Depois do Dia das Mães, post temático do Dia dos Namorados (é, o blog é brega mermo). Desencavado de 2009, em diálogo com uma crônica lindinha de Antonio Maria, de mesmo título, mas do ponto de vista do pai. Se alguém quiser, posso passar por e-mail.
- Pai, eu tenho um namorado.
Menina, que tem que dizer isso pro pai, pela primeira vez, sente um medo muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o chão do mundo roda sob seus pés. A menina que um dia jurara que o único homem da vida dela seria ele, o pai. Ela deve agora, timidamente, olhando de baixo, dizer com jeitinho que não. Ela jurara errado.
Pai, agora eu tenho um namorado. Sei que prometi, mas ele gosta tanto de mim! Me desculpe, eu gosto dele, também. Tenho certeza de que gosto, gosto muito, gosto mais do que tudo. Não, não mais do que de você, pai. Foi modo de falar...
Mas ela gosta dele, sim, do namorado, mais do que tudo. Quando ele levanta o braço da cadeira no cinema e a beija na boca, a língua tem gosto de Mentos. E o filme todo fica com gosto de Mentos. Quando ele pega a mão dela na frente de todo mundo, a mão dela sua. E ela precisa disfarçar, fingir que vai arrumar o cabelo, secá-la rapidinho na roupa e devolvê-la a ele.
Ele é um bom menino, sim, pai. Você não pode dizer nada, nem o conhece! Ele não vai se aproveitar de mim... ele me ama.
E ela virará as costas e baterá a porta. Chorará e telefonará ao namorado, dirá que o ama infinitamente e perguntará se ele a ama também. Ele dirá que sim, e possivelmente será verdade. Ele a amará, sim, por duas ou dez sessões de Mentos no cinema. E então não amará mais. E nem ela a ele.
Ela chegará em casa com os olhos inchados e dirá que não tem mais namorado nenhum. E jurará que nunca mais quer ter. O pai a olhará por cima do jornal e a acolherá em seus braços como antigamente, pequena e frágil, e com um amor só pra ele. Até que alguns dias ou semanas depois, ela entrará tímida em casa e dirá uma vez mais que jurara errado e que ama o novo namorado mais do que tudo.


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