Minha geração quase não conhece os exilados políticos. Sou da geração dos exilados voluntários, daqueles que fazem intercâmbio e Erasmus. Daqueles que precisam ir embora porque ser brasileiro é abafado demais, porque precisam de um arzinho, da leveza de ser brazilian. Sempre achei que carioca é coisa linda de se ser, mas vem ser pra ver como é... É sempre mais bonito ser migrante. Para-se em qualquer lugar com uma certa dor e um certo sorriso, todos adivinham e todos perdoam, é estrangeiro... Saudade daquele bom país inventado. Daquele berço que é esplêndido aqui de fora. Daquele lugar do qual se precisa partir para se fazer as pazes, de uma birra que não se sabe mais onde começou, pra início de conversa. Não é que ele tenha me feito mal. Oh não. Mas navegar é preciso. É culpa da flecha do meu sagitário.
Ama-se melhor quando se ama de longe, agora tenho quase certeza.
Segue um texto de um amigo que traduzi esses dias. Original em italiano, aqui.
“Para saber aonde ir, é necessário saber de onde se vem”
Em tantas ocasiões, da minha partida de Sassari para a universidade em diante, me peguei refletindo sobre as minhas origens, sobre as minhas raízes. Isso porque vivendo fora você se dá conta que de fato o ditado “para saber aonde ir, é necessário saber de onde se vem” é absolutamente verdadeiro. E refletir sobre o lugar em que nasci e cresci se tornou um hábito freqüente, sobretudo quando me vi defrontando, primeiro em Padova e depois em Strasbourg, culturas e costumes diferentes dos meus.
O modo conflitante com que deixei Sassari e a Sardenha, que me fez experimentar nos primeiros meses um sincero sentimento de liberação, cansado de sofrer aquele isolamento físico, que foi tantas vezes também intelectual e cultural, sem dúvidas influenciou este meu pensar tão freqüente sobre o lugar em que vivi durante os primeiros dezoito anos da minha vida.
Dia após dia, pude reavaliar as belezas da Sardenha, as alegrias que me deu o morar na Sardenha, o afeto inato que eu desconhecia por aquelas ineficiências das quais nos queixamos, ao nos confrontarmos com realidades mais modernas. E assim aquelas ruas grosseiras, aquelas praias inalcançáveis, aquelas paisagens desoladas e privadas de vida humana, aquelas aldeias minúsculas e despovoadas, se tornaram belas recordações às quais me dedico algumas vezes, para encontrar uma paz em meio aos atropelos com outras modernidades, cujas comodidades são frequentemente elogiadas pelos sardos, em contraste com nossos atrasos.
E viver fora foi um pouco como fazer as pazes com a minha terra. Mesmo eu, que desconheço em boa parte o conceito de nostalgia, ou que pelo menos o freqüento bem pouco, me peguei provando aquela coisa que em países de língua portuguesa chama-se saudade, que alude a alguma coisa mais complexa que a nostalgia, mais profunda, que se refere ao mesmo tempo a lugares e pessoas, a momentos e lembranças. Qualquer tradução e tentativa de explicá-la será exercício em vão. Para entendê-la, deve-se prová-la.
A defrontação com os outros me enriqueceu enormemente. E o confronto me fez redescobrir também uma “sardeneza” que não pensava ter, sardeneza da qual sinto orgulho, porque anunciadora de valores sólidos de comunidade e solidariedade, teimosia e sinceridade, fraternidade e pouco jeito para negócios. Parece banal incluir essas características no ser sardo, mas é isso que se aprende quando se cresce na Sardenha. Entra no DNA. Isso não significa que somos os exclusivos detentores desses valores, mas que a soma dessas características nos torna únicos e reconhecíveis. Conheço bem a profunda compreensão, e o prazer, de quando me acontece, em outras partes da Itália e no exterior, de encontrar outros sardos.
A ilha te deixa ilhado. Isso é verdade, e preciso admitir que sofri. Adiciono também que nós, como geração jovem, não podemos prescindir de passar ao menos parte da nossa formação fora da Sardenha. Não é apenas o mercado de trabalho que o pede, porque “dá currículo” ou porque é necessário conhecer outras línguas. É sobretudo porque o mundo complexo em que vivemos nos pede para ser cidadãos do mundo, dinâmicos, prontos a responder aos desafios que nos aparecem pela frente, com respostas que não podem contemplar apenas a dimensão intelectual local ou regional.
Todavia, creio que a sardeneza que me acompanhou nesse meu viver longe da Sardenha tenha se tornado um valor agregado. Minha bagagem de valores e cultura, que procurei dividir com todos aqueles que encontrei na minha estrada, foi um excelente companheiro de viagem, apreciado por quem pôde conhecê-lo, e que me ajudou a superar as tantas dificuldades que se encontram normalmente em percursos como o meu.
Para concluir, a mensagem que eu gostaria de dar àqueles que leem essas linhas é esta: não tenham medo de procurar experiências fora da ilha, porque com isso vocês não ganham apenas enquanto profissionais do amanhã e como pessoas, mas aproveitam também para consolidar a identidade e oferecer de presente um pouco de Sardenha àqueles que encontrarem.
Considerem como um modo de fazer bem ao mundo.
Um abraço,
Paolo Costa
Por isso eu gostava tanto de usar o nome Estrangeira, na internet. Meu nome, aliás, significa isso: de fora. Parece sina. É bom e é ruim.
ResponderExcluirGostei do que seu amigo escreveu.
E de saber que você agora traduz italiano também. Ragazza poliglota, que maravilha.
<3
Impressionante que hoje estava numa roda de estrangeiros vivendo no Brasil e íamos por estes caminhos de que seu amigo falou tão bem: ver-se identificado, melhor identificado consigo próprio, com o distanciamento, com o olhar do outro.
ResponderExcluirNão vivi esta experiência ainda, mas quando ela chegar espero receber bem estas emoções.