.

(Pelo menos até que cheguem os três metros de neve)


Bologna è una città che ti ferma per strada. A Bologna non si cammina mai sempre dritto, con un solo pensiero sereno dalla camera alla destinazione finale, senza che qualcosa ti si schiaffi addosso con rumore e con violenza, sia brutta che bella. Alcuni passi fuori casa e poof, ecco che scivoli sulla cacca di cane. Ancora alcuni passi e... ma attenzione bene a questi passi, mi raccomando! Non inciampare sui punkabbestia, sui senzatetto. Attento alle bottiglie rotte di birra, alle code dei cani, attento! È la città dei cani, Bologna; dei cani abbandonati che vengono adottati da persone abbandonate. “Abbiamo fame. Aiuto”, dicono i cartoni.

Passi fatti, nessuna coda ferita, cominci a sentire la musica. Roba buona in Piazza Maggiore. Ragazzi che si mettono assieme e si fanno i loro soldini dentro un cappello. Pensi che se sapessi suonare lo faresti pure tu. Che sfortuna non riuscire neanche a tenere una chitarra in mano! Gli sorridi, gli dai una monetina, li ringrazi per l’allegria, continui. A metà Piazza ti vengono incontro i venditori di libri di favole africane. Non sai bene cosa fare, non è che le favole africane ti interessino così tanto e ne hai già comprato uno l’altra volta, di libri. Chiacchieri un po’, dici no, grazie, vai avanti. Vai a fare l’aperitivo (mi raccomando, evitare Via Del Pratello). Ti siedi, e prima che ti servano lo Spritz, ti arrivano i Pakistani. Uno dopo l’altro, con fiori appassiti, portachiavi di plastica, cosine di tutti i generi per fare luce in maniere diverse. Insistono, ti toccano, rimangono lì vicino a te per qualche secondo di agonia. All’inizio dici no, grazie volendo dire con tutto il cuore mi dispiace. Dopo un po’ dici no, grazie volendo invece gridare non farmi girare le palle!

Finisci di mangiare, fai un giro in Via Zamboni, dall’ombra esce fuori una voce... dal buio ti fa un’offerta... “Bici?” Subito ti viene l’ansia. Appena ieri ti hanno fregato la tua bici. Forse è proprio la tua che ora ti vogliono vendere. Dai un’ occhiatina. Non é la tua. Ma è quella di qualcun altro. Il tizio ti guarda. Tu lo guardi. Orrendi secondi passano fra tu e lui finché finalmente tu dici: “STRONZO!”. Gridi come non avevi mai gridato nella vita, ma ti senti così impotente di aver saputo gridare solo quello. Sei una bambina ridicola. “FILHO DA PUTA!”. Adesso sei una straniera ridicola. Ma lo stronzo è già partito mentre tutti ti guardano. Pazienza. Eh, ci vuole pazienza, ormai sei a piedi.

Arrivi lì dove si incrociano Via Zamboni, San Vitale e Strada Maggiore, davanti alle Due Torri. Eccoti quasi ammazzata da macchine, vespe e biciclette. Ma ce la fai. Torni in Piazza Maggiore, ci sono i pakistani che fanno volare delle luci azzurre nell’aria. È bella Piazza Maggiore. “La più bella piazza del mondo”, ti ha detto un’amica tempo fa, quando ancora non lo potevi capire. Ora la riempi di bei ricordi e la guardi dicendo pure tu che sei nella più bella piazza del mondo. Senza bici, senza monete, con cacca di cane sulle scarpe, ma con buon cibo nella pancia, con buoni amici nel cuore e con le chiavi dell’appartamento in tasca. Questa è casa mia. E le voglio bene.

(Finché non arriveranno tre metri di neve).

Grazie mille ad Arianna per l’aiuto grammaticale!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Bolonha § comprei uma almofada de adulto

Minha almofada é bege. Ela não é cor de rosa. Ela não é estampada. Ela não tem frufru. Ela é singelamente bege.

Explico: há algum tempo atrás, me tornei uma rosa-compulsiva. Foi quando me libertei da idéia de que rosa era aquela cor brega para meninas. Eu não gostava do rosa do mesmo modo como não gostava do azul. Eu era politicamente correta e repudiava as coisas que corroboravam para a distinção entre as massas. Ter coisas cor de rosa era como anunciar a minha condição de mulherzinha: não, eu era uma pessoa cheia de personalidade que gostava de vermelho. Em algum momento, tudo mudou. Eu continuo não gostando muito de azul, mas tudo ao meu redor é hoje uma viadagem cor de rosa colossal – e o que não é rosa... tem tendências.

Com o rosa, veio uma trombada de outras infantilidades. A aceitação do rosa deveria ter sido um passo para a maturidade: eu não era mais uma pré-adolescente cheia de merdinhas, eu tinha aceitado todas as cores independentemente do seu valor social, eu tinha ido além. Mas a verdade é que o rosa é uma cor infantil e acaba infantilizando todo o resto da sua vida. Na faculdade, comecei a pesquisar sobre a infância. Aos poucos, comecei a simpatizar com as crianças e com toda a porcaria da indústria fofa e colorida para crianças. Quando você aceita o rosa, você não está aceitando somente o rosa, você está fazendo um pacto com o arco-íris e com a creche. Que nem quando você compra o primeiro produto Apple. E você nem está consciente.

brancadeneveA consciência me veio anteontem enquanto conversava com o meu room-mate. Estava eu dizendo que uma coisa que eu não gosto no Japão é o fetiche que eles têm por mulheres se comportando como garotinhas e o escambau do kawaii. Momento de embaraçosa queda da ficha. Momento em que a ficha cai com tanta força que faz um furo no chão, onde eu tenho vontade de enfiar a minha cabeça e a minhabonecada BrancadeNeveediçãocolecionadorqueestánaminhapoltrona, prontofalei. Olha, ela é simplesmente linda demais e nenhuma porcaria de maturidade vai tirá-la de mim, mas foi tudo culpa do rosa.

No entanto, a minha nova almofada... a minha nova almofada é bege. E uma nova era está para começar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O chocolate dos dedos

As unhas quadradas ao final da semana já estavam com o esmalte lascado. Eu percebia porque ela me pegava olhando pra mão dela e me mandava não olha, tá horrível! Ela não sabia que o que eu olhava eram os ossinhos, aqueles onde a gente conta os meses intercalando... Por mim, eu contaria tudo ali... os meses, os anos... contaria todos os meus segredos para aqueles ossinhos. Mas eu não dizia isso. Pegava-lhe as mãos e colocava atrás do meu pescoço, entre meu cabelo, forçava aquelas unhas de esmalte lascado pra dentro da minha pele e lhe beijava a boca.

De manhã ela se trancava no banheiro pra tomar banho e secar o cabelo. Quando o secador começava a roncar, eu entrava. Ela estaria nua, com os cabelos lambidos ainda pingando o meio das costas, a pele fria, o banheiro quente. O espelho embaçado, ela quase não percebia que eu entrava, só quando eu lambia uma gota de água do meio de sua espinha dorsal. Tremelicava, apavorada. Você sabe que eu não gosto que você me veja de cabelo molhado! Eu fechava os olhos e me abaixava até seus outros cabelos... O espelho se desembaçando se embaraçava agora...

Às vezes ela cismava de fazer bolo. Não queria que eu entrasse na cozinha, dizia que eu me metia. Mas eu calculava a hora em que ela estaria fazendo a cobertura e entrava. Ia direto na panela, ainda não muito quente. Não mete a mão na minha panela! Então eu a pegava pelo pulso, metia a mão dela na panela. E chupava o chocolate de seus dedos...

2008

terça-feira, 31 de julho de 2012

Vai, vedrai

 

Sempre tive medo de não poder ir, de arrumar a trouxa de madrugada, com uma calcinha e uma boneca, escolhida a muitos custos, sair do quarto com todo o cuidado e parar, estatelada na frente da porta, vendo a chave pendurada na fechadura, quieta, pesada, sempre disponível para cumprir seu papel, mas ouvir um ruído no interior da casa, tomar uma paulada de susto no coração, quase cuspi-lo e sair correndo de volta ao quarto, com a coragem na boca, a calcinha de volta à gaveta e a boneca de volta para junto das outras. Medo de que algum ruído no interior da casa colocasse meu rabinho entre as pernas e eu ficasse.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pelo dia, escritor

 

Um tique nervoso percorreu o paletó de camurça vermelha de monsieur Moustache e morreu discretamente no cantinho inferior de sua narina esquerda antes que ele respondesse, sem tremer em um tom a voz monocórdia, como se aquela impertinência nada fosse, que o que se produziu em Teoria Literária nos últimos cinqüenta anos é irrelevante, falemos, então, de manuscritos (déjà-vu). Palimpseste, ele escreveu, como pretexto histórico para nos escorregar, como uma extensão de papel de sua própria mão, uma cópia em A5 de uma página de manuscrito de Proust. Monsieur Moustache tinha acesso direto aos cadernos proustianos e às mais labirínticas peripécias de sua cachola. Ele descia durante horas todos os dias às profundezas de setas, letras minúsculas e balões aleatórios. Dava aquelas aulas seminais de Teoria pelo mal da profissão. Monsieur Moustache era um homem da prática, da caligrafia. A Teoria nada era diante da obra sendo feita, do manuscrito! Patati, patatá.

Guardei a cópia em A5 como lembrança de uma obsessão e tive tanto medo de descobrir quem era Swann que até mesmo a primorosa tradução de Mario Quintana ficou alimentando poeira dentro do armário por anos (Proust ele mesmo me era impensável e absolutamente indigerível). Mas Proust foi se tornando inevitável e ler as memórias daquele homem que costumava deitar-se cedo tinha de ter alguma boa razão essencial. Devia haver mais ali do que mera erudição e eu deveria deixar de ser preconceituosa com catedráticos de bigode, por pouco idênticos ao seu escritor preferido. Peguei o volume azul e demorou até que os sussurros de M. Moustache diminuíssem: ao pé de meu ouvido, ele mau agourava a senhorita nunca conseguirá. Por vezes penso estar perdida, vencida e derrotada. Mas alguma coisa linda de repente me pega de assalto e, confiante, eu dou a língua para os murmúrios agourentos de M. Moustache.

A passos pequenos, a piscadelas de férias na praia, avanço.

Feliz dia, escritor, por me fazer leitora.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Saudade pra que te quero

 

A gente já entendeu que saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa. Todo lusófono já se sentiu dono de um poder absoluto ao descobrir isso. Este sentimento, reunido num substantivo, sem a complicação da conjugação do verbo, I miss you, tu me manques, te echo de menos... Saudade e um ponto (saudade.) num SMS ou numa publicação no mural do Facebook bastam pra passar toda essa falta que o outro faz ou que alguma coisa faz. Uma coisa da mesma ordem gramatical do amor, do ódio, da paixão, da miséria. Uma falta substantivada. Já entendemos. Os lusófonos sabem que não é o mesmo que nostalgia. “É a mesma coisa”, diz o argentino. “Não é!”, defendo eu, e não consigo explicar mais além. Talvez nostalgia seja uma distância substantivada, enquanto saudade é um buraco. “C’est quoi exactement la saudade?”, pergunta a professora de francês. Me calo. O português me olha, suspira com as sobrancelhas e começa a explicar por cinco minutos e, apesar de sua eloqüência, no final todos só entendem que saudade não é realmente compreensível para quem não é lusófono – e isso aumenta o segredo e o orgulho de ter essa palavra. Ou talvez façamos de propósito. Os lusófonos que fazem Erasmus e vão embora começam a encher de saudades! o Facebook dos amigos estrangeiros... Autores lusófonos escrevendo em língua estrangeira têm obrigatoriamente que meter uma saudade no meio de um texto, assim, em itálico, pra reforçar que essa palavra não pertence a mais ninguém. O lusófono não vai ceder saudade como o francês cedeu o abajur e como o inglês cedeu o mouse. Ai, todo um exagero em torno de uma palavra que ninguém mais tem. Os ingleses têm os Beatles, os franceses têm os queijos, os espanhóis têm a Zara, os italianos têm a pizza, os americanos têm o mundo e nós temos a saudade. Mas isso, sejamos sinceros, não é algo a se orgulhar porque, no final das contas, só quer dizer que alguma coisa está sempre faltando. E não vem me dizer que isso é legal.

Falando em legal, veta, Dilma. Já sentimos saudade de muita coisa. Deixa pelo menos a floresta.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Empreendedorismo literário

A palavra da pauta é empreendedorismo, que carrega no calhambeque toda a família buscapé: inovação, mudança, originalidade, risco, loucura, coragem. Todo mundo tá lendo a biografia do Steve Jobs, Eike Batista só pensa em inovação, os publicitários brasileiros tão bombando nos prêmios de criatividade, o Brasil deu que deu pra investir em pesquisa, pra investir no jeitinho.

Todos sabemos que se destaca quem descobre, entende ou cria um negócio novo, no esquema das três maçãs, Adão, Newton e Jobs. Cada um no seu galho, todo mundo quer dar novos respiros ao próprio campo de ação, e não é que seja antes pelo bem desse campo de ação do que pela autopromoção, por um nomezinho na História... E não há nenhum mal nisso, diga-se de passagem (que nem a história do voluntariado, que tem gente que critica porque o outro tá fazendo só pra botar no CV etc; eu não critico, pelo menos tá fazendo andar pra frente, porra. E vê se levanta também e vai fazer. Palhaçada...). Foi só pra criticar a tradição artística meio chulé anterior e pra “fazer refletir sobre a arte” que o Duchamp assinou aquela porcaria de penico? Não, né? Ninguém se lembra de nenhum nome de trovador da Idade Média (até porque era tudo igual mesmo e ninguém assinava), mas todo mundo já ouviu falar do trio ternura Dante, Petrarca e Boccaccio (apesar de não podermos afirmar que eles tivessem plena consciência, ali no final da Idade Média quando a figura do autor ainda era meio desprezadinha, da importância que iriam tomar).

Ninguém estuda o que é igual na Universidade; estudamos aquilo que tem seu valor de originalidade, de ruptura, e acabamos sem conhecer aquilo com o qual essa coisa maravilhosamente nova rompeu, pra início de conversa, o que torna as coisas bastante abstratas. Então, paradoxalmente, ficamos repetindo uma historiografia literária cheia de monumentos de ruptura (sabe-se lá exatamente com o quê) até alguém descobrir (e se tornar uma estrela da Teoria!) aquela história de “kafkianos antes de Kafka” – e você pensa que realmente deveria ter ido fazer faculdade de estatística, que é muito mais exata do que literatura.

Os aspirantes a escritor, sem conseguir escrever uma história simples e boa, arrancam os cabelos pensando que sua única solução para a glória (provavelmente póstuma) é escrever algo mirabolante, mas que Joyce e Virginia Woolf já existiram. O aspirante a escritor passa então à glória bastarda, a do best-seller, mas já existiram triunfalmente elfos e hobbits, bruxos e trouxas, já existiram infelizmente vampiros fosforescentes. O aspirante a escritor pensa que nasceu tarde demais. Ele começa a fazer experimentações de como bater com a cabeça na parede e de como torturar o Word com coisas. Será publicado alguma hora. Ninguém mais ousa recusar empreendedores literários por medo de serem chamados de críticos imbecis num futuro próximo. A crítica ruim é necessariamente imbecil... há que se ver potencial em todo espetáculo débil de teatro, em todo penico assinado num canto de museu. O crítico tem que ser prafrentex e iluminar um hermetismo qualquer. O crítico também é a figura que quer a autopromoção, ele quer ser dotado da visão. Feliz do aspirante, não terá que esperar até a era póstuma. De todo modo, também acontecem coisas estranhas com os póstumos. Os póstumos são descobertos no fundo de uma estante empoeirada de biblioteca por estudantes de mestrado ou doutorado que precisam de um autor obscuro pra conseguir estudar alguma coisa que ninguém estudou ainda...

Diferentemente do empreendedorismo empresarial, o empreendedorismo literário não dá resultados imediatos (ou relativamente rápidos). De modo geral, o investimento em inovação literária dá lucros a longuíssimo prazo e o investidor tem 80% de chances de estar gelado de tão morto quando vierem os frutos, através desse estudante de mestrado e doutorado, depois de passar uma vidinha de mendigo. Mas a literatura não precisa sempre de coisas mirabolantes, a literatura precisa de boas histórias. Ela está cheia de boas histórias, mas, diferentemente de outras áreas, uma boa história a mais na literatura não é algo medíocre. É algo que talvez esteja em falta, em meio a tantas experimentações espalhafatosas e enfadonhosamente metalinguísticas... Escreva um bom soneto. E bastará.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O coelho e a verdade - I

Não apropriado para menores de 8 anos.

Infelizmente nesta Páscoa não estarei em casa pra ver as pegadinhas de coelho em talco que minha mãe faz no corredor pras crianças da vizinha. Sempre gostei da Páscoa, evidentemente porque tem chocolate, mas também porque os ovos de chocolate nunca me deram tanta dor de barriga quanto a ansiedade da véspera de Natal – os presentes sempre chegaram, mas o fato de não ter uma chaminé sempre me deixou aflita. A caça aos ovos, as pegadas em talco, que eram para mim nessa época... Essas patinhas de coelho tiveram que desaparecer alguma hora (até ressurgirem para os vizinhos), mas ainda durante algum tempo pedi aos meus pais para continuarem escondendo os ovos, só porque era divertido procurar... eu dizia. Mas havia um coelho – um coelho que murmurava, de alguma parte, não acredite que foram eles, não, não, fui eu! Um dia minha mãe me entregou um ovo em mãos: feliz Páscoa, ela disse, e o coelho se calou para sempre.

É com a Páscoa e o Natal que aprendemos pela primeira vez sobre a verdade e a mentira. E o mundo está prestes a cair sobre as nossas cabeças: quem mentiu para nós, quem nos fez acreditar com tanta dor de barriga, ao custo de tanta ansiedade e sofrimento (por favor, Papai do Céu, faça com que o Papai Noel consiga deixar meu presente aqui mesmo que eu não tenha uma chaminé, por favor por favor por favor, amém), quem primeiro nos enganou nessa vida foram os nossos pais. Se os nossos próprios pais nos fizeram de bobos e fizeram sabe-se lá o que com a infinidade de cartas suadas que escrevemos ainda semi-analfabetos... o que o resto do mundo fará conosco? Quantas vezes mais seremos enganados?

Finalmente não conseguimos ter raiva dos nossos pais, porque sabemos, com a sensibilidade da criança que acabou de amadurecer mais um passo, que há algo de muito amoroso nessa farsa para que nossos pais acordem de madrugada para arrumar os presentes de Natal ao redor da árvore, para esconder preciosamente os ovos de Páscoa e para se colocar de quatro no chão às cinco da manhã fazendo pegadas de talco. Quando uma criança acorda à noite e flagra o pai com a bunda para o alto escondendo um ovo de Páscoa debaixo do sofá, essa criança arregala os olhos, quase chora, mas começa a andar para trás, cuidadosa para não fazer nenhum barulho, e não decepcionar o pai: ela já sabe, mas ele não pode saber que ela sabe, porque seria muito doloroso para ele – e ela o sabe numa complexidade atroz, que só uma criança consegue suportar. Até que os pais descubram sozinhos que ela já sabe e ela será obrigada a confessar, com toda dor e alívio do mundo, eu sei a verdade.

Eu os perdôo, pensa a criança. Ela não guardou rancores porque de alguma forma compreende que aquilo era mais do que a farsa, era o maravilhoso, e é por amor que os pais oferecem o maravilhoso, mesmo que. Mas de qualquer forma já é tarde. Essa criança aprendeu a desconfiar. Ela é agora uma pequena filósofa que desconfia de tudo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

A dor da caligrafia

Um bom escritor há que se ter sido pobre, que ter sido louco, torturado, que ter sofrido tanto. Não apetece.

 

quinta-feira, 8 de março de 2012

A escandalosa

 

Às vezes ela pensa em ser a mulher de alguém. Em ser eventualmente a mãe de alguém, também. E ser isso, como antigamente. E, como antigamente, não ser vice-presidente de banco, diretora de departamento de universidade, editora em chefe de revista, jornalista de front de guerra, sabendo que ganha menos do que deveria. Às vezes ela pensa em aprender a costurar, em fazer cupcakes decorados, em ficar com seu recém-nascido por mais de 180 dias porque ele precisará dela por muito além de 180 dias e o resto não precisa com tanta urgência assim. Em estar ali, pensando em arranjos de flores, enquanto outra pessoa pensa em como arranjar o dinheiro para as flores. Às vezes ela pensa em ser a mulher de alguém e olhar a tarde passar, vendo os raios empoeirados do sol das duas horas caindo em cima dos móveis que ela limpou ainda agorinha, antes do almoço. Às vezes ela pensa... e nunca em voz alta, pra não aumentar o escândalo do pensamento.

 

 

feliz dia das mulheres

quarta-feira, 7 de março de 2012

A vida que a gente vive

 

Uma fazendinha no interior de Minas Gerais, um pangaré, uma horta e um 4X4. Vida sem hora, porta sem trinco, livro sem professor... Um riachinho, uma rede na varanda e uma conexão banda-larga. Ano de outono e primavera, sem inverno... e sem verão. Um universozinho ameno, uma vidinha mao’meno e maravilhosa, com muitas galinhas no poleiro, para eu passar o tempo procurando aquela dos ovos de páscoa. Mato sem cobra, sem aranha e sem marimbondo, só passarinho, camaleão e um sapo pra coaxar de noite. Noite estrelada, tarde cor de rosa, ao meio-dia lá na rede, na sombra da varanda, do lado da mangueira, ao pé do cachorro... a gente vivendo pra ouvir sanfona, jazz e bossa nova, pra comer queijo minas com goiabada, café com bolo de fubá, doce de banana com canela... a gente vivendo a vida que a gente vive quando a gente dorme, naquele cansaço da vida que a gente vive, de despertador, de porta de três trincos, de livro com mais professor que sonho...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Senhor Kojima

 

Era porque estava ficando cada vez pior e ele não queria ficar mudo. Senhor Kojima me disse que poderia ficar mudo. Ele me disse que se eu não lhe desse as aulas ele poderia ir dando backspace na língua até perder o lé e o cré. Na verdade, ele não me disse isso, disse apenas, rindo amarelo entre os erros – desconfiado, mas sem saber o que exatamente não ia bem – que estava ficando cada vez pior e que, bem!, não podia ficar mudo.

Os ombros pareciam querer ir em direção um ao outro, como se precisassem se encadear na frente do peito para embarreirar a saída de coisas que ele não podia esquecer. Já tinha esquecido coisas demais e agora não podia ficar mudo também. Os dedos entrecruzados com tanta força que os nós ficavam vermelhos, de tanta vergonha. Me disse que quando era jovem, não era tão ruim. Agora que estava ficando bem velho... é que tudo estava indo embora. Não era só o português, era sua própria língua também, além de todo o resto... ele riu para os joelhos. Sabe?, ele riu para mim. Eu não sabia. Eu não fazia a menor idéia. Mas achava que se eu havia entendido tudo e que se ele me entendia também, é porque as coisas não estavam tão más. Acha?, ele afrouxou os dedos. Sim. Ele deveria ter perguntado se eu compreendia. Mas essa palavra, ele já não conhecia mais.

Eu não sabia o que fazer com o senhor Kojima. Era um dos meus primeiros alunos, o único adulto e o único estrangeiro, o único com fobia de ficar mudo. O que ele mais gostava era de ler em voz alta, porque obrigava ao som e ele gostava de se ouvir dizendo palavras dos outros. Ele lembrava a primeira lição, a identificação das letras e a sonoridade das sílabas. Gostava de repetir aquilo que sabia bastante direito. E fazíamos isso sempre, para que ele ficasse contente. Apesar de a cadência das frases não ser a boa, às vezes eu deixava continuar, porque era uma cadência tão dele e porque a satisfação de cada pequeno músculo em seu rosto, por eu não tê-lo corrigido, me faziam perder o fôlego para corrigir o que quer que fosse. Eu não era uma boa professora. Compensava em cima das crianças. Com elas, era monstruosa. Nenhuma delas arriscaria esquecer a língua quando ficasse velha, porque do terrorismo nunca se esquece.

Eu quase não tinha forças para passar à interpretação do texto, porque se a sílaba e o som ainda andavam grudados nas lembranças do senhor Kojima, o som e o significado já se haviam desgrudado. Ele já não sabia o significado de muitas palavras. As palavras eram apenas som, que não faziam referência a mais nada, a não ser à sua própria voz, enquanto ele as pronunciava. Ele falava cada vez menos. Trocou bom dia por olá, olá por oi, e oi por um sorriso singelo. Tentei todo tipo clássico de pedagogia, todo tipo alternativo, jogos, pedi conselhos, falei com lingüistas, psicólogos e psiquiatras até que vi senhor Kojima esquecendo a palavra eu. Perguntei se ele ainda falava sua língua materna e ele balançou a cabeça em desentendimento. Senhor Kojima ficara surdo, também. Eu não sabia o que fazer com ele. Ele riu, dandinou a cabeça e eu entendi: é, acabei ficando mudo mesmo!

Se inclinando em reverência e agradecimento, deixou o dinheiro da última visita na minha mesa e foi embora.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Promise me you will survive

 

“Rose, you must do me this honor. Promise me you will survive” ~Jack


Foi antes da neve. Foi antes do gelo. Foi no primeiro mês do ano, quando pensamos que o pior tinha passado em novembro. O inverno não chegaria. Era seguro. Foi ali na esquina que eu a vi, Rosie. Uma pequetita, abandonadazinha, encostada como se nada fosse, do lado de fora da loja fundo-de-quintal. 40 euros com revisão, daqui meia hora? Claro! Confiei no cara com nariz de brócolis e em sua loja mequetrefe. Meia hora depois, eu tinha uma bicicleta. O cara com nariz de brócolis tinha meus 40 euros.

Uma semana depois, sentia cada vez mais dificuldade de rodar. Primeiro pensei que fosse a falta de costume, minhas pernas não estavam acostumadas a pedalar, mas eu estaria logo em forma. Depois, colocando os bofes pela boca e quase não saindo do lugar, me disse que eu tinha ido com muita esperança ao pote. Nunca fora boa na bicicleta, não seria agora que iria melhorar. Demorou mais uns dias para que eu finalmente dissesse oups. A roda traseira estava arriada.

Levei-a ao cara do nariz de brócolis. Acho que o pneu de trás está furado…. Hum… vamos tentar encher, de repente só esvaziou. Se voltar a esvaziar, traga aqui de novo. Saí, pedalando toda leve, contente, imaginando que, talvez, ao contrário do que eu pensava, um pneu pudesse se esvaziar assim sozinho mesmo, porque ele quis. Ao chegar em casa já me sentia mais pesada. Estacionei. Não tinha tempo de voltar lá, ficaria pro dia seguinte. No dia seguinte, a temperatura foi abaixo de zero e assim ficou pelas semanas por vir. Rosie ali ficou, estacionada.

 

 

Veio o vento, a chuva, o gelo, a neve.

 

 

 

Passou fevereiro. A temperatura subiu, todos começaram a voltar para cima de suas duas rodas e as bicicletas estacionadas ao lado de Rosie começaram a fazer rodízio. Era a hora. O cadeado abriu, o que já era um bom começo, depois de tanta água em todos os estados. Um cocô de passarinho bem no meio do assento. Bom agouro. Um pombo morto e estatelado no meio da rua bem em frente ao estacionamento de Rosie. Mau agouro.

Fui com Teo à Vélo Station, uma espécie de associação/atelier que compra, repara, revende e, sobretudo, ajuda as pessoas a consertarem suas bicicletas, de graça. É assim: você se afilia por €17, depois você pode chegar lá com sua bicicleta e seu problema, alguém te dá os instrumentos necessários e te diz o que fazer. E é você mesmo que faz. Smile. Eu não sou afiliada (ainda), mas aceitaram cuidar da Rosie na conta da Teo. Mireille começou a nos dizer o que fazer…

Eu tinha feito as unhas no dia anterior. Não foi sem um bocadinho de dor no coração que botei a mão na graxa pra tirar a roda. Mas o pior foi desencaixar o pneu… Depois de uns bons minutos, tiramos a câmara de ar. Dois furinhos, como duas dentadinhas. Mireille nos trouxe um produtozinho colante pra passar em cima, com o band-aid de bicicleta. Ela verificou mais uma vez o resto da câmara e pronto, lindo. Agora pra colocar a câmara de volta pra dentro do pneu… Apareceu um senhor com bigode de dono de circo pra dar uma mão masculina. Nos ajudou também a encaixar de novo o pneu na roda… e encaixar a roda na bicicleta… “Mas esse pneu é enorme!”. Só conseguimos fazê-lo ficar centralizado na quarta tentativa.

Um oleozinho aqui, outro ali, coloquei Rosie de pé. Sorrisão, dever cumprido, Rosie de volta ao tranco, eu orgulhosa por tê-la curado com as próprias mãos e as de gente muito simpática. Já ia embora quando ele mandou um olhar 43 para Rosie. A válvula da roda dianteira, tem que ver isso aí. Meu sorriso murchou. E a válvula da roda traseira, quem fez isso aí? Euh, fomos nós, disse o senhor com bigode de dono de circo, era um furo na câmara, elas consertaram e nós colocamos a roda de volta. Colocaram mal, quem tava coordenando? Mireille. Laurent quis recomeçar tudo de novo mais uma vez ainda.

Tirou as duas rodas. Mas o que houve? Veio Chantal, a presidente da associação, elas não estavam consertando essa câmara aí? Mas a válvula também tá com problema, ouve só, tá escapando ar. Ah, a válvula! É… era a Mireille que tava coordenando… Ah. Segundos depois, chegou Mireille. Mas o que houve, a gente já consertou isso aí, era um furinho.  Sim, mas é a válvula… Laurent bufando. Mas a gente já consertou, eu que coordenei, insistiu Mireille. Mas é a válvula! Ah. E Mireille foi embora. Laurent deixou a roda de trás e foi pra da frente. Olha só, a válvula tá torta, isso significa que a câmara pode estar atravessada dentro do pneu, e aí você arrisca a fazer um furo, tem que ajeitar. Ele então começou a tentar desencaixar o pneu. Mas tá fodido isso aqui! De fato, o pneu todo podre. Caraca, que pneu é esse! Passaram umas três pessoas fazendo o mesmo comentário. Ela com certeza está debaixo da chuva, não é? Laurent perguntou. Lembrei de todo vento, de toda chuva, de todo gelo e de toda neve que Rosie enfrentara nas últimas semanas, além de toda a eternidade que ela deve ter passado do lado de fora daquela loja mequetrefe, abandonadazinha, até que eu passasse para resgatá-la, por €40. Ahn… é. Tá fodido mesmo.

Ele ficou uns bons dez minutos tentando desencaixar o pneu. Chantal chamou James Potter para ajudar. Não conseguiu também. O que a gente faz? Laurent me perguntou, largando os braços em cima do pneu, meio derrotado. Dei de ombros, sem graça, já passava das 19h30 e todos estavam lá ainda só pela Rosie, em volta dela, comentando sobre o estado fodido dos seus pneus. Não sei o que fazer. Onde você comprou? Não foi aqui, né? Não, foi numa loja de bicicletas usadas ali na Place d’Islande. E quanto você pagou? 40 euros… Ah la la la la la laaaaa! Todo o atelier suspirou, levantando as sobrancelhas. E pensar que eu vendo minhas bicicletas por 35 e tá tudo em perfeito estado… lamentou Laurent. Eu odeio quem faz essas coisas com os estudantes, choramingou Chantal. James Potter balançou a cabeça tsc tsc tsc…

Bem, vamos deixar essa roda da frente assim mesmo. Se ela não te der problemas, nem pensa mais. É melhor nem pensar mais! Trocamos a câmara de ar da roda traseira por uma nova. James Potter reencaixou a roda em Rosie feito mágica. Enchemos o pneu. Bem. Enough. Dessa vez eu iria mesmo embora, com um sorriso bem menor, mas ainda ali, porque finalmente alguém tinha se importado de verdade com Rosie, mesmo que tenham acabado com toda a sua auto-estima. E além disso eu podia ir pedalando até em casa.

Agradeci a todos, coloquei meu casaco e já ia indo embora quando Mireille disse “e você mudou a válvula, não foi?” Sim, sim. E você pagou? Ai.meu.Deus. Pensei logo que a ajuda era de graça, mas que as coisas custariam os olhos da cara, pra compensar. Não, não paguei, quanto é? Pronta pra facada no coração, €20 uma câmara de ar, ou qualquer coisa assim. 1 euro e 50, ela respondeu. Quase caí pra trás, que horror ter pensado mal deles por alguns segundos! O €1,50 mais agradecido do mundo.

Estava indo embora, Laurent perguntou de novo, sombrio: E esse cara aí que te vendeu a bicicleta? Place d’Islande, né?

sábado, 25 de fevereiro de 2012

De onde se vem

 

Minha geração quase não conhece os exilados políticos. Sou da geração dos exilados voluntários, daqueles que fazem intercâmbio e Erasmus. Daqueles que precisam ir embora porque ser brasileiro é abafado demais, porque precisam de um arzinho, da leveza de ser brazilian. Sempre achei que carioca é coisa linda de se ser, mas vem ser pra ver como é... É sempre mais bonito ser migrante. Para-se em qualquer lugar com uma certa dor e um certo sorriso, todos adivinham e todos perdoam, é estrangeiro... Saudade daquele bom país inventado. Daquele berço que é esplêndido aqui de fora. Daquele lugar do qual se precisa partir para se fazer as pazes, de uma birra que não se sabe mais onde começou, pra início de conversa. Não é que ele tenha me feito mal. Oh não. Mas navegar é preciso. É culpa da flecha do meu sagitário.

Ama-se melhor quando se ama de longe, agora tenho quase certeza.

Segue um texto de um amigo que traduzi esses dias. Original em italiano, aqui.

“Para saber aonde ir, é necessário saber de onde se vem”

Em tantas ocasiões, da minha partida de Sassari para a universidade em diante, me peguei refletindo sobre as minhas origens, sobre as minhas raízes. Isso porque vivendo fora você se dá conta que de fato o ditado “para saber aonde ir, é necessário saber de onde se vem” é absolutamente verdadeiro. E refletir sobre o lugar em que nasci e cresci se tornou um hábito freqüente, sobretudo quando me vi defrontando, primeiro em Padova e depois em Strasbourg, culturas e costumes diferentes dos meus.

O modo conflitante com que deixei Sassari e a Sardenha, que me fez experimentar nos primeiros meses um sincero sentimento de liberação, cansado de sofrer aquele isolamento físico, que foi tantas vezes também intelectual e cultural, sem dúvidas influenciou este meu pensar tão freqüente sobre o lugar em que vivi durante os primeiros dezoito anos da minha vida.

Dia após dia, pude reavaliar as belezas da Sardenha, as alegrias que me deu o morar na Sardenha, o afeto inato que eu desconhecia por aquelas ineficiências das quais nos queixamos, ao nos confrontarmos com realidades mais modernas. E assim aquelas ruas grosseiras, aquelas praias inalcançáveis, aquelas paisagens desoladas e privadas de vida humana, aquelas aldeias minúsculas e despovoadas, se tornaram belas recordações às quais me dedico algumas vezes, para encontrar uma paz em meio aos atropelos com outras modernidades, cujas comodidades são frequentemente elogiadas pelos sardos, em contraste com nossos atrasos.

E viver fora foi um pouco como fazer as pazes com a minha terra. Mesmo eu, que desconheço em boa parte o conceito de nostalgia, ou que pelo menos o freqüento bem pouco, me peguei provando aquela coisa que em países de língua portuguesa chama-se saudade, que alude a alguma coisa mais complexa que a nostalgia, mais profunda, que se refere ao mesmo tempo a lugares e pessoas, a momentos e lembranças. Qualquer tradução e tentativa de explicá-la será exercício em vão. Para entendê-la, deve-se prová-la.

A defrontação com os outros me enriqueceu enormemente. E o confronto me fez redescobrir também uma “sardeneza” que não pensava ter, sardeneza da qual sinto orgulho, porque anunciadora de valores sólidos de comunidade e solidariedade, teimosia e sinceridade, fraternidade e pouco jeito para negócios. Parece banal incluir essas características no ser sardo, mas é isso que se aprende quando se cresce na Sardenha. Entra no DNA. Isso não significa que somos os exclusivos detentores desses valores, mas que a soma dessas características nos torna únicos e reconhecíveis. Conheço bem a profunda compreensão, e o prazer, de quando me acontece, em outras partes da Itália e no exterior, de encontrar outros sardos.

A ilha te deixa ilhado. Isso é verdade, e preciso admitir que sofri. Adiciono também que nós, como geração jovem, não podemos prescindir de passar ao menos parte da nossa formação fora da Sardenha. Não é apenas o mercado de trabalho que o pede, porque “dá currículo” ou porque é necessário conhecer outras línguas. É sobretudo porque o mundo complexo em que vivemos nos pede para ser cidadãos do mundo, dinâmicos, prontos a responder aos desafios que nos aparecem pela frente, com respostas que não podem contemplar apenas a dimensão intelectual local ou regional.

Todavia, creio que a sardeneza que me acompanhou nesse meu viver longe da Sardenha tenha se tornado um valor agregado. Minha bagagem de valores e cultura, que procurei dividir com todos aqueles que encontrei na minha estrada, foi um excelente companheiro de viagem, apreciado por quem pôde conhecê-lo, e que me ajudou a superar as tantas dificuldades que se encontram normalmente em percursos como o meu.

Para concluir, a mensagem que eu gostaria de dar àqueles que leem essas linhas é esta: não tenham medo de procurar experiências fora da ilha, porque com isso vocês não ganham apenas enquanto profissionais do amanhã e como pessoas, mas aproveitam também para consolidar a identidade e oferecer de presente um pouco de Sardenha àqueles que encontrarem.

Considerem como um modo de fazer bem ao mundo.

Um abraço,

Paolo Costa

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Vida e morte de Godzafta

 

Começou com uma mordida. E mais outra, no mesmo lugar, porque os dentes sempre caem duas vezes na mesma mordida. Uma afta, alguns dias antes do Natal, branquinha, chatinha, mas nada demais. Daquelas comuns, que vivem seus sete dias e então morrem. Deve ter sido na ceia do dia 24, conhecendo as belezas da vida e de garrafas inteiras de champanhe, que ela se decidiu, rebelde contra sua própria natureza: sobreviverei. Foi assim que ela saboreou um delicioso prato grego no Ano Novo, carne de porco suculenta com gotinhas de limão.  Duas semanas depois, ela se regalou com a comida apimentada do árabe no cafofo mais escondido de Lisboa. As pomadas bucais indicadas na farmácia não surtiam nenhum efeito. Assim ela cresceu, firme, forte, carnuda, uma bolota vermelha. Teo a batizou de Godzafta.

Impressionada com a força sobrenatural de Godzafta, decidi levá-la ao médico. Godzafta sentiu o perigo, e se escondeu, murchou, de volta à sua forma humilde e inocente. “Oh, não é nada, é só uma afta”, disse o clínico geral, “tome isso por cinco dias”. Godzafta sobreviveu mais uma vez. Completou um mês. Minha aftazinha era já o Matusalém das aftas, Highlander do tecido epitelial, Chuck Norris, em soma. “Oh, bem, não é mais uma afta, mas não é nada de mal, vou encaminhá-la ao dermatologista”. A dermatologista olhou, mexeu e disse “Oh, não é nada de mal, vou mandá-la ao estomatô e ele vai fazer uma cirurgiazinha”.

Dr. Van Der Gucht atende num consultório anos 50, de ângulos assimétricos do teto à todos os móveis, paredes nonsense no meio do espaço, cadeiras de acrílico, quadros dadaístas, música clássica non-stop. Uma secretária de voz macia, cabelos castanhos, que me lembra muito alguém e que parece me conhecer de outro século. Um tanto kitsch, exageradamente vintage, extravagantemente macabro. Godzafta se acanhou. “Não é nada de mal, mas está muito pequeno para que eu possa fazer a intervenção cirúrgica, volte semana que vem, comece a tomar esses três remédios na véspera”.

Godzafta iria para a cadeira kitsch da morte no dia 17 de fevereiro de 2012, às 16h.

Cheguei às 15h18. Tentei me distrair com um livro, mas livros não têm me distraído mais, e Mozart estava mais alto que da primeira vez, exalando funebremente do interior do consultório à sala de espera. Como um feto que é colocado pra ouvir música clássica dentro da barriga da mãe, eu sabia que ia entrar num mundo muito sinistro.

“Boa tarde, acomode suas coisas e pode se sentar na cadeira”. Deixei meus casacos e luvas e bolsa e livro e levei Godzafta para a cadeira. Anestesia local, botox provisório. Dr. Van Der Gucht arruma suas facas e tesouras e alicates na mesinha e vai para o fundo da sala. Ouço barulho de água, de metais batendo. Dr. Van Der Gucht passa para outro compartimento da sala. Faz umas anotações. Dez minutos. Entra a secretária. Eles ajeitam a máscara, colocam as luvas e ajustam a luz no meu rosto. Dr. Van Der Gucht usa um instrumentozinho para apertar o lábio e isolar Godzafta. Então o bisturi corta Godzafta quatro vezes e a secretária limpa o sangue com a gaze. Godzafta é forte. Dr. Van Der Gucht repete o procedimento e futuca um pouquinho com a tesoura. Godzafta é puxada com a pinça e finalmente guardada para ser analisada em laboratório. Nunca mais champanhe, nunca mais porco à grega, apenas a superfície gelada de uma lâmina de vidro sob o microscópio. Eu estou ainda ali, levando dois pontos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O infeliz do dia inteiro

 

As unhas estavam horríveis. Uma quebrada, as outras grandes demais, os nós dos dedos secos e ásperos que nem lixa, cutículas brancas e pelinhas sobrando no canto dos dedos. Ela metia os dentes, e piorava. Por vezes arrancava pedaços enormes, e sangrava. Mas ela soltava um “aw!”, punha debaixo d’água e já estava. Talvez um band-aid. E também não era sempre. Não há tempo, ela dizia baixinho ao ouvido dos dedos dos pés. E depois, desculpada, sentava no sofá, deixava a cabeça ir pendendo e ia dormindo a tarde inteira. Despertava com o barulho da chave na porta, do marido que voltava do trabalho. Levava o susto habitual e saía correndo ao banheiro para tacar uma água no rosto e dizer olá, sim, o dia foi cansativo, e o seu? Ao que ele nem respondia, tomava banho, ligava a televisão para ver o jornal das sete enquanto perguntava do jantar. Ela então já estava na cozinha a esquentar tudo, a mexer nas panelas, a tirar roupas da máquina para pendurar, a dobrar outras e enfiar no armário para passar. Passava uma vassourinha no chão da cozinha, na área, ia ao corredor colocar um lixo na lixeira coletiva do prédio e quase que queima o arroz. Por pouco. Quando tocava a musiquinha do final do jornal, a mesa estava pronta, o azeite posto e a água gelada nos copos. Quanto de arroz? Três colheres, sempre três colheres, mas ela tinha que perguntar. Ele só indicava com três dedos. E frango? Sempre dois peitos. Salada? Não tive tempo de lavar a alface, nunca tinha tempo. O que você faz que nunca tem tempo pra nada? Tudo então, ali, de repente, arrebentado. A colher com o arroz não queria chegar ao prato, o reflexo dela amedrontado na tampa do fogão. Hein? O que você faz o infeliz do dia inteiro? Você acha que eu não reparo a poeira em cima dos móveis? O azulejo do banheiro todo mofado? Ela trocou o peso da perna direita para a esquerda, mas a colher de arroz continuava sem conseguir chegar ao prato e a vista estava presa em alguma maçãzinha da toalha de mão, pendurada na tampa do fogão. No corredor, a porta do elevador bateu e o cachorro da vizinha latiu. Tá, me dê o prato. E o arroz despejou no prato. E o prato despejou na mão dele. E ela finalmente despejou na cadeira. E não falaram mais nada até que ele terminou de comer e se foi para o quarto, para esperar o jornal das oito. Ela continuou sentada, esticou a mão para o copo d’água e ali estava seu dedão retalhado. O copo suava, suor antigo, de água gelada há muito tempo no calor. E o dedão, ainda mais antigo. Trocavam antiguidades o copo e o dedo, a água e ela.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Mundo nerd § mulheres, jogos e novos espartilhos

 

     Frustração da minha vida é não ser nerd, porque ser nerd agora é a parada (A Lu me diz sempre que o nosso problema é sermos CDFs em vez de nerds). Eu queria ter coleção de bonequinhos do Star Wars (clichê, mas sou tão pouco nerd que é a primeira e única referência que me vem à cabeça), vestir camisa de bonequinhos de pixels e gostar de vídeo-game, por exemplo, porque é legal. E eu que sou mulher e japa ainda por cima, uau, ia ser o frenesi! Mas bem, não.

     A Isabel Ferreira vlogou outro dia para falar sobre a entrada perturbada das mulheres no mundo nerd, especificamente no universo dos games, inicialmente dominado pelos meninos (como a maior parte das coisas). Aos poucos o público feminino foi sendo mais bem aceito e hoje uma menina gostar de games não é estranho como há alguns anos, mas perfeitamente autêntico. O problema, de acordo com ela, é que a presença feminina vem muitas vezes ligada a uma apelação sexual, instaurada pelas próprias mulheres. A mulher gamer/nerd/geek gostosa ou fofinha virou um fetiche. Não basta gostar de jogar e jogar bem, como basta para os homens. O mulherio pesa na maquiagem e afunda o decote em fotos com joysticks, promovendo-se não pela qualidade do seu trabalho, mas “dando-se a consumir” como um objeto fetichista. Acho que é esse também o caso das meninas heavymetal, com seus corpetes e espartilhos, cabelos vermelhos e lentes de contato. Sobra alguma coisa de game ou de música no final do dia ou tudo realmente só conflui para a sedução banal? Um grito desesperado por aceitação, saído do decote mais profundo de uma mulher que ainda não conseguiu se libertar da obrigação de agradar ao homem…

     O caso é que isso pode afligir de jeito até pior aquelas que não gostam de games, como eu. Eu não precisava ser uma gamer, mas eu podia pelo menos gostar, assim, um tiquinho. A vida dessas meninas é mais simples na fanfarronice de agradar ao homem, de uma certa forma. Elas entendem exatamente por que não podem aspirar a disputar o controle da televisão ou qualquer tipo de atenção quando o carinha estiver ali. Elas não se sentem desprezadas porque compreendem perfeitamente e assumem a mea culpa: elas também cometem desatenções com as pessoas que não gostam de vídeo-game. Uma menina que joga vídeo-game é um achado inigualável e é por isso que ela virou um fetiche. Além de ela potencialmente ter o cérebro mais desenvolvido pelos anos de estratégias virtuais, nunca acontecerá com ela aquilo que acontece com uma menina que não gosta de vídeo-game: a menina que não gosta de vídeo-game luta para manter os olhos abertos enquanto os meninos demonstram toda sua habilidade manual. Ela quer bocejar, mas não pode, porque isso acabaria com a auto-estima do garoto e com a sua própria dignidade (afinal uma mulher insatisfeita apenas levantaria e iria embora). Mas então ela finge. Ingênua, pensando que será para o bem de todos, ela finge. Ela é capaz de gemer de entusiasmo, e espera com todas as forças que ele não repare que ela está olhando pro quadrado errado da tela. A única coisa que ela quer é que ele termine logo. Mas aquilo parece não ter fim, ela está ficando com câimbras de manter aquela cara concentrada de satisfação. Ela só espera pelo game over. Só que algumas vezes ela simplesmente não consegue evitar e cochila antes disso. Ele fica triste, é claro, mas a verdade precisa vir à tona alguma hora. Aí ele fica puto não só porque ela cagou e andou pro desempenho dele, mas também porque ela fingiu. E está tudo acabado.

     Eu sou bem adaptada à idéia de que nunca serei um achado inigualável, me mantendo digna diante do meu console sem Playstation, Xbox... Sem nem mesmo Wii, que é para menininhas e velhinhos. Eu nunca tive um vídeo-game, nunca joguei Mario Kart e meu The Sims era emprestado. Fui uma criança sexista e agora é tarde. Meus pais chegaram a me perguntar se eu não queria ter um. E eu respondi, dando sinceramente de ombros: vídeo-game é para meninos. Eu, como boa menina, fazia outras coisas, e era feliz. Eu desenhava hipopótamos e fazia dobradura, por exemplo. Eu teria achado a Isabel uma menina esquisita. Já àquela época eu era uma velha coroca e não me apetecia a idéia de passar “aquele tempo enorme hipnotizada por uma tela” (logicamente isso foi bem antes do Facebook). Aquilo deixava os meninos abestalhados. Mal sabia eu que eles sempre foram abestados, mesmo na época dos brinquedos artesanais de madeira. Além disso, aquilo era tão subalterno que eu era uma autoridade do vídeo-game mesmo sem ter um. Das poucas vezes que joguei, na casa dos meus primos, sempre ganhei. Eu era a rainha da porradaria no Street Fighter. Só alguns anos depois eu vim a perceber que a minha técnica infalível de vitória era ser a única menina, com pelo menos cinco anos a menos que todos eles, café-com-leite do vídeo-game, e então já era tarde. Se eu tivesse sabido que eu era ruim, talvez tivesse encarado como um desafio e pedido de Natal. Mas fui bem enganada. O mundo girou, os meninos abestados viraram os nerds, que são legais e estão na moda. E eu cresci. Hoje finalmente percebo que a abestada sou eu, que não faço a menor idéia de para qual personagem olhar, jogo todos os carros de corrida no abismo, fico enjoada com a porcaria do tiro em primeira pessoa e me abobalho toda com a habilidade dos outros.

     Sou que nem um bebê brincando de peek-a-boo diante de qualquer coisa que eles fazem, apesar de cochilar depressa.  Sem decote, sem joystick, à minha própria sorte, à espera do game over redentor, que nunca chega.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vous plutôt que tu?

 

     O vous não está dentro de mim. Criança, aprendi: “o vous deve ser utilizado com pessoas mais velhas, com pessoas que você não conhece ou com pessoas que estão numa posição superior à sua”. Mas a partir de quanto tempo de distância entre nossos aniversários uma pessoa é considerada mais velha o bastante para o vous? E a partir de quantos minutos e quantas informações eu posso considerar que conheço uma pessoa? E se for uma pessoa da minha idade mas que eu estou vendo pela primeira vez? Posição superior à minha? Boh…

     É verdade que nunca pratiquei. Na escola, professor sempre foi “professor” ou simplesmente o primeiro nome e derivados afetuosos, Glorinha, Marcão, Dudu e assim em diante. “Senhor(a)” sempre foi imediatamente escorraçado(a) para o céu quando alguém saía com um “professora, a senhora...”. Eu nunca tentei, não tenho essa educação de casa, porque meu avô sempre disse que o respeito não está na senhoria. Deus sabe o esforço que eu preciso fazer pra chamar o avô dos outros de senhor. À parte casos assim, “senhor” é uma palavra escudo para o afronto e para a distância segura. Serve pra xingar respeitosamente. Nunca acreditei em formas canônicas de respeito para respeitar ou dar-se o respeito.

     Mas uma vez em Roma, faça como os romanos...

     Só no Ensino Médio é que fomos ensinados a chamar a professora de francês de Madame Fiuza, como exige a cultura francesa. Escândalo, até porque a conhecíamos desde bebês e ela, como todos os professores que tivemos no primário, seria para sempre tia Mônica. O exercício já era difícil demais para que ainda adicionássemos um vous majestoso (que, além de tudo, ainda dá mais trabalho de conjugar). Fazíamos uma presepada linguística, “Mme, tu...”.

     Na faculdade, lugar mais sério, cheguei quase psicologicamente pronta para chamar de senhor(a), mas nada mudara. As professoras continuaram dispensando a senhoria e algumas faziam até careta. Entrei num curso de cultura francesa preparada para usar finalmente um vous, mas acabei na sala da maravilhosa Ângela Perricone que me tratou de chérie logo na segunda frase e meu vous foi para o beleléu mais uma vez.

     Os europeus ficam perplexos. Me abrem dois olhos enormes e dizem que uma relação aluno-professor desse tipo é inadmissível. Se eu não tivesse me habituado a Madame Fiuza naquele último ano de escola, teria sido enxotada para fora da sala aqui.

     Na Itália, é o Lei. Mme F., de italiano, não deixa passar se erramos a conjugação e a tratamos de tu. “Nós não nos damos o tu”. Fico perplexa, intimidada, cortada pelo meio. As presepadas lingüísticas também me deixam confusa. Monsieur H. me trata de vous, mas me chama de Akemi. Mme F. mesmo nos dá o Lei, mas nos chama pelo primeiro nome: “Akemi, tocca a Lei”. Só Monsieur D. faz sentido, ele me chama de “mademoiselle Aoki”, o que sempre me faz rir, mas pelo menos é consistente e o “respeito” é bilateral. Ao contrário, se eu chamar Mme F. ou Monsieur H. pelos seus primeiros nomes, minha cabeça arrisca de rolar pelas escadarias da hierarquia acadêmica.

     Fora da universidade, as coisas não são mais simples. Na padaria, me perguntam “vous desirez...?” (o que a senhora deseja?) e eu tenho que responder “une baguette, s’il vous plaît”, enquanto que no bar, o cara pergunta “tu veux quoi?” (o que você vai querer?). O negócio é tão sério que tem gente que pergunta “on peut se tutoyer?” (podemos nos tratar de você?). Hoje mesmo uma pessoa me perguntou isso e eu, com todo o alívio do mundo, “mais BIEN SÛR!”. Vous e Lei são dois catarros entalados na minha garganta que nunca vão sair com naturalidade e que nunca vão espelhar necessariamente nenhum respeito maior do que aquele que eu tenho por aquela pessoa querida que eu trato de tu.

     Mas, já que em Roma...