domingo, 14 de agosto de 2011

Grande-pai

 

     Nesse dia dos pais, vou falar do meu avô.    

     Meu avô mancava de uma perna e usava uma bengala de madeira clara, bem lisa, gasta, no formato daqueles docinhos que aparecem no Natal. Ele usava um All Star preto de cano alto, era careca, tinha bigodes brancos e orelhas grandes. Nunca descobri se usava dentadura, mas tenho minhas dúvidas. Ele lia todos os livros que me mandavam ler na escola (o preferido era A Bolsa Amarela), lia todas as partes do jornal, todos os classificados. Também desenhava barcos e via todas as novelas. Contava piadas, sempre as mesmas, mas demorava à beça pra chegar ao final porque sempre começava a rir no meio. Ele ria engraçado, não abria a boca, era uma gargalhada pra dentro que tremia o corpo inteiro e ele se chacoalhava todo, ficava com a careca rosada. Foi dele que eu mais ri na vida. Ele jogava damas comigo e deixava eu apoiar a cabeça em sua perna coxa quando queria dormir no carro. Era para o quarto dele que eu corria quando minha mãe brigava comigo. Ele contava sempre as mesmas histórias e me deu algumas lembranças preciosas, uma casa na Ilha do Governador, pipas, uma perna quebrada num jogo de futebol, o mar; esses lugares são como se fossem meus. A última coisa que ele me disse foi feliz aniversário. Ele andava muito devagarzinho pela casa, arrastando os chinelos, apoiando-se na bengala e nos móveis, eu quase o derrubava passando pelo corredor estreito. Foi por ele que eu mais chorei até hoje. Molhava dois pães de fôrma no café todas as tardes, e no café-com-leite todas as manhãs. Foi com ele que eu aprendi a levantar uma sobrancelha. E fazíamos o jogo do sério, eu sempre perdi. Ele era resmungão e falava com a TV. A letra dele era linda. E ele começa a ficar rarefeito. Às vezes saio correndo e consigo puxar de volta uma mancha no braço ou um gesto de mão quando já começam a desaparecer, mas o nariz já foi.

3 comentários:

  1. Me fez chorar. Lindas lembranças... Parabéns.

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  2. Se a gente soubesse o quanto deixamos de nós nos outros e o quanto dos outros fica em nós talvez nos dedicássemos mais a multiplicar estas miudezas cotidianas tão bonitas.

    Lembro de um filme que via quando era criança, um filme antigo com a Shirley Temple, que se chamava O Pássaro Azul, e em um momento muito bonito ela e o irmãozinho vão parar na casa dos avós falecidos e ali eles aparecem. Passam lindos momentos e vão embora. Ao partirem os avós dizem algo do tipo "sempre que eles lembram de nós, voltamos a existir", e isso sempre ficou em mim. Então, vira e mexe lembro de minha avó, de minha mãe, meus entes queridos que se foram, para que eles continuem sempre existindo.

    Se não em algum lugar, pelo menos em mim.

    Este retrato do seu avô é uma estampa linda de alguém. Guarde-a sempre com carinho, para que ele exista sempre em você.

    Parabéns pelo lindo texto.

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  3. Adorei. Saudades do meu avô. Ele tb usava tênis, mas não era All Star. Era uma figura...

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