sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vous plutôt que tu?

 

     O vous não está dentro de mim. Criança, aprendi: “o vous deve ser utilizado com pessoas mais velhas, com pessoas que você não conhece ou com pessoas que estão numa posição superior à sua”. Mas a partir de quanto tempo de distância entre nossos aniversários uma pessoa é considerada mais velha o bastante para o vous? E a partir de quantos minutos e quantas informações eu posso considerar que conheço uma pessoa? E se for uma pessoa da minha idade mas que eu estou vendo pela primeira vez? Posição superior à minha? Boh…

     É verdade que nunca pratiquei. Na escola, professor sempre foi “professor” ou simplesmente o primeiro nome e derivados afetuosos, Glorinha, Marcão, Dudu e assim em diante. “Senhor(a)” sempre foi imediatamente escorraçado(a) para o céu quando alguém saía com um “professora, a senhora...”. Eu nunca tentei, não tenho essa educação de casa, porque meu avô sempre disse que o respeito não está na senhoria. Deus sabe o esforço que eu preciso fazer pra chamar o avô dos outros de senhor. À parte casos assim, “senhor” é uma palavra escudo para o afronto e para a distância segura. Serve pra xingar respeitosamente. Nunca acreditei em formas canônicas de respeito para respeitar ou dar-se o respeito.

     Mas uma vez em Roma, faça como os romanos...

     Só no Ensino Médio é que fomos ensinados a chamar a professora de francês de Madame Fiuza, como exige a cultura francesa. Escândalo, até porque a conhecíamos desde bebês e ela, como todos os professores que tivemos no primário, seria para sempre tia Mônica. O exercício já era difícil demais para que ainda adicionássemos um vous majestoso (que, além de tudo, ainda dá mais trabalho de conjugar). Fazíamos uma presepada linguística, “Mme, tu...”.

     Na faculdade, lugar mais sério, cheguei quase psicologicamente pronta para chamar de senhor(a), mas nada mudara. As professoras continuaram dispensando a senhoria e algumas faziam até careta. Entrei num curso de cultura francesa preparada para usar finalmente um vous, mas acabei na sala da maravilhosa Ângela Perricone que me tratou de chérie logo na segunda frase e meu vous foi para o beleléu mais uma vez.

     Os europeus ficam perplexos. Me abrem dois olhos enormes e dizem que uma relação aluno-professor desse tipo é inadmissível. Se eu não tivesse me habituado a Madame Fiuza naquele último ano de escola, teria sido enxotada para fora da sala aqui.

     Na Itália, é o Lei. Mme F., de italiano, não deixa passar se erramos a conjugação e a tratamos de tu. “Nós não nos damos o tu”. Fico perplexa, intimidada, cortada pelo meio. As presepadas lingüísticas também me deixam confusa. Monsieur H. me trata de vous, mas me chama de Akemi. Mme F. mesmo nos dá o Lei, mas nos chama pelo primeiro nome: “Akemi, tocca a Lei”. Só Monsieur D. faz sentido, ele me chama de “mademoiselle Aoki”, o que sempre me faz rir, mas pelo menos é consistente e o “respeito” é bilateral. Ao contrário, se eu chamar Mme F. ou Monsieur H. pelos seus primeiros nomes, minha cabeça arrisca de rolar pelas escadarias da hierarquia acadêmica.

     Fora da universidade, as coisas não são mais simples. Na padaria, me perguntam “vous desirez...?” (o que a senhora deseja?) e eu tenho que responder “une baguette, s’il vous plaît”, enquanto que no bar, o cara pergunta “tu veux quoi?” (o que você vai querer?). O negócio é tão sério que tem gente que pergunta “on peut se tutoyer?” (podemos nos tratar de você?). Hoje mesmo uma pessoa me perguntou isso e eu, com todo o alívio do mundo, “mais BIEN SÛR!”. Vous e Lei são dois catarros entalados na minha garganta que nunca vão sair com naturalidade e que nunca vão espelhar necessariamente nenhum respeito maior do que aquele que eu tenho por aquela pessoa querida que eu trato de tu.

     Mas, já que em Roma...

2 comentários:

  1. Hahahaha, post muito divertido!

    Eu gosto demais da "informalidade" que temos no Brasil. Quer dizer, acho que no Rio ela é excessiva, mas no geral, essa coisa de proximidade que temos no nosso país é muito agradável pra mim :)
    Quando eu fazia italiano, meu professor era uma comédia, hahaha, formalidade zero! Aí era divertido. xD

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  2. Interessante você ter assimilado em apenas 16 anos de convivência com seu avô "o respeito não está na senhoria" e eu que fui educada por ele e vivi 48 anos ao lado dele, não consegui.

    Mas... cadê o Pacha, que ainda não comentou este post?

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