Troquei umas palavrinhas com um professor de Direito outro dia. Um dos cursos que ele dá é Introdução ao Direito (ou equivalente). Tivemos mais ou menos o seguinte pequeno diálogo:
- E como é o curso? – eu pergunto.
- Ah, é uma… coisa, eu não sei bem…
- Hum… Uma baboseira?
- Não… é uma mistura de Filosofia com Ciências Sociais...
- Justamente.
Sei que não fui nada gentil, ele ficou boladex, mas depois de uma caipirinha eu perco minhas papas na língua e não foi por mal mesmo. Não disse isso porque deixo a baba escorrer nas aulas que exigem reflexão mais profunda. Esse não é o meu caso. Eu adoro. Acho divertidíssimo parar e ficar exercitando os cantos recônditos do meu cérebro, tramando como posso implicar com algum pensador metido a besta, principalmente se ele for um dos estelares da Constelação Impinatus Narigus. Quando um professor doutor me dá um Foucault intragável e me pede para dizer o que eu achei, tranquilizando com um “não tenha medo, pode dizer qualquer coisa, nem nós mesmos, professores, entendemos muito esse texto”, esse Foucault perde um tanto do prestígio, vira pó estelar. Eu só respeito os textos sedutores, aqueles que me querem. Os topetudos, que seguram a xícara com o dedinho mindinho levantado, fazendo gênero “eu sou muito inteligente pra você, mocreia”, ora… não.
Mas não é por questões de linguagem que eu disse aquilo da baboseira… Presto os devidos cumprimentos aos senhores pensadores, tiro o chapeu para muitos, levanto a saia para alguns e tudo o mais. Uma vez que um dos princípios básicos da Filosofia é não se deixar acomodar num certo pré-conceito e não se alojar confortavelmente no senso comum; é sempre questionar a ordem pré-estabelecida e não aceitar as coisas como óbvias – enfim, uma vez que para filosofar é necessário ser um pentelho inconveniente, que pergunta “mas por quê?” ad infinitum, pensar é um pegapácapá, mermão. É um exercício de criatividade imenso, ginástica cerebral mesmo. É estar aconchegado na inquietação, no desvio.
Isso fica claro quando pegamos uma obra de proposta “panorâmica”, que pretende colocar na mesa tudo o que já foi dito pelos nomes mais importantes sobre um determinado assunto. O objeto passa a ser mais o próprio discurso/debate filosófico do que o pobrezinho do peteleco inicial (o x da questão), e a obra inteira, uma ode à criatividade humana. Além do que cada um deles fala, também existem as discussões acerca do que os outros falaram sobre o que eles falaram, as milhares de interpretações e tentativas de decifrar suas abstrações. E aí, além da guerra de egos dos filósofos, entra a guerra de egos dos leitores/críticos, o que parece um pouco pior. Nesses últimos tempos, venho estudando o riso. O cabo de guerra entre forças titânicas que presenciei só me deixou com uma certeza: ninguém ri por último e, definitivamente, ninguém ri melhor.
Mas a Filosofia não é pra dar certeza nenhuma pra ninguém mesmo. Ela existe pelo prazer (mesmo que para alguns possa ser masoquismo). É prazeroso admirar até aonde a mente humana consegue ir, as barras que força e transpõe, as bocas que deixa abertas, em reverência e pasmo. As brigas e teimosias. O pensamento que se forja na força do “mas” – Fulano disse isso, mas… Pensamos que algo é de certo jeito, mas talvez pode ser que seja de outra forma… Assim, assado, cozido, mal passado. De nada entendo das Ciências Sociais, mas imagino que seja a mesma coisa, uma vez que trata do ser humano. Quero dizer, é aquele negócio, não há verdade, há opiniões, ovo não dá mais colesterol alto, o Kadhafi se acha o rei da cocada preta, o que seria do verde se todos gostassem do amarelo, essa coisa toda.
Não sei se chegamos de fato a aprender algo sobre alguma coisa, mas com certeza aprendemos a hell of a lot sobre a própria maquinaria pensante do homem e sobre toda a nossa baboseira eloquente e respeitável.
*Cucolândia das nuvens: termo de Nietzsche, em “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”.


Aaaah, é! O negócio e escrever muito e de forma bastante rebuscada. Só os muito inteligentes entenderão... Que raiva! hahaha
ResponderExcluirInteressante isso de a filosofia existir pelo prazer. Eu gosto bastante disso. Geralmente gosto mais do caminho do que do objetivo. :P
Que legal seu multiply, Gisa! Não sabia que existia isso o_o
ResponderExcluirÉ bem... multiply mesmo! hahaha bacana!
E, sim, o caminho é bem mais interessante :)
Os gregos consideram filosofar e fazer matemática um jogo mental, uma brincadeira de pensar. Para muitos dos nossos (pseudo)intelectuais se gabar é mais importante do que brincar de pensar, ajudar o outro a entrar na brincadeira ou simplesmente aproveitar o jogo.
ResponderExcluirTriste.
já que falemos sobre clássicos e tal, é de bom tom compartilhar um texto do ilustríssimo Machado de Assis
ResponderExcluirhttp://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1940