terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pernas pra que te quero!


L’amour vient d’où? 
Et puis après, pour s’enfuir, 
comment est-ce qu’il court?

sábado, 19 de junho de 2010

O choro


     O choro é a verdadeira linguagem do homem. O homem não nasce falando como o pinto nasce piando. O homem nasce chorando.
   O choro é a verdadeira língua do homem. Esta que estou usando agora é estrangeira, estrangeiríssima, e nenhum de nós passa no exame de proficiência porque não há letra que escorra feito lágrima.

sábado, 29 de maio de 2010

Não-sei II


     O coração realmente bate mais rápido quando a gente escreve. Quase como se estivesse em cima de uma esteira aumentando a velocidade, inclinando o negócio todo, quase tropeçando nos pés e perdendo tudo e caindo pra trás, no chão, no ridículo. É isto escrever. Mesmo que não seja nada demais, nada de gênio, nada mesmo, nothing at all, rien de rien, nadica de nada. Com esse maldito teclado é quase trabalho de britadeira, tec tec tec tec tec tec. Sou um peão, cuspo em cima de tudo isso e se passa uma mulher eu grito gostosa, e eu passo a mão nela todinha. A mão literária, porque peão de obra também não passa a mão de verdade em ninguém. A não ser em estupro, eu sou boa em estuprar mulheres. Por favor, não descontextualize esta frase e não a use contra mim. Veja bem, estupro mulheres literariamente. A arte é maravilhosa, abro as pernas e me enfio entre fios de cabelo e xampus e sangues e tudo. Porque mulheres sou eu, são as minhas pernas que abro e tudo isto que escrevo tec tec tec tec tec, todas elas que desfilam com seus homens, seus amores, seus quilos, seus choros, suas paranoias, seus gritos, suas solidões, alegrias, todas elas são só um grande estupro a mim. E saio toda arrebentada. Estou toda arrebentada. E nada é bom. Elas são personagens ruins, muito provavelmente porque eu sou uma escritora ruim, mas também porque eu sou uma personagem ruim. Porque essa mania de fragmentação ? É fácil ver os pedacinhos de nós, dos outros, só fazemos é fofoca de nós mesmos. Dificil é se ver como inteiro. E eu sou tão inteira. E todos somos. Temos só um fio de vida que começa e termina. O mar não é fragmentado, o mar é um inteiro que tem ondas, que são quebradiças na praia, que batem cada vez diferentes e renovadas, mas ainda assim o mar é um inteiro. Fragmentação é o caralho. O que há comigo são ondas. Eu não sou cacos de vidro, não sou porra de mosaico nenhum. Mas não-sei me escrever por inteiro numa personagem que seja boa, ou em diversas personagens. Encontrar inteiridades nesse mundo fragmentador. Não-sei. Não-sei o que estou dizendo.

Não-seis


      Prometi que não iria mais escrever sobre escrever. E também não escreveria mais em francês. Mas o francês me tem vindo antes do português. Minha língua já não me diz. Já não me diz nada. Valha-me deus, se já disse algum dia alguma coisa, vou lá eu saber. Agora, sobre escrever, quanta merda. Não tenho o que dizer. Em sala de aula, digo sempre besteira, falo falo falo, melhor ser ignorante por três minutos que pela vida toda. Mas só eu sou ignorante. Todos sabem a vera, eu com hipóteses medíocres sobre um conto qualquer repetindo e repetindo as mesmas questões já cortadas pela professora – não, assim não pode ser, não, assim é que não é, porque, veja bem, Akemi, e assim por diante. Em conversa de bar, calo ou digo besteira, não sei do que estão falando ou sei muito pouco ou simplesmente não me sei fazer entender – eu deveria me fazer entender. Eu trabalho com a palavra. Mas engasgo em não-seis gaguejados, aquela má assassina que treme o dedo em cima do gatilho e, em vez do tiro, sai o grito – da derrota, é impossível atirar, é impossível dizer o que não sei o que é. Há algo ali que sinto, mas que não vejo. Não vejo. Talvez todo o blablabla da crítica literária seja esse tatear engasgado por cima do que se sente em não-sei. A língua não recobre tudo. A pele é celular. O celular é plástico. O plástico é petróleo. O petróleo é terra. A terra é big-bang. A luz se fez num estrondo molecular ou sei lá eu o que foi aquela porra. Não-sei o que foi aquela porra. Não-sei o que foi ontem, não-sei o que foi hoje, não-sei o que é isso, que merda, não-sei. Estou fazendo a mesma coisa que odeio que os outros façam, que escangalhem a língua, eu não escangalho a língua, mas que digam que há coisas maiores do que ela, menosprezando-a, mas usando-a e gastando-a e deixando-a toda encardida de nojo da palavra, do pensamento, de um querer saber através da língua, através, através, atravessado, num bum, num big-bang, jamais farei um big-bang, não sou poeta, não sou maratonista, meu fôlego está se perdendo, meus dedos em corrida de cem metros e eu só coloco vírgulas porque fazer ponto e shift letra maiúscula demora muito tempo, os acentos é o word que coloca.
      Ou sei lá. Só segura o meu cabelo e me deixa vomitar.
      Nada sei - sem nenhuma pretensão socrateana nenhuminha mesmo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do barulho insuportável


Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronta a estalagmite.

domingo, 9 de maio de 2010

2 notas mal feitas sobre a Literatura


1 – A literatura enquanto gastronomia

Diz Walter Benjamin, em seu texto clássico “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” (p. 205):

“A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. [...] O próprio Leskov considerava essa arte artesanal – a narrativa – como um ofício manual. ‘A literatura’, diz ele em uma carta, ‘não é para mim uma arte, mas um trabalho manual

Ora, compartilho do maravilhoso insight de ser o labor literário um trabalho manual e a narrativa uma forma artesanal de comunicação. Mas me parece que o trabalho manual, no texto de Benjamin mais intimamente relacionado ao fiar e ao tecer, não chega a contemplar etapas importantes da escritura, e, por que não, da leitura. Eu diria que o fazer literário, das artes manuais, se aproxima mais da gastronomia. Da arte culinária.
Criar receitas, quebrá-las, renová-las. Juntar ingrediente daqui, dali e dacolá. Sujar tudo. Fazer experimentações, sentir com a boca o gosto, com o nariz o cheiro, com os olhos as cores e os ouvidos o mastigar, ver tudo se harmonizar debaixo da mesma água na panela, do mesmo vinho na língua. Provar da colher enquanto a panela está no fogo, colocar mais sal, mais pimenta, refogar. Não deixar ninguém chegar perto que a cozinha é minha. Tira a mão, menino! Encostar a barriga no forno, cortar o dedo, sangrar em cima do frango. Chamar sabores de todos os cantos do mundo e aprontar um prato de gosto único, assinar embaixo, a marca do chef. Ver o bolo crescer ou solar. Àqueles que escrevem, pergunto se isso não é igualzinho a literatura. Isso na feitura.
Na leitura – que pode ser tanto do chef quanto dos outros – ainda é a comida. As palavras, como a comida, também nos entram por todos os sentidos e, finalmente, nos fazem. Toma o corpo o que quer, o que precisa, e o resto joga fora, esquece. Às vezes certas coisas passam da dose, aí vem o colesterol, a insensatez, a diabetes, a sensibilidade aguda. O corpo tem memória do que comeu como o cérebro tem memória do que leu. O que se come molda o corpo e os exames de sangue assim como o que se lê molda o espírito e as páginas a serem escritas.
Fala-se tanto da experiência da morte na literatura – ver acabar uma história, ver o ponto final, morrer sem ter morrido de verdade. Com a comida também se morre nas últimas mordidas. Podemos atrasar o final da leitura de um livro com tanto pesar como se alenta a limpeza do prato, se não podemos repetir. Mas a leitura do livro pode ser feita de novo e a receita do prato também. Nunca serão exatamente os mesmos, lá isso é bem verdade. Os gostos sempre mudam das segundas, terceiras e infinitas vezes.
Vê-se aí por que meu blog de chama Tabuleiro de Bolo.

2 – Das interjeições

Comecei a ficar com raivinha da indústria literária ano passado, estudando Teoria da Literatura II, mas cada profissão tem sua sina de todo modo, é preciso que me ajeite com a minha.
Triste é ouvir que, enquanto críticos (valha-me deus) e professores, não podemos ler com interjeições, limitando nossas apreciações de um texto a “Oh! Ah! Uh! Ui!” e outras variações de reações imediatas e irrefletidas. Nós precisamos descobrir o porquê dessas reações, destrinchar e dissecar todas as palavras, o balé sintático, desnudar o mágico, revelar-lhe o truque. Não somos leitores comuns, claro está. Somos leitores chatos de galocha, os que vão lá tirar o fantoche e revelar o braço do ator. Não suportamos ser ludibriados pelo texto, chafurdamos nos clássicos para sempre. Pobres de nós. Ainda nos pagam para isso.
Hoje, lendo um texto de Teresa Cristina Cerdeira da Silva sobre Saramago (“José Saramago, entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”, Lisboa: Dom Quixote, 1989), vi que essa sensação não é apenas minha, vejam só: “Porque aqui se conta também uma história e uma história de paixão, que só os grandes textos sabem deixar no leitor, até mesmo naqueles que não conseguem mais – por força do hábito – gozar o prazer de uma leitura sem ter um lápis na mão”. Ai, que desgraça. Soubesse eu aos 16 anos que estava virando uma acadêmica e crítica literária quando rabisquei meu primeiro livro de ficção, teria voltado atrás! Agora é tarde, a mão coça, as interjeições, quando vejo, já se calaram.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Que fazer dos sonhos


Depois de meses sem sucumbir ao prazer infame da fumaça resistindo pateticamente com chicletes e adesivos espalhados pelo corpo, hoje não pôde. Tivera um sonho daqueles de que não se esquece nunca e que vêm, de quando em quando, de pouco em pouco, em outros sonhos ou de olhos abertos, a nos assustar novamente. Havia sido atingida e morta por uma bala saída de uma máquina fotográfica, dessas grandes, dos fotógrafos profissionais. Ela, que não era talentosa para sonhos, havia visto a si mesma por dentro, assistindo pararem seus órgãos, em espécie de pintura visceral de Frida Kahlo. Viu-se morta por fora e por dentro e acordou chorando, desesperada por estar morta. E então chorou ainda mais, por estar ainda viva depois de haver morrido. Precisava de alguém para contar e, no entanto, todos já se tinham ido. Pensou em ligar, mas sonhos não se contam por telefone por não serem coisa tão séria que valha o tempo e o preço. Sem mais ninguém na casa, nem um cachorro, nem um gato, nem um peixe ou hamster, foi para o espelho comprido do quarto, inchada, vermelha, com o rosto molhado de muitas lágrimas por fora e de muito sangue por dentro; a respiração perdendo-se entre soluços, engasgos e catarro – viva, viva, viva. Chegava-se mais e mais para perto da própria imagem, mimese fugaz, porém a mais honesta; e tratava de limpá-la quando o embaçado da expiração deixava-a nublada demais. Apesar de o embaçado lhe dar mais uma segurança de sua vivacidade orgânica, era preciso a nitidez. A nitidez precisa e imperturbável do espelho que, mesmo descolando-a de si, dava-lhe uma certeza mínima de que se mexia ainda e de que ia acontecendo-se. O espelho não a mataria jamais; ao contrário, ele ia morrendo em solidariedade. Foi atrás do último cigarro que guardara e o acendeu. E sentiu a garganta, os pulmões e tossiu. Só se despregou da hipnose da sobrevivência quando alguma coisa começou a ser dilacerada na construção em frente ao prédio, com tanta dor e tanto grito, grito de coisa a ser desfeita para que outra coisa se faça. Olhava pela janela hoje sem se preocupar em fechar as cortinas para que os operários não a vissem, olhava simplesmente, como quem percebe os átomos da vida a agitar-se e a fazer o mundo.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Saída à rua


     Saio à rua no final da tarde, o dia menos quente, as pessoas mais sassariqueiras, é hora de pisar logo em casa e aprontar o jantar. Não sei a quantas anda o céu, se escarlate ou se enegrecendo logo. Os olhos são necessários ao chão, tantos sapatos já foram deitados fora por conta dessas distrações de céu, sem prestar atenção meto um pisão nos cocôs dos cachorros, que estas ruas são latrinas caninas e ninguém há de dizer que não. Esquecem-se os saquinhos plásticos em casa ou teve o cachorro uma diarreia, impossível de recolher, deixemos aí mesmo. São as mimações daqueles que muito querem ter mas de muito pouco sabem cuidar. Cães urbanos necessitam de certas atenções porque asfalto não é solo que se adube, e nem os meus sapatos, tomem nota. Saem os miúdos e os adolescentes do colégio, passam os garotos de treze a dezessete anos malandreando alto, vai demorar ainda para que vejam que ser leks não faz deles homens, e muito ao contrário fazem o caminho, mas deixem-nos estar que logo cai a ficha. Vão as garotas de corpos feitos à metade e alguns anos ainda se passarão (ou talvez mesmo jamais isso aconteça) até que descubram que a difamação da feiúra das outras não lhes tira as espinhas à cara nem a caspa ao cabelo. Os picolinos, alguns agarrados à empregada desejando que fosse a mãe a buscá-lo, outros sem se dar por conta de quem os busca, tantos sem ter quem os buscar, voltam sozinhos para casa aos nove anos e assim é que é.

sábado, 1 de maio de 2010

Vestígios de meu avô


     Meu avô mancava de uma perna e usava uma bengala de madeira clara, bem lisa, gasta, no formato idêntico ao daqueles docinhos em formato de bengala que aparecem no Natal. Ele usava um All Star preto de cano alto, era careca, tinha bigodes brancos e orelhas grandes. Nunca descobri se usava dentadura, mas tenho minhas dúvidas. Ele lia todos os livros que me mandavam ler na escola, lia todas as partes do jornal, todos os classificados. Também desenhava barcos e via todas as novelas. Contava piadas, sempre as mesmas, mas demorava à beça pra chegar ao final porque sempre começava a rir no meio. Ele ria engraçado, não abria a boca, era uma gargalhada pra dentro que tremia o corpo inteiro e ele se chacoalhava todo, ficava com a careca rosada. Foi dele que eu mais ri na vida. Ele jogava damas comigo e me emprestava as coxas para deitar a cabeça quando eu queria dormir no carro. Era para o quarto dele que eu corria quando minha mãe brigava comigo. Ele contava sempre as mesmas histórias e me deu algumas lembranças preciosas, uma casa na Ilha do Governador, pipas, uma perna quebrada num jogo de futebol, o mar; vejo esses lugares como se fossem meus. A última coisa que ele me disse foi feliz aniversário. Ele andava muito devagarzinho pela casa, arrastando os chinelos, apoiando-se na bengala e nos móveis, eu quase o derrubava passando pelo corredor estreito. Foi por ele que eu mais chorei até hoje. Molhava dois pães de fôrma no café todas as tardes, e no café-com-leite todas as manhãs. Foi com ele que eu aprendi a levantar uma sobrancelha. E fazíamos o jogo do sério, eu sempre perdi. Ele era resmungão e falava com a TV. A letra dele era linda. E ele começa a ficar rarefeito. Às vezes saio correndo e consigo puxar de volta uma mancha no braço ou um gesto de mão quando já começam a desaparecer, mas o nariz já foi.


(maio 2008)

domingo, 25 de abril de 2010

Brazilian lovespreaders: ame seus vizinhos

Para amar o mundo podemos começar amando aqueles que estão pertinho de nós... então... ame seus vizinhos ♥

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tudo é uma questão de ângulo - Keveen Gabet


  Uma tradução minha do texto original do Keveen, disponíveis em francês e inglês. Aproveitem!

      A simplicidade da vida é meu guia, meu mestre e minha inspiração.
     Muitos procuram mestres, gurus, xamãs e outros seres originais de quem extrair o saber, o conhecimento e as belas frases de sabedoria.
     Eu pessoalmente não sou muito fã desse tipo de busca, mesmo que admita sua importância. Não vou nem à pesca de ensinamentos de sabedoria, nem ao mercado de citações. Para mim, os ensinamentos mais bonitos são aqueles que encontramos ao acaso, na encruzilhada de caminhos, num campo ou nos banheiros. Aqueles que são entregues e recebidos com toda humildade, sem nenhuma aspiração à sabedoria exótica.
      Muitas vezes, esses ensinamentos caem sobre nós como uma chuva de verão repentina, cabendo a nós fazer as vezes de alquimistas e transcendê-los à nossa maneira.
      Enquanto eu pedalava pelas estradas da Índia, longe dos ashrams e perto dos pescadores, tive a vontade súbita de construir uma cabana de bambu à beira de uma praia virgem. Armado com o meu facão, me meti a cortar os bambus. Nessa época, eu ainda não sabia que o bambu era muito mais sólido do que os filmes chineses me fizeram crer. Cada golpe do meu facão super cortante voltava para mim mesmo, arranhando minimamente o bambu. Mas eu continuava a teimar, concentrando minhas forças num golpe que poderia lançar uma bola de baseball através do maior estádio do mundo, em vão. O bambu não parecia querer ceder às minhas pulsões devastadoras e acentuadas por sons em mandarim. 
     Foi então que um velhinho de rosto chupado, com uma barba enorme e grisalha me apareceu. Ele também tinha um facão na mão, a diferença é que a dele parecia ser sobrevivente da guerra de independência, de tanta ferrugem que havia no lugar do brilho original.
      Esse homenzinho de músculos atrofiados cortava os bambus com um leve golpe de facão com uma facilidade desconcertante. Meu orgulho me fazia querer fugir de vergonha, mas minha curiosidade tomou conta de mim e eu me aproximei. Esse velho homem, o completo oposto da imagem clássica de um sábio, me explicou que eu deveria inclinar o facão um pouquinho mais, a fim de penetrar nas fibras do bambu. Alguns graus de diferença no meu ângulo de ataque fizeram realmente toda a diferença. Os bambus caíram no mesmo instante que a minha ignorância. 
      Esse velho indiano, cujo nome eu nunca cheguei a saber, me fez compreender uma das mais belas lições da vida: mudando ligeiramente o ângulo ou a perspectiva ao nos aproximarmos de um problema, a vida deixa de ser um obstáculo invencível em que tropeçamos incansavelmente.
     Depois desse encontro anódino, eu tento sistematicamente revisar meu julgamento e apreciar a vida sob um outro ângulo, sobretudo quanto tenho a impressão de dar de cara com um muro. Desde então eu aprendi que quando um muro aparece no meu caminho, cabe a mim desenhar nele uma porta.

Keveen Gabet Copyleft 2010

terça-feira, 20 de abril de 2010

"Os animais salvam o planeta" série do Animal Planet

Sempre aprendemos com eles.


De acordo com as novas teorias, mais do que as indústrias e os carros, são os peidos das vacas que mais jogam gases poluentes na atmosfera. Então...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

"Terra deu, terra come"

Documentário de Rodrigo Siqueira, em exibição no 15º Festival Internacional de Documentários, É tudo verdade. Lindo demais, pirei...

Sinopse: O documentário, dirigido por Rodrigo Siqueira, mostra os rituais fúnebres de tradição africana em Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais. Pedro de Alexina, 81 anos, comanda como mestre de cerimonias o funeral de João Batista, morto aos 120 anos. Documentário, memória e ficção se misturam para tecer uma história que retrata um canto metafísico do sertão mineiro.


trailer - Terra Deu, Terra Come from rodrigo siqueira on Vimeo.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Que os anjos voltem para o paraíso - Keveen Gabet


Uma tradução minha do texto original do Keveen, disponíveis em francês e inglês, em korakor.fr. Aproveitem!

Que os anjos voltem para o paraíso!
Que eles parem de pavonear por aí com suas belas asas celestes, ostentadas sob os nossos narizes, pelo simples prazer de serem olhados, adulados, rogados e venerados...
Se os anjos vestidinhos de branco são realmente celestes, então que eles parem de vir nos desafiar com toda essa insolência no nosso próprio reino terrestre. Que eles fiquem à direita de Deus e que escutem nossos lamentos sentindo pena de nós.
Os anjos nos manipularam. Aqui estamos nós, pobres terrestres, tentando em vão reconhecê-los e revelá-los entre o monte de gente que nos rodeia.
Um ser humano, um homem dos mais banais, vem ao nosso socorro anonimamente ou sem nada esperar em retorno, e olhe só para nós clamando – por Deus! – haver visto um anjo.
Por que esse pessimismo quanto ao homem? Por que essa categorização da natureza humana?
Por que o homem, em sua mais linda humildade, não poderia ser ele também humano, doador, generoso e angelical?
É com pressa que atribuímos características divinas às banalidades do cotidiano. “É um milagre!” gritamos, ao ver um homem ajudar um desconhecido, quando se trata apenas de um simples homem estendendo a mão ao próximo.
A natureza humana passou para a divindade. A ajuda mútua, a caridade, a compaixão e o amor incondicional viraram qualidades santas e valores de ressonâncias religiosas.
Eu me entristeço. Eu me levanto e me recuso. Contesto essas verdades apocalípticas. Combato a queda do Homem. Ataco abertamente esse fatalismo e mostro o dedo do meio a esse lento suicídio passivo.
Eu sorvi mais quilômetros que qualquer profeta, meus pés acariciaram as terras de vários continentes, meus olhos viram homens de todas as cores, minha pele queimou sob o sol africano e gelou no inverno canadense.
Eu me sentei em suas casas, bebi em seus copos, comi em seus pratos, murmurei suas preces, escutei seus lamentos e suas alegrias, suas paixões e seus segredos, suas vontades e seus desejos. Vi suas lágrimas, seus risos e seus sofrimentos. Eu vi o Homem em todo o seu esplendor, em toda sua feiúra. Abracei religiosos, alcoólatras, anjos e demônios... Eu peguei o Homem nos braços e o escutei. Foi ele que me ensinou a ouvir o mundo.
Eu bebi em seu nome, em nome da vida e em nome do Amor.
Eu orei pela vida, pela paz e pela saúde.
Eu chorei de amor, de dor e de prazer.

Eu sou eu, ele, ela, eles e nós.
Eu sou nós todos e vocês são eu.
Eu sou feito de vocês assim como vocês são feitos de mim.

O meu sorriso os mudou, o de vocês me inspirou.
A minha ajuda lhes deu asas, a de vocês me fez voar mais alto.
Eu fico doidão com o ser humano.
Das cidades ou dos campos...
Num terno ou num bar...
Com rugas ou com piercings...  

Que paremos de não acreditar em nós. Que paremos de culpar ou alugar os céus. Nós somos agentes conscientes da nossa mudança.
Que os anjos voltem ao paraíso!
Que parem então de nos roubar nossa humanidade...
Sejamos perfeitamente o que nós somos... e orgulhosos de sê-lo.

Keveen Gabet Copyleft 2009

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Não quero a metafísica de nada


Estou procurando alguma coisa. Não quero ser profunda, não, não. Pelo amor de Deus, não quero ser Clarice nem Pessoa. Não quero a metafísica de nada. Quero só a parte mais superficial e queimada da minha pele. Aquela que desbota, que avermelha, que descasca. Mas que fica boa. O que eu quero é só a primeira pele, ou a pele última, como queiram olhar. Onde tenho as pintas, que são minhas. Aonde chega primeiro o sol e a chuva e a tua unha. Não quero a minha profundeza, que só ingere água filtrada. A profundidade só afoga. E é tão chato morrer... Se eu soubesse o que sou por debaixo dessa camadazinha fina, ai que susto! Seria saber o segredo do mundo. Era ver a matéria-prima e... que saco. Ver o que nunca muda.

domingo, 28 de março de 2010

Quando se destroi a beleza...

...delas...




...a partir da destruição da beleza toda.


Partindo da destruição não chegaremos senão à destruição. Se Deus escreve certo por linhas tortas, o homem escreve errado por linhas perfeitamente retas. Mas pode escrever certo também. É só começar amando, em vez de destruindo.

(Não se trata de alfinetar a Dove, refletir se a campanha é boa ou ruim, falar de estratégias ou hipocrisia marketeira. Isso é o de menos...)

We don't need hands to hold somebody's heart

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

War Child

Estudar a guerra está sendo difícil... Ler corpos decepados não é legal, te digo. E é muito menos legal quando quem decepa tem no máximo 12 anos.