segunda-feira, 2 de maio de 2011

O joelho no milho

 

     Aprendemos o samba do crioulo doido da vida lá no pátio da escola, brincando de telefone sem fio. Não tem a menor graça que a mensagem chegue intacta. Que ela chegue toda torta, desfigurada, assim é que queremos, assim é que tem de ser – para que reste a graça, para que reste a dúvida. Por onde é que ela foi se perdendo, em quais ouvidos? Foi de surdez, foi de propósito? E se ela chega igualzinha à última pessoa, quem garante que a primeira – a autora da frase – não vai mentir e dizer que algo está trocado, só pelo prazer? Pelo prazer de o caminho não ter sido em vão. Também não é possível afirmar que essa primeira pessoa já não se terá esquecido a frase tão logo ela tenha completado o círculo. A memória caduca no tempo e no espaço. Aquilo que foi não retorna igual, Ulisses transfigurado.

     Que isto é é fato. Mas até onde isto pode?

     Esta é uma das pinimbas da Arte e da História diante das catástrofes da humanidade. A catástrofe e os limites de sua representação se impuseram com mais força nas discussões do meio artístico e acadêmico depois da Shoah, perfurando todo um restante de ditadores e torturados. É um discurso mais gago que o do Rei. Tão perturbador porque não encontra ginkgo biloba para a caduquice da memória, não sabe como fazer para que a mensagem não se entorte. Esta mensagem de horror não pode vagar para águas mais brandas, não pode se deixar soprar com leveza entre os ouvidos – ela precisa continuar gritando para sempre. Chamaram de irrepresentável o horror em seu limite, o horror que o corpo sentiu, mas a mente não alcança, a tortura que é incognoscível. Como representar esse irrepresentável? Como tratar o intratável que precisa e grita por ser registrado para que continue pulsando através das gerações a fim de que justamente não seja esquecido; para que não seja, principalmente, negado – para que todas as gerações por vir possam continuar dizendo “nunca mais”?

     São palavras de Milan Kundera, no popularíssimo A insustentável leveza do ser: “Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina”, até mesmo Hitler, Hiroshima, Ruanda, até mesmo – pasmem – Onze de Setembro e Osama Bin Laden. Que alegre desespero saber que nunca mais teremos Robespierre a cortar as cabeças dos franceses e nem Hitler a jogar judeus em campos de concentração, mas que teremos outros a fazerem outras coisas... A tacarem aviões em torres gêmeas, a matarem nomes terroristas (só nome, porque corpo ninguém sabe ninguém viu), a brincarem de tiro ao alvo em escolas. Nick Kristof, jornalista de guerra, resume assim essa papagaiada toda: “Se o século XX e o começo do século XXI nos ensinaram algo é que haverá uma próxima vez”. Não há nada que o tempo não cure, mas há muitas coisas que ele pode adoecer. Entre elas, a memória.

Que prejú.

     Esta é a única lição que tiramos da História? Maus alunos que oferecemos a mão à palmatória e sentimos um prazer feroz com o joelho no milho, não aprendemos muito.     

Poema do Alegre Desespero - António Gedeão

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

3 comentários:

  1. Uma amiga ontem no Twitter comentou: "Me arrepia pensar que estou assistindo ao vivo a história que será escrita nos livros dos meus filhos." Difícil nos darmos conta da história enquanto ela acontece. Mais difícil ainda é manter a memória firme para quando no futuro a contarem a termos na ponta da língua e dizermos: "Não, não aconteceu assim, aconteceu assado!"

    Nos dias de hoje é ainda mais difícil entendermos (e acreditarmos) no que está sendo contado, mostrado e vivido. Duvidamos com razão das informações que nos chegam do exterior, que nos chegam pela TV e pela internet, sem sabermos o quanto tudo aquilo não foi orquestrado, manipulado, coreografado. Teoria da conspiração? Bem provável, mas mais difícil ainda de se provar alguns eventos que tomamos conhecimento.

    Não tem muito tempo assisti a um documentário que provava que o 11 de Setembro era uma farsa, que havia sido armado. Noutra ocasião vi um programa destes de TV paga que afirmava ter sido uma fraude o pouso do homem na Lua. Grito do Ipiranga? Tiradentes? Descobrimento? De uma forma ou de outra as histórias que nos chegam são como o telefone sem fio.

    Conta e escreve a história quem tá vencendo.

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  2. "Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu" mas existem dias piores, existem dias em que se mata... e hoje eu acordei com a impressão de que havia 6 bilhões de pessoas no quarto onde Osama Bin Laden foi assassinado.

    Este é mais um daqueles momentos especiais da história em que cegos vão às ruas se exaltar e celebrar o retrocesso humano, enquanto os poucos integrantes da orquestra política brindam o sucesso de uma desgastante e complexa empreitada.

    O que aconteceu e da forma como aconteceu foi pior para todo mundo, mas teve que acontecer e aconteceu com o aval de todos. O presidente Barack Obama começa hoje sua campanha pela reeleição e a primeira música tocada por sua orquestra política foi a popularíssima "Vendetta em Dó Maior", sem a qual sua candidatura estaria fadada ao fracasso. A cartada tem um ar Republicano e desesperado e me faz sentir uma tristeza profunda.

    A partir da Segunda Guerra Mundial, organizações internacionais foram criadas e sistemas jurídicos aprimorados para compatibilizarem-se com os direitos humanos evitando-se assim, que atrocidades como as ocorridas durantes as Guerras Mundiais tornassem a acontecer. O que se vê hoje, contudo, é a extrapolação e má utilização do crédito dado a toda esta estrutura politica de defesa dos direitos humanos, e os flagrantes excessos cometidos por estas. Os governos fundamentalistas de hoje geram o santo do pau oco das grandes potências mundiais. Saddam Hussein e Obama sao embalsamados em um manto de justiça e liberdade e, dentro de cada, um Eldorado garantidor de muitos cargos politicos. Para atender à agenda político-econômica vale muita coisa... As "tropas salvadoras", legitimadas pelos cidadãos, com o aval dos representantes do povo, mataram muito mais do que Osama ou Saddan jamais sonhariam matar.

    Além disso, a morte de Osama Bin Laden poderá desencadear uma série de represálias, matando muito mais gente. Cientistas políticos afirmam que Osama já encontrava-se enfraquecido politicamente, minado ao longo desses dez anos e incapaz de exercer grandes influências. Contudo, o "fade out Osama" nao geraria tantos votos... "que morra mais gente", assim é a roda viva da politica desde que o mundo é mundo, e TOMA de poder e outras mesquinharias humanas, sem percebermos que "mais império menos império, mais faraó menos faraó, será tudo um vastíssimo cemitério; cacos, cinzas e pó."

    Que consigamos aguentar a barra no dia em que decidirmos parar de abrir garrafas de Dom Pérignon e decidirmos abrir os olhos...

    http://www.youtube.com/watch?v=-BwxnFd1oGc&feature=related

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  3. Dessa vez eu fui sagaz e copiei meu comentário antes de postar. Quando deu erro eu não pirei! Lá vai:

    Por isso é que naquela minha pesquisa iniciada mas não concluida eu estudava coisas como o papel importantíssimo da narrativa tanto nas nossas vidas individuais, em família e na história. Se representar (não só catástrofes, mas qualquer coisa) fidedignamente nos é impossível, o que nos resta? Narrar. E aí, a história é, inevitávelmente, uma ficção. O que não quer dizer mentira.

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