Depois de meses sem sucumbir ao prazer infame da fumaça resistindo pateticamente com chicletes e adesivos espalhados pelo corpo, hoje não pôde. Tivera um sonho daqueles de que não se esquece nunca e que vêm, de quando em quando, de pouco em pouco, em outros sonhos ou de olhos abertos, a nos assustar novamente. Havia sido atingida e morta por uma bala saída de uma máquina fotográfica, dessas grandes, dos fotógrafos profissionais. Ela, que não era talentosa para sonhos, havia visto a si mesma por dentro, assistindo pararem seus órgãos, em espécie de pintura visceral de Frida Kahlo. Viu-se morta por fora e por dentro e acordou chorando, desesperada por estar morta. E então chorou ainda mais, por estar ainda viva depois de haver morrido. Precisava de alguém para contar e, no entanto, todos já se tinham ido. Pensou em ligar, mas sonhos não se contam por telefone por não serem coisa tão séria que valha o tempo e o preço. Sem mais ninguém na casa, nem um cachorro, nem um gato, nem um peixe ou hamster, foi para o espelho comprido do quarto, inchada, vermelha, com o rosto molhado de muitas lágrimas por fora e de muito sangue por dentro; a respiração perdendo-se entre soluços, engasgos e catarro – viva, viva, viva. Chegava-se mais e mais para perto da própria imagem, mimese fugaz, porém a mais honesta; e tratava de limpá-la quando o embaçado da expiração deixava-a nublada demais. Apesar de o embaçado lhe dar mais uma segurança de sua vivacidade orgânica, era preciso a nitidez. A nitidez precisa e imperturbável do espelho que, mesmo descolando-a de si, dava-lhe uma certeza mínima de que se mexia ainda e de que ia acontecendo-se. O espelho não a mataria jamais; ao contrário, ele ia morrendo em solidariedade. Foi atrás do último cigarro que guardara e o acendeu. E sentiu a garganta, os pulmões e tossiu. Só se despregou da hipnose da sobrevivência quando alguma coisa começou a ser dilacerada na construção em frente ao prédio, com tanta dor e tanto grito, grito de coisa a ser desfeita para que outra coisa se faça. Olhava pela janela hoje sem se preocupar em fechar as cortinas para que os operários não a vissem, olhava simplesmente, como quem percebe os átomos da vida a agitar-se e a fazer o mundo.
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