Alguma coisa está a ponto de
acontecer. Não sei se é porque leio Mrs Dalloway e porque aquela mendiga canta
através dos séculos na boca do metrô e eu me esfolo porque preferi pegar a
redução de seis euros no supermercado pra mim em vez de doar aos sem-teto – faz
tanto frio na Europa. Ai, é só o medo que nos dá a medida do sofrimento dos
outros. A mendiga eterna de Mrs Dalloway, aquele maluquinho que sacudia a
cabeça na igreja do Largo do Machado e que depois mudou para Copacabana. Aquele
que andava de terno e calça social em Laranjeiras. As crianças crescem pela
primeira vez quando, andando na rua, pequenas, do mesmo tamanho de uma pessoa
sentada no chão, são ensinadas a não olhar, a desviar seu ponto de vista
privilegiado pela primeira vez. A humanidade se perde logo na primeira infância.
Não nos perdemos quando nos desviamos do bom, nos perdemos quando nos desviamos
do ruim. As roupas pesam tanto, as camadas de lã, as luvas, os chapéus, as
botas... o peso da Europa, alguma coisa horrenda parece prestes a acontecer, estamos
a dois anos dos cem anos do 14-18; uma ameaça, esse peso, o euro, a irmandade
financeira para as cucuias, os gregos, os portugueses, os italianos, os árabes
– sejam os árabes quem forem, são
quase judeus (nunca aprendemos nada); em Strasbourg 80% dos estudantes sofrem
de depressão. Os anos maravilhosos da juventude... deprimida, desempregada,
suicida. Anthony Patch estava certo? Não se entende a melancolia pela infância
antes de crescer. O que fez Gloria sair e comprar uma boneca, para conseguir
dormir; o que faz uma mulher deitar a cabeça no travesseiro e chupar o dedo,
para conseguir dormir. Sabemos que crescemos quando entendemos. Até as estrelas
são canibais – é verdade, vi hoje cedo no jornal que uma estrela comeu uma
outra – por que chorar de susto pelas pessoas canibais, pelas moedas canibais?
E mesmo assim, contra essa natureza, não parece direito que nos engulamos uns
aos outros. As favelas foram pacificadas, o G1 varreu as notícias de assalto e
assassinato – quero acreditar nisso como acredito que uma estrela comeu a
outra. Clarissa, eu também confundo os armênios e os turcos, também não toco
piano, oh não, sou meio esnobe também, Clarissa. Que horror. Mas diferente de
Micòl, porque não estou convencida de que Micòl Finzi-Contini fosse esnobe. Mas
e a vida, essa chuva, Strasbourg, nesse momento de dezembro... 80% dos
estudantes de Strasbourg sofrem de depressão.