sábado, 29 de maio de 2010

Não-seis


      Prometi que não iria mais escrever sobre escrever. E também não escreveria mais em francês. Mas o francês me tem vindo antes do português. Minha língua já não me diz. Já não me diz nada. Valha-me deus, se já disse algum dia alguma coisa, vou lá eu saber. Agora, sobre escrever, quanta merda. Não tenho o que dizer. Em sala de aula, digo sempre besteira, falo falo falo, melhor ser ignorante por três minutos que pela vida toda. Mas só eu sou ignorante. Todos sabem a vera, eu com hipóteses medíocres sobre um conto qualquer repetindo e repetindo as mesmas questões já cortadas pela professora – não, assim não pode ser, não, assim é que não é, porque, veja bem, Akemi, e assim por diante. Em conversa de bar, calo ou digo besteira, não sei do que estão falando ou sei muito pouco ou simplesmente não me sei fazer entender – eu deveria me fazer entender. Eu trabalho com a palavra. Mas engasgo em não-seis gaguejados, aquela má assassina que treme o dedo em cima do gatilho e, em vez do tiro, sai o grito – da derrota, é impossível atirar, é impossível dizer o que não sei o que é. Há algo ali que sinto, mas que não vejo. Não vejo. Talvez todo o blablabla da crítica literária seja esse tatear engasgado por cima do que se sente em não-sei. A língua não recobre tudo. A pele é celular. O celular é plástico. O plástico é petróleo. O petróleo é terra. A terra é big-bang. A luz se fez num estrondo molecular ou sei lá eu o que foi aquela porra. Não-sei o que foi aquela porra. Não-sei o que foi ontem, não-sei o que foi hoje, não-sei o que é isso, que merda, não-sei. Estou fazendo a mesma coisa que odeio que os outros façam, que escangalhem a língua, eu não escangalho a língua, mas que digam que há coisas maiores do que ela, menosprezando-a, mas usando-a e gastando-a e deixando-a toda encardida de nojo da palavra, do pensamento, de um querer saber através da língua, através, através, atravessado, num bum, num big-bang, jamais farei um big-bang, não sou poeta, não sou maratonista, meu fôlego está se perdendo, meus dedos em corrida de cem metros e eu só coloco vírgulas porque fazer ponto e shift letra maiúscula demora muito tempo, os acentos é o word que coloca.
      Ou sei lá. Só segura o meu cabelo e me deixa vomitar.
      Nada sei - sem nenhuma pretensão socrateana nenhuminha mesmo.

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