terça-feira, 29 de outubro de 2013

algum amor

Inebriada pelo melhor sono da manhã, ela nem se dá conta da breve aragem pelo cóccix. Ele soprando, como se sopra uma pétala, a etiqueta da calcinha, que nunca ficava para dentro. Ela permanece quieta e plácida, estátua escondendo os seios enterrados na cama, oferecendo apenas, como relevo eriçado, o poliéster levemente puído da calcinha rosa, como oferecia também as das que eram brancas, azuis ou beges.

As primeiras horas da manhã e as da noite, além dos domingos, eram as únicas que se podiam ouvir a respirar e a pensar. No restante do tempo, sons sem fronteira esburacavam o silêncio do roçar de seus cílios e o trocar de seus hálitos com britadeiras e marretas. Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronto o novo prédio, estalagmite urbana.

Mas ela não acordava pela manhã e, embora ele a tivesse a ela e as etiquetas de suas calcinhas, ela não tinha a ele e, portanto, sempre saía perdendo no final das contas – sentia mais falta dele do que ele dela e assim ela ia, sempre se achando mais amante que amada, menos querida do que de fato era. A pena é que ao dormir não tenhamos nem o mínimo de nós mesmos – privados do melhor ruído da chuva e da brisa da respiração de um homem pelas costas, à mercê de toda boa e má intenção. Ela, nessas horas de silêncio e brisa, estava presa não se sabe em qual sonho, ao que se agarrava inconscientemente, mesmo que fosse para depois perdê-lo, uma vez abertos os olhos. Acordava só quando o barulho era forte demais, o sol já batia na altura de suas coxas e ele já se tinha ido. Nunca nenhum recado que dissesse meu bem, eu te amo, trago as tangerinas quando voltar. Só alguma louça de café da manhã no fundo da pia da cozinha, alguma poça d’água nos azulejos do banheiro. Ela nunca o havia sabatinado e sabido o que era de importância saber. Presa nos detalhes da desordem, ficava feliz com a tampa da privada abaixada e tirava daí algum amor.

sábado, 19 de outubro de 2013

Rio, apesar de muito

 

É triste, mas é apesar de muito que a gente ri. É por essa vida que é só aqui, só daqui, que é muito pior do que noutro lugar, mas muito pior noutro lugar. O ponto de vista sempre serve para consolar, porque carioca precisa de alguma consolação. Talvez seja o que faz o mendigo da Lapa parar na janela de um sobrado pra escutar o samba de dentro, com muito mais gosto do que nós, que pagamos vinte reais para entrar, estamos pagando quinze na longuinec e ainda, mesmo assim, estamos fora, muito por fora, sem muito samba no pé, olhando do segundo andar. A cantora sabe que qualquer canto é menor do que a vida dessas pessoas, ela se vira mesmo assim e canta praquele público que não pagou, porque é a coisa mais honesta a se fazer. Nosso samba não é de preto velho e a gente tem jogo de cintura só pra dizer pro mendigo que nosso dinheiro acabou e, desculpa aí amigão, não vai dar não. E ele diz, com jogo de cintura pra viver, chateado, indo embora, que poxa vida, ele sempre chega atrasado, quando o dinheiro das pessoas já acabou. A gente sorri, apesar disso, porque é lindo, apesar de tudo. Mas esse jogo de cintura pra viver um dia acaba e a gente não tem jogo de cintura pra dizer mais nada, vendo o iPhone ir embora, na baia de um malandro com uma pistola. A gente fica chateado, desculpa aí amigão, perdeu. Perdi, perdemos, perdemos tudo. Somos roubados dentro das lojas porque temos que comprar, temos que beber aquela água de cinco reais e aquela longuinec de quinze, porque temos que nos vestir e porque temos que. Somos roubados fora das lojas porque temos que viver. Somos roubados, de um jeito ou de um outro, porque o bicho pega e, bicho, o bicho come, mas tá todo mundo rindo. Viver é melhor que chorar. E faz tempo, eu não vi você na rua, mas sei que seu cabelo esteve ao vento com outros cabelos de gente jovem. Você hoje é gente velha e eu tenho visto novos cabelos jovens reunidos. E esse é o quadro que dói mais, porque doemos como os nossos pais doeram. Ainda. E de novo. Mas de noite, ali na Lapa, na chuva, com o pivete, a gente ri porque nuns mais, noutros menos, a ferida é viva, mas viver é melhor que chorar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A vida dos outros

 

Não há muito além da vida dos outros. A vida dos outros é pelo que se acorda toda manhã, é pelo que se vai ao bar, é pelo que se marca encontro, é o que se suspira pelas alcovas e o que se fala alto pelos botecos. A vida dos outros é a razão de viver do palpitar, do mexerico, do disse me disse que me disse. A vida dos outros é pelo bem do assunto, é só porque se ela não existir, vai-se embora e não se falou nada. Palpitar igual sobre a vida dos outros é virar unha e carne, é ser do mesmo time. A vida dos outros serve para colocar os outros em nossas vidas. A vida dos outros é a mãe do Fulano e do Cicrano, que sou eu e é você. A vida dos outros é a mãe da Puta e do Filho dela também, que sou eu e é você, também. Digamos, a vida dos outros é a mãe do Vagabundo, do Cafajeste, da Maluca, da Histérica, é a mãe da Gostosa e da Gorda, também. A vida dos outros pariu a porra toda e é pela porra toda que afinal estamos todos aqui. A vida dos outros é pelo que se vive a própria vida, vida própria que é a vida alheia dos outros. Falem mal ou falem bem, que falem dos outros, a minha alteridade é minha e não é de mais ninguém, que eu não vou ficar sendo o Fulano de alguém – quer dizer, não vou ficar sendo o Fulano do Cicrano como o Cicrano é o meu Fulano. Entendeu. Não. Deixa pra lá, deu quatorze linhas de assunto.