sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jucileide e as embalagens vazias

Jucileide guardava embalagens vazias, só porque tinha preguiça de jogar fora. Em seu armário do banheiro, havia, por exemplo, dois tubos vazios de pasta de dentes por debaixo do tubo novo, como cadáveres que tivessem ainda algum último suspiro para dar. Como se ela esperasse que dissessem, da morte, “estou morto”, para que ela então os pudesse deitar fora. Acontecia o mesmo com os xampus e condicionadores, com os restos de sabonetes, um trepado por cima do outro, como hóstias de cheiro, inúteis. Um dia ou outro ela acabava juntando tudo e levando ao lixo, só não fazia isso antes por pura preguiça. Ela deixava coisas diversas ficarem agonizando, já inúteis, no limbo entre o ter sido e o não ser mais. Estas apareciam em seus sonhos, em sua cabeça em viagens de ônibus, onde Jucileide as mantinha enquanto tinha preguiça de jogá-las fora. Sonhava com Colgates, potes de maionese, canalhas quaisquer, notas fiscais, calcinhas furadas, amigos de infância, dentes de leite, afetos antigos, desafetos recentes, esmaltes secos e uma infinidade de outras coisas diversas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O primeiro

Eu te procuro e não te acho. Cadê você? Eu cruzei o oceano, fui atrás de você em outros países, aprendi outras línguas só para o caso de você não falar a minha, te procurei às cegas, perguntei pros amigos, pros conhecidos, perguntei pra qualquer um, te procurei na internet, também, mas te procurei em vão, você não estava. Nem na internet você estava, nem na internet. Então te procurei na esquina. Até na esquina eu te procurei. Até na esquina e não te achei. É porque eu passei dias e dias em bibliotecas, não é? É por isso que você não me quer? É porque eu não sou muito experiente? Porque você acha que eu não conheço nada da vida real? Porque eu nunca tive primeira vez?
Primeiro emprego, eu juro que não vou te decepcionar quando você me deixar eu te encontrar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Um conselho sobre Antônio

“La seule manière de défendre la langue, c’est de l’attaquer…

Chaque écrivain est obligé de se faire sa langue”

~Proust


Há um célebre conto de Edgar Allan Poe sobre uma carta importantíssima, que foi roubada por um Ministro. O delegado parisiense não consegue encontrá-la. Ele a procura meticulosamente em todas as gavetas secretas, em todas as almofadas e livros, nas pernas das cadeiras, nos forros das mesas, no papel de parede, nos tijolos. Nada. O delegado então pede ajuda ao detetive Dupin, que lhe a entrega, depois de encontrá-la em um vistoso porta-cartas em cima da lareira, onde sempre esteve, na casa do Ministro, a mesma casa que havia sido dissecada diversas vezes pelos policiais. Por que a equipe do delegado, tão minuciosa, não encontrou a carta? “Talvez seja a própria simplicidade que os desorienta”, responde o narrador. Não por acaso o Ministro era também poeta. Dupin, ele mesmo, assume ser “culpado de certos versos”. Poe faz questão de identificar ladrão e detetive à figura do poeta – Poe, ele mesmo, poeta. Talvez porque o poeta seja aquele que investiga a língua, a maior ilusionista entre os homens. Assim é porque, como a carta roubada, a língua está literalmente debaixo do nariz de todo mundo e poucas pessoas escutam.

Chomsky diz que a faculdade da linguagem nos seres humanos é criativa, porque desde pequenos não nos limitamos a apenas imitar os adultos, mas a todo momento construímos frases inéditas. Há algo de importante na palavra “inédito”: trata-se de algo nunca antes visto. No entanto nem todas as nossas frases inéditas são muito brilhantes. De acordo com Chomsky, o ser humano é linguisticamente criativo por natureza, mas pelo que dá para observar, poucos são poetas. Não é difícil construir frases novas e, de fato, inéditas, mas poucas serão brilhantes.

Mais do que com romances e poemas inteiros, eu me emociono com frases bem feitas. Um bom fraseador entendeu a língua e precisa de muito pouco para dizer tudo. E eu me emociono ainda mais quando um bom fraseador tira inspiração da frase já feita, da expressão idiomática, destas que auxiliam o falante na preguiça da criatividade e soam, no mais das vezes, um tanto mal. Quando o poeta, mais do que inventar algo completamente inédito, consegue acordar uma expressão pronta há tantas gerações e fazê-la dizer outra coisa, aí é lindo. Acho este um gesto muito delicado para com essas frases da boca do povo que são tão desleixadas, que são ditas sem que ninguém mais preste atenção naquilo que literalmente estão dizendo, porque na verdade já dizem outra coisa. Quando todos acham que elas estão velhas e em farrapos, vem um poeta e mostra que elas são grávidas de poesia. Acho muito delicado também quando alguém presta uma atenção tão refinada às formas e aos sons da língua a ponto de encontrar suas afinidades mais perdidas, embaralhando então classes gramaticais, sintaxe, imagens, sem nenhum rebuscamento, sem nenhum rococó, mas com uma beleza muito singela, que dá vontade de pegar no colo: “eles passarão, eu passarinho”. Há um prazer muito grande em escutar a língua desmoronar em direção a um devir-língua, em si mesma.

Na verdade eu escrevi toda essa introdução só para te aconselhar um poeta desse jeito, um poeta em lançamento, o Pedro Gabriel, que presenteou 385 mil curtidores no Facebook e outros tantos mil compradores do livro recém-nascido com os guardanapos assinados pelo Antônio. “Eu me chamo Antônio” é um livro colorido, de poesia gráfica, adornado com desenhos e fotografias. É um livro escrito à mão, mas seu próprio punho muitas vezes precisa do auxílio das legendas. Ele é de um prazer todo próprio e intralinguístico, intradiegético, que escuta o que sempre esteve aqui nesse chão da língua batida. Cada palavra, cada expressão, ele as troca de lugar e lhes dá uma nova toca, numa frase feita onde nunca antes tinha cabido, mas agora cabe, porque ele reparou que uma letra e uma classe gramatical mudam tudo: “amores sempre vêm e vão, mas nunca vêm em vão”. Porque ele reparou nas palavras ambíguas: “me amasse como se eu te amasse também”. E brincou com os sons, sem parar: “- olá, como você se ama?”.

foto (1) (525x600)Há muitas coisas lindas para serem feitas dos lugares comuns, das frases feitas e dos clichês, como os escritores de guardanapos. “Eu me chamo Antônio” é uma delas. Ele será lançado amanhã, na Livraria da Travessa de Ipanema, a partir das 19h30: não perca.

 

 

 

(ou perca, quem sabe assim eu consiga chegar na mesa pro autógrafo)

sábado, 9 de novembro de 2013

Dos nós que não se apertaram

A gente vai embora porque outra ponta da vida está chamando. Porque a idade permite, alguém outro virá. Porque a idade é supersticiosa, não era para ser. Ou porque a idade confia, o que tiver de ser será. E a idade confia sempre, mesmo sem querer.

A gente tem que ver indo embora porque o chão dos outros não é nosso para asfaltar. Porque se acredita, o que foi sabe voltar. Porque se espera, o que tiver de ser... sim, já sabemos.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

algum amor

Inebriada pelo melhor sono da manhã, ela nem se dá conta da breve aragem pelo cóccix. Ele soprando, como se sopra uma pétala, a etiqueta da calcinha, que nunca ficava para dentro. Ela permanece quieta e plácida, estátua escondendo os seios enterrados na cama, oferecendo apenas, como relevo eriçado, o poliéster levemente puído da calcinha rosa, como oferecia também as das que eram brancas, azuis ou beges.

As primeiras horas da manhã e as da noite, além dos domingos, eram as únicas que se podiam ouvir a respirar e a pensar. No restante do tempo, sons sem fronteira esburacavam o silêncio do roçar de seus cílios e o trocar de seus hálitos com britadeiras e marretas. Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronto o novo prédio, estalagmite urbana.

Mas ela não acordava pela manhã e, embora ele a tivesse a ela e as etiquetas de suas calcinhas, ela não tinha a ele e, portanto, sempre saía perdendo no final das contas – sentia mais falta dele do que ele dela e assim ela ia, sempre se achando mais amante que amada, menos querida do que de fato era. A pena é que ao dormir não tenhamos nem o mínimo de nós mesmos – privados do melhor ruído da chuva e da brisa da respiração de um homem pelas costas, à mercê de toda boa e má intenção. Ela, nessas horas de silêncio e brisa, estava presa não se sabe em qual sonho, ao que se agarrava inconscientemente, mesmo que fosse para depois perdê-lo, uma vez abertos os olhos. Acordava só quando o barulho era forte demais, o sol já batia na altura de suas coxas e ele já se tinha ido. Nunca nenhum recado que dissesse meu bem, eu te amo, trago as tangerinas quando voltar. Só alguma louça de café da manhã no fundo da pia da cozinha, alguma poça d’água nos azulejos do banheiro. Ela nunca o havia sabatinado e sabido o que era de importância saber. Presa nos detalhes da desordem, ficava feliz com a tampa da privada abaixada e tirava daí algum amor.