As unhas estavam horríveis. Uma quebrada, as outras grandes demais, os nós dos dedos secos e ásperos que nem lixa, cutículas brancas e pelinhas sobrando no canto dos dedos. Ela metia os dentes, e piorava. Por vezes arrancava pedaços enormes, e sangrava. Mas ela soltava um “aw!”, punha debaixo d’água e já estava. Talvez um band-aid. E também não era sempre. Não há tempo, ela dizia baixinho ao ouvido dos dedos dos pés. E depois, desculpada, sentava no sofá, deixava a cabeça ir pendendo e ia dormindo a tarde inteira. Despertava com o barulho da chave na porta, do marido que voltava do trabalho. Levava o susto habitual e saía correndo ao banheiro para tacar uma água no rosto e dizer olá, sim, o dia foi cansativo, e o seu? Ao que ele nem respondia, tomava banho, ligava a televisão para ver o jornal das sete enquanto perguntava do jantar. Ela então já estava na cozinha a esquentar tudo, a mexer nas panelas, a tirar roupas da máquina para pendurar, a dobrar outras e enfiar no armário para passar. Passava uma vassourinha no chão da cozinha, na área, ia ao corredor colocar um lixo na lixeira coletiva do prédio e quase que queima o arroz. Por pouco. Quando tocava a musiquinha do final do jornal, a mesa estava pronta, o azeite posto e a água gelada nos copos. Quanto de arroz? Três colheres, sempre três colheres, mas ela tinha que perguntar. Ele só indicava com três dedos. E frango? Sempre dois peitos. Salada? Não tive tempo de lavar a alface, nunca tinha tempo. O que você faz que nunca tem tempo pra nada? Tudo então, ali, de repente, arrebentado. A colher com o arroz não queria chegar ao prato, o reflexo dela amedrontado na tampa do fogão. Hein? O que você faz o infeliz do dia inteiro? Você acha que eu não reparo a poeira em cima dos móveis? O azulejo do banheiro todo mofado? Ela trocou o peso da perna direita para a esquerda, mas a colher de arroz continuava sem conseguir chegar ao prato e a vista estava presa em alguma maçãzinha da toalha de mão, pendurada na tampa do fogão. No corredor, a porta do elevador bateu e o cachorro da vizinha latiu. Tá, me dê o prato. E o arroz despejou no prato. E o prato despejou na mão dele. E ela finalmente despejou na cadeira. E não falaram mais nada até que ele terminou de comer e se foi para o quarto, para esperar o jornal das oito. Ela continuou sentada, esticou a mão para o copo d’água e ali estava seu dedão retalhado. O copo suava, suor antigo, de água gelada há muito tempo no calor. E o dedão, ainda mais antigo. Trocavam antiguidades o copo e o dedo, a água e ela.
Um dos seus melhores contos, sem dúvida.
ResponderExcluirAh, acho que já disse isso, e sem tem memória boa vai lembrar.
=)
Caramba, Keminha.
ResponderExcluirVc ta loba antunes nesse conto.
Gostei muito. Terrível, mas me identifiquei com parte dele. Pelo menos foi a parte menos dolorida.
Vc continua sharp, e tem uma percepção das coisas impressionantes pra uma pessoa que nao teve uma vivência dessas coisas. Casamento, por exemplo. Isso nao é impossível, mas vc é um daqueles casos (raros, ao meu ver) que se destacam. Ou seja, vc é uma grande observadora, excelente leitora, além de ótima escritora.