Uma tradução minha do texto original do Keveen, disponíveis em francês e inglês, em korakor.fr. Aproveitem!
Que os anjos voltem para o paraíso!
Que os anjos voltem para o paraíso!
Que eles parem de pavonear por aí com suas belas asas celestes, ostentadas sob os nossos narizes, pelo simples prazer de serem olhados, adulados, rogados e venerados...
Se os anjos vestidinhos de branco são realmente celestes, então que eles parem de vir nos desafiar com toda essa insolência no nosso próprio reino terrestre. Que eles fiquem à direita de Deus e que escutem nossos lamentos sentindo pena de nós.
Os anjos nos manipularam. Aqui estamos nós, pobres terrestres, tentando em vão reconhecê-los e revelá-los entre o monte de gente que nos rodeia.
Um ser humano, um homem dos mais banais, vem ao nosso socorro anonimamente ou sem nada esperar em retorno, e olhe só para nós clamando – por Deus! – haver visto um anjo.
Por que esse pessimismo quanto ao homem? Por que essa categorização da natureza humana?
Por que o homem, em sua mais linda humildade, não poderia ser ele também humano, doador, generoso e angelical?
É com pressa que atribuímos características divinas às banalidades do cotidiano. “É um milagre!” gritamos, ao ver um homem ajudar um desconhecido, quando se trata apenas de um simples homem estendendo a mão ao próximo.
A natureza humana passou para a divindade. A ajuda mútua, a caridade, a compaixão e o amor incondicional viraram qualidades santas e valores de ressonâncias religiosas.
Eu me entristeço. Eu me levanto e me recuso. Contesto essas verdades apocalípticas. Combato a queda do Homem. Ataco abertamente esse fatalismo e mostro o dedo do meio a esse lento suicídio passivo.
Eu sorvi mais quilômetros que qualquer profeta, meus pés acariciaram as terras de vários continentes, meus olhos viram homens de todas as cores, minha pele queimou sob o sol africano e gelou no inverno canadense.
Eu me sentei em suas casas, bebi em seus copos, comi em seus pratos, murmurei suas preces, escutei seus lamentos e suas alegrias, suas paixões e seus segredos, suas vontades e seus desejos. Vi suas lágrimas, seus risos e seus sofrimentos. Eu vi o Homem em todo o seu esplendor, em toda sua feiúra. Abracei religiosos, alcoólatras, anjos e demônios... Eu peguei o Homem nos braços e o escutei. Foi ele que me ensinou a ouvir o mundo.
Eu bebi em seu nome, em nome da vida e em nome do Amor.
Eu orei pela vida, pela paz e pela saúde.
Eu chorei de amor, de dor e de prazer.
Eu sou eu, ele, ela, eles e nós.
Eu sou nós todos e vocês são eu.
Eu sou feito de vocês assim como vocês são feitos de mim.
O meu sorriso os mudou, o de vocês me inspirou.
A minha ajuda lhes deu asas, a de vocês me fez voar mais alto.
Eu fico doidão com o ser humano.
Das cidades ou dos campos...
Num terno ou num bar...
Com rugas ou com piercings...
Que paremos de não acreditar em nós. Que paremos de culpar ou alugar os céus. Nós somos agentes conscientes da nossa mudança.
Que os anjos voltem ao paraíso!
Que parem então de nos roubar nossa humanidade...
Sejamos perfeitamente o que nós somos... e orgulhosos de sê-lo.
Keveen Gabet Copyleft 2009
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