Como sabemos, o Japão e a Líbia vêm disputando lugar no noticiário nas últimas semanas (e agora a França também tá procurando um lugarzinho ao sol). Mas como eu nada sei da Líbia, vocês terão que se contentar com mais um post japonês.
Não sei em que momentinho da minha infância eu não fiz click para a terra dos Pokémons. Como todos já sabem, eu não falo japonês. O único contato sentimental que eu tenho com a língua japonesa é o sotaque do meu pai. Cresci com primos (de olhos grandes, do lado da minha mãe) fascinados, estudando japonês, participando de concurso, montando
banda, pegando faixa-preta em artes marciais e o escambau. Mas eu, de olhos pequenos e cara achatada… nem tchum. Passei a infância quase sem me dar conta de que eu era “diferente”. Por incrível que pareça, só agora começaram a me chamar de japa, japinha, japinha-do-meu-coração.
Enquanto a viagem à França aos oito anos me rendeu um coup de foudre1 de me foutre2 para sempre, o Japão, aos seis, parece não ter me chacoalhado minimamente… (Não me venham com os “traumas de infância enrustidos”, que tenho
horror!) Em julho de 2010, quatorze anos depois, estive lá novamente. Na primeira metade da viagem, em meu diário, cheguei a confessar uma frase dolorosa, que, depois de algumas observações politicamente incorretas sobre Tóquio, dizia: do Japão, amo o meu pai.
(Muito embora meu pai diga que “estou mais… mais para brasileiro, né? Eu sou japonês, eu sssou japonês... porém, pouco diferente do que Japão do hoje... talvez descendente japonês nissei... talvez seja educado mais japonês do que próprio eu... que sou Japão, nascido no Japão e formei lá no Japão... porém... me adaptei mais para cultura brasileira...”)
Felizmente, quando começamos a sair do perímetro urbano e entrar na parte mais rural, com plantações de arroz, paisagens vulcânicas e construções mais tradicionais, meu humor foi melhorando. Mas veja, numa viagem como a minha, na correria de 16 cidades/lugares em mais ou menos 20 dias (Tóquio, Osaka, Nara, Quioto, Hiroshima, Miyajima, Nagasaki, Kumamoto, Mt. Aso, Beppu, Okayama, Atami, Hakone, Mt. Fuji, Niigata, Senami – ufa!), mais dormindo no ônibus e comendo no shinkansen do que andando
pela rua, não tive tempo de simplesmente take my time e flâner baudelaireanamente. Entrava e saía de pontos turísticos empanturrados de turistas (a.k.a. classe de gente mal educada). Tive muitos deslumbramentos, mas também muitos estresses, claustrofobias e, definitivamente, nenhuma epifania. Tive a pouca sorte de pegar muitos dias chuvosos e cheguei mesmo a pensar que naquela terra do sol nascente não havia sol algum.
Mas há.
O sol sempre volta a nascer.
Nasceu para mim, que pareço estar ficando mais japonesa… Não é raro me encontrar emplastada de protetor solar, maquiagem, leque e sombrinha. Já era tempo. Daqui a pouco, estudo japonês. (Mas os cabelos azuis, continuo dispensando)
Que o sol torne logo para os japoneses.
[1] amor à primeira vista
[2] f*der

Ai, japa do meu coração (quem te chama assim sou eu, só EU), amei seu texto. De verdade. =)
ResponderExcluirPor algum motivo que desconheço, não gosto muito de deixar comentários, prefiro dizê-los pessoalmente. Mas gostei. Muito. Acho que o final é ótimo, conversa muito bem com seus outros textos.
ResponderExcluirbjo
Não se acanhe!
ResponderExcluirLonga vida aos comentários!
Viagens corridas como essa dificilmente nos permitem gozar da tranquilidade necessária para se apreciar os lugares, os costumes locais, a vida de lá. Como ser um flaneur nesta maratona turística? Mas que bom que você ao final conseguiu desfrutar mais da viagem e desta terra incrível que é o Japão, da qual você é um pedaço. Continue este resgaste cultural, Kemi, dificilmente se arrependerá. Lindo post.
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