Somos poderosíssimas. Às mulheres é dedicado um dia do ano, três vagões exclusivos no metrô e 80% do shopping. Temos clínicas de exame especiais, sabonetes de higiene íntima especiais, academias de ginástica especiais. Para os homens qualquer coisa serve (se bem que os metrossexuais... hum). Ocupamos 95% da banca de jornal e 99,9% dos temas literários. Há uma etiqueta secular para tratar a mulher: abrir as portas, puxar as cadeiras, oferecer flores, pagar a conta, dar a mão para descer escadas, deixar que ela passe sempre na frente, deixá-la protegida do lado de dentro da calçada (agradecemos silenciosamente às mães dos homens que aprenderam tão direitinho). Não há uma etiqueta para tratar os homens. Nós limitamos nossas análises sobre os homens em três categorias: “imaturo”, “só quer me comer” e “não quis me comer, é viado”, parafraseadas de vários jeitos. Da parte deles, no entanto, há uma série ilimitada de reflexões, blogs, vlogs e conversas chorosas entre amigos sobre como as mulheres são complicadas, sobre como conquistá-las, sobre como funciona a nossa lógica sentimental e sobre como eles nunca vão conseguir descobrir completamente absolutamente nada. Nosso enigma é difícil demais, esfinges que somos. Legiões de bravos homens definham estrangulados entre nossas pernas! Sofrem tanto por essas vagabundas sem coração, interesseiras, exploradoras ditatoriais, meninas dos olhos sem menstruação! Oh Deus, por que ela não te ama?
Bullshit. Tudo fachada.
A mulher já foi espremida over and over again, só não entendeu quem é burro. Mas nós queremos continuar sendo espremidas porque gostamos de ser amadas contra a parede. Só que enquanto todas as atenções estão viradas para nós, enquanto estamos lá observando os homens “se contorcendo” de dor tentando descobrir nossos mistérios, enquanto nos achamos o máximo com tantos direitos e conquistas e carros exclusivos no metrô, os homens ficam
confortavelmente protegidos no anonimato, com seu próprio mistério resguardado, com sua masculinidade imensamente complexa dissimulada em explicações simplórias e neandertais, reduzidos a sexo, futebol, carro e cerveja. Estratégia muito bem planejada. Tagarelar sobre as mulheres desvia a atenção das mulheres para as próprias mulheres, fazendo com que elas pensem mais sobre si mesmas do que sobre os homens. Eu já me peguei escrevendo sobre cinturas, mas nunca sobre peitorais, sobre jeitos de mexer no cabelo, mas nunca sobre jeitos de pegar o volante do carro. Não sabemos pensar os homens, nem escrever os homens, nem nada que não termine numa resolução superficial e denegridora! Teria até pena deles por esse pouco caso, se não estivesse plenamente convencida de que se trata de uma conspiração proposital! Faça a mulher pensar que está no controle e controle-a.
Vejamos.
Começou com os trovadores, primeiros poetas populares que vagavam de lugar em lugar entretendo a corte com canções em rima, na Idade Média. Um dos temas dessas canções era o amor – o amor cortês. Apesar de o trato com as mulheres não ser nada cortês naqueles séculos medievais, pode-se reconhecer aí as primeiras origens de toda uma enjoativa literatura-ode às mulheres, assim como de parte da criação do imaginário que nos cerca e nos assombra. Nas cantigas de amor desses trovadores, a característica principal da amada, além de ser linda e virgem, era ser inatingível. Estivesse ela muito longe, muito casada ou muito morta, o importante é que permanecesse eternamente inacessível. Num pedestal, numa redoma, intocável. É por isso, senhoras, que ainda hoje precisamos ser difíceis. Este nosso principal e mais atraente atributo remonta da Idade Média. Também é imprescindível que sejamos lindas (of course) e é bonitinho se ainda formos virgens (até uma certa idade). Para os poetas de hoje
(que, é claro, disseminam o imaginário geral), legal é ser o fenômeno natural mais complicadamente delicioso que existe. Quando gritamos, o homem não deve se incomodar, deve apenas baixar a cabeça, prestando atenção: são gritos divinos. Somos perfeitas com nossas gordurinhas, celulites e estrias, eles nem as perceberiam se não fôssemos nós a apontá-las a cada vez, cheias de charmosa insegurança e timidez. Estamos sempre com cheiro de xampu e é sublime quando dizemos que estamos sem calcinha ou quando vestimos suas camisas sociais de manhã ou simplesmente quando encaixamos perfeitamente nossa cabeça em seus ombros.
Confesso, é quase inevitável não nos sentirmos especiais e ficarmos todas derretidas com a poética da coisa. Mas olhando com mais cuidado, dá pra perceber que não se trata de uma simples poética cheia de atenções e admirações puras ao feminino, mas antes um manual de como uma mulher deve se comportar para conseguir tamanha admiração. Nenhuma dessas literaturas-ode é melhor do que qualquer revista de beleza. É evidente que não estar com a cabeça cheirando a xampu torna-se algo a ser corrigido imediatamente, e vestir a camisa social dele (apenas a camisa social dele) e ficar deslumbrante (descabelada, de preferência) passa a fazer parte da burocracia de um relacionamento. A verdade é que iremos ensaiar no espelho e prender a respiração diversas vezes até conseguirmos chegar pertinho dele, do modo que nos parecer menos ridículo, no meio de um jantar de família ou de negócios, e dizer, ao pé de sua orelha, estou sem calcinha...
Não sei se seríamos tão conspiradores assim, por sermos mais simples (entenda-se toscos) que as mulheres, mas é certo que para nós vocês serão sempre as Esfinges pelas quais adoraremos ser devorados.
ResponderExcluirSeus posts fazem falta.
Beijo.
Apoio muito o comentário acima!
ResponderExcluirnão faço ideia se somos mais toscos ou não... confesso que nem paro pra prestar atenção em como somos porque fico ocupado demais com vocês na cabeça!