quarta-feira, 9 de março de 2011

Cale-se, cale-se! Você me deixa looouco!

 

 “Delícia de fechar os olhos, por um instante e assim ficar, sozinho, fabricando escuro… sabendo que existe a luz!” Mario Quintana


     Sempre vivi na cidade grande, com seus ruídos particulares e característicos. Mas sou daquelas que sente saudade de um silêncio ancestral, de uma quietude que quase nunca posso ouvir. Os barulhos da urbanização e da engenharia civil desembestada e desordenada – ai, que eu não posso com isso!

     Ao lado do meu apartamento, há um desses prédios subindo, em construção há uns dois anos agora. Acordo com as marretas, o cocoricó da urbis. Os caminhões enormes de cimento, grandes demais para minha rua estreita demais. É um ritmo mal orquestrado, com o qual nem dá pra se acostumar e anestesiar as caixas acústicas. Hoje sou portadora de déficit de atenção. É uma doença, não é? As crianças sofrem com esse diagnóstico. Mas não é que elas simplesmente sejam assim, elas pegaram, como uma gripe, desse mundo barulhento e perturbado. Na verdade, pode ser mais como uma tuberculose, que é mais séria. Quase posso sentir as britadeiras furando a porra dos meus tímpanos e daqui a pouco minhas orelhas vão cuspir sangue! Já chorei, de tanto desespero! Mesmo à noite, quando descansam, as porradas estão aqui, impregnadas no meu cérebro, acopladas aos meus ouvidos, como uma broca está acoplada ao punho de um dentista e de um peão. Os dois igualmente insuportáveis. Capitães Gancho da Era Moderna, terror das criancinhas e das moças de família.

     Também me incomoda a tagarelice, a voz alta, a televisão alheia. A Fátima Bernardes de outra pessoa é intragável. Shh… Falemos baixinho, como quem sussurra na maternidade… pois que eu acabo de nascer, agorinha.

     Não quero o silêncio constrangido de uma falta de assunto qualquer, não o silêncio mórbido do tédio e da indiferença, não o silêncio hospitalar do moribundo. Mas sim o sossego de um chuvisco, o acordo pacífico do grilo com a noite, a serenidade do motor da geladeira, a mudez afinada da respiração de dois corpos e outras cafonices...     

     Mario Quintana, meu poeta dos mais queridos, já disse que a amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo (e que o amor é quando o silêncio a dois se torna cômodo). Não há intimidade maior do que ficar em silêncio junto. Falar infinitamente e depois calar, com leveza, e assim conseguir permanecer, sem que seja um embaraço. Ser profundamente íntimo é poder ouvir tudo, qualquer segredo e qualquer besteira. Mas é também, e principalmente, poder ouvir nada… É não ser intimidado pelo silêncio, é compartilhá-lo e estar em paz, descansando de todo o barulho do mundo.  

 Shh… aquietemos, que hoje é quarta-feira de cinzas…

                                                                   Foto: Bárbara Porto


 

     Em geral, eu coloco vídeos como ilustrações, você clica se quiser e tal. Mas este aqui eu considero como mais do que mera ilustração. Ele é didático e deveria ser passado nas televisões das estações do metrô e dos ônibus…

     Longa vida aos headphones.

2 comentários:

  1. Foi o velho Sartre quem disse que "o inferno são os outros", justamente por estarem entre mim e tudo o que almejo, mas que sem isso também seria complicada a existência.
    Entendo perfeitamente este queixume porque compartilho dele. Não aceito a ideia de restaurante ou bar com televisão, com gente cantando, conversando ou gritando mais alto do que meus próprios pensamentos.
    Bendito seja o inventor dos headphones, porque dele será o reino silencioso dos céus.

    ResponderExcluir
  2. "Falar infinitamente e depois calar, com leveza, e assim conseguir permanecer, sem que seja um embaraço. Ser profundamente íntimo é poder ouvir tudo, qualquer segredo e qualquer besteira." De acuerdo, siempre.

    ResponderExcluir