“On est né tout court avant de naître à la loi” ~ Jean François Lyotard1
Igualdade é daquelas palavras que estufam o peito, é aquela palavra bonita de defender, que nos confere mais humanidade, mas no final todos sabemos que a minha igualdade depende do quão mais igual eu for a você, o gostosão do momento. Liberdade, igualdade e fraternidade!, grita uma mulher com o peito de fora – e ai de você se ousar meter uma burka aqui nas minhas fronteiras! Nesses dias turbulentos de “mundo árabe” e casamento gay, a polêmica dessa palavrinha fica a sassaricar por aí. Mas chega, não vou me enroscar mais em politicagens porque disso eu absolutamente nada entendo e por mais que eu seja corajosa no blog, isso já seria me encrencar demais.
De todo modo, falem o que falem as revoluções, os livros, os socialistas, os ativistas, os humanistas, os valhamedeusistas, ninguém fala melhor do que um bebê. Ora, que contrassenso, ninguém fala melhor do que um infante, um in-fans, aquele que ainda não fala? Confirmo: ninguém evoca melhor a humanidade do que um bebê.
Ontem tive o enorme prazer de ouvir quatro deles, na obra-prima de Thomas Balmès, “Bebês”. A sinopse já diz que ao seguir simultaneamente quatro bebês, do nascimento aos primeiros passos, na Mongólia, Namíbia, São Francisco e Tóquio, Bebês captura em filme os primeiros estágios da jornada da humanidade, que são ao mesmo tempo únicos e universais a todos nós. São três meninas e um menino, acompanhados desde a barriga da mãe até mais ou menos 1 ano, e para quem o mundo precisa abrir um espaço.
A câmera é toda para o bebê. As mães são elementos secundários, conservatórios de leite; os pais praticamente não existem e quando aparecem fazem merda. Mais relevante que o seio materno é, evidentemente, o seio cultural. Através de diferentes espaços, lindamente fotografados, Balmès faz aparecer um mesmo chão humano. Não à toa escolheu crianças de, literalmente, quatro cantos do mundo. Aqui, as diferenças gritantes evidenciam a semelhança proporcionalmente estridente.
A esses bebês são oferecidos modos diversos de começar ‘the adventure of a lifetime’, mas o que eles nos oferecem de volta é uma mesma atitude primeira para estar no mundo. Antes de qualquer acostumar-se a um modo específico de viver e a alguma língua para enxergar, há o mesmo susto, o mesmo choro, o mesmo riso. O ‘oups’ dos acidentes, o choro das frustrações, a alegria do sucesso, a sobrancelha da dúvida. O mesmo estar rente ao chão, não importa se na terra ressecada ou num tapete persa, com vacas ou gatos de estimação ou os dois – temos todos a mesma cara abestalhada e nua, divertida ou apavorada, de todo modo sempre perplexa diante de tudo, pois que tudo é deslumbramento. Não há filósofo que seja mais perplexo do que um bebê, não há poeta mais atarantado. A primeira infância é um espanto atrás do outro e é preciso realmente ser muito forte para aguentar o tranco de ser bebê. Nascemos fortíssimos e vamos murchando… Em pouquíssimo tempo fazer uma permutação entre essas crianças seria quase trágico, quem sabe o quanto essas crianças já não teriam deixado de ser simplesmente bebês e passado a ser crianças africanas, mongois, japonesas e americanas – crianças com o predicado da cultura (e potenciais adultos com o predicado da intolerância). O filme as acompanha cambalearem até o primeiro erguer-se e o primeiro caminhar, o primeiro afastar-se da terra e olhar o chão de cima, olhar para frente e não mais ao redor. O primeiro afastar-se do humano e da terra sem fronteiras e aproximar-se do Homem, das civilizações marcadas, demarcadas, cartografadas? O fim do tudo-junto-e-misturado e o começo do cada-um-no-seu-quadrado?
É um ponto de interrogação pessimista e broxante, mas ainda assim um ponto de interrogação que permite uma resposta confiante. Antes um ponto de interrogação que um ponto final definitivo e derradeiro. A filósofa Hannah Arendt2 tem um pensamento que me é muito querido. Diz ela que o nascimento de cada ser humano carrega potencialmente consigo um novo começo: “o milagre do aparecimento da novidade radical no mundo e a possibilidade sempre aberta da inauguração de um novo começo na história. O nascimento […] é o acontecimento inesperado que interrompe a segurança do mundo e a continuidade da história”. Nunca o corriqueiro e quase banal “as crianças são o futuro” me pareceu tão potente quanto depois de ler Arendt. Há aqui um grito coletivo pela humanidade, uma convocação a qual precisamos deixar que a infância responda. É papel dos adultos, da cultura. E este é o nó… Ajudar uma criança a crescer nunca pareceu tão dífícil.
“Bebês” nos deixa com o primeiro erguer-se dessas crianças, que acompanha um grande ponto de interrogação. O que será delas a partir de então? Não podemos saber. Rezamos apenas para que as circunstâncias sejam favoráveis a um novo começo em direção ao bem…
Mas me alegro de saber que elas tropeçarão ainda muitas vezes… Que tropecemos eternamente para que possamos ralar os joelhos no chão e nos lembrarmos dele, da terra que nos é comum e da humanidade que nos é infante.
[1] “Nascemos tout-court antes de nascermos à lei”, p. 40 de LYOTARD, Jean-François. Lectures d’enfance. Paris: Galilée, 1991.
[2] ARENDT apud LARROSA, Jorge. “O enigma da infância”. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

Gostaria muito de ver este filme também. Quer vê-lo outra vez?
ResponderExcluirNós, pais e mães, achamos que sabemos tudo e que passaremos esse tudo pra vocês, mas não é bem assim, não.
Nossos bebês quando chegam, vem com um diploma debaixo do bracinho pra nos ensinar coisas que nunca poderíamos imaginar que ainda não soubéssemos.
E a gente vai continuando a aprender dia a dia com nossos bebês, mesmo que nossos bebês já tenham crescido, estando prontinhos pra alçar vôo.
Obrigada, minha querida bebê, por tudo de bom que você me ensinou e continua ensinando.
E a história se repetirá. E sempre assim.
Beijo da mamãe
b r i l h a n t e.
ResponderExcluirSeu post é tão bonito e terno que demorei muito para pensar no que comentar. Na maioria das vezes o silêncio é de ouro, mas fico sempre com aquela coceira no cérebro que se estende até os dedos, você deve entender.
ResponderExcluirMuita gente esquece a responsabilidade que vem junto com a gestação, e como resultado da gestação, a colocação no mundo de um outro ser humano.
Esquecemos que filhos não são propriedades nossas, não pertencem a nós, e em esquecer isso damos continuidade a distorções sinistras na formação destas novas criaturas. Novos humanos.
Preparamos estas pessoas para serem como gostaríamos de ter sido ou como gostaríamos que elas fossem, deixando de lado o papel que elas terão como parte de um agrupamento maior chamado humanidade.
Estas crianças vão cair, vão se erguer e vão pensar por si próprias, mas é a sementinha que deixamos nela é que vai ajudar a germinar a pessoa que se tornará. Depende muito do quanto vamos regá-la, em que solo a teremos plantado.
Quando vejo uma criancinha meu dia se ilumina e sempre penso: "que você cresça e se torne uma pessoa boa".
Porque é isso que mais precisamos hoje, de pessoas boas.
Bebês são futuros seres humanos. Como Kundera mesmo disse, Hitler já foi bebê, Ghandi, Chaplin, bin Laden, Che Guevara, você, eu.
Não sabíamos de nada até sermos o que somos.
Humanos.