quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ai, não seja tonto! 2

 

    Antes de tudo, perdoem pelo post rechonchudo. Não tive tempo de ser breve.[1]  


    Achei muito difícil falar sobre inteligências e burrices sem falar sobre a escola, o sistema escolar, onde se espera que nossa instrução comece. Por mais que seja generalista fazer esta afirmação, creio que todo mundo guarda certos traumas… E eu não tô falando só do pentelho que grudava chiclete no seu cabelo.

     Eu não sou da área de Pedagogia nem de Neurologia, pouco ou nada li sobre o assunto, mas meu (e de uma cambada de gente também) modelo utópico de educação (sobretudo no nível fundamental/médio) seria aquele em que as disciplinas trabalhariam em colaboração. Colocar realmente em prática aquilo que chamam de interdisciplinaridade. Na Academia e na vida prática, os saberes foram divididos assim como na indústria o artesão foi substituído por empregados fordistas. Em nome da rapidez da produção em massa (e outras cositas más…), enquadradamos os homens num único espaço, tampamos a visão periférica, assim como se colocam viseiras em cavalos de charrete. Nós, assim como os cavalos, nos assustaríamos se pudéssemos ver mais do que a bosta do outro que vai na nossa frente.

     Lá nos primórdios gregos já havia os funis escolares, em que crianças “mais espertas” eram selecionadas para uma educação diferenciada. Não sei exatamente como elas eram distinguidas, mas o importante é que esse tipo de funil continua e é responsável por várias frustrações. Me parece que a Teoria das Inteligências Múltiplas (que sugere basicamente as seguintes inteligências: lingúística, lógico-matemática, espacial, musical, cinestésica, interpessoal e intrapessoal) ainda não foi completamente reconhecida pelo sistema educacional a ponto de ser viavelmente aplicada na escola.

     A criatividade ainda não é suficientemente valorizada, a Arte é de importância menor, e a divisão dos campos de saber é insistente. Por mais que possa haver esforços nesse sentido, ainda precisamos caminhar muito para que a prática de fato funcione.

Parte 1

     Não quero botar abaixo as peculiaridades de cada área e os gostos particulares de cada um para domínios específicos. Mas sinto que me faltou quando criança, enquanto escolar e aprendiz de aprender, o link. Eu simplesmente não clicava para a continuidade dos tempos quando batia a sirene e os professores passavam a batata quente. Talvez (bastante talvez) eu tivesse simpatizado mais com a Matemática e meu amigo engenheiro, com a Filosofia, se eu tivesse sabido que a Matemática nasceu na Filosofia – e isso já é História, by the way! Trazendo o assunto aqui para mais pertinho do “meu campo de saber”, me pasma absolutamente que a Gramática nada tenha tido a ver com Redação. E que a Redação não estivesse minimamente ligando para a Literatura. Eu, graças a Deus, comecei a gostar de ler porque fui apadrinhada por Harry Potter aos 10 anos. A partir daí, eu quis me meter a escrever. Me metendo a escrever, passei a me interessar profundamente por Gramática. E, não fosse o-menino-que-sobreviveu, eu não teria sobrevivido a José de Alencar.

Parte 2

     A frase que eu mais ouvi na época de escola, enquanto me descabelava entre fórmulas, regras e linhas do tempo, foi “não adianta decorar[2], você precisa entender”. De fato, de pouco adianta decorar muita coisa e não entender quase nada. Decorar pode estar ligado ao conhecer, mas não entender é o primeiro passo para não saber. Com saber, eu me refiro a juntar lé com cré. Decorar regras gramaticais e passar a caneta vermelha com categoria não vai te fazer escrever bem, assim como decorar a fórmula de Bhaskara não vai me fazer resolver aquele problema daquela prova de matemática em que eu tirei 0,1. Como disse um amigo, “fundamental é saber o que fazer com o que você sabe, saber fazê-lo bem”. “Mais fundamental que tudo”, continua ele, “é saber organizar bem as ideias”. Não podemos ser apenas tupperwares de informações. É preciso que esse acúmulo de informações seja um trampolim para algo além. É preciso dar o salto do que se conhece para o que se sabe. Disse um outro amigo que a sabedoria coloca a erudição no bolso. A erudição é o que fica no bolso para ser citada quando necessário e, penso eu, é tanto mais válida quanto mais misturada. É preciso que se faça o link.

      Para simplificar: você tem Facebook? Show, lek! Mas todos nós temos. O importante é o que você faz com ele, o que você compartilha, com quem você está conectado e as pessoas que você ajuda a conectar.


[1] Padre Antônio Vieira: Peço desculpas por ter sido prolixo, porque não tive tempo de ser breve. Encontrei diversas paráfrases na internet e fico sem saber como foi a frase original, mas a ideia é essa e quem disse foi ele.

[2] Em português, a gente nem liga muito para as expressões “decorar” e “saber de cor”, mas se vemos os equivalentes em francês e inglês, é mais evidente: savoir par coeur, to know by heart. Eu não saberia explicar sobre os caminhos obscuros da etimologia, mas é visível que em alguma parte essas línguas pegaram atalhos diferentes ao se afastarem do latim. Acontece que “cor” em latim é coração. Suponho eu que do “cor” os franceses chegaram com mais simplicidade ao “coeur” e os ingleses simplesmente traduziram literalmente a expressão francesa, enquanto os portugueses foram mais eruditos e preferiram continuar usando a palavra latina (ou somente também imitaram os franceses, mas não conseguiam pronunciar “coeur” e, no meio das adaptações, virou “cor” mesmo, que por acaso, coincide com o “cor” latim). ENFIM, especulações linguísticas tão inúteis quanto guarda-chuva furado.

     Mas a desculpa é que o coração era considerado como a sede da afetividade, mas também da inteligência e da memória. Me desculpe, mas vamos combinar que na maior parte das vezes o coração é responsável por algumas das nossas maiores burradas. Concordemos que a sede da inteligência e da memória é o cérebro/razão mesmo. Os hispanófonos e italófonos foram, nesse ponto, mais dignos. As expressões equivalentes deles para “saber de cor” são, respectivamente, “saber de memoria” e “conoscere a memoria”. Concordo que retemos melhor na memória aquilo que sabemos “de coração”, aquilo que amamos e pelo que nos interessamos com todas as veias e artérias dos nossos átrios e ventrículos. Contudo, não é para esse tipo de memória que a expressão é empregada. Precisamos decorar aquilo que simplesmente é assim (como as capitais) ou cujas explicações simplesmente não conseguimos alcançar (como as fórmulas matemáticas). Decoramos aquilo sobre o que não refletimos.


Em tempo:

No reino das firulas do saber, existem três tipos de sabedores: os sábios, os sabidos e os sabichões. Os sábios são discretos. Os sabidos são interessantes. Os sabichões são um pé no saco. 

3 comentários:

  1. Sensacional Kemi! Porrada na erudiçao e porrada no metodo falho de ensino, dois coelhos com uma "caixa d'agua" só! E por falar na necessidade de se fazer links, o que para mim, é um dos usos realmente importantes da inteligencia, vc faz isso com naturalidade e elegancia. Parabens!

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  2. Akemi,

    Gosto da Teoria das inteligências múltiplas, apesar de conhecer muito pouco a respeito dela, creio que terei uma opinião mais bem formada ao fim deste período, quando concluir a disciplina de Educação que estou cursando. O problema é que, a meu ver, seria bastante difícil colocá-la em prática no ensino fundamental e médio, sobretudo se formos tentar conciliá-la com a interdisciplinariedade.

    Confesso que não acredito muito na interdisciplinariedade porque gosto muito de ter as disciplinas separadas e compartimentadas, embora saiba que isso pode ser prejudicial por não nos dar uma visão mais ampla daquilo que estudamos. Mas, às vezes, a visão ampla demais carece de profundidade e só consegue se impor no campo do trivial e do óbvio.

    Sei que a divisão das matérias também resulta em rótulos que começamos a incorporar, às vezes, muito antes de sabermos o que eles significam: Humanas, exatas e biológicas. Há uma forte competição entre essas grandes áreas das ciências para tentar provar quem é mais científica, quem é mais complexa, quem é mais difícil, quem é mais nobre, etc. Nessa hora, não tenho a menor dúvida:sou de humanas até mandar parar! Não levanto a bandeira do meu time de futebol, mas visto a camisa das ciências humanas. Não desprezo as exatas e as biológicas, mas não as amo e não as quero para mim, salvo como ferramentas eventuais.

    Quanto à questão de aproximar a teoria da prática, não posso concordar com o seu "talvez" (muito bem colocodo, por sinal) porque estou certa de que se tentassem me mostrar,na prática, como funcionam os espelhos, ficaria muito irritada com tamanho desperdício de tempo. Não quero saber nada sobre o funcionamento dos espelhos!Para mim, é muito mais importante saber que Narciso se apaixonou pelo próprio reflexo e acabou se afogando, como previsto pelo oráculo,do que saber como o reflexo se forma.

    Seu texto traz posições muito interessantes, embora eu não concorde com todas. Acho válido questionar o funcionamento dos sistemas de educação, afinal, eles estão longe de serem perfeitos (principlamente o brasileiro). Gostaria de viver o suficiente para ver uma reforma na educação brasileira que trouxesse maior qualidade de ensino e que desse às pessoas oportunidades de encontrarem seus caminhos. Talvez isso também seja utópico.

    Gostei muito dos seus comentários e de suas especulações liguísticas no fim do texto.

    Mariana

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  3. Estudei a vida inteira em escolas do Município e do Estado, e posso dizer com propriedade que não temos uma educação pública de qualidade. Não pela falta de talento ou profissionalismo dos professores, mas pela grade de matérias e assuntos que é estabelecida e muito pouco alterada ao longo dos anos. Me assombrava que em 1992 eu ainda estivesse usando um livro de Ciências e Geografia de 1983.

    Além disso, penso no desnível social, aquela discussão interminável e bem conhecida por todos, que em tudo dificulta a classe menos favorecida economicamente e abre as portas para os mais abastados. Não obstante a necessidade de se criar sistema de cotas para se ingressar nas universidades públicas, mesmo um segundo funil de seleção, ENEMs da vida, para que o estudante da rede pública tenha alguma chance. Equivocadamente cria-se cotas para a classe errada: a cota não deveria ser para os pobres e sim para os ricos. (Hoje o radical sou eu, Mariana.) Paro por aqui.

    Concordo com Sir Ken Robinson, de quem sou fã e acompanho sempre suas ideias e palestras, quando diz que este sistema fordista de ensino nos emburrece e assassina lentamente nossa criatividade, nosso alimento do "cour", semelhante aquela máquina de moer gente do filme The Wall, da banda Pink Floy, quando na música "Another Brick In The Wall" vemos uma metáfora visual para o sistema de ensino. We don't need education. Não esta.

    Digo isso para reforçar a ideia contida no post da Akemi que ser inteligente não está associado à educação escolar que se recebeu e sim do que o seu íntimo o impeliu a buscar e conhecer, ingerir. Você pode se alimentar de vitaminas a vida inteira, mas uma maçã te alimentará sempre muito mais do que qualquer Biotônico Fontoura. Onde estão as nossas maçãs? O mundo em que a gente vive nos deixa vê-las?

    Tive uma infância e adolescência paupérrima e era simplesmente impraticável conceber a ideia de que eu quisesse ser desenhista. Fui desestimulado do começo ao fim, mas consegui seguir em minha teimosia pelo simples fato de que eu não me via fazendo outra coisa. É como convencer um cachorro a ser macaco. Então, para compensar a falta de suporte, seja familiar, seja escolar, fiz eu mesmo da minha vida a minha "universidade", buscando os temas, assuntos e interesses extracurriculares, por assim dizer.

    E não me arrependo de ter tirado notas baixas em Matemática ou Química porque estava desenhando nas bordas do caderno. Hoje não faz a menor diferença para mim saber contar as cadeias carbônicas, mas foi imprescindível eu saber quem foi Pestalozzi para eu ter coragem de ser quem sou.

    Me sinto honradíssimo de ter sido citado por você.
    Não faz ideia.

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