“What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss - absolute bliss! - as though you'd suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe?” ~Katherine Mansfield
Fala-se muito sobre a dificuldade de escrever sobre a catástrofe, de representar artisticamente aquilo que é tão mau e tão hediondamente real que não pode ser diminuído por nenhuma palavra ou nenhuma tinta. Aquilo que gostam de chamar de “irrepresentável” ou “indizível” porque está destinado a permanecer eternamente alojado na experiência bruta, como se alguém tivesse esquecido uma faca dentro do corpo depois de uma operação.
Mas e o indecentemente delicioso? Como representá-lo para que também não seja diminuído por palavras; para que, sobretudo, não pareça… bobo? Para que não seja um gritinho fútil e histérico de uma menina de quatorze anos diante de Justin Bieber… A alegria parece sempre tão tolinha... Boba, boba, boba… bobona eu. Como escrever o sol fresco sem que ele pareça uma luz clichê? E o verde das folhas sem que pareça sátira ou paródia árcad
e? Eu que andei vendo um sol e umas árvores tão
(cadê a palavra… palavra…? … fico com lindas mesmo)
lindas hoje. Tirei uma foto por falta de jeito de escrever. (Pode ser dor de cotovelo, mas) desconfio de que a extrema felicidade e a extrema dor são egoístas, incompartilháveis, verdadeira e unicamente nossas, não podemos dividir nem que queiramos.
Escrever a tristeza e o amor é muito fácil, as metáforas chegam, elas se apresentam como uma legião de dominós. A felicidade no entanto exige um talento absolutamente maior. Ela demanda uma técnica muito mais delicada. Como é que se faz um texto sorrir? Cadê a bochecha do texto pra doer de sorrir?
Será que se pode encarar a felicidade, em vez de escrever sobre ela dessa forma enviesada, perguntando como escrever sobre ela? Porque, bem, isso é roubar. Perguntar o que fazer com a felicidade é não fazer nada com ela. É um jeito fácil e malandrinho de se livrar do tête-à-tête. Técnica utilizada repetidas vezes ao longo de diversos escritores (maus escritores, suponho) para fugir de um determinado tema – perguntar como escrever sobre. É colocar a dúvida para dissimular a incompetência. É o mesmo que preencher páginas e páginas com a inquietação de não ter nada o que falar. Falou-se algo, um espaço foi preenchido, umas palavras foram borradas e pronto, já está, pode-se mandar para o jornal do dia seguinte.
Meu caso aqui é um tiquinho pior porque não tenho obrigação nenhuma de escrever com prazos, nem escrevo sob encomenda, então meus temas são de minha responsabilidade, preciosamente escolhidos (não necessariamente bem tratados). E eu pateticamente escolho escrever sobre a felicidade com essa técnica insuportável e vagabunda dos incompetentes que não cansam de recorrer à metalinguagens fuleiras...
Essa angústia vem muito de a minha memória literária ser despovoada de narrativas de felicidade. (E todo mundo sabe que os iniciantes escrevem amparados em exemplos – seja pra fazer parecido, seja pra transtornar). De furor romântico, sim, de momentos alegres, talvez, de enjoada cafonice, com certeza, mas a grande parte sempre termina com uma súbita melancolia, com um balde de água fria, com a derradeira verdade inconsolável: a felicidade é ilusória, é um desodorante de prazo pequeno para a podridão, que logo começa a feder. Não é essa que eu quero.
Como se fala da felicidade de exatamente agora? Não da felicidade infantil de outrora, essa felicidade inventada com cheiro de bolo de fubá, mas uma felicidade genuína, que se sente na hora, que tá aqui, estalando, berrando, que sai desembestada campos fora como um potro que acaba de cair da mãe. Uma felicidade que não pode ser do tipo que é ficcionalmente lembrada (a felicidade de algum passado), mas esta que simplesmente não pode ser lembrada porque está acontecendo, no delicioso gerúndio do presente… Esta que me veio hoje, numa quarta-feira mediana extremamente cedo pela manhã, assim do nada, pulando como uma pulguinha, surgida de nenhum motivo assim muito óbvio, e que destrambelhou a me comichar para sorrir - “I must laugh or die!”
Dizer que se está feliz a ponto de chorar, isso é tão bobo, mas e se eu realmente estiver com os olhos chuviscados, como se tivesse acordado marejada de orvalho fresco para um dia lindo… toda brega… e se meus lábios estiverem realmente tremendo de tanto eu tentar controlar esse choro para não parecer tão patética? Há tanta coisa ruim no mundo e eu gastando lágrimas com felicidade! Chorar tem que ser por coisas bem mais importantes. Ai meu Deus, como sou fútil, que não vejo nada de mais importante do que isso!![]()
Boba, que bobona…









Aprendemos o samba do crioulo doido da vida lá no pátio da escola, brincando de telefone sem fio. Não tem a menor graça que a mensagem chegue intacta. Que ela chegue toda torta, desfigurada, assim é que queremos, assim é que tem de ser – para que reste a graça, para que reste a dúvida. Por onde é que ela foi se perdendo, em quais ouvidos? Foi de surdez, foi de propósito? E se ela chega igualzinha à última pessoa, quem garante que a primeira – a autora da frase – não vai mentir e dizer que algo está trocado, só pelo prazer? Pelo prazer de o caminho não ter sido em vão. Também não é possível afirmar que essa primeira pessoa já não se terá esquecido a frase tão logo ela tenha completado o círculo. A memória caduca no tempo e no espaço. Aquilo que foi não retorna igual, Ulisses transfigurado.