O pai não deixava a filha furar a orelha. Bebezinha, saíra da maternidade de cara limpa. Na escola, todas as meninas da sala usavam brincos. Pendurados havia ursinhos, pedrinhas, pokémons e argolas. Ela, coitada, levava o lóbulo nu.
O pai não a deixava furar a orelha. O corpo é feito de pontos de energia, o que faz com que todo ele seja um sistema conectado e coeso. Um furo na orelha significaria a perda de alguma outra função corporal. Se ela nascera sem furo, é porque não era pra ser furada. Além disso, dói, sangra e o escambau. Trata-se de um costume primitivo. Era estranho para o pai que a filha procurasse a dor, o pus e o escambau.
Então a frustração dos brincos de pressão. Dos brincos adesivos...
Aos onze anos, contudo, não deu mais. Foi escondida à farmácia e pediu a pistola. Imediatamente a dor procurada. Uma dorzinha salgada, o tempero da vitória. O metal atravessado na carne, atarraxado nalgum ponto de energia. Você é uma mulher. Pai, eu não sou mais uma menina. Eu uso brincos. Eu uso brincos porque eu escolhi.
Um rito de passagem, por que não?
ResponderExcluirSenti um leve toque de verdade nesse texto.. Tá desabafando? haha brincadeira.
ResponderExcluircomigo foi o oposto. saí da maternidade com a orelha furada, mas assim que me tornei responsável por meus brincos, me livrei de todos eles. tenho aflição!
ResponderExcluirEm 2046 descobrirão que vovô estava certo...(sent by my itravelling machine mobile from Apple)
ResponderExcluircomo é caro esse tal de livre-arbítrio e como é boba a mocidade...
E não é que a sua vovó, Maitê, também não tinha as orelhas furadas porque seus bisos também não gostavam disso ?
ResponderExcluirSó que, quando sua mamãe se rebelou e foi à farmácia furar as orelhas dela, eu, Maitê, corri até lá e fiz o mesmo, e fiz logo dois furos em cada orelha.
Que coisa feia! Desobedecemos aos mais velhos.
Não faça isso, não, minha querida netinha.