sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Vida e morte de Godzafta

 

Começou com uma mordida. E mais outra, no mesmo lugar, porque os dentes sempre caem duas vezes na mesma mordida. Uma afta, alguns dias antes do Natal, branquinha, chatinha, mas nada demais. Daquelas comuns, que vivem seus sete dias e então morrem. Deve ter sido na ceia do dia 24, conhecendo as belezas da vida e de garrafas inteiras de champanhe, que ela se decidiu, rebelde contra sua própria natureza: sobreviverei. Foi assim que ela saboreou um delicioso prato grego no Ano Novo, carne de porco suculenta com gotinhas de limão.  Duas semanas depois, ela se regalou com a comida apimentada do árabe no cafofo mais escondido de Lisboa. As pomadas bucais indicadas na farmácia não surtiam nenhum efeito. Assim ela cresceu, firme, forte, carnuda, uma bolota vermelha. Teo a batizou de Godzafta.

Impressionada com a força sobrenatural de Godzafta, decidi levá-la ao médico. Godzafta sentiu o perigo, e se escondeu, murchou, de volta à sua forma humilde e inocente. “Oh, não é nada, é só uma afta”, disse o clínico geral, “tome isso por cinco dias”. Godzafta sobreviveu mais uma vez. Completou um mês. Minha aftazinha era já o Matusalém das aftas, Highlander do tecido epitelial, Chuck Norris, em soma. “Oh, bem, não é mais uma afta, mas não é nada de mal, vou encaminhá-la ao dermatologista”. A dermatologista olhou, mexeu e disse “Oh, não é nada de mal, vou mandá-la ao estomatô e ele vai fazer uma cirurgiazinha”.

Dr. Van Der Gucht atende num consultório anos 50, de ângulos assimétricos do teto à todos os móveis, paredes nonsense no meio do espaço, cadeiras de acrílico, quadros dadaístas, música clássica non-stop. Uma secretária de voz macia, cabelos castanhos, que me lembra muito alguém e que parece me conhecer de outro século. Um tanto kitsch, exageradamente vintage, extravagantemente macabro. Godzafta se acanhou. “Não é nada de mal, mas está muito pequeno para que eu possa fazer a intervenção cirúrgica, volte semana que vem, comece a tomar esses três remédios na véspera”.

Godzafta iria para a cadeira kitsch da morte no dia 17 de fevereiro de 2012, às 16h.

Cheguei às 15h18. Tentei me distrair com um livro, mas livros não têm me distraído mais, e Mozart estava mais alto que da primeira vez, exalando funebremente do interior do consultório à sala de espera. Como um feto que é colocado pra ouvir música clássica dentro da barriga da mãe, eu sabia que ia entrar num mundo muito sinistro.

“Boa tarde, acomode suas coisas e pode se sentar na cadeira”. Deixei meus casacos e luvas e bolsa e livro e levei Godzafta para a cadeira. Anestesia local, botox provisório. Dr. Van Der Gucht arruma suas facas e tesouras e alicates na mesinha e vai para o fundo da sala. Ouço barulho de água, de metais batendo. Dr. Van Der Gucht passa para outro compartimento da sala. Faz umas anotações. Dez minutos. Entra a secretária. Eles ajeitam a máscara, colocam as luvas e ajustam a luz no meu rosto. Dr. Van Der Gucht usa um instrumentozinho para apertar o lábio e isolar Godzafta. Então o bisturi corta Godzafta quatro vezes e a secretária limpa o sangue com a gaze. Godzafta é forte. Dr. Van Der Gucht repete o procedimento e futuca um pouquinho com a tesoura. Godzafta é puxada com a pinça e finalmente guardada para ser analisada em laboratório. Nunca mais champanhe, nunca mais porco à grega, apenas a superfície gelada de uma lâmina de vidro sob o microscópio. Eu estou ainda ali, levando dois pontos.

Um comentário:

  1. "Highlander". Seu avô ganhou este apelido no hospital de tantas supostas idas pro outro lado, mas sempre retornando. Um maldito dia, Highlander não resistiu. Se foi.
    Saudades, muitas saudades.

    Agora você ficou livre da sua Godzafta. Ufa, que bom!!!
    Bem apropriado este nome de batismo escolhido pela Teo. (hahaha)
    (E tudo nos remete ao Nihon, sempre)
    Anestesia, bisturi, pontos...
    Minha menina valente e corajosa !!!!

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