O sambinha meio pulguento dos vizinhos fica flutuando aqui no vale, a voz de um outro desce pelo vão da coluna do banheiro social, um fulano ensaia uma guitarrinha, alguém no andar de cima (ou será embaixo) fica falando no skype sem fones de ouvido e fico ouvindo essa voz encaixotada de eco digital – sem entender, o que é pior. Na Igreja tem missa e coro. Tudo meio longe, mas não longe o suficiente, e fico com esses zumbidos amortecidos, chatiiinhos... o som é leeeento... mole que nem um vira-lata se espreguiçando e bocejando. Zumbidinhos que não são isso, nem aquilo, tudo a meio tom, sussurrento... Um incômodo, domingo é um encosto que não deixa seguir adiante... Tanto pra se fazer e não dá pra fazer nada. Domingo é um rodo que empurra tudo pra segunda. Pra piorar ainda é outono aqui. Você sabe que as tardes de outono aqui são insuportavelmente velhas. A temperatura é boa, o sol é amarelado como foto velha, até o verde fica meio sépia, tudo é velho no domingo de outono. E esse sambinha encardido, mas que merda! É chato o samba dos outros. Você sabe que eu gosto de música, mas não a música dos outros, que invade aqui meu campo acústico sem eu pedir. Os olhos a gente pode fechar, virar pro outro lado, a gente não precisa ver. Mas ouvir é ruim, ouvir é involuntário demais pra quem não se concentra. Eu não consigo me concentrar ainda... É, ainda não consigo... Nada me interessa tanto assim a ponto de eu não ouvir. Eu fico chateada de não estar inteira pro Lobo Antunes. Não é muito esperto ficar com ele num domingo, mas às vezes a gente não tem escolha, você sabe. Às vezes tem de ser, como domingo tem de ser.
Foto: http://www.flickr.com/photos/szalik/

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