sábado, 26 de março de 2011

Nem japonesa, nem brasileira, nem paraguaia

 

    Esse post aqui é só pra dar uma arrematada no último. Está bastante chulé porque eu já me cansei desses assuntos nipônicos. Tá na hora de trocar a fita.


     Não sei se por influência familiar ou o quê, mas eu adoro estrangeiros – assim como o prostituto do pub, apesar de os nossos interesses neles serem diferentes. Por isso também eu adoro a Internet, ela me permite conhecer pessoas de longe, que talvez eu não conhecesse de outra forma. Minha primeira experiência foi aos doze anos (talvez onze?), quando, pelos mares pouco dantes navegados da web, esbarrei numa menina portuguesa, num fórum de fãs alucinados por Harry Potter. Ela se tornou uma amiga muito querida e foi uma imensa alegria quando nos conhecemos pessoalmente, alguns anos depois. Depois dela, vieram os paulistas, os franceses… e eu fui me danando toda, porque é uma dorzinha chata essa de estar distante. Morando sozinha, terei um sofá reservado à saudável prática do couchsurfing.

     Há quase dois anos, descobri o Korakor, uma organização (agora oficialmente oficial! yey!) com projetos filantrópicos, cuja filosofia é basicamente a interconexão e o amor entre… tudo.

O Korakor foi pensado inicialmente por Keveen Gabet, levado adiante com a ajuda de amigos queridos, em especial Gina Solorzano, Georges Pagani, Lilo Rivera, Cecilie Caspersen…, e apoiada por pessoas korakorescas de vários cantinhos do mundo. Com tanta internacionalidade, não me espanta que eu tenha querido me meter no meio.

 

     Meu pai diz que não deveria existir essa de “países”. O mundo deveria ser um único e imenso país. Pra ele, esse negócio de “sangue puro” é a maior balela. Porque japonês tem muito disso, né. Migra, mas casa com outro japonês pra fazer mais japonesezinhos “puros”, por mais que cresçam sem falar nada da língua ou não vivam de fato em imersão nipônica. Meu pai defende a mistura. Daí que eu e minhas irmãs somos mestiças. Dizemos que somos nisseis pra facilitar o entendimento daqueles que perguntam, porque aparentemente é muito difícil sacar a diferença entre nissei e mestiço. Para que fique claro, de acordo com o Houaiss: nissei – que ou aquele que é filho de pais japoneses nascido no continente americano; mestiçodiz-se de ou pessoa que provém do cruzamento de pais de raças diferentes. Como nossas mães são brasileiras, do olhão grandão, somos mestiças.

     Eu, na verdade, não sei muito bem o que pensar sobre a língua japonesa ter palavras específicas para cada tipo de… conterrâneo desterrado. É assim. Nikkei é o nome genérico, para todos os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão ou com situação regular no exterior. Em seguida, temos nisseis (2ª geração – filhos), sanseis (3ª geração – netos), yonseis (4ª geração – bisnetos), gosseis (5ª geração – trisanetos) etc etc etc e eu nem vou fazer a piadinha do nonsei. A “impureza” está marcada na própria língua. É o rótulo depreciativo e egoísta. Ao mesmo tempo em que te afasta (já que na medida em que você é nissei/sansei/shichissei, você não é japonês), te quer de volta (você não é japonês, mas você também não é desse lugar aí onde nasceu). Talvez você seja uma classe mais baixa de japonês, um decassegui mal tratado que só serve mesmo para preparar bentô.  

      Ora, chega disso, né?

     Post passado eu perguntava se sou um produto paraguaio, fake e mal acabado. É claro que não. Eu sou bastante original, de acabamento perfeito (minha mãe é muito caprichosa). Qual é a marca do meu tabuleiro, onde foi feito? Não sei mesmo, não ligo pra marca, nunca comprei na Osklen. O que importa é que vá ao forno, não derreta e comporte bem a minha massaroca.

     Daí eu vivi feliz para sempre e vamos virar a página.

     Até a próxima, sobre a burrice.

domingo, 20 de março de 2011

A legião estrangeira

 

    Preciso confessar que tenho uma invejinha comichona dessas pessoas que têm muitas histórias pra contar e que contam bem. A vida deste cidadão não é um marasmo porque 1) coisas excitantes, engraçadas ou simplesmente incomuns acontecem com esse cara e 2) ele sabe transformá-las em boas histórias, ou 3) mesmo que não aconteçam coisas tão extraordinárias assim, o sujeito vai saber tirar uma boa história da ida mais comum ao supermercado, o que pode ser até melhor do que 1 e 2.

 

     Eu não herdei os talentos da minha mãe. Ela tem uma memória de elefante e é uma excelente contadora de casos. Eu tenho memória de peixe e sou uma péssima oradora. Eu talvez seja uma razoável ensaísta, mas tenho sérias dúvidas quanto ao meu talento para narradora de histórias – principalmente se for para uma mesa cheia de gente, e eu precise ser engraçada. Não dá, nasci sem o dom pra Stand Up e nunca fiz CAL. Coitados dos meus filhos, vão ficar sem historinha antes de dormir. Mas um negócio curioso aconteceu comigo há algum tempo e vou aproveitar que estou no território seguro do Windows Live Writer, tipografando mudamente.

 

    Estava eu num pub em Ipanema, cheio de turistas, com um casal de amigos estrangeiros que turistavam no Rio – ele francês, ela alemã. Falávamos em francês. Um tempo depois, chegaram dois amigos americanos (a gringalhada de dezembro). Daí mudamos para inglês.

Acontece que tinha um cara no balcão que me encarava descaradamente, mas tão descaradamente como nunca ninguém nem na Lapa tinha feito. Aí ele passou prum lado, voltou, passou de novo… quase enfiando seu grande sorriso “sedutor” na minha cara. Ficamos imaginando de que país essa criatura seria. Até que ele resolveu passar de novo e finalmente dizer you’re very beautiful!, com um sotaque que denunciava que ele não era falante nativo. Resolvi perguntar where are you from?. Então ele me diz, todo orgulhoso e gostosão: BRAZIL!

(…)

                                           Mas o pior ainda está por vir.

        Depois disso eu ri e falei ah! eu também sou brasileira!. E eis que ele me solta a pérola: caraca, DESCULPA! e simplesmente se escafede. 

Seria ele um prostituto querendo se aproveitar da estrangeira?

       Porque, sim, você pode se interessar por uma pessoa porque ela é estrangeira, porque é diferente, interessante, tem referências outras, fala, anda e olha com um sotaque muito sexy etc. Mas você se desinteressar por alguém porque ela não é estrangeira, aí you’ve gotta be kidding me, cumpadi. Eu só fui very beautiful enquanto era uma japonesa exótica e afrancesada, uma turista efêmera e… endinheirada? NOT. Pobre dele. Pois fique o senhor sabendo que eu sou very beautiful mesmo com o meu sotaque carioca de quem acabou de achar um isqueiro na esquina da escola.

        Eu sei que pode ser uma experiência incrível e espantosa ficar sabendo que eu sou carioca. Com essa onda de posts japoneses (eu sei que tá ficando repetitivo, mas um dia canso, depois de já ter cansado muitos de vocês), me perguntaram como é ser descendente numa cidade como o Rio, onde quase não se veem pessoas da minha espécie. E é verdade. Se você mora no Rio e tem algum tipo de tara por japas gatchenhas, meu camarada… eu sou o seu achado. (…) Brincadeiras à parte, no post clássico das perguntas frequentes (se você pretende acompanhar este blog, é bom que o tenha lido), faltaram justamente as que se referem ao tópico “natural de”. Acontece que muita gente, antes de perguntar se eu falo japonês, me pergunta “você é… japonesa? Nasceu lá?”. Aí eu respondo que não, sou brasileira. E a seguir vem… “então é paulista?”. Se bem que muitas vezes o “paulista” já é antecipado por aqueles que se consideram mais espertos.

      Pra vocês (leitores não cariocas? alguém?) terem uma ideia de como a paisagem aqui é desértica de japas, um caso curioso: uma amiga comentou há pouco tempo sobre um japa muito gato que conheceu, “o japa mais lindo do mundoooo”. E eu já fui falando o nome do indivíduo, apesar de não conhecê-lo realmente (uh, ninja). Se fosse o “loiro mais lindo do mundo” ou o “qualquer-coisa mais lindo do mundo”, eu daria de ombros e pediria pra ver o Facebook. Mas agora, o japa mais lindo… não dá pra ter dúvidas. E olha que eu nem sou chegada na micro-colônia.

      Mas o que é nascer aqui? Existe um ser daqui? Estar misturada, ser mestiça, ser uma nipo-brasileira afrancesada faz de mim um produto paraguaio? Made in India1? Quero dizer, mal acabada e fake? O que é estrangeiridade?

      A ver…


[1] Made in China poderia causar uma certa confusão, sabe-se lá.

sábado, 19 de março de 2011

Japinha do meu coração

 

       Como sabemos, o Japão e a Líbia vêm disputando lugar no noticiário nas últimas semanas (e agora a França também tá procurando um lugarzinho ao sol). Mas como eu nada sei da Líbia, vocês terão que se contentar com mais um post japonês.

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         Não sei em que momentinho da minha infância eu não fiz click para a terra dos Pokémons. Como todos já sabem, eu não falo japonês. O único contato sentimental que eu tenho com a língua japonesa é o sotaque do meu pai. Cresci com primos (de olhos grandes, do lado da minha mãe) fascinados, estudando japonês, participando de concurso, montandoDSC02817 banda, pegando faixa-preta em artes marciais e o escambau. Mas eu, de olhos pequenos e cara achatada… nem tchum. Passei a infância quase sem me dar conta de que eu era “diferente”. Por incrível que pareça, só agora começaram a me chamar de japa, japinha, japinha-do-meu-coração.

 

 

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      Enquanto a viagem à França aos oito anos me rendeu um coup de foudre1 de me foutre2 para sempre, o Japão, aos seis, parece não ter me chacoalhado minimamente… (Não me venham com os “traumas de infância enrustidos, que tenho P1000445horror!) Em julho de 2010, quatorze anos depois, estive lá novamente. Na primeira metade da viagem, em meu diário, cheguei a confessar uma frase dolorosa, que, depois de algumas observações politicamente incorretas sobre Tóquio, dizia: do Japão, amo o meu pai.

 

 

P1000435(Muito embora meu pai diga que “estou mais… mais para brasileiro, né? Eu sou japonês, eu sssou japonês... porém, pouco diferente do que Japão do hoje... talvez descendente japonês nissei... talvez seja educado mais japonês do que próprio eu... que sou Japão, nascido no Japão e formei lá no Japão... porém... me adaptei mais para cultura brasileira...”)

 

 

Eu, meu primo e os mistérios da privada

      Felizmente, quando começamos a sair do perímetro urbano e entrar na parte mais rural, com plantações de arroz, paisagens vulcânicas e construções mais tradicionais, meu humor foi melhorando. Mas veja, numa viagem como a minha, na correria de 16 cidades/lugares em mais ou menos 20 dias (Tóquio, Osaka, Nara, Quioto, Hiroshima, Miyajima, Nagasaki, Kumamoto, Mt. Aso, Beppu, Okayama, Atami, Hakone, Mt. Fuji, Niigata, Senami – ufa!), mais dormindo no ônibus e comendo no shinkansen do que andandoDSC03386 pela rua, não tive tempo de simplesmente take my time e flâner baudelaireanamente. Entrava e saía de pontos turísticos empanturrados de turistas (a.k.a. classe de gente mal educada). Tive muitos deslumbramentos, mas também muitos estresses, claustrofobias e, definitivamente, nenhuma epifania. Tive a pouca sorte de pegar muitos dias chuvosos e cheguei mesmo a pensar que naquela terra do sol nascente não havia sol algum. 

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         Mas há.

        O sol sempre volta a nascer.

        Nasceu para mim, que pareço estar ficando mais japonesa… Não é raro me encontrar emplastada de protetor solar, maquiagem, leque e sombrinha. Já era tempo. Daqui a pouco, estudo japonês. (Mas os cabelos azuis, continuo dispensando)

 

       Que o sol torne logo para os japoneses.


[1] amor à primeira vista

[2] f*der

sábado, 12 de março de 2011

Cucolândia das nuvens*

 

     Troquei umas palavrinhas com um professor de Direito outro dia. Um dos cursos que ele dá é Introdução ao Direito (ou equivalente). Tivemos mais ou menos o seguinte pequeno diálogo:

 

- E como é o curso? – eu pergunto.

- Ah, é uma… coisa, eu não sei bem…

-  Hum… Uma baboseira?

- Não… é uma mistura de Filosofia com Ciências Sociais...

- Justamente.

    

     Sei que não fui nada gentil, ele ficou boladex, mas depois de uma caipirinha eu perco minhas papas na língua e não foi por mal mesmo. Não disse isso porque deixo a baba escorrer nas aulas que exigem reflexão mais profunda. Esse não é o meu caso. Eu adoro. Acho divertidíssimo parar e ficar exercitando os cantos recônditos do meu cérebro, tramando como posso implicar com algum pensador metido a besta, principalmente se ele for um dos estelares da Constelação Impinatus Narigus. Quando um professor doutor me dá um Foucault intragável e me pede para dizer o que eu achei, tranquilizando com um “não tenha medo, pode dizer qualquer coisa, nem nós mesmos, professores, entendemos muito esse texto”, esse Foucault perde um tanto do prestígio, vira pó estelar. Eu só respeito os textos sedutores, aqueles que me querem. Os topetudos, que seguram a xícara com o dedinho mindinho levantado, fazendo gênero “eu sou muito inteligente pra você, mocreia”, ora… não. 

zequinha     Mas não é por questões de linguagem que eu disse aquilo da baboseira… Presto os devidos cumprimentos aos senhores pensadores, tiro o chapeu para muitos, levanto a saia para alguns e tudo o mais.  Uma vez que um dos princípios básicos da Filosofia é não se deixar acomodar num certo pré-conceito e não se alojar confortavelmente no senso comum; é sempre questionar a ordem pré-estabelecida e não aceitar as coisas como óbvias – enfim, uma vez que para filosofar é necessário ser um pentelho inconveniente, que pergunta “mas por quê?” ad infinitum, pensar é um pegapácapá, mermão. É um exercício de criatividade imenso, ginástica cerebral mesmo. É estar aconchegado na inquietação, no desvio.

 

     Isso fica claro quando pegamos uma obra de proposta “panorâmica”, que pretende colocar na mesa tudo o que já foi dito pelos nomes mais importantes sobre um determinado assunto. O objeto passa a ser mais o próprio discurso/debate filosófico do que o pobrezinho do peteleco inicial (o x da questão), e a obra inteira, uma ode à criatividade humana. Além do que cada um deles fala, também existem as discussões acerca do que os outros falaram sobre o que eles falaram, as milhares de interpretações e tentativas de decifrar suas abstrações. E aí, além da guerra de egos dos filósofos, entra a guerra de egos dos leitores/críticos, o que parece um pouco pior. Nesses últimos tempos, venho estudando o riso. O cabo de guerra entre forças titânicas que presenciei só me deixou com uma certeza: ninguém ri por último e, definitivamente, ninguém ri melhor.

     Mas a Filosofia não é pra dar certeza nenhuma pra ninguém mesmo. Ela existe pelo prazer (mesmo que para alguns possa ser masoquismo). É prazeroso admirar até aonde a mente humana consegue ir, as barras que força e transpõe, as bocas que deixa abertas, em reverência e pasmo. As brigas e teimosias. O pensamento que se forja na força do “mas” – Fulano disse isso, mas… Pensamos que algo é de certo jeito, mas talvez pode ser que seja de outra forma… Assim, assado, cozido, mal passado. De nada entendo das Ciências Sociais, mas imagino que seja a mesma coisa, uma vez que trata do ser humano. Quero dizer, é aquele negócio, não há verdade, há opiniões, ovo não dá mais colesterol alto, o Kadhafi se acha o rei da cocada preta, o que seria do verde se todos gostassem do amarelo, essa coisa toda.

     Não sei se chegamos de fato a aprender algo sobre alguma coisa, mas com certeza aprendemos a hell of a lot sobre a própria maquinaria pensante do homem e sobre toda a nossa baboseira eloquente e respeitável.


*Cucolândia das nuvens: termo de Nietzsche, em “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cale-se, cale-se! Você me deixa looouco!

 

 “Delícia de fechar os olhos, por um instante e assim ficar, sozinho, fabricando escuro… sabendo que existe a luz!” Mario Quintana


     Sempre vivi na cidade grande, com seus ruídos particulares e característicos. Mas sou daquelas que sente saudade de um silêncio ancestral, de uma quietude que quase nunca posso ouvir. Os barulhos da urbanização e da engenharia civil desembestada e desordenada – ai, que eu não posso com isso!

     Ao lado do meu apartamento, há um desses prédios subindo, em construção há uns dois anos agora. Acordo com as marretas, o cocoricó da urbis. Os caminhões enormes de cimento, grandes demais para minha rua estreita demais. É um ritmo mal orquestrado, com o qual nem dá pra se acostumar e anestesiar as caixas acústicas. Hoje sou portadora de déficit de atenção. É uma doença, não é? As crianças sofrem com esse diagnóstico. Mas não é que elas simplesmente sejam assim, elas pegaram, como uma gripe, desse mundo barulhento e perturbado. Na verdade, pode ser mais como uma tuberculose, que é mais séria. Quase posso sentir as britadeiras furando a porra dos meus tímpanos e daqui a pouco minhas orelhas vão cuspir sangue! Já chorei, de tanto desespero! Mesmo à noite, quando descansam, as porradas estão aqui, impregnadas no meu cérebro, acopladas aos meus ouvidos, como uma broca está acoplada ao punho de um dentista e de um peão. Os dois igualmente insuportáveis. Capitães Gancho da Era Moderna, terror das criancinhas e das moças de família.

     Também me incomoda a tagarelice, a voz alta, a televisão alheia. A Fátima Bernardes de outra pessoa é intragável. Shh… Falemos baixinho, como quem sussurra na maternidade… pois que eu acabo de nascer, agorinha.

     Não quero o silêncio constrangido de uma falta de assunto qualquer, não o silêncio mórbido do tédio e da indiferença, não o silêncio hospitalar do moribundo. Mas sim o sossego de um chuvisco, o acordo pacífico do grilo com a noite, a serenidade do motor da geladeira, a mudez afinada da respiração de dois corpos e outras cafonices...     

     Mario Quintana, meu poeta dos mais queridos, já disse que a amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo (e que o amor é quando o silêncio a dois se torna cômodo). Não há intimidade maior do que ficar em silêncio junto. Falar infinitamente e depois calar, com leveza, e assim conseguir permanecer, sem que seja um embaraço. Ser profundamente íntimo é poder ouvir tudo, qualquer segredo e qualquer besteira. Mas é também, e principalmente, poder ouvir nada… É não ser intimidado pelo silêncio, é compartilhá-lo e estar em paz, descansando de todo o barulho do mundo.  

 Shh… aquietemos, que hoje é quarta-feira de cinzas…

                                                                   Foto: Bárbara Porto


 

     Em geral, eu coloco vídeos como ilustrações, você clica se quiser e tal. Mas este aqui eu considero como mais do que mera ilustração. Ele é didático e deveria ser passado nas televisões das estações do metrô e dos ônibus…

     Longa vida aos headphones.

sábado, 5 de março de 2011

O blogueiro é um fingidor

Geri’s Game, Pixar

 

    Nestes dias em que tenho blogado sobre o eu, o início das minhas aulas de Literatura Portuguesa sobre Fernando Pessoa veio bem a calhar. Esse cara sabia o que não era o eu. Os heterônimos tinham mapa astral, for God’s sake. Se Fernando Pessoa blogasse, seria uma coisa de louco, bicho. Ele teria um tabuleiro de bolo, um de xadrez e um de ouija. Imagina, eu mal consigo dar conta desse aqui…


     Nos últimos posts, fiquei papagueando sobre mim como se isso muito interessasse a vocês… Oh, sim, eu não falo japonês, não tenho um autor preferido, tenho dúvidas lancinantes sobre fazer uma tatuagem e só furei as orelhas aos 12 anos. Mas o que aconteceu ou deixou de acontecer na minha vida não é o essencial de todo o meu egocentrismo blogueiro, dane-se! O que escolho dizer, como digo e quais as relações que faço entre as minhas experiências, no entanto, são  trampolim para outras questões bem mais interessantes do que os lóbulos das minhas orelhas.

     Para pegar um assunto em pauta atualmente, essa palestra sobre Mim serve, por exemplo, para discutir a propriedade intelectual (direitos autorais, plágio…). Hoje, no Prosa&Verso, d’O Globo, saiu uma entrevista com o pesquisador americano Lewis Hyde, com o título “Grandes criadores são seres coletivos”[1], em que ele discute, basicamente, a propriedade intelectual dos artistas e afins. Logo na primeira resposta, ele cita Goethe, assim: Goethe uma vez respondeu à pergunta “Quem sou eu?”, da seguinte forma: “Guardei e usei tudo que vi, ouvi e observei. Minhas obras foram nutridas por incontáveis indivíduos, inocentes e sábios, brilhantes e estúpidos. Infância, maturidade e velhice me trouxeram seus pensamentos, suas perspectivas de vida. Frequentemente colhi o que outros plantaram. Meu trabalho é obra de um ser coletivo que carrega o nome de Goethe”. A mesma ideia é reformulada por Borges[2], num trecho de entrevista exaustivamente citado por aí: No estoy seguro de que yo exista, en realidad. Soy todos los autores que he leído, toda la gente que he conocido, todas las mujeres que he amado. Todas las ciudades que he visitado, todos mis antepasados.

     Mas, escritores ou não, somos todos “um ser coletivo que carrega o nome de _____”. Eu sou uma massa de bolo, que convoca, necessariamente, vários ingredientes para o tabuleiro. A começar pelo meu corpo, “sou todos os meus antepassados”, é claro, está na cara: minhas grossas sobrancelhas portuguesas sobre meus olhinhos puxadinhos ling-ling. Depois, algumas caretas que são “coisa da minha irmã” e outros trejeitos que fui roubando aqui e ali, consciente ou inconscientemente, de pessoas aleatórias. Ao passar para o intelecto, devo o que penso e o que escrevo aos meus professores (alguns em muito especial), à família, aos amigos, aos amores, aos livros, aos filmes, ao Rio de Janeiro, às viagens que fiz, aos rótulos que me deram e etc ad eternum. Pois bem, se eu sou uma mistureba de tudo isso, o modo como conto a minha história é o que dá a liga.

pra viagem

     Por exemplo, eu gosto muito de viajar. É plausível que eu diga que gosto de viajar porque meus pais me carregaram junto com eles em todas as viagens que fizeram, e aos 6 anos eu estava enfiada na cabine de um Jumbo, conversando com o piloto. Outra possibilidade é que goste de viajar porque sempre recebi notícias de minhas irmãs por cartões postais e fotos de vários cantos do mundo. Ou posso dizer simplesmente que eu gosto de viajar porque sou sagitariana e fui batizada na capela do Galeão. Mas talvez eu só goste de viajar porque é um impulso comum a 80% da população mundial, que faz o trânsito aéreo/terrestre/marítimo e a indústria de turismo aumentarem todo dia. Escolhemos o que nos parece mais legal e contamos da forma que nos fará parecer uma pessoa mais interessante, mais propensa ao humor ou à tragédia.

     Precisamos olhar para o espelho e, com todo orgulho ou grande miséria, reconhecer em nossas rugas a nossa história. Escolhemos nossas memórias e narramos causas e consequências, como melhor nos aprouver. Aquietamos a mente com explicações e relações entre passado e presente que pareçam fazer sentido.

     Daí que o “trauma de infância” é o termo mais popular da Psicologia. Vamos procurar quem somos na intimidade da nossa infância, no limo do nosso passado. No divã, queremos tirar do armário nossos traumas enrustidos, esquecidos com o nosso bichinho de pelúcia encardido. Quer dizer, não precisa nem ser trauma, serve qualquer pista ou pontapé para algum traço da nossa personalidade, algum desejo, psicose ou úlcera.

    

 

      Eu é polêmico, pode ser que seja mesmo heteronômico…  Numa de minhas primeiras aulas na faculdade, minha professora, ao ver nossas carinhas embasbacadas com as coisas que ela falava (muito bem), disse, com humildade, que “nada disso aqui é meu, gente”. Mas tudo aquilo era ela, fazia parte dela, e foi através dela que chegou a mim, do modo brilhante como chegou. Toda e qualquer coisa que dizemos acaba sendo espécie de psicografia de um espírito que recolheu tudo o que já lemos, vimos e ouvimos, juntou tudo e assopra nos nossos ouvidos a cada vez que abrimos a boca para falar. E nem sabemos mais de onde veio… às vezes não é por mal que falhamos ao prestar a devida homenagem e conferir o devido crédito, com regras de citação da ABNT. É muito apud…*

      Eu só espero que haja uma boa dose de açúcar e chocolate na minha massa, sempre.

Porque eu… eu sou um docinho.

bad cupcake


[1] HYDE, Lewis. Grandes criadores são seres coletivos. O Globo, Rio de Janeiro, 05/03/2011. Prosa&Verso, p. 2.

[2] Não encontrei a referência original, mas através desse artigo, do jornal El País: http://www.elpais.com/articulo/ultima/BORGES/_JORGE_LUIS_/ESCRITOR/Jorge/Luis/Borges/estoy/seguro/exista/realidad/elpepiult/19810926elpepiult_6/Tes

*Pelo amor de Deus, não estou fazendo apologia e nem defendendo que podemos fazer trabalhos acadêmicos jogando as referências bibliográficas para as cucuias! Elas devem ser respeitadas!