quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os bichinho tudo tão aprendenu errado…

 

     Eu tinha obscenamente pensado em não comentar sobre a polêmica do livro aprovado pelo MEC que “ensina a falar errado” só porque ai... que preguiça... Mas eu sei (EU SEI, diabo!) que recuar é simplesmente

UMA INDECÊNCIA!

     Como foi muito bem esbofeteado pela (mais recente estrela youtubiana) professora Amanda Gurgel, é preciso falar sobre a Educação, é preciso fazer pela Educação.

     Este tumulto em torno do livro é um assunto que me concerne diretamente enquanto estudante de Letras, (possivelmente) futura professora e futura mãe. Mas é, antes de tudo, (atenção, clichê) um assunto que concerne a todos nós enquanto cidadãos. Então vou dar meu pitaco aqui também.

     Apesar de ser quase contraproducente separar a língua da sociedade, uma vez que ela só pode acontecer em sociedade, me incomoda – ou melhor (mesmo?) incomoda-me – um tanto o borrão entre conceitos estreitamente lingüísticos e questões político-sociais. É obviamente claro, como já disse, que os dois se misturam forçosamente já que a língua é um objeto político-social, mas quando se entra no vocabulário “certo” e “errado”, estejamos atentos: há estações se encrencando aí. Primeiro porque certo e errado são da ordem do metafísico, da complexa Verdade pessoal e intransferível de quem está falando, de quem detém o poder no momento; ou seja, certo e errado pressupõem sempre um ponto de vista.  Por isso, a troca muito bem ajustada de “certo” e “errado” por “adequado” e “inadequado” (como sugerido pela autora) vem, entre outras, de uma linha da teoria linguística, encabeçada por Noam Chomsky, da Gramática Interna, que estuda a língua antes de qualquer picuinha social, como função humana (como respirar, comer, andar…). Isto é, considera a linguagem como faculdade própria e inata de todo ser humano, que permite à criança o desenvolvimento natural de uma gramática interna, de acordo com a língua a que é exposta (e que não é, certamente, sempre a padrão). Aqui, todas as línguas e variedades intralingüísticas são colocadas “cientificamente” em pé de igualdade, já que toda gramática possui uma lógica interna inquestionável (mesmo – pasmem! – aquelas diferentes da norma culta). Nenhuma língua é burra. Não tenho nenhuma pretensão de explicar Chomsky a ninguém nestas linhas tão singelas (nem em muitas linhas, se fosse o caso), estou só apontando para um fato linguístico. É um contrassenso, sob o ponto de vista da Linguística, dizer que alguém fala errado ponto. O que podemos, talvez, dizer é que se fala errado em relação à norma culta padrão. Portanto, falar “os peixe” na Academia Brasileira de Letras é inadequado, mas é perfeitamente adequado num churrasquinho em que esse seja o hábito do grupo de pessoas ali presentes e até, em alguns casos, firmemente recomendável. Pronto, é só isso.

     Quanto às politicagens, é preciso ter em mente que, se todas as línguas e variedades possuem uma lógica interna inquestionável, servem ao seu propósito comunicativo e constituem um código entendido sem problemas e passado de geração em geração num determinado grupo social, então é claro que a Variedade Padrão não é a padrão simplesmente porque linguisticamente/gramaticalmente é a melhor, mas porque é aquela falada pela “melhor” classe, ou seja, pela elite, pelo grupo que está no poder. Isso é um fato, não é discurso de direita ou de esquerda. O esquerdismo e o direitismo entram quando a lógica (dubitosa) nos leva a concluir que legitimar a variedade das classes mais baixas seria passar o poder de mão, num movimento “petista” do mal – como se houvesse neste livro um grito socialista: entreguemos o país ao mulato side of the force! A classe A entende que começa a perder o prestígio quando a sua variedade linguística começa a perder o prestígio. Mas, entendamos, o prestígio não está na língua, está no dinheiro ‘mermo’, ‘mermão’. A língua é apenas mais um apetrecho que marca o nosso lugar na pirâmide social, junto com as roupas que vestimos, o meio de transporte que usamos, os restaurantes em que comemos, os cachorros que temos e as petshops a que os levamos. Não importa se toda a sociedade de repente começar a marcar os plurais só nos artigos (o que não vai acontecer, pelo menos por agora), quem mora no Leblon vai continuar morando no Leblon, quem mora na periferia vai continuar morando na periferia. Portanto, não criemos cânico! Se este é o medo, não é o reconhecimento das variedades linguísticas que vai dar, de fato, voz às massas.

    Além disso, de todo modo ninguém quer desprestigiar a variedade padrão. Destitui-la de pompas e circunstâncias, de ares de tanta importância e medalhas de honra, pode ser, mas jogá-la no cemitério de línguas, não. (Talvez Marcos Bagno, mas isso é outra coisa).

     É evidente, ponto pacífico, que o preconceito linguístico reflete o preconceito social. Identifica-se o lugar social de alguém a partir da sua fala, dos seus “erros”, das suas cadências de sotaque. No Brasil isso é extremamente forte e, sobretudo na escola, não podemos passar por cima das variedades faladas pelos alunos, não podemos deixar de reconhecê-las e de ser pacientes com elas. Não podemos, principalmente, esquecer que os professores tantas vezes falam uma variedade que também não é a padrão (Houston, we have a problem!). Ignorar essas variedades e apagá-las com a norma culta é, antes de tudo, uma violência. A variedade padrão muitas vezes é praticamente uma língua estrangeira para muitas pessoas. Se estudar gramática já é chato para quem nasceu na classe A (não sejamos hipócritas!), imagine para quem nasceu na classe Z... é um negócio pavoroso! O mais sensato a ser feito é apresentar a esses alunos modos de dizer, especialmente aquele aceito pela sociedade A, aquele que é cobrado pelo Vestibular, aquele que é cobrado em entrevistas de emprego... enfim, aquele que impõe respeito, aquele que é necessário dominar para ser levado a sério perante a sociedade dominante (que, não nos enganemos!, é a classe A). Na verdade, essa “conscientização linguística” não deve ser feita só com esses alunos, mas também com os que já falam de berço a língua padrão, porque não adianta tomar cuidado com a auto-estima daqueles se estes vão continuar apontando o dedo preconceituoso na cara dos outros. Sim? Ótimo. A escola deve, sim, mostrar a existência dessa diferença de adequação/inadequação diante de contextos diversos  e ensinar “olha, a variedade adequada na escola e na sua vida profissional é a padrão, é essa aqui da Gramática do senhor Bechara, que vocês vão aprender agora”. Mas também é preciso que os professores estejam plenamente capacitados para expor este assunto de modo lúcido e competente, já que não é (como estamos vendo com esse burburinho todo) nada simples, para que a língua não comece a parecer um sarapatel de cachorro doido. Este me parece ser o desafio maior.

      Agora sobre o Marcos Bagno. Ele é professor da UnB, linguista inflamado e radical quanto à questão do preconceito linguístico, e um autor pelo qual todo aluno de Letras passa obrigatoriamente logo na Introdução à Linguística, arrancando os cabelos (principalmente porque este assunto não é introduzido na escola e constitui, sim, um negócio complexo e de extrema importância, cuja apreensão não é tão fácil e óbvia. Demanda, sim, um tempo e um conhecimento menos superficial de linguística). Aqui está o link para o comentário dele sobre este livro – a favor do livro, é claro, e azedamente contra a oposição. Acho o texto dele bastante divertido e, bom, ele fala basicamente as mesmas coisas que eu falei aqui em cima (obviamente bem melhor e com bem mais autoridade), mas o que sempre me incomodou nele é que ele cria um preconceito ao revés, isto é, em relação à variedade padrão, e acaba caindo na própria armadilha, come o próprio rabo etc. Façamos discursos inflamados, sim, acho que têm seu mérito, mas muitas vezes eles perdem pontos, MUITOS pontos, e tornam a argumentação um pouco mais fraca. Não é denegrindo a língua padrão que vamos ganhar nenhuma briga.

     Para “terminar”, finalmente (benza Deus), está tudo muito feio, muito grosso e muito desrespeitoso nessa discussão. Na escola, levantamos o dedo e esperamos que o professor nos passe a palavra. Com bons modos, levantemos o dedo e nos dirijamos com um mínimo de respeito à Educação. Não saiamos cheios de dedos e propriedades pra cima de algo que não entendemos. Questionemos, sim, mas com um mínimo de bom senso e respeito.


O GLOBO: Haddad defende livro, mas Enem exige norma culta; Haddad falta a audiência do Senado sobre livros didáticos e líder do PSDB pede recolhimento de obras com erros; Procuradora da República prevê ações contra uso de livro com erros pelo MEC; autora se defende; Para presidente da ABL, livro adotado pelo MEC valida erros grosseiros.

4 comentários:

  1. Excelente texto e com muitos pontos extras pelo vídeo da Amanda Gurgel, que é lindo, mas infelizmente não muda nada, o que me chateia profundamente.
    A questão do certo e errado foi colocada de forma sensacional, junto com a pressuposição do ponto de vista em suas concepções, aliás lembrar que toda afirmação proferida contra qualquer coisa ou pessoa passa diretamente por um ponto de vista é importante não só na questão lingüística, mas na maioria das questões realmente importantes na sociedade. Nada é ou será um dia verdade absoluta, o ponto de vista está sempre no caminho.
    A imagem de partes de livro são do livro aprovado pelo MEC? Me pareceu muito relevante o que há no livro e eu já havia ouvido falar do 'livro que ensinava errado' mas não era o que eu pensava que fosse.
    O senso comum é um grande vilão, eu diria, em situações como esta, acaba impedindo melhorias na educação.
    Bom, já falei demais para um estudante de matemática, parabéns pelo texto pelas opiniões.

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  2. Não resisti e acabei lendo hoje. É extenso, terei que reler com mais calma depois. O viés que minha discussão tomou ontem era o do poder de segregação da língua. Traçamos comparações entre a língua e a etiqueta real, ou os cânones comportamentais das altas sociedades até bem pouco tempo atrás. Meu ponto é simples: se quer vencer o preconceito, tem de dominar todos os argumentos do preconceituoso. Se quer vencer uma guerra, tem de conhecer seu inimigo. Concordo totalmente com o papo metafísico de certo e errado. Desde Platão, com grande colaboração da igreja católica, que somos uma sociedade com visão restrita ao dualismo. Tornamo-nos maniqueístas (não apenas no sentido de bom e mau, mas de uma tese e antítese, sem sua natural síntese). portanto, acho que eliminar a questão de certo e errado se faz essencial. Mas eliminá-la, apenas, não modificaria em nada o quadro atual! Incentivar o povo a falar "inadequadamente" é apenas uma forma de limitar ainda mais sua compreensão dos fatos, da realidade que o cerca e de se tornar ainda mais dominado dentro de uma sociedade que é, sempre foi e sempre será preconceituosa. A necessidade do homem de "se destacar" é indissociável e inerente à natureza humana! Isso não vai mudar hoje, nem nunca. O que vai mudar são as formas utilizadas para alcançar tal destaque, as formas de preconceito. Hoje são carros, dinheiro, restaurantes, cachorrinhos, pet shops etc. A língua, aliás, sequer é tão valorizada assim como objeto de segregação. Já foi bem mais!
    Outra coisa que eu ousei questionar sim, foi a suposta lógica linguística. Mas isso é papo para um livro ou horas de conversa!
    Deixo claro também, que como não tive acesso ao livro em questão, não sei exatamente a abordagem que ele preconiza. O que sei é que a autora foi MUITO INFELIZ na escolha de algumas frases utilizadas e propaladas e que, evidentemente, estão fazendo polêmica acerca disso e defendendo, talvez de maneira enviesada, posições políticas!
    Renzo.

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  3. A propósito, texto muito bom. Parabéns!
    Renzo

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  4. Indiquei seu texto para alguns amigos.

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