Inebriada pelo melhor sono da manhã, ela nem se dá conta da breve aragem pelo cóccix. Ele soprando, como se sopra uma pétala, a etiqueta da calcinha, que nunca ficava para dentro. Ela permanece quieta e plácida, estátua escondendo os seios enterrados na cama, oferecendo apenas, como relevo eriçado, o poliéster levemente puído da calcinha rosa, como oferecia também as das que eram brancas, azuis ou beges.
As primeiras horas da manhã e as da noite, além dos domingos, eram as únicas que se podiam ouvir a respirar e a pensar. No restante do tempo, sons sem fronteira esburacavam o silêncio do roçar de seus cílios e o trocar de seus hálitos com britadeiras e marretas. Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronto o novo prédio, estalagmite urbana.
Mas ela não acordava pela manhã e, embora ele a tivesse a ela e as etiquetas de suas calcinhas, ela não tinha a ele e, portanto, sempre saía perdendo no final das contas – sentia mais falta dele do que ele dela e assim ela ia, sempre se achando mais amante que amada, menos querida do que de fato era. A pena é que ao dormir não tenhamos nem o mínimo de nós mesmos – privados do melhor ruído da chuva e da brisa da respiração de um homem pelas costas, à mercê de toda boa e má intenção. Ela, nessas horas de silêncio e brisa, estava presa não se sabe em qual sonho, ao que se agarrava inconscientemente, mesmo que fosse para depois perdê-lo, uma vez abertos os olhos. Acordava só quando o barulho era forte demais, o sol já batia na altura de suas coxas e ele já se tinha ido. Nunca nenhum recado que dissesse meu bem, eu te amo, trago as tangerinas quando voltar. Só alguma louça de café da manhã no fundo da pia da cozinha, alguma poça d’água nos azulejos do banheiro. Ela nunca o havia sabatinado e sabido o que era de importância saber. Presa nos detalhes da desordem, ficava feliz com a tampa da privada abaixada e tirava daí algum amor.