Nestes dias em que tenho blogado sobre o eu, o início das minhas aulas de Literatura Portuguesa sobre Fernando Pessoa veio bem a calhar. Esse cara sabia o que não era o eu. Os heterônimos tinham mapa astral, for God’s sake. Se Fernando Pessoa blogasse, seria uma coisa de louco, bicho. Ele teria um tabuleiro de bolo, um de xadrez e um de ouija. Imagina, eu mal consigo dar conta desse aqui…
Nos últimos posts, fiquei papagueando sobre mim como se isso muito interessasse a vocês… Oh, sim, eu não falo japonês, não tenho um autor preferido, tenho dúvidas lancinantes sobre fazer uma tatuagem e só furei as orelhas aos 12 anos. Mas o que aconteceu ou deixou de acontecer na minha vida não é o essencial de todo o meu egocentrismo blogueiro, dane-se! O que escolho dizer, como digo e quais as relações que faço entre as minhas experiências, no entanto, são trampolim para outras questões bem mais interessantes do que os lóbulos das minhas orelhas.
Para pegar um assunto em pauta atualmente, essa palestra sobre Mim serve, por exemplo, para discutir a propriedade intelectual (direitos autorais, plágio…). Hoje, no Prosa&Verso, d’O Globo, saiu uma entrevista com o pesquisador americano Lewis Hyde, com o título “Grandes criadores são seres coletivos”[1], em que ele discute, basicamente, a propriedade intelectual dos artistas e afins. Logo na primeira resposta, ele cita Goethe, assim: Goethe uma vez respondeu à pergunta “Quem sou eu?”, da seguinte forma: “Guardei e usei tudo que vi, ouvi e observei. Minhas obras foram nutridas por incontáveis indivíduos, inocentes e sábios, brilhantes e estúpidos. Infância, maturidade e velhice me trouxeram seus pensamentos, suas perspectivas de vida. Frequentemente colhi o que outros plantaram. Meu trabalho é obra de um ser coletivo que carrega o nome de Goethe”. A mesma ideia é reformulada por Borges[2], num trecho de entrevista exaustivamente citado por aí: No estoy seguro de que yo exista, en realidad. Soy todos los autores que he leído, toda la gente que he conocido, todas las mujeres que he amado. Todas las ciudades que he visitado, todos mis antepasados.
Mas, escritores ou não, somos todos “um ser coletivo que carrega o nome de _____”. Eu sou uma massa de bolo, que convoca, necessariamente, vários ingredientes para o tabuleiro. A começar pelo meu corpo, “sou todos os meus antepassados”, é claro, está na cara: minhas grossas sobrancelhas portuguesas sobre meus olhinhos puxadinhos ling-ling. Depois, algumas caretas que são “coisa da minha irmã” e outros trejeitos que fui roubando aqui e ali, consciente ou inconscientemente, de pessoas aleatórias. Ao passar para o intelecto, devo o que penso e o que escrevo aos meus professores (alguns em muito especial), à família, aos amigos, aos amores, aos livros, aos filmes, ao Rio de Janeiro, às viagens que fiz, aos rótulos que me deram e etc ad eternum. Pois bem, se eu sou uma mistureba de tudo isso, o modo como conto a minha história é o que dá a liga.
Por exemplo, eu gosto muito de viajar. É plausível que eu diga que gosto de viajar porque meus pais me carregaram junto com eles em todas as viagens que fizeram, e aos 6 anos eu estava enfiada na cabine de um Jumbo, conversando com o piloto. Outra possibilidade é que goste de viajar porque sempre recebi notícias de minhas irmãs por cartões postais e fotos de vários cantos do mundo. Ou posso dizer simplesmente que eu gosto de viajar porque sou sagitariana e fui batizada na capela do Galeão. Mas talvez eu só goste de viajar porque é um impulso comum a 80% da população mundial, que faz o trânsito aéreo/terrestre/marítimo e a indústria de turismo aumentarem todo dia. Escolhemos o que nos parece mais legal e contamos da forma que nos fará parecer uma pessoa mais interessante, mais propensa ao humor ou à tragédia.
Precisamos olhar para o espelho e, com todo orgulho ou grande miséria, reconhecer em nossas rugas a nossa história. Escolhemos nossas memórias e narramos causas e consequências, como melhor nos aprouver. Aquietamos a mente com explicações e relações entre passado e presente que pareçam fazer sentido.
Daí que o “trauma de infância” é o termo mais popular da Psicologia. Vamos procurar quem somos na intimidade da nossa infância, no limo do nosso passado. No divã, queremos tirar do armário nossos traumas enrustidos, esquecidos com o nosso bichinho de pelúcia encardido. Quer dizer, não precisa nem ser trauma, serve qualquer pista ou pontapé para algum traço da nossa personalidade, algum desejo, psicose ou úlcera.
Eu é polêmico, pode ser que seja mesmo heteronômico… Numa de minhas primeiras aulas na faculdade, minha professora, ao ver nossas carinhas embasbacadas com as coisas que ela falava (muito bem), disse, com humildade, que “nada disso aqui é meu, gente”. Mas tudo aquilo era ela, fazia parte dela, e foi através dela que chegou a mim, do modo brilhante como chegou. Toda e qualquer coisa que dizemos acaba sendo espécie de psicografia de um espírito que recolheu tudo o que já lemos, vimos e ouvimos, juntou tudo e assopra nos nossos ouvidos a cada vez que abrimos a boca para falar. E nem sabemos mais de onde veio… às vezes não é por mal que falhamos ao prestar a devida homenagem e conferir o devido crédito, com regras de citação da ABNT. É muito apud…*
Eu só espero que haja uma boa dose de açúcar e chocolate na minha massa, sempre.
Porque eu… eu sou um docinho.
[1] HYDE, Lewis. Grandes criadores são seres coletivos. O Globo, Rio de Janeiro, 05/03/2011. Prosa&Verso, p. 2.
[2] Não encontrei a referência original, mas através desse artigo, do jornal El País: http://www.elpais.com/articulo/ultima/BORGES/_JORGE_LUIS_/ESCRITOR/Jorge/Luis/Borges/estoy/seguro/exista/realidad/elpepiult/19810926elpepiult_6/Tes
*Pelo amor de Deus, não estou fazendo apologia e nem defendendo que podemos fazer trabalhos acadêmicos jogando as referências bibliográficas para as cucuias! Elas devem ser respeitadas!


Akemi, não sei o que dizer... sensacional!!!! O texto que transcreveu do Goethe é muito, muito, muito, mas muito a minha realidade. Seu BLOG é realmente um espaço onde eu encontro alguma assonância.
ResponderExcluirBeijo,
Renzo.
Renzo, dei MÓ SORRISÃO com o seu comentário! É muito bom receber esse tipo de feedback. Obrigada!!!
ResponderExcluirBeijos!
Qualquer resposta que eu tenha planejado, soou-me brega ou insuficiente! Se gostou de meu comentário, ainda estou em débito, porque adoro seu BLOG.
ResponderExcluirRenzo
Soaria-me brega, perdão pelo erro.
ResponderExcluirComo você é estudante de letra, soar-me-ia brega. Nunca quis ser pretensioso a esse ponto...
ResponderExcluirHAHAHA não se preocupe, perdoar-te-ei...
ResponderExcluirquer dizer, já que estamos sendo tão gramaticalmente rígidos...: não te preocupes, perdoar-te-ei!
ResponderExcluirLer-te-ei eternamente!
ResponderExcluirhahahahaha UHUUUUL!
ResponderExcluirCara Akemi,
ResponderExcluirBom, esperei para comentar dois posts juntos,mas serão três, pelo visto. Acho até oportuno porque, a meu ver, os três estão interligados.
Engraçado que há algum tempo estava para lhe perguntar de onde tinha surgido o nome do seu blog, mas agora você já me respondeu, de certa maneira. O nome "Tabuleiro de bolo", involuntariamente, me remete à imagem de um tabuleiro de xadrez e logo depois à imagem de um bolo retangular, quadriculado: chocolate e baunilha, preto e branco. Delírio meu? Não sei.
Sexta, fui à exposição do M.C. Escher, no CCBB. Passei três horas lá e saí encantada. A arte dele é incrível, desde o célebre desenho da mão que sai do papel e desenha a outra mão que sai do papel e abotoa o punho da camisa da mão que desenha e sai do papel e desenha... Até as ilusões de óptica e os impressionantes panéis e xilogravuras em preto e branco dos pássaros que viram peixes, que viram quadrados, que viram um tabuleiro de xadrez que vira a torre do castelo. É tudo tão incrível e emocionante. Escher viveu entre o real e o imaginário. Se ainda não tiver visto, não deixe de ver essa exposição. Ela fica até o dia 27 de março,se não me engano.
Agora, o que tudo isso tem a ver com seus textos? Tudo! As artes,a música e as ciências são tentativas de interpretar o mundo e a realidade. Por vezes, tentamos organizar o caos e outras vezes queremos romper com a ordem. É difícil encontrar uma definição universal para o mundo e para nós mesmos. Somos massa de bolo, ingredientes misturados? Somos mosaicos, caquinhos de vidro colorido apanhados do chão?
Realmente não sei,a essa hora, quais são os rótulos que carrego e aqueles dos quais me desfiz há muito tempo. Tive muitos, com certeza e ainda tenho tantos outros. A fragilidade e a intensidade da vida me assustam até hoje. Tento não mergulhar mais tão fundo no desespero. Não acredito mais é mágica, porém ainda consigo achar muita coisa surpreendente sem que precise atribuir-lhes algum sentido.
Quando as pessoas não se conhecessem muito bem e querem conversar, elas procuram assuntos neutros ou óbvios.
Quem estava começando a conhecer você, logo olhava os olhos amendoados, a letra bonita e os desenhos no caderno de Formação do Leitor e pensava: "Ela é japonesa. Os orientais têm um jeito para as atividades manuais. Olha como a letra dela é bonita e esse desenho do Humpty Dumpty, então? Pôxa, meu caderno é uma vergonha..."
Mal sabíamos nós que você era francesa por afinidade e que não falava japonês (até você revelar isso em uma aula de Linguística).As primeiras impressões só são as que ficam, se não tivermos tempo de desfazê-las depois.
Mari, vc é sempre tão atenciosa com seus comentários, muito obrigada!!!
ResponderExcluirSempre um prazer ouvir suas reflexões.
E, meu Deus, tô abismada com a sua memória do meu caderno de Formação do Leitor e com a sua lembrança de que eu revelei meu analfabetismo japonês na aula de Linguistica! Memória invejável!
Acho que, se vc lembra de tudo isso, sabe também de qual professora estava falando, né? :)
Quando acabar essa loucura de carnaval, vou seguir certamente seu conselho e conferir a exposição no CCBB. Valeu a dica!
De novo, muito obrigada pelo comentário. Continue, continue! :)
Beijos!
Sim, sei bem de que professora você estava falando. Ela é uma mulher incrível mesmo, tem uma inteligência e uma sensibilidade muito bem cultivadas.
ResponderExcluirApesar de eu não falar muito em sala no nosso primeiro período, não quer dizer que não estivesse atenta ao que se passava ao meuredor. É que sou meio desconfiada quando ainda não conheço muito bem as pessoas, além de sofrer de uma certa timidez. Mas depois isso passa e consigo ficar mais à vontade.
Esse episódio do seu caderno, que relatei, foi resultado de uma conversa com algumas colegas nossas. Todas nós ficamos, realmente, envergonhadas por nossos cadernos não serem tão bem apresentados quanto o seu, exemplar em todos os sentidos.
Tem um psicanalista brasileiro que admiro muito, chamado MD Magno, que diz "Nunca sabemos onde Eu termina." É ele também quem diz "O mundo sem mim é pura conjetura minha, pois efetivamente ele não há sem mim." Foi ler a frase do Borges que me fez lembrar esta frase do Magno. E para não parar de citar outras pessoas, já que sou um jarro montado com vários cacos de outras porcelanas, como diria o outro, tem também o nosso querido Manoel de Barros que diz: "Tudo o que não invento é falso."
ResponderExcluirAté ele. Até nós.
=)
Não resisti e voltei pra outro aforismo do Magno que tem tudo a ver com seu post:
ResponderExcluir"Quando começo a falar de mim, são algumas formações falando de outras. Não existe mim ou si mesmo."
Te temos que dormir com um barulho destes ecoando na cabeça.
Ou tentarmos.