quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Strasbourg 2011 § alguma coisa está prestes a acontecer

Alguma coisa está a ponto de acontecer. Não sei se é porque leio Mrs Dalloway e porque aquela mendiga canta através dos séculos na boca do metrô e eu me esfolo porque preferi pegar a redução de seis euros no supermercado pra mim em vez de doar aos sem-teto – faz tanto frio na Europa. Ai, é só o medo que nos dá a medida do sofrimento dos outros. A mendiga eterna de Mrs Dalloway, aquele maluquinho que sacudia a cabeça na igreja do Largo do Machado e que depois mudou para Copacabana. Aquele que andava de terno e calça social em Laranjeiras. As crianças crescem pela primeira vez quando, andando na rua, pequenas, do mesmo tamanho de uma pessoa sentada no chão, são ensinadas a não olhar, a desviar seu ponto de vista privilegiado pela primeira vez. A humanidade se perde logo na primeira infância. Não nos perdemos quando nos desviamos do bom, nos perdemos quando nos desviamos do ruim. As roupas pesam tanto, as camadas de lã, as luvas, os chapéus, as botas... o peso da Europa, alguma coisa horrenda parece prestes a acontecer, estamos a dois anos dos cem anos do 14-18; uma ameaça, esse peso, o euro, a irmandade financeira para as cucuias, os gregos, os portugueses, os italianos, os árabes – sejam os árabes quem forem, são quase judeus (nunca aprendemos nada); em Strasbourg 80% dos estudantes sofrem de depressão. Os anos maravilhosos da juventude... deprimida, desempregada, suicida. Anthony Patch estava certo? Não se entende a melancolia pela infância antes de crescer. O que fez Gloria sair e comprar uma boneca, para conseguir dormir; o que faz uma mulher deitar a cabeça no travesseiro e chupar o dedo, para conseguir dormir. Sabemos que crescemos quando entendemos. Até as estrelas são canibais – é verdade, vi hoje cedo no jornal que uma estrela comeu uma outra – por que chorar de susto pelas pessoas canibais, pelas moedas canibais? E mesmo assim, contra essa natureza, não parece direito que nos engulamos uns aos outros. As favelas foram pacificadas, o G1 varreu as notícias de assalto e assassinato – quero acreditar nisso como acredito que uma estrela comeu a outra. Clarissa, eu também confundo os armênios e os turcos, também não toco piano, oh não, sou meio esnobe também, Clarissa. Que horror. Mas diferente de Micòl, porque não estou convencida de que Micòl Finzi-Contini fosse esnobe. Mas e a vida, essa chuva, Strasbourg, nesse momento de dezembro... 80% dos estudantes de Strasbourg sofrem de depressão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A barata que se chamava Édouard

O táxi parou na frente da estação Siqueira Campos. Desci e andei a rua para procurar a Adega Pérola, em que deveríamos nos encontrar. Descobri que se tratava de uma cantina cujo cheiro de bacalhau não deixava mentir, era à portuguesa. Chovia, mas era final de primavera e fazia aquele calor úmido que só é possível no Rio de Janeiro. Sentia o suor no pescoço e nas costas e só pensava no cheiro do bacalhau e nos pratos de frutos do mar no balcão e me embrulhava o estômago. As pessoas riam e eu talvez fosse a única que se incomodava com o calor ali. E aquele cheiro do bacalhau. E os compartimentos de inox oferecendo perninhas de lulas arroxeadas nanicas e aceboladas. Ele chegou uns minutos depois com um boné branco por onde os cachos transbordavam e disse que era seu lugar preferido na cidade. Eu só pensava no cheiro de bacalhau e no suor que me escorria pelo pescoço. Chopp, caipirinha. O chopp para mim. Depois de algumas palavras vazias trocadas em inglês e em sorrisos amarelos feitos de calor, o que ele está falando de stock market?, o garçom nos mudou de mesa, para uma mais perto do ventilador. Na mesa andava uma baratinha. Um bebê barata, que acompanhei com os olhos, com ligeiro nojo. Não o suficiente para querer matá-la, mas para que fosse preciso comentá-la: há aqui uma barata. E pensava no bacalhau e nas perninhas de lula. Ao que ele respondeu mais non, c’est juste Édouard. Bacalhau e perninhas de lula aceboladas à la Édouard. Édouard andou pelos sachês de açúcar e pela caixa de azeite, Édouard até cheirou os guardanapos e farejou minha tulipa de chopp como se fora um familiar e depois foi desaparecendo. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Teve Copa

 

Feriados que haviam sido prometidos, afinal foram desprometidos porque promessa, nesta terra, sabemos, é para boi dormir. Pelo menos o expediente seria pela metade, como nos outros dias. O Brasil estava na final, mas os patrões fizeram questão de aplaudir o feriado abortado. Meio expediente, então, haveria de haver todo mundo, sem que ninguém, no entanto, soubesse. Ora, é por não se prestar atenção que se escorrega. Se avisarmos ao sujeito que há uma casca de banana a dois passos, que graça tem vê-lo desviar? Assim foi. Os rodoviários bem ficaram com pena do resto dos trabalhadores, mas acharam que fazia parte do método: a greve haveria de continuar. À metade do dia, quando os escritórios, lojas e salões de beleza começaram a esvaziar, as pessoas à rua não encontraram nada com que voltar para casa. Os táxis, todos cheios, queriam apenas voltar, eles mesmos, para casa. No trânsito, rapidamente fez-se um nó, acúmulo daqueles que normalmente se moviam de carro somados aos carros que começaram a sair para buscar seus parentes perdidos nas ruas fedorentas. Ah, sim, porque os lixeiros, bem, estes, sim, avisaram, lá no Carnaval, mas as pessoas não deram muita trela. Fazia já um mês que o lixo se amontoava, as mulheres já nem gritavam mais de pavor ao dar com as baratas. O centro da cidade, antes deserto de ônibus, começou a encher-se de carros, mesmo contra a lei: não mais importava, os motoristas começaram a perceber, já a meio do caminho, que também as forças policiais haviam aderido ao meio expediente. Não haveria multa por rodar na Rio Branco. Viam-se fardas pelo chão. Fardas sobre os sacos de lixo. Só armas foi que não se viram jogadas fora. Só sobrou polícia no perímetro tijucano. PM que não pode fazer greve, ora, pois greve fez! Tudo se enrolou. O metrô já não podia aguentar. A fila subia as escadas e caía na rua. As pessoas começaram a desmaiar, a emergência foi acionada diversas vezes, no subsolo havia tanto caos quanto a céu aberto.

O meio expediente se alongou engarrafamento adentro e as pessoas ocupavam todas as linhas de telefone para saber notícias. Havia boatos de que já começa a haver arrastões e saques de todo tipo, mas apenas boatos, porque noticiário nenhum olhava o que acontecia fora do estádio. Quando a partida começou, poucos tinham conseguido chegar a algum destino. Ao primeiro gol, a terra tremeu, das pessoas que pularam, tendo ouvido o grito na rádio. Abriram-se as janelas dos carros e dos prédios, deixando sair um pouco de ar-condicionado e deixando entrar um pouco do cheiro de futum (as pessoas abandonadas aos próprios pés, coitadas, sem janela para fechar, não podiam escapar ao chorume). Houve um só grito e as janelas fecharam-se novamente. Logo muitas baterias chegaram a seu derradeiro fim e todas as linhas, de tão ocupadas, travaram-se todas. Era como se todos estivessem sozinhos no mundo, sozinhos na multidão do engarrafamento, sem que nenhum parente ou amigo pudesse saber onde encontrá-los. Os abandonados a pé, sem mais o que fazer, chegaram-se aos porteiros e logo havia amontoados de desconhecidos na porta dos prédios, engalfinhados para ouvir a televisãozinha frouxa e chiada do porteiro. Os motoristas cruzavam canteiros e entravam na contramão, para mais adiante cair em outro engarrafamento. Acidentes, brigas, buzinas, arrastões e saques se acumularam ao longo da cidade fétida. Ao segundo gol já se contavam alguns mortos, tantos feridos, muitos com promessa de morte. Um sujeito havia sido espancado no metrô por um grupo de mulheres, até ficar inconsciente, depois de ter metido a mão por baixo do vestido de uma garota. Outras, no entanto, não tiveram a mesma sorte desta e ninguém por elas intercedeu.

Pela chuva, no entanto, ninguém esperava. Em julho não se chove tanto e o céu, que há um segundo estava limpo, juro que parecia coisa de outro mundo, ficou de repente cinza e foi num pingar de três gotas que a cidade encheu. Com lixo esparramado para tudo quanto era lado, não havia um mísero bueirinho para onde escorregar. Varreu tudo, a tempestade. Só no Maracanã é que não choveu, porque Deus é brasileiro, alguém disse no dia seguinte no jornal. Todos os barracos, morro abaixo, foram caindo e se despedaçando em cima de prédios. Imaginemos a cara das pessoas nas janelas, ao ver vindo tudo o que há numa casa, entre colchão, geladeira, porta-retratos, cachorro, pôster da Beyoncé, privada e gente, entre outras minúcias – ao ver vindo, enfim, para cima de suas janelas, tudo isto. Tudo o que havia no morro e que veio se espatifando asfalto abaixo, tudo somado, chegou a uma amontoação de quatro andares de prédios sem garagem. Todos sabiam que a favela era muita, mas ninguém havia imaginado que fosse tanta. Na orla, desde o Recreio até a Baía de Guanabara, o mar regurgitou para dentro do continente tudo o que tanto havia de água, da ressaca de mais de século. Os avós finalmente viram sua profecia se concretizar, de messias vai lá o diabo saber, certo é que o mar volta para buscar o que é dele. Os religiosos disseram que foi porque havia sido a gota d’água para Iemanjá ver a umbanda desrespeitada no Senado. O Vidigal caiu metade para dentro das ondas por cima da Niemeyer, se houvesse alguém lá para ver e depois contar, teria dito que foram vistos vários alemães e franceses afogando-se mar adentro. Pena é que não havia ninguém prestando atenção. Foi uma tempestade histórica, que nenhum ambientalista soube depois explicar.

Parece que tá chovendo forte lá fora, o que me diz, Arnaldo? Sim, sim, Galvão, parece que está chovendo.

Mas então já não falavam para ninguém, pois todo o cabeamento havia sido cortado, os fios pendiam no fluxo berrante de água, lixo, automóveis e corpos, alguns ainda gritando, a maioria já morta. As casas já haviam todas sido tomadas por água e lixo e todo tipo de cadáver, não houve nem barata doméstica que sobrevivesse. As entranhas da terra jorravam para cima. As pessoas de condomínio se amontoavam nos últimos andares, nas casas dos vizinhos e nos corredores, com invasores sobreviventes procurando abrigo. Muitas vezes, por falta de espaço, alguns eram jogados pelas janelas. Em vários prédios, aqueles que possuíam armas guardavam os outros como reféns, enquanto tentavam ao mesmo tempo organizar o pânico e saquear despensas, sabe-se lá para o quê. Ninguém sabia de mais nada e ninguém ouviu quando o Brasil fez o gol da vitória. O Maracanã, desta vez, tremeu sozinho.

Só sobrou o estádio e quem lá estava.

A mídia internacional, ao perguntar para as autoridades o que elas tinham a declarar, disseram, apenas “o que dizer, meu amigo, é uma calamidade! Mas teve Copa!” e a exclamação foi longe, ecoando na cidade submersa, nas carcaças dos automóveis, nos últimos postes de pé, nas escadas rolantes do Cristo.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jucileide e as embalagens vazias

Jucileide guardava embalagens vazias, só porque tinha preguiça de jogar fora. Em seu armário do banheiro, havia, por exemplo, dois tubos vazios de pasta de dentes por debaixo do tubo novo, como cadáveres que tivessem ainda algum último suspiro para dar. Como se ela esperasse que dissessem, da morte, “estou morto”, para que ela então os pudesse deitar fora. Acontecia o mesmo com os xampus e condicionadores, com os restos de sabonetes, um trepado por cima do outro, como hóstias de cheiro, inúteis. Um dia ou outro ela acabava juntando tudo e levando ao lixo, só não fazia isso antes por pura preguiça. Ela deixava coisas diversas ficarem agonizando, já inúteis, no limbo entre o ter sido e o não ser mais. Estas apareciam em seus sonhos, em sua cabeça em viagens de ônibus, onde Jucileide as mantinha enquanto tinha preguiça de jogá-las fora. Sonhava com Colgates, potes de maionese, canalhas quaisquer, notas fiscais, calcinhas furadas, amigos de infância, dentes de leite, afetos antigos, desafetos recentes, esmaltes secos e uma infinidade de outras coisas diversas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O primeiro

Eu te procuro e não te acho. Cadê você? Eu cruzei o oceano, fui atrás de você em outros países, aprendi outras línguas só para o caso de você não falar a minha, te procurei às cegas, perguntei pros amigos, pros conhecidos, perguntei pra qualquer um, te procurei na internet, também, mas te procurei em vão, você não estava. Nem na internet você estava, nem na internet. Então te procurei na esquina. Até na esquina eu te procurei. Até na esquina e não te achei. É porque eu passei dias e dias em bibliotecas, não é? É por isso que você não me quer? É porque eu não sou muito experiente? Porque você acha que eu não conheço nada da vida real? Porque eu nunca tive primeira vez?
Primeiro emprego, eu juro que não vou te decepcionar quando você me deixar eu te encontrar.