domingo, 9 de maio de 2010

2 notas mal feitas sobre a Literatura


1 – A literatura enquanto gastronomia

Diz Walter Benjamin, em seu texto clássico “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” (p. 205):

“A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. [...] O próprio Leskov considerava essa arte artesanal – a narrativa – como um ofício manual. ‘A literatura’, diz ele em uma carta, ‘não é para mim uma arte, mas um trabalho manual

Ora, compartilho do maravilhoso insight de ser o labor literário um trabalho manual e a narrativa uma forma artesanal de comunicação. Mas me parece que o trabalho manual, no texto de Benjamin mais intimamente relacionado ao fiar e ao tecer, não chega a contemplar etapas importantes da escritura, e, por que não, da leitura. Eu diria que o fazer literário, das artes manuais, se aproxima mais da gastronomia. Da arte culinária.
Criar receitas, quebrá-las, renová-las. Juntar ingrediente daqui, dali e dacolá. Sujar tudo. Fazer experimentações, sentir com a boca o gosto, com o nariz o cheiro, com os olhos as cores e os ouvidos o mastigar, ver tudo se harmonizar debaixo da mesma água na panela, do mesmo vinho na língua. Provar da colher enquanto a panela está no fogo, colocar mais sal, mais pimenta, refogar. Não deixar ninguém chegar perto que a cozinha é minha. Tira a mão, menino! Encostar a barriga no forno, cortar o dedo, sangrar em cima do frango. Chamar sabores de todos os cantos do mundo e aprontar um prato de gosto único, assinar embaixo, a marca do chef. Ver o bolo crescer ou solar. Àqueles que escrevem, pergunto se isso não é igualzinho a literatura. Isso na feitura.
Na leitura – que pode ser tanto do chef quanto dos outros – ainda é a comida. As palavras, como a comida, também nos entram por todos os sentidos e, finalmente, nos fazem. Toma o corpo o que quer, o que precisa, e o resto joga fora, esquece. Às vezes certas coisas passam da dose, aí vem o colesterol, a insensatez, a diabetes, a sensibilidade aguda. O corpo tem memória do que comeu como o cérebro tem memória do que leu. O que se come molda o corpo e os exames de sangue assim como o que se lê molda o espírito e as páginas a serem escritas.
Fala-se tanto da experiência da morte na literatura – ver acabar uma história, ver o ponto final, morrer sem ter morrido de verdade. Com a comida também se morre nas últimas mordidas. Podemos atrasar o final da leitura de um livro com tanto pesar como se alenta a limpeza do prato, se não podemos repetir. Mas a leitura do livro pode ser feita de novo e a receita do prato também. Nunca serão exatamente os mesmos, lá isso é bem verdade. Os gostos sempre mudam das segundas, terceiras e infinitas vezes.
Vê-se aí por que meu blog de chama Tabuleiro de Bolo.

2 – Das interjeições

Comecei a ficar com raivinha da indústria literária ano passado, estudando Teoria da Literatura II, mas cada profissão tem sua sina de todo modo, é preciso que me ajeite com a minha.
Triste é ouvir que, enquanto críticos (valha-me deus) e professores, não podemos ler com interjeições, limitando nossas apreciações de um texto a “Oh! Ah! Uh! Ui!” e outras variações de reações imediatas e irrefletidas. Nós precisamos descobrir o porquê dessas reações, destrinchar e dissecar todas as palavras, o balé sintático, desnudar o mágico, revelar-lhe o truque. Não somos leitores comuns, claro está. Somos leitores chatos de galocha, os que vão lá tirar o fantoche e revelar o braço do ator. Não suportamos ser ludibriados pelo texto, chafurdamos nos clássicos para sempre. Pobres de nós. Ainda nos pagam para isso.
Hoje, lendo um texto de Teresa Cristina Cerdeira da Silva sobre Saramago (“José Saramago, entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”, Lisboa: Dom Quixote, 1989), vi que essa sensação não é apenas minha, vejam só: “Porque aqui se conta também uma história e uma história de paixão, que só os grandes textos sabem deixar no leitor, até mesmo naqueles que não conseguem mais – por força do hábito – gozar o prazer de uma leitura sem ter um lápis na mão”. Ai, que desgraça. Soubesse eu aos 16 anos que estava virando uma acadêmica e crítica literária quando rabisquei meu primeiro livro de ficção, teria voltado atrás! Agora é tarde, a mão coça, as interjeições, quando vejo, já se calaram.

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