quarta-feira, 25 de maio de 2011

Técnica literária da Felicidade

 

     “What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss - absolute bliss! - as though you'd suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe?” ~Katherine Mansfield


     Fala-se muito sobre a dificuldade de escrever sobre a catástrofe, de representar artisticamente aquilo que é tão mau e tão hediondamente real que não pode ser diminuído por nenhuma palavra ou nenhuma tinta. Aquilo que gostam de chamar de “irrepresentável” ou “indizível” porque está destinado a permanecer eternamente alojado na experiência bruta, como se alguém tivesse esquecido uma faca dentro do corpo depois de uma operação.

     Mas e o indecentemente delicioso? Como representá-lo para que também não seja diminuído por palavras; para que, sobretudo, não pareça… bobo? Para que não seja um gritinho fútil e histérico de uma menina de quatorze anos diante de Justin Bieber… A alegria parece sempre tão tolinha... Boba, boba, boba… bobona eu. Como escrever o sol fresco sem que ele pareça uma luz clichê? E o verde das folhas sem que pareça sátira ou paródia árcadblisse? Eu que andei vendo um sol e umas árvores tão

(cadê a palavra… palavra…? … fico com lindas mesmo)

lindas hoje. Tirei uma foto por falta de jeito de escrever. (Pode ser dor de cotovelo, mas) desconfio de que a extrema felicidade e a extrema dor são egoístas, incompartilháveis, verdadeira e unicamente nossas, não podemos dividir nem que queiramos.

     Escrever a tristeza e o amor é muito fácil, as metáforas chegam, elas se apresentam como uma legião de dominós. A felicidade no entanto exige um talento absolutamente maior. Ela demanda uma técnica muito mais delicada. Como é que se faz um texto sorrir? Cadê a bochecha do texto pra doer de sorrir?

     Será que se pode encarar a felicidade, em vez de escrever sobre ela dessa forma enviesada, perguntando como escrever sobre ela? Porque, bem, isso é roubar. Perguntar o que fazer com a felicidade é não fazer nada com ela. É um jeito fácil e malandrinho de se livrar do tête-à-tête. Técnica utilizada repetidas vezes ao longo de diversos escritores (maus escritores, suponho) para fugir de um determinado tema – perguntar como escrever sobre. É colocar a dúvida para dissimular a incompetência. É o mesmo que preencher páginas e páginas com a inquietação de não ter nada o que falar. Falou-se algo, um espaço foi preenchido, umas palavras foram borradas e pronto, já está, pode-se mandar para o jornal do dia seguinte.

     Meu caso aqui é um tiquinho pior porque não tenho obrigação nenhuma de escrever com prazos, nem escrevo sob encomenda, então meus temas são de minha responsabilidade, preciosamente escolhidos (não necessariamente bem tratados). E eu pateticamente escolho escrever sobre a felicidade com essa técnica insuportável e vagabunda dos incompetentes que não cansam de recorrer à metalinguagens fuleiras...

     Essa angústia vem muito de a minha memória literária ser despovoada de narrativas de felicidade. (E todo mundo sabe que os iniciantes escrevem amparados em exemplos – seja pra fazer parecido, seja pra transtornar). De furor romântico, sim, de momentos alegres, talvez, de enjoada cafonice, com certeza, mas a grande parte sempre termina com uma súbita melancolia, com um balde de água fria, com a derradeira verdade inconsolável: a felicidade é ilusória, é um desodorante de prazo pequeno para a podridão, que logo começa a feder. Não é essa que eu quero.

     Como se fala da felicidade de exatamente agora? Não da felicidade infantil de outrora, essa felicidade inventada com cheiro de bolo de fubá, mas uma felicidade genuína, que se sente na hora, que tá aqui, estalando, berrando, que sai desembestada campos fora como um potro que acaba de cair da mãe. Uma felicidade que não pode ser do tipo que é ficcionalmente lembrada (a felicidade de algum passado), mas esta que simplesmente não pode ser lembrada porque está acontecendo, no delicioso gerúndio do presente… Esta que me veio hoje, numa quarta-feira mediana extremamente cedo pela manhã, assim do nada, pulando como uma pulguinha, surgida de nenhum motivo assim muito óbvio, e que destrambelhou a me comichar para sorrir - “I must laugh or die!”

     Dizer que se está feliz a ponto de chorar, isso é tão bobo, mas e se eu realmente estiver com os olhos chuviscados, como se tivesse acordado marejada de orvalho fresco para um dia lindo… toda brega… e se meus lábios estiverem realmente tremendo de tanto eu tentar controlar esse choro para não parecer tão patética? Há tanta coisa ruim no mundo e eu gastando lágrimas com felicidade! Chorar tem que ser por coisas bem mais importantes. Ai meu Deus, como sou fútil, que não vejo nada de mais importante do que isso!img077

 

    Boba, que bobona…

domingo, 22 de maio de 2011

Um insignificante domingo por semana

 

dog

      O sambinha meio pulguento dos vizinhos fica flutuando aqui no vale, a voz de um outro desce pelo vão da coluna do banheiro social, um fulano ensaia uma guitarrinha, alguém no andar de cima (ou será embaixo) fica falando no skype sem fones de ouvido e fico ouvindo essa voz encaixotada de eco digital – sem entender, o que é pior. Na Igreja tem missa e coro. Tudo meio longe, mas não longe o suficiente, e fico com esses zumbidos amortecidos, chatiiinhos... o som é leeeento... mole que nem um vira-lata se espreguiçando e bocejando. Zumbidinhos que não são isso, nem aquilo, tudo a meio tom, sussurrento... Um incômodo, domingo é um encosto que não deixa seguir adiante... Tanto pra se fazer e não dá pra fazer nada. Domingo é um rodo que empurra tudo pra segunda. Pra piorar ainda é outono aqui. Você sabe que as tardes de outono aqui são insuportavelmente velhas. A temperatura é boa, o sol é amarelado como foto velha, até o verde fica meio sépia, tudo é velho no domingo de outono. E esse sambinha encardido, mas que merda! É chato o samba dos outros. Você sabe que eu gosto de música, mas não a música dos outros, que invade aqui meu campo acústico sem eu pedir. Os olhos a gente pode fechar, virar pro outro lado, a gente não precisa ver. Mas ouvir é ruim, ouvir é involuntário demais pra quem não se concentra. Eu não consigo me concentrar ainda... É, ainda não consigo... Nada me interessa tanto assim a ponto de eu não ouvir. Eu fico chateada de não estar inteira pro Lobo Antunes. Não é muito esperto ficar com ele num domingo, mas às vezes a gente não tem escolha, você sabe. Às vezes tem de ser, como domingo tem de ser.


Foto: http://www.flickr.com/photos/szalik/

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os bichinho tudo tão aprendenu errado…

 

     Eu tinha obscenamente pensado em não comentar sobre a polêmica do livro aprovado pelo MEC que “ensina a falar errado” só porque ai... que preguiça... Mas eu sei (EU SEI, diabo!) que recuar é simplesmente

UMA INDECÊNCIA!

     Como foi muito bem esbofeteado pela (mais recente estrela youtubiana) professora Amanda Gurgel, é preciso falar sobre a Educação, é preciso fazer pela Educação.

     Este tumulto em torno do livro é um assunto que me concerne diretamente enquanto estudante de Letras, (possivelmente) futura professora e futura mãe. Mas é, antes de tudo, (atenção, clichê) um assunto que concerne a todos nós enquanto cidadãos. Então vou dar meu pitaco aqui também.

     Apesar de ser quase contraproducente separar a língua da sociedade, uma vez que ela só pode acontecer em sociedade, me incomoda – ou melhor (mesmo?) incomoda-me – um tanto o borrão entre conceitos estreitamente lingüísticos e questões político-sociais. É obviamente claro, como já disse, que os dois se misturam forçosamente já que a língua é um objeto político-social, mas quando se entra no vocabulário “certo” e “errado”, estejamos atentos: há estações se encrencando aí. Primeiro porque certo e errado são da ordem do metafísico, da complexa Verdade pessoal e intransferível de quem está falando, de quem detém o poder no momento; ou seja, certo e errado pressupõem sempre um ponto de vista.  Por isso, a troca muito bem ajustada de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado” (como sugerido pela autora) vem, entre outras, de uma linha da teoria linguística, encabeçada por Noam Chomsky, da Gramática Interna, que estuda a língua antes de qualquer picuinha social, como função humana (como respirar, comer, andar…). Isto é, considera a linguagem como faculdade própria e inata de todo ser humano, que permite à criança o desenvolvimento natural de uma gramática interna, de acordo com a língua a que é exposta (e que não é, certamente, sempre a padrão). Aqui, todas as línguas e variedades intralingüísticas são colocadas “cientificamente” em pé de igualdade, já que toda gramática possui uma lógica interna inquestionável (mesmo – pasmem! – aquelas diferentes da norma culta). Nenhuma língua é burra. Não tenho nenhuma pretensão de explicar Chomsky a ninguém nestas linhas tão singelas (nem em muitas linhas, se fosse o caso), estou só apontando para um fato linguístico. É um contrassenso, sob o ponto de vista da Linguística, dizer que alguém fala errado ponto. O que podemos, talvez, dizer é que se fala errado em relação à norma culta padrão. Portanto, falar “os peixe” na Academia Brasileira de Letras é inadequado, mas é perfeitamente adequado num churrasquinho em que esse seja o hábito do grupo de pessoas ali presentes e até, em alguns casos, firmemente recomendável. Pronto, é só isso.

     Quanto às politicagens, é preciso ter em mente que, se todas as línguas e variedades possuem uma lógica interna inquestionável, servem ao seu propósito comunicativo e constituem um código entendido sem problemas e passado de geração em geração num determinado grupo social, então é claro que a Variedade Padrão não é a padrão simplesmente porque linguisticamente/gramaticalmente é a melhor, mas porque é aquela falada pela “melhor” classe, ou seja, pela elite, pelo grupo que está no poder. Isso é um fato, não é discurso de direita ou de esquerda. O esquerdismo e o direitismo entram quando a lógica (dubitosa) nos leva a concluir que legitimar a variedade das classes mais baixas seria passar o poder de mão, num movimento “petista” do mal – como se houvesse neste livro um grito socialista: entreguemos o país ao mulato side of the force! A classe A entende que começa a perder o prestígio quando a sua variedade linguística começa a perder o prestígio. Mas, entendamos, o prestígio não está na língua, está no dinheiro ‘mermo’, ‘mermão’. A língua é apenas mais um apetrecho que marca o nosso lugar na pirâmide social, junto com as roupas que vestimos, o meio de transporte que usamos, os restaurantes em que comemos, os cachorros que temos e as petshops a que os levamos. Não importa se toda a sociedade de repente começar a marcar os plurais só nos artigos (o que não vai acontecer, pelo menos por agora), quem mora no Leblon vai continuar morando no Leblon, quem mora na periferia vai continuar morando na periferia. Portanto, não criemos cânico! Se este é o medo, não é o reconhecimento das variedades linguísticas que vai dar, de fato, voz às massas.

    Além disso, de todo modo ninguém quer desprestigiar a variedade padrão. Destitui-la de pompas e circunstâncias, de ares de tanta importância e medalhas de honra, pode ser, mas jogá-la no cemitério de línguas, não. (Talvez Marcos Bagno, mas isso é outra coisa).

     É evidente, ponto pacífico, que o preconceito linguístico reflete o preconceito social. Identifica-se o lugar social de alguém a partir da sua fala, dos seus “erros”, das suas cadências de sotaque. No Brasil isso é extremamente forte e, sobretudo na escola, não podemos passar por cima das variedades faladas pelos alunos, não podemos deixar de reconhecê-las e de ser pacientes com elas. Não podemos, principalmente, esquecer que os professores tantas vezes falam uma variedade que também não é a padrão (Houston, we have a problem!). Ignorar essas variedades e apagá-las com a norma culta é, antes de tudo, uma violência. A variedade padrão muitas vezes é praticamente uma língua estrangeira para muitas pessoas. Se estudar gramática já é chato para quem nasceu na classe A (não sejamos hipócritas!), imagine para quem nasceu na classe Z... é um negócio pavoroso! O mais sensato a ser feito é apresentar a esses alunos modos de dizer, especialmente aquele aceito pela sociedade A, aquele que é cobrado pelo Vestibular, aquele que é cobrado em entrevistas de emprego... enfim, aquele que impõe respeito, aquele que é necessário dominar para ser levado a sério perante a sociedade dominante (que, não nos enganemos!, é a classe A). Na verdade, essa “conscientização linguística” não deve ser feita só com esses alunos, mas também com os que já falam de berço a língua padrão, porque não adianta tomar cuidado com a auto-estima daqueles se estes vão continuar apontando o dedo preconceituoso na cara dos outros. Sim? Ótimo. A escola deve, sim, mostrar a existência dessa diferença de adequação/inadequação diante de contextos diversos  e ensinar “olha, a variedade adequada na escola e na sua vida profissional é a padrão, é essa aqui da Gramática do senhor Bechara, que vocês vão aprender agora”. Mas também é preciso que os professores estejam plenamente capacitados para expor este assunto de modo lúcido e competente, já que não é (como estamos vendo com esse burburinho todo) nada simples, para que a língua não comece a parecer um sarapatel de cachorro doido. Este me parece ser o desafio maior.

      Agora sobre o Marcos Bagno. Ele é professor da UnB, linguista inflamado e radical quanto à questão do preconceito linguístico, e um autor pelo qual todo aluno de Letras passa obrigatoriamente logo na Introdução à Linguística, arrancando os cabelos (principalmente porque este assunto não é introduzido na escola e constitui, sim, um negócio complexo e de extrema importância, cuja apreensão não é tão fácil e óbvia. Demanda, sim, um tempo e um conhecimento menos superficial de linguística). Aqui está o link para o comentário dele sobre este livro – a favor do livro, é claro, e azedamente contra a oposição. Acho o texto dele bastante divertido e, bom, ele fala basicamente as mesmas coisas que eu falei aqui em cima (obviamente bem melhor e com bem mais autoridade), mas o que sempre me incomodou nele é que ele cria um preconceito ao revés, isto é, em relação à variedade padrão, e acaba caindo na própria armadilha, come o próprio rabo etc. Façamos discursos inflamados, sim, acho que têm seu mérito, mas muitas vezes eles perdem pontos, MUITOS pontos, e tornam a argumentação um pouco mais fraca. Não é denegrindo a língua padrão que vamos ganhar nenhuma briga.

     Para “terminar”, finalmente (benza Deus), está tudo muito feio, muito grosso e muito desrespeitoso nessa discussão. Na escola, levantamos o dedo e esperamos que o professor nos passe a palavra. Com bons modos, levantemos o dedo e nos dirijamos com um mínimo de respeito à Educação. Não saiamos cheios de dedos e propriedades pra cima de algo que não entendemos. Questionemos, sim, mas com um mínimo de bom senso e respeito.


O GLOBO: Haddad defende livro, mas Enem exige norma culta; Haddad falta a audiência do Senado sobre livros didáticos e líder do PSDB pede recolhimento de obras com erros; Procuradora da República prevê ações contra uso de livro com erros pelo MEC; autora se defende; Para presidente da ABL, livro adotado pelo MEC valida erros grosseiros.

terça-feira, 17 de maio de 2011

I believe I can fly–Travessuras no céu

 

“Il faut être léger comme l’oiseau et non comme la plume”* ~ Paul Valéry

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     Andei uma época da minha vida querendo ser piloto de avião. Aeromoça não, piloto mesmo. Mas bom... para o bem e saúde geral de muitos viajantes, acabei indo estudar Literatura, que no fim das contas também não deixa de ser um jeito de estar nas nuvens.

     Minha palavra preferida era Varig. Eu gostava de viajar só por estar a bordo. Hoje isso mudou um pouco porque só sendo muito pancado da cabeça pra gostar de estar a bordo na classe econômica.

      De todo modo, voar e ideias afins sempre povoaram a minha afeição. Portanto, cama elástica, dança de salão e cavalos são super bem cotados por aqui. Tudo no mesmo campo semântico do ir pelos ares. Se eu fosse circense, seria trapezista. Simpatizo particularmente com teleféricos também.

      Não gosto muito de cair, no entanto.

     Veja bem, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: cair é propriedade de um outro departamento, o buraco é bem mais embaixo. Eu não gosto nem de tropeçar. Tudo bem que estar no ar já traz em si um cair em potencial, mas eu confio em aviões, balões e parapentes (sobre a asa-delta ainda estou refletindo). Agora… atirar-se em queda-livre eu acho mais medonho. Nem cabum né nada comigo, me borro toda. Bungee jumping está na lista de afazeres, mas… A graça do ar, pra mim, não está na adrenalina de continuar vivo literalmente por um fio, de mergulhar na morte por estatelamento e ser (se Deus quiser) puxado de volta, de entregar-se de corpo e berros ao abismo V = g x t. Como diz um amigo, live fast, die young, fuck yeah! Não descarto absolutamente, que eu também sou meio lelé da cuca, mas talvez em outra ocasião. Hoje estou pensando em outro tipo de sensação.

GOPR0766     Quando eu fui voar de parapente, confesso que também pensei “radicaaaal!” e só a ideia de estar parada de cara pro abismo da Pedra Bonita já me parecia o suficiente pra me elevar ao estágio absoluto da coragem. Chegar ao voo de fato, então… Kemi, a destemida. Contudo, uma conversa com um entendido do assunto tirou alguns “a” do “radicaaaal!” e fiquei só com um “radical” mais singelo, mas nem por isso menos destemido. Realmente, algumas pessoas disseram que o paraquedas é mais irado. Sei lá. Como esse mesmo entendido do assunto me explicou, a vibe é diferente. Disse ele assim: “a onda do voo livre é outra, tá muito mais pra curtir o visual, em paz, uno com a natureza, do que adrenalina ou coisa do tipo faca na caveira”. E então, depois de ouvir isso, curti ainda mais a onda do parapente porque me pareceu tão sossegado, tão (why not?) poético.

     Ok, ok, tô ouvindo vocês chiando… “sossego a 520 metros de altura HAHA que desmiolada”. Mas é. Acreditem. Não sei se por eu ter uma quedinha por alturas ou pela segurança absurda que o instrutor passa ou sei lá eu o quê, mas medo é o que menos seDCIM\100GOPRO sente lá em cima. Tá, também não vou dizer que não dei uma tremidinha ali na pista porque seria parecer machona demais, mas passados os primeiros gritinhos da decolagem, os vinte minutos que seguem são nada menos do que sensacionais. Estar lá em cima, sentada no vento, sobrevoando a montanha e o mar, compartilhando do espaço dos pássaros e sorrindo sem parar é… Não vou ficar enchendo esse parágrafo de adjetivos da ordem do espetacular, vocês podem preencher isso sozinhos abrindo o dicionário. (Má blogueira que bota os leitores pra trabalhar…).

     De todo modo, para quem me parabenizou pela coragem… Bem, se considerarmos que buscar a liberdade é um ato de coragem e que a felicidade é valente, até que sim.   

      Uma vez me perguntaram se eu tinha vertigem nas alturas. Como podem ver, obviamente que não. Eu tenho medo é do rasteiro…


* ”É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”, Paul Valéry

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ah! Uma infância errada…

 

     Nunca naveguei bucolicamente em córregos de carás dourados. Nadava de peito nos afluentes caudalosos de carros e faróis de freio. Nunca subi em árvore pra pegar fruta. Me empoleirava no carrinho de supermercado e catava biscoito de chocolate das prateleiras. Nunca corri por campos impressionistas com animais e nem assustei galinhas. Levava meu cachorro pra passear aqui na rua mesmo e os dois nos espantávamos, contemplativos, vendo um miquinho passear pelos fios de telefone. Nunca senti os cheiros dos doces da avó que nunca tive nas visitas de domingo que nunca fiz. Me regalava com o pudim da padaria ao lado de casa. Nunca galopei na correnteza que nem cavalo solto. Brincava de rema-rema-remador no sofá da sala com a empregada.

     Nunca vivi de infância lobateanamente prometida. Vivi de um não sei o quê urbano que parece não servir pra história, nem sonho e nem delícia.

     A literatura repetidamente me frustra com infâncias rurais oníricas, onde eu não estou… será que não fui criança, Deus meu? Ah! Que horror ter sido desviada da infância certa! A infância certa, aquela que dá colo e aconchega, é rural, tem cheiro de bosta de cavalo, é molhada de esguichos de córrego, é pulguenta e infestada de cicatrizes fundas. A infância certa sobe em árvore e come fruta do pé. A infância certa tem quintal. A infância certa tem sempre oito anos. A infância certa tem avós gordas e cozinheiras. A infância certa passa férias em sítios nas Minas Gerais. A infância certa pune todas as outras com seu tom de sépia bucólico e rústico e árcade, tão perfeito… se agasalha em lugares-comuns e neles permanece… inocência querida da infância perdida!

     Ah… pobre da minha infância errada…

 


Imagem: Renoir, L'enfant au fouet, 1885

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O brinco

 

     O pai não deixava a filha furar a orelha. Bebezinha, saíra da maternidade de cara limpa. Na escola, todas as meninas da sala usavam brincos. Pendurados havia ursinhos, pedrinhas, pokémons e argolas. Ela, coitada, levava o lóbulo nu.

     O pai não a deixava furar a orelha. O corpo é feito de pontos de energia, o que faz com que todo ele seja um sistema conectado e coeso. Um furo na orelha significaria a perda de alguma outra função corporal. Se ela nascera sem furo, é porque não era pra ser furada. Além disso, dói, sangra e o escambau. Trata-se de um costume primitivo. Era estranho para o pai que a filha procurasse a dor, o pus e o escambau.

     Então a frustração dos brincos de pressão. Dos brincos adesivos...

    Aos onze anos, contudo, não deu mais. Foi escondida à farmácia e pediu a pistola. Imediatamente a dor procurada. Uma dorzinha salgada, o tempero da vitória. O metal atravessado na carne, atarraxado nalgum ponto de energia. Você é uma mulher. Pai, eu não sou mais uma menina. Eu uso brincos. Eu uso brincos porque eu escolhi.

sábado, 7 de maio de 2011

Para Maitê, da mamãe

 

“Une mère, ça fait ce que ça peut,
Ça ne peut pas tout faire, mais ça fait de son mieux”
~Lynda Lemay


  Nesse dia das mães, para a minha filha:

     Aos dezessete anos descobri que o nome da minha filha será Maitê. Não sei por quê, não lembro como descobri Maitê. Reparei depois que rima com os nomes das sobrinhas e talvez isso seja bom pra poética familiar. Não conheço nenhuma Maitê e só tinha notícias de uma, a atriz. Mas isso não influencia em nada, que eu odeio essas coisas de homenagem, e minha Maitê passará longe da Proença, de cabelos alourados, mesmo que o pai venha a ser um norueguês louro de olhos claros. O sangue é forte desse lado. Não digo que Maitê terá os cabelos pretos como os meus, mas serão certamente mais para escuros, e os olhos também, talvez meio acastanhados. Talvez não tenha os olhos puxados, mas  digo isso porque nenhum dos meus sobrinhos tem, senão seria o mais provável.

     Reparou, Maitê, estou até rimando, mas é sem querer... mãe é um bicho cafona de dar dó. Coitadinha... Ainda é um anjinho lá no céu e eu aqui a profetizar como será, que tipo de cabelo, formato de unha... É preciso que baste que tenha todos os dedinhos, e que tenha cabelos. Era só isso que eu deveria dizer. Ai Maitê... desculpa a mamãe. Ainda estou na idade de brincar de Barbie, e quando se brinca de Barbie se é muito mimada. Você será como for. O que importa é que você será um grande sorriso, desenhado na minha grande barriga planetária, e eu, sem a menor culpa, poderei finalmente dizer que sim, só me preocupo com o meu próprio umbigo.

     Ai, te juro... tentarei não te sufocar de lirismo. Não te sufocar de amor... Assim a gente não ama bem, não é? Mas gritarei, sim, gritarei. Me chame louca, eu provavelmente estarei bem louca mesmo. Desculpa por todo o chocolate que eu não te deixar comer, por todas as balas proibidas, pelos penteados constrangedores, pelos beijinhos na frente da escola, pelo controle do boletim, pelos horários de dormir, pelos castigos, por não te deixar sempre dormir na casa das suas amigas, por não querer que suas amigas durmam sempre na nossa casa, pelos presentes que eu não te der, por frear a sua avó quando ela te mimar demais. Desculpa por todos os namorados que eu talvez não te deixe ter, pelos horários de chegar em casa, por não conseguir dormir enquanto você não chegar, por insistir em te levar e te buscar de carro e te deixar sempre na porta dos lugares, por te fazer ficar sem graça – e por dizer que bobagem, menina! quando você reclamar que tô te fazendo pagar mico… Desculpa por prestar atenção às suas amizades, por às vezes querer ser sua melhor amiga, por insistir que você é linda quando você se achar horrível, por arrumar seu armário e dizer que você é bagunceira, por não saber exatamente quando você me quer por perto e quando você me quer longe, e trocar as bolas na maior parte das vezes. Desculpa por te apontar o dedo na cara e dizer que você errou, mas será necessário – ah, Maitê! Será necessário... Desculpa por chegar a pensar que você não me ama tanto assim, eu sei que ama, estou só carente. Perdoa quando eu, sem mais nenhum argumento plausível, espernear que você vai entender tudo quando for mãe também – perdoa quando eu disser não, porque alguns sins, talvez eu jamais consiga me perdoar se os disser. Perdoa também por eu tantas vezes não entender direito o que você quer me ensinar, o que só você pode me ensinar. Tem paciência com a mamãe, Maitê… Desculpa pelas milhões de outras coisas que eu farei, das quais não faço a menor idéia hoje – por tudo o que eu farei, entre erros e acertos, na esperança de que um dia você me diga obrigada, mãe. Ou não esperando mesmo nada além de uma mulher cheia de luz, para a qual eu orgulhosamente darei a primeira faísca.

     Meu amor, não posso te dizer muito agora… Te espero, quando estivermos as duas prontas. E obrigada, por me engravidar já de tanto amor. Obrigada.

 


Obrigada, Mãe
~Akemi Aoki


[1] Uma mãe, ela faz o que pode / não pode fazer tudo, mas dá o seu melhor.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

everybody loves… Babies

 

    “On est né tout court avant de naître à la loi” ~ Jean François Lyotard1


      Igualdade é daquelas palavras que estufam o peito, é aquela palavra bonita de defender, que nos confere mais humanidade, mas no final todos sabemos que a minha igualdade depende do quão mais igual eu for a você, o gostosão do momento. Liberdade, igualdade e fraternidade!, grita uma mulher com o peito de fora – e ai de você se ousar meter uma burka aqui nas minhas fronteiras! Nesses dias turbulentos de “mundo árabe” e casamento gay, a polêmica dessa palavrinha fica a sassaricar por aí. Mas chega, não vou me enroscar mais em politicagens porque disso eu absolutamente nada entendo e por mais que eu seja corajosa no blog, isso já seria me encrencar demais.

     De todo modo, falem o que falem as revoluções, os livros, os socialistas, os ativistas, os humanistas, os valhamedeusistas, ninguém fala melhor do que um bebê. Ora, que contrassenso, ninguém fala melhor do que um infante, um in-fans, aquele que ainda não fala? Confirmo: ninguém evoca melhor a humanidade do que um bebê.

     Ontem tive o enorme prazer de ouvir quatro deles, na obra-prima de Thomas Balmès, “Bebês”. A sinopse já diz que ao seguir simultaneamente quatro bebês, do nascimento aos primeiros passos, na Mongólia, Namíbia, São Francisco e Tóquio, Bebês captura em filme os primeiros estágios da jornada da humanidade, que são ao mesmo tempo únicos e universais a todos nós. São três meninas e um menino, acompanhados desde a barriga da mãe até mais ou menos 1 ano, e para quem o mundo precisa abrir um espaço.

     A câmera é toda para o bebê. As mães são elementos secundários, conservatórios de leite; os pais praticamente não existem e quando aparecem fazem merda. Mais relevante que o seio materno é, evidentemente, o seio cultural. Através de diferentes espaços, lindamente fotografados, Balmès faz aparecer um mesmo chão humano. Não à toa escolheu crianças de, literalmente, quatro cantos do mundo. Aqui, as diferenças gritantes evidenciam a semelhança proporcionalmente estridente. 

     A esses bebês são oferecidos modos diversos de começar ‘the adventure of a lifetime’, mas o que eles nos oferecem de volta é uma mesma atitude primeira para estar no mundo. Antes de qualquer acostumar-se a um modo específico de viver e a alguma língua para enxergar, há o mesmo susto, o mesmo choro, o mesmo riso. O ‘oups’ dos acidentes, o choro das frustrações, a alegria do sucesso, a sobrancelha da dúvida. O mesmo estar rente ao chão, não importa se na terra ressecada ou num tapete persa, com vacas ou gatos de estimação ou os dois – temos todos a mesma cara abestalhada e nua, divertida ou apavorada,  de todo modo sempre perplexa diante de tudo, pois que tudo é deslumbramento. Não há filósofo que seja mais perplexo do que um bebê, não há poeta mais atarantado. A primeira infância é um espanto atrás do outro e é preciso realmente ser muito forte para aguentar o tranco de ser bebê. Nascemos fortíssimos e vamos murchando… Em pouquíssimo tempo fazer uma permutação entre essas crianças seria quase trágico, quem sabe o quanto essas crianças já não teriam deixado de ser simplesmente bebês e passado a ser crianças africanas, mongois, japonesas e americanas – crianças com o predicado da cultura (e potenciais adultos com o predicado da intolerância). O filme as acompanha cambalearem até o primeiro erguer-se e o primeiro caminhar, o primeiro afastar-se da terra e olhar o chão de cima, olhar para frente e não mais ao redor. O primeiro afastar-se do humano e da terra sem fronteiras e aproximar-se do Homem, das civilizações marcadas, demarcadas, cartografadas? O fim do tudo-junto-e-misturado e o começo do cada-um-no-seu-quadrado?

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      É um ponto de interrogação pessimista e broxante, mas ainda assim um ponto de interrogação que permite uma resposta confiante. Antes um ponto de interrogação que um ponto final definitivo e derradeiro. A filósofa Hannah Arendt2 tem um pensamento que me é muito querido. Diz ela que o nascimento de cada ser humano carrega potencialmente consigo um novo começo: “o milagre do aparecimento da novidade radical no mundo e a possibilidade sempre aberta da inauguração de um novo começo na história. O nascimento […] é o acontecimento inesperado que interrompe a segurança do mundo e a continuidade da história”. Nunca o corriqueiro e quase banal “as crianças são o futuro” me pareceu tão potente quanto depois de ler Arendt. Há aqui um grito coletivo pela humanidade, uma convocação a qual precisamos deixar que a infância responda. É papel dos adultos, da cultura. E este é o nó… Ajudar uma criança a crescer nunca pareceu tão dífícil.

      “Bebês” nos deixa com o primeiro erguer-se dessas crianças, que acompanha um grande ponto de interrogação. O que será delas a partir de então? Não podemos saber. Rezamos apenas para que as circunstâncias sejam favoráveis a um novo começo em direção ao bem…

     Mas me alegro de saber que elas tropeçarão ainda muitas vezes… Que tropecemos eternamente para que possamos ralar os joelhos no chão e nos lembrarmos dele, da terra que nos é comum e da humanidade que nos é infante.

baby 2


[1] “Nascemos tout-court antes de nascermos à lei”, p. 40 de LYOTARD, Jean-François. Lectures d’enfance. Paris: Galilée, 1991.

[2] ARENDT apud LARROSA, Jorge. “O enigma da infância”. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

terça-feira, 3 de maio de 2011

A palavra grávida

 

     Ainda sobre o angu de caroço da representação, é contraproducente apontar formas melhores ou piores de narrar. É comum que gostemos de assuntos sérios tratados com sisudez, assuntos leves escritos à pluma, assuntos áridos talhados com a secura de Guimarães e assim por diante. A forma coladinha ao conteúdo é a boa fórmula da boa literatura. Por isso também analisar literatura descolando pai e mãe não dá muito certo, o filho fica órfão e não há psicólogo que dê jeito no menino.

     Mas uma pergunta que me faço com toda humildade é – é mesmo só assim que funciona bem? É só quando a linguagem fala não só o conteúdo, mas pelo conteúdo? Não é uma pergunta retórica, é uma dúvida sincera, uma dúvida quase burra, maybe.

     Fico cismando que o ponto talvez não seja a gravidade, mas a gravidez. Não que a forma deva estar sempre “adequada” ao conteúdo (o significante é sempre arbitrário em relação ao significado?), mais importante que isso é que ela esteja grávida de um pensamento para além, que este filho possa abrir um espaço no mundo e correr.

     Não sei se me fiz entender, não sei se me entendi. Hum.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O joelho no milho

 

     Aprendemos o samba do crioulo doido da vida lá no pátio da escola, brincando de telefone sem fio. Não tem a menor graça que a mensagem chegue intacta. Que ela chegue toda torta, desfigurada, assim é que queremos, assim é que tem de ser – para que reste a graça, para que reste a dúvida. Por onde é que ela foi se perdendo, em quais ouvidos? Foi de surdez, foi de propósito? E se ela chega igualzinha à última pessoa, quem garante que a primeira – a autora da frase – não vai mentir e dizer que algo está trocado, só pelo prazer? Pelo prazer de o caminho não ter sido em vão. Também não é possível afirmar que essa primeira pessoa já não se terá esquecido a frase tão logo ela tenha completado o círculo. A memória caduca no tempo e no espaço. Aquilo que foi não retorna igual, Ulisses transfigurado.

     Que isto é é fato. Mas até onde isto pode?

     Esta é uma das pinimbas da Arte e da História diante das catástrofes da humanidade. A catástrofe e os limites de sua representação se impuseram com mais força nas discussões do meio artístico e acadêmico depois da Shoah, perfurando todo um restante de ditadores e torturados. É um discurso mais gago que o do Rei. Tão perturbador porque não encontra ginkgo biloba para a caduquice da memória, não sabe como fazer para que a mensagem não se entorte. Esta mensagem de horror não pode vagar para águas mais brandas, não pode se deixar soprar com leveza entre os ouvidos – ela precisa continuar gritando para sempre. Chamaram de irrepresentável o horror em seu limite, o horror que o corpo sentiu, mas a mente não alcança, a tortura que é incognoscível. Como representar esse irrepresentável? Como tratar o intratável que precisa e grita por ser registrado para que continue pulsando através das gerações a fim de que justamente não seja esquecido; para que não seja, principalmente, negado – para que todas as gerações por vir possam continuar dizendo “nunca mais”?

     São palavras de Milan Kundera, no popularíssimo A insustentável leveza do ser: “Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina”, até mesmo Hitler, Hiroshima, Ruanda, até mesmo – pasmem – Onze de Setembro e Osama Bin Laden. Que alegre desespero saber que nunca mais teremos Robespierre a cortar as cabeças dos franceses e nem Hitler a jogar judeus em campos de concentração, mas que teremos outros a fazerem outras coisas... A tacarem aviões em torres gêmeas, a matarem nomes terroristas (só nome, porque corpo ninguém sabe ninguém viu), a brincarem de tiro ao alvo em escolas. Nick Kristof, jornalista de guerra, resume assim essa papagaiada toda: “Se o século XX e o começo do século XXI nos ensinaram algo é que haverá uma próxima vez”. Não há nada que o tempo não cure, mas há muitas coisas que ele pode adoecer. Entre elas, a memória.

Que prejú.

     Esta é a única lição que tiramos da História? Maus alunos que oferecemos a mão à palmatória e sentimos um prazer feroz com o joelho no milho, não aprendemos muito.     

Poema do Alegre Desespero - António Gedeão

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?