sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ah! Uma infância errada…

 

     Nunca naveguei bucolicamente em córregos de carás dourados. Nadava de peito nos afluentes caudalosos de carros e faróis de freio. Nunca subi em árvore pra pegar fruta. Me empoleirava no carrinho de supermercado e catava biscoito de chocolate das prateleiras. Nunca corri por campos impressionistas com animais e nem assustei galinhas. Levava meu cachorro pra passear aqui na rua mesmo e os dois nos espantávamos, contemplativos, vendo um miquinho passear pelos fios de telefone. Nunca senti os cheiros dos doces da avó que nunca tive nas visitas de domingo que nunca fiz. Me regalava com o pudim da padaria ao lado de casa. Nunca galopei na correnteza que nem cavalo solto. Brincava de rema-rema-remador no sofá da sala com a empregada.

     Nunca vivi de infância lobateanamente prometida. Vivi de um não sei o quê urbano que parece não servir pra história, nem sonho e nem delícia.

     A literatura repetidamente me frustra com infâncias rurais oníricas, onde eu não estou… será que não fui criança, Deus meu? Ah! Que horror ter sido desviada da infância certa! A infância certa, aquela que dá colo e aconchega, é rural, tem cheiro de bosta de cavalo, é molhada de esguichos de córrego, é pulguenta e infestada de cicatrizes fundas. A infância certa sobe em árvore e come fruta do pé. A infância certa tem quintal. A infância certa tem sempre oito anos. A infância certa tem avós gordas e cozinheiras. A infância certa passa férias em sítios nas Minas Gerais. A infância certa pune todas as outras com seu tom de sépia bucólico e rústico e árcade, tão perfeito… se agasalha em lugares-comuns e neles permanece… inocência querida da infância perdida!

     Ah… pobre da minha infância errada…

 


Imagem: Renoir, L'enfant au fouet, 1885

4 comentários:

  1. Talvez a sua Literatura nos dê uma outra infância...aquela que é urbana, tão boa quanta a outra.... quem dera todo mundo escrevesse sentimentos assim...

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  2. Eu tive as duas infâncias, acho... Uma no interior do Rio, outra no subúrbio carioca, onde se pode (ou se podia e já não se pode?) brincar correndo pelas ruas e encontrar um ou outro sítio, com direito a rio, em plena cidade... Saudades das tardes de pique, de bicicleta, de beijinho escondido da mãe...

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  3. Putz, a Tata (Talita) ainda teve uma infância assim ? Que bom! Então, o Rio ainda não estava tão mal.
    E eu que pensava que isto tudo que ela cita, tivesse acabado na minha infância, a long, long time ago...

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