domingo, 20 de março de 2011

A legião estrangeira

 

    Preciso confessar que tenho uma invejinha comichona dessas pessoas que têm muitas histórias pra contar e que contam bem. A vida deste cidadão não é um marasmo porque 1) coisas excitantes, engraçadas ou simplesmente incomuns acontecem com esse cara e 2) ele sabe transformá-las em boas histórias, ou 3) mesmo que não aconteçam coisas tão extraordinárias assim, o sujeito vai saber tirar uma boa história da ida mais comum ao supermercado, o que pode ser até melhor do que 1 e 2.

 

     Eu não herdei os talentos da minha mãe. Ela tem uma memória de elefante e é uma excelente contadora de casos. Eu tenho memória de peixe e sou uma péssima oradora. Eu talvez seja uma razoável ensaísta, mas tenho sérias dúvidas quanto ao meu talento para narradora de histórias – principalmente se for para uma mesa cheia de gente, e eu precise ser engraçada. Não dá, nasci sem o dom pra Stand Up e nunca fiz CAL. Coitados dos meus filhos, vão ficar sem historinha antes de dormir. Mas um negócio curioso aconteceu comigo há algum tempo e vou aproveitar que estou no território seguro do Windows Live Writer, tipografando mudamente.

 

    Estava eu num pub em Ipanema, cheio de turistas, com um casal de amigos estrangeiros que turistavam no Rio – ele francês, ela alemã. Falávamos em francês. Um tempo depois, chegaram dois amigos americanos (a gringalhada de dezembro). Daí mudamos para inglês.

Acontece que tinha um cara no balcão que me encarava descaradamente, mas tão descaradamente como nunca ninguém nem na Lapa tinha feito. Aí ele passou prum lado, voltou, passou de novo… quase enfiando seu grande sorriso “sedutor” na minha cara. Ficamos imaginando de que país essa criatura seria. Até que ele resolveu passar de novo e finalmente dizer you’re very beautiful!, com um sotaque que denunciava que ele não era falante nativo. Resolvi perguntar where are you from?. Então ele me diz, todo orgulhoso e gostosão: BRAZIL!

(…)

                                           Mas o pior ainda está por vir.

        Depois disso eu ri e falei ah! eu também sou brasileira!. E eis que ele me solta a pérola: caraca, DESCULPA! e simplesmente se escafede. 

Seria ele um prostituto querendo se aproveitar da estrangeira?

       Porque, sim, você pode se interessar por uma pessoa porque ela é estrangeira, porque é diferente, interessante, tem referências outras, fala, anda e olha com um sotaque muito sexy etc. Mas você se desinteressar por alguém porque ela não é estrangeira, aí you’ve gotta be kidding me, cumpadi. Eu só fui very beautiful enquanto era uma japonesa exótica e afrancesada, uma turista efêmera e… endinheirada? NOT. Pobre dele. Pois fique o senhor sabendo que eu sou very beautiful mesmo com o meu sotaque carioca de quem acabou de achar um isqueiro na esquina da escola.

        Eu sei que pode ser uma experiência incrível e espantosa ficar sabendo que eu sou carioca. Com essa onda de posts japoneses (eu sei que tá ficando repetitivo, mas um dia canso, depois de já ter cansado muitos de vocês), me perguntaram como é ser descendente numa cidade como o Rio, onde quase não se veem pessoas da minha espécie. E é verdade. Se você mora no Rio e tem algum tipo de tara por japas gatchenhas, meu camarada… eu sou o seu achado. (…) Brincadeiras à parte, no post clássico das perguntas frequentes (se você pretende acompanhar este blog, é bom que o tenha lido), faltaram justamente as que se referem ao tópico “natural de”. Acontece que muita gente, antes de perguntar se eu falo japonês, me pergunta “você é… japonesa? Nasceu lá?”. Aí eu respondo que não, sou brasileira. E a seguir vem… “então é paulista?”. Se bem que muitas vezes o “paulista” já é antecipado por aqueles que se consideram mais espertos.

      Pra vocês (leitores não cariocas? alguém?) terem uma ideia de como a paisagem aqui é desértica de japas, um caso curioso: uma amiga comentou há pouco tempo sobre um japa muito gato que conheceu, “o japa mais lindo do mundoooo”. E eu já fui falando o nome do indivíduo, apesar de não conhecê-lo realmente (uh, ninja). Se fosse o “loiro mais lindo do mundo” ou o “qualquer-coisa mais lindo do mundo”, eu daria de ombros e pediria pra ver o Facebook. Mas agora, o japa mais lindo… não dá pra ter dúvidas. E olha que eu nem sou chegada na micro-colônia.

      Mas o que é nascer aqui? Existe um ser daqui? Estar misturada, ser mestiça, ser uma nipo-brasileira afrancesada faz de mim um produto paraguaio? Made in India1? Quero dizer, mal acabada e fake? O que é estrangeiridade?

      A ver…


[1] Made in China poderia causar uma certa confusão, sabe-se lá.

13 comentários:

  1. :)
    Também adoro o povo que tem história para tudo, e as conta bem...mas você também faz isso, e trouxe um caso ótimo, que pode, perfeitamente, acontecer no Rio de Janeiro, nesta sua experiência no pub.

    Obrigado por responder a pergunta, parte da minha família veio de uma colônia alemã do sul do país, mas isso, para mim, nunca fez muita diferença, pois eu já nasci no Rio de Janeiro, totalmente distante da realidade do grupo de uma "colônia específica", mas via, na infância, quando meus primos e parentes do sul chegavam para reuniões específicas (tipo aniversário do meu bisavó, que era alemão), e criavam lá a "mini colônia" deles na festa, as crianças já sabendo falar alemão, mesmo que só dizendo os números na língua que eles valorizavam tanto.

    E todos muito diferentes de mim, que já sou produto paraguaio total *risos* Estou longe da pele branquinha e dos olhos claros e cabelos loiros, que é praticamente a realidade de todos desta parte da família.

    Eu super acho japas lindos, mas é raridade da raridade ver um por essas bandas cariocas/fluminenses...tenho duas pessoas queridas no facebook que são descendentes de japoneses e cariocas ou fluminenses(você e mais uma amiga) e demorou anos, séculos, a eternidade, para eu conhecer as duas (e olha que eu ando pela vida, sou rodado *risos*), em SP, não, já sinto que existe esta idéia de "colônia" que eu vejo nos parentes do Sul e ao mesmo tempo vejo uma grande quantidade destes descendentes, seja na mistureba brasileira maravilhosa que for...

    Gentem, vou parar, daqui a pouco vira um blog dentro do seu blog *risos*
    Adorei ler.
    Bjs

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  2. Adorei te responder e te ler também, Oz!

    Esse deslocamento dentro da própria família também é um treco tensinho... Imagina quando eu cheguei lá na casa da minha tia e nos comunicávamos por um inglês precaríssimo... Os seus parentes falam alemão, mas pelo menos também falam português hahahaha

    Nessas colônias, o que as pessoas escolhem trazer da cultura "origem"? O que deixam de lado... o que mudam?
    Humm...

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  3. Eu imagino :)

    Deve ter sido mega tenso mesmo, aqui, na verdade, numa participei muito da vida da família do Sul, fico sabendo notícias através de minha mãe, eles sabem da minha existência, mas já não tenho mais um rosto para eles.

    E sim, sem dúvida o fato de falarem português já ajuda muito! Eles ficavam muito na área rural de SC, mas o tempo foi obrigando o povo a se espalhar pelo estado e hoje, boa parte vive nas cidades, o que acabou por impedir que eles ficassem só no alemão (como me parece que existe em algumas colônias rurais de lá, onde se prioriza mais o alemão do que o português).

    Eu nunca aprendi alemão,mas, no meu caso, ninguém se espanta, até pq nem dá para perceber minha ascendência heheheh

    Olha que esta pergunta que você fez é uma que eu gostaria de responder, mas meu pouco contato não permite...os que vieram pro Rio, perderam completamente a identidade germânica, eu e minha mãe, já nascidos no Rio, sempre nos preocupamos mais com a origem (até pelas histórias todas que envolvem meu bisavô, fugindo da Alemanha nazista e seus documentos, que, provavelmente, agora, dois anos depois de sua morte, já estão todos perdidos, se é que já não estavam antes...) do que minha avó, por exemplo.

    Mas, ainda assim, nosso interesse sempre foi mais político do que necessariamente social...os do Sul, bom, até a última vez em que os vi (bote aí uns 10 anos), eles eram preocupados em manter a língua viva, a culinária...acho que língua, religião e culinária são coisas que todos os grupos sociais tendem a manter, estejam onde estiverem, né?

    Agora a extensão disso, é um mistério :)

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  4. Puxa, Oz, vc não tá a fim de organizar uma excursão pra SC?
    Ou manda uma cartinha pra Ana Maria Braga, ela tem um quadro no Mais Você em que uma pequena equipe vai se enfiando nuns lugares recôndidos no Brasil. Eu adoraria ver como é a vida germânica numa fazenda afastada, no interior... hahaha

    E pois é... sobre essa sua última observação, acho que é uma das coisas que me fazem não estar muito aí... meu pai nunca falou japonês comigo, é ateu e só se mete na cozinha pra fazer, no máximo, miojo...

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  5. *risos* Vamos organizar uma um dia, com um monte de gente...mas sem Ana Maria Braga, peloamordeDeus.

    Os do SC são legais, os do RS são mais hardcore, tem aquele povo separatista lá, que ainda sobrevive de ilusões racistas, mas no SC é mais relax.

    Um dia vou perguntar para a minha avó como era viver numa fazenda afastada e relato para você...eu sempre fico sabendo muito sobre meu bisavô, do que ele contava e do que minha avó me conta também, mas da parte mais "vida privada", pouco sei.

    Adorei seu pai :)

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  6. Conta pra mim, sim! Adoro saber essas coisas :)
    Aliás, faz um blog, Oz.

    E meu pai... ah, meu pai é o máximo :)

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  7. Eu só tive/tenho 3 alunos japas =) Os três são lindooooosssss! Os mais lindos do mundo, mas, claro, vc é a 01 nessa lista ;)

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  8. Acho que chegamos a falar sobre isso aquele dia da minha gafe, das dificuldades (e curiosidades) de alguém com a etnia tão marcada viver numa cidade como o Rio de Janeiro, com tão poucos grupos étnicos ou colônias estrangeiras organizadas.

    Sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem amigos importantes e vindo do subúrbio carioca, e nunca passei por isso no exterior, já que minha cara e meu sotaque quando falando em espanhol sugerem que eu seja "hispano", ajudando muito nas viagens que fiz pela América Latina. O problema era justamente quando descobriam que sou brasileiro e me cobriam de perguntas tolas e entusiastas sobre futebol, carnaval e praia, tudo o que menos gosto aqui da terrinha.

    Como explicar que um brasileiro não gosta de futebol? Como explicar que você com estes olhinhos rasgados não fale japonês?

    E você é uma boa contadora de histórias sim.
    Sorria com a mãozinha na frente da boca e concorde.
    ;)

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  9. Eu, como muitos outros comentaram, discordam de você. Você é uma boa contadora de histórias. Lembro que conversávamos bastante e você sempre tinha algo legal pra falar. De resto, ainda digo que além de japa vc ainda é exótica, morena, diferente da japa usual :D

    beijos

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  10. Ai, Pacha, o problema dos rótulos! Eu bem que tentei gostar de futebol, não deu. Gostava de carnaval, mas esse ano... não deu. E praia, gostava também, mas agora que virei japa... não dá.
    Então, Lucas, sinto te dizer, mas não sou mais morena!

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