Não há muito além da vida dos outros. A vida dos outros é pelo que se acorda toda manhã, é pelo que se vai ao bar, é pelo que se marca encontro, é o que se suspira pelas alcovas e o que se fala alto pelos botecos. A vida dos outros é a razão de viver do palpitar, do mexerico, do disse me disse que me disse. A vida dos outros é pelo bem do assunto, é só porque se ela não existir, vai-se embora e não se falou nada. Palpitar igual sobre a vida dos outros é virar unha e carne, é ser do mesmo time. A vida dos outros serve para colocar os outros em nossas vidas. A vida dos outros é a mãe do Fulano e do Cicrano, que sou eu e é você. A vida dos outros é a mãe da Puta e do Filho dela também, que sou eu e é você, também. Digamos, a vida dos outros é a mãe do Vagabundo, do Cafajeste, da Maluca, da Histérica, é a mãe da Gostosa e da Gorda, também. A vida dos outros pariu a porra toda e é pela porra toda que afinal estamos todos aqui. A vida dos outros é pelo que se vive a própria vida, vida própria que é a vida alheia dos outros. Falem mal ou falem bem, que falem dos outros, a minha alteridade é minha e não é de mais ninguém, que eu não vou ficar sendo o Fulano de alguém – quer dizer, não vou ficar sendo o Fulano do Cicrano como o Cicrano é o meu Fulano. Entendeu. Não. Deixa pra lá, deu quatorze linhas de assunto.
boa, boa, boa!
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