quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Strasbourg 2011 § alguma coisa está prestes a acontecer

Alguma coisa está a ponto de acontecer. Não sei se é porque leio Mrs Dalloway e porque aquela mendiga canta através dos séculos na boca do metrô e eu me esfolo porque preferi pegar a redução de seis euros no supermercado pra mim em vez de doar aos sem-teto – faz tanto frio na Europa. Ai, é só o medo que nos dá a medida do sofrimento dos outros. A mendiga eterna de Mrs Dalloway, aquele maluquinho que sacudia a cabeça na igreja do Largo do Machado e que depois mudou para Copacabana. Aquele que andava de terno e calça social em Laranjeiras. As crianças crescem pela primeira vez quando, andando na rua, pequenas, do mesmo tamanho de uma pessoa sentada no chão, são ensinadas a não olhar, a desviar seu ponto de vista privilegiado pela primeira vez. A humanidade se perde logo na primeira infância. Não nos perdemos quando nos desviamos do bom, nos perdemos quando nos desviamos do ruim. As roupas pesam tanto, as camadas de lã, as luvas, os chapéus, as botas... o peso da Europa, alguma coisa horrenda parece prestes a acontecer, estamos a dois anos dos cem anos do 14-18; uma ameaça, esse peso, o euro, a irmandade financeira para as cucuias, os gregos, os portugueses, os italianos, os árabes – sejam os árabes quem forem, são quase judeus (nunca aprendemos nada); em Strasbourg 80% dos estudantes sofrem de depressão. Os anos maravilhosos da juventude... deprimida, desempregada, suicida. Anthony Patch estava certo? Não se entende a melancolia pela infância antes de crescer. O que fez Gloria sair e comprar uma boneca, para conseguir dormir; o que faz uma mulher deitar a cabeça no travesseiro e chupar o dedo, para conseguir dormir. Sabemos que crescemos quando entendemos. Até as estrelas são canibais – é verdade, vi hoje cedo no jornal que uma estrela comeu uma outra – por que chorar de susto pelas pessoas canibais, pelas moedas canibais? E mesmo assim, contra essa natureza, não parece direito que nos engulamos uns aos outros. As favelas foram pacificadas, o G1 varreu as notícias de assalto e assassinato – quero acreditar nisso como acredito que uma estrela comeu a outra. Clarissa, eu também confundo os armênios e os turcos, também não toco piano, oh não, sou meio esnobe também, Clarissa. Que horror. Mas diferente de Micòl, porque não estou convencida de que Micòl Finzi-Contini fosse esnobe. Mas e a vida, essa chuva, Strasbourg, nesse momento de dezembro... 80% dos estudantes de Strasbourg sofrem de depressão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A barata que se chamava Édouard

O táxi parou na frente da estação Siqueira Campos. Desci e andei a rua para procurar a Adega Pérola, em que deveríamos nos encontrar. Descobri que se tratava de uma cantina cujo cheiro de bacalhau não deixava mentir, era à portuguesa. Chovia, mas era final de primavera e fazia aquele calor úmido que só é possível no Rio de Janeiro. Sentia o suor no pescoço e nas costas e só pensava no cheiro do bacalhau e nos pratos de frutos do mar no balcão e me embrulhava o estômago. As pessoas riam e eu talvez fosse a única que se incomodava com o calor ali. E aquele cheiro do bacalhau. E os compartimentos de inox oferecendo perninhas de lulas arroxeadas nanicas e aceboladas. Ele chegou uns minutos depois com um boné branco por onde os cachos transbordavam e disse que era seu lugar preferido na cidade. Eu só pensava no cheiro de bacalhau e no suor que me escorria pelo pescoço. Chopp, caipirinha. O chopp para mim. Depois de algumas palavras vazias trocadas em inglês e em sorrisos amarelos feitos de calor, o que ele está falando de stock market?, o garçom nos mudou de mesa, para uma mais perto do ventilador. Na mesa andava uma baratinha. Um bebê barata, que acompanhei com os olhos, com ligeiro nojo. Não o suficiente para querer matá-la, mas para que fosse preciso comentá-la: há aqui uma barata. E pensava no bacalhau e nas perninhas de lula. Ao que ele respondeu mais non, c’est juste Édouard. Bacalhau e perninhas de lula aceboladas à la Édouard. Édouard andou pelos sachês de açúcar e pela caixa de azeite, Édouard até cheirou os guardanapos e farejou minha tulipa de chopp como se fora um familiar e depois foi desaparecendo. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Teve Copa

 

Feriados que haviam sido prometidos, afinal foram desprometidos porque promessa, nesta terra, sabemos, é para boi dormir. Pelo menos o expediente seria pela metade, como nos outros dias. O Brasil estava na final, mas os patrões fizeram questão de aplaudir o feriado abortado. Meio expediente, então, haveria de haver todo mundo, sem que ninguém, no entanto, soubesse. Ora, é por não se prestar atenção que se escorrega. Se avisarmos ao sujeito que há uma casca de banana a dois passos, que graça tem vê-lo desviar? Assim foi. Os rodoviários bem ficaram com pena do resto dos trabalhadores, mas acharam que fazia parte do método: a greve haveria de continuar. À metade do dia, quando os escritórios, lojas e salões de beleza começaram a esvaziar, as pessoas à rua não encontraram nada com que voltar para casa. Os táxis, todos cheios, queriam apenas voltar, eles mesmos, para casa. No trânsito, rapidamente fez-se um nó, acúmulo daqueles que normalmente se moviam de carro somados aos carros que começaram a sair para buscar seus parentes perdidos nas ruas fedorentas. Ah, sim, porque os lixeiros, bem, estes, sim, avisaram, lá no Carnaval, mas as pessoas não deram muita trela. Fazia já um mês que o lixo se amontoava, as mulheres já nem gritavam mais de pavor ao dar com as baratas. O centro da cidade, antes deserto de ônibus, começou a encher-se de carros, mesmo contra a lei: não mais importava, os motoristas começaram a perceber, já a meio do caminho, que também as forças policiais haviam aderido ao meio expediente. Não haveria multa por rodar na Rio Branco. Viam-se fardas pelo chão. Fardas sobre os sacos de lixo. Só armas foi que não se viram jogadas fora. Só sobrou polícia no perímetro tijucano. PM que não pode fazer greve, ora, pois greve fez! Tudo se enrolou. O metrô já não podia aguentar. A fila subia as escadas e caía na rua. As pessoas começaram a desmaiar, a emergência foi acionada diversas vezes, no subsolo havia tanto caos quanto a céu aberto.

O meio expediente se alongou engarrafamento adentro e as pessoas ocupavam todas as linhas de telefone para saber notícias. Havia boatos de que já começa a haver arrastões e saques de todo tipo, mas apenas boatos, porque noticiário nenhum olhava o que acontecia fora do estádio. Quando a partida começou, poucos tinham conseguido chegar a algum destino. Ao primeiro gol, a terra tremeu, das pessoas que pularam, tendo ouvido o grito na rádio. Abriram-se as janelas dos carros e dos prédios, deixando sair um pouco de ar-condicionado e deixando entrar um pouco do cheiro de futum (as pessoas abandonadas aos próprios pés, coitadas, sem janela para fechar, não podiam escapar ao chorume). Houve um só grito e as janelas fecharam-se novamente. Logo muitas baterias chegaram a seu derradeiro fim e todas as linhas, de tão ocupadas, travaram-se todas. Era como se todos estivessem sozinhos no mundo, sozinhos na multidão do engarrafamento, sem que nenhum parente ou amigo pudesse saber onde encontrá-los. Os abandonados a pé, sem mais o que fazer, chegaram-se aos porteiros e logo havia amontoados de desconhecidos na porta dos prédios, engalfinhados para ouvir a televisãozinha frouxa e chiada do porteiro. Os motoristas cruzavam canteiros e entravam na contramão, para mais adiante cair em outro engarrafamento. Acidentes, brigas, buzinas, arrastões e saques se acumularam ao longo da cidade fétida. Ao segundo gol já se contavam alguns mortos, tantos feridos, muitos com promessa de morte. Um sujeito havia sido espancado no metrô por um grupo de mulheres, até ficar inconsciente, depois de ter metido a mão por baixo do vestido de uma garota. Outras, no entanto, não tiveram a mesma sorte desta e ninguém por elas intercedeu.

Pela chuva, no entanto, ninguém esperava. Em julho não se chove tanto e o céu, que há um segundo estava limpo, juro que parecia coisa de outro mundo, ficou de repente cinza e foi num pingar de três gotas que a cidade encheu. Com lixo esparramado para tudo quanto era lado, não havia um mísero bueirinho para onde escorregar. Varreu tudo, a tempestade. Só no Maracanã é que não choveu, porque Deus é brasileiro, alguém disse no dia seguinte no jornal. Todos os barracos, morro abaixo, foram caindo e se despedaçando em cima de prédios. Imaginemos a cara das pessoas nas janelas, ao ver vindo tudo o que há numa casa, entre colchão, geladeira, porta-retratos, cachorro, pôster da Beyoncé, privada e gente, entre outras minúcias – ao ver vindo, enfim, para cima de suas janelas, tudo isto. Tudo o que havia no morro e que veio se espatifando asfalto abaixo, tudo somado, chegou a uma amontoação de quatro andares de prédios sem garagem. Todos sabiam que a favela era muita, mas ninguém havia imaginado que fosse tanta. Na orla, desde o Recreio até a Baía de Guanabara, o mar regurgitou para dentro do continente tudo o que tanto havia de água, da ressaca de mais de século. Os avós finalmente viram sua profecia se concretizar, de messias vai lá o diabo saber, certo é que o mar volta para buscar o que é dele. Os religiosos disseram que foi porque havia sido a gota d’água para Iemanjá ver a umbanda desrespeitada no Senado. O Vidigal caiu metade para dentro das ondas por cima da Niemeyer, se houvesse alguém lá para ver e depois contar, teria dito que foram vistos vários alemães e franceses afogando-se mar adentro. Pena é que não havia ninguém prestando atenção. Foi uma tempestade histórica, que nenhum ambientalista soube depois explicar.

Parece que tá chovendo forte lá fora, o que me diz, Arnaldo? Sim, sim, Galvão, parece que está chovendo.

Mas então já não falavam para ninguém, pois todo o cabeamento havia sido cortado, os fios pendiam no fluxo berrante de água, lixo, automóveis e corpos, alguns ainda gritando, a maioria já morta. As casas já haviam todas sido tomadas por água e lixo e todo tipo de cadáver, não houve nem barata doméstica que sobrevivesse. As entranhas da terra jorravam para cima. As pessoas de condomínio se amontoavam nos últimos andares, nas casas dos vizinhos e nos corredores, com invasores sobreviventes procurando abrigo. Muitas vezes, por falta de espaço, alguns eram jogados pelas janelas. Em vários prédios, aqueles que possuíam armas guardavam os outros como reféns, enquanto tentavam ao mesmo tempo organizar o pânico e saquear despensas, sabe-se lá para o quê. Ninguém sabia de mais nada e ninguém ouviu quando o Brasil fez o gol da vitória. O Maracanã, desta vez, tremeu sozinho.

Só sobrou o estádio e quem lá estava.

A mídia internacional, ao perguntar para as autoridades o que elas tinham a declarar, disseram, apenas “o que dizer, meu amigo, é uma calamidade! Mas teve Copa!” e a exclamação foi longe, ecoando na cidade submersa, nas carcaças dos automóveis, nos últimos postes de pé, nas escadas rolantes do Cristo.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jucileide e as embalagens vazias

Jucileide guardava embalagens vazias, só porque tinha preguiça de jogar fora. Em seu armário do banheiro, havia, por exemplo, dois tubos vazios de pasta de dentes por debaixo do tubo novo, como cadáveres que tivessem ainda algum último suspiro para dar. Como se ela esperasse que dissessem, da morte, “estou morto”, para que ela então os pudesse deitar fora. Acontecia o mesmo com os xampus e condicionadores, com os restos de sabonetes, um trepado por cima do outro, como hóstias de cheiro, inúteis. Um dia ou outro ela acabava juntando tudo e levando ao lixo, só não fazia isso antes por pura preguiça. Ela deixava coisas diversas ficarem agonizando, já inúteis, no limbo entre o ter sido e o não ser mais. Estas apareciam em seus sonhos, em sua cabeça em viagens de ônibus, onde Jucileide as mantinha enquanto tinha preguiça de jogá-las fora. Sonhava com Colgates, potes de maionese, canalhas quaisquer, notas fiscais, calcinhas furadas, amigos de infância, dentes de leite, afetos antigos, desafetos recentes, esmaltes secos e uma infinidade de outras coisas diversas.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O primeiro

Eu te procuro e não te acho. Cadê você? Eu cruzei o oceano, fui atrás de você em outros países, aprendi outras línguas só para o caso de você não falar a minha, te procurei às cegas, perguntei pros amigos, pros conhecidos, perguntei pra qualquer um, te procurei na internet, também, mas te procurei em vão, você não estava. Nem na internet você estava, nem na internet. Então te procurei na esquina. Até na esquina eu te procurei. Até na esquina e não te achei. É porque eu passei dias e dias em bibliotecas, não é? É por isso que você não me quer? É porque eu não sou muito experiente? Porque você acha que eu não conheço nada da vida real? Porque eu nunca tive primeira vez?
Primeiro emprego, eu juro que não vou te decepcionar quando você me deixar eu te encontrar.

sábado, 9 de novembro de 2013

Dos nós que não se apertaram

A gente vai embora porque outra ponta da vida está chamando. Porque a idade permite, alguém outro virá. Porque a idade é supersticiosa, não era para ser. Ou porque a idade confia, o que tiver de ser será. E a idade confia sempre, mesmo sem querer.

A gente tem que ver indo embora porque o chão dos outros não é nosso para asfaltar. Porque se acredita, o que foi sabe voltar. Porque se espera, o que tiver de ser... sim, já sabemos.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

algum amor

Inebriada pelo melhor sono da manhã, ela nem se dá conta da breve aragem pelo cóccix. Ele soprando, como se sopra uma pétala, a etiqueta da calcinha, que nunca ficava para dentro. Ela permanece quieta e plácida, estátua escondendo os seios enterrados na cama, oferecendo apenas, como relevo eriçado, o poliéster levemente puído da calcinha rosa, como oferecia também as das que eram brancas, azuis ou beges.

As primeiras horas da manhã e as da noite, além dos domingos, eram as únicas que se podiam ouvir a respirar e a pensar. No restante do tempo, sons sem fronteira esburacavam o silêncio do roçar de seus cílios e o trocar de seus hálitos com britadeiras e marretas. Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronto o novo prédio, estalagmite urbana.

Mas ela não acordava pela manhã e, embora ele a tivesse a ela e as etiquetas de suas calcinhas, ela não tinha a ele e, portanto, sempre saía perdendo no final das contas – sentia mais falta dele do que ele dela e assim ela ia, sempre se achando mais amante que amada, menos querida do que de fato era. A pena é que ao dormir não tenhamos nem o mínimo de nós mesmos – privados do melhor ruído da chuva e da brisa da respiração de um homem pelas costas, à mercê de toda boa e má intenção. Ela, nessas horas de silêncio e brisa, estava presa não se sabe em qual sonho, ao que se agarrava inconscientemente, mesmo que fosse para depois perdê-lo, uma vez abertos os olhos. Acordava só quando o barulho era forte demais, o sol já batia na altura de suas coxas e ele já se tinha ido. Nunca nenhum recado que dissesse meu bem, eu te amo, trago as tangerinas quando voltar. Só alguma louça de café da manhã no fundo da pia da cozinha, alguma poça d’água nos azulejos do banheiro. Ela nunca o havia sabatinado e sabido o que era de importância saber. Presa nos detalhes da desordem, ficava feliz com a tampa da privada abaixada e tirava daí algum amor.

sábado, 19 de outubro de 2013

Rio, apesar de muito

 

É triste, mas é apesar de muito que a gente ri. É por essa vida que é só aqui, só daqui, que é muito pior do que noutro lugar, mas muito pior noutro lugar. O ponto de vista sempre serve para consolar, porque carioca precisa de alguma consolação. Talvez seja o que faz o mendigo da Lapa parar na janela de um sobrado pra escutar o samba de dentro, com muito mais gosto do que nós, que pagamos vinte reais para entrar, estamos pagando quinze na longuinec e ainda, mesmo assim, estamos fora, muito por fora, sem muito samba no pé, olhando do segundo andar. A cantora sabe que qualquer canto é menor do que a vida dessas pessoas, ela se vira mesmo assim e canta praquele público que não pagou, porque é a coisa mais honesta a se fazer. Nosso samba não é de preto velho e a gente tem jogo de cintura só pra dizer pro mendigo que nosso dinheiro acabou e, desculpa aí amigão, não vai dar não. E ele diz, com jogo de cintura pra viver, chateado, indo embora, que poxa vida, ele sempre chega atrasado, quando o dinheiro das pessoas já acabou. A gente sorri, apesar disso, porque é lindo, apesar de tudo. Mas esse jogo de cintura pra viver um dia acaba e a gente não tem jogo de cintura pra dizer mais nada, vendo o iPhone ir embora, na baia de um malandro com uma pistola. A gente fica chateado, desculpa aí amigão, perdeu. Perdi, perdemos, perdemos tudo. Somos roubados dentro das lojas porque temos que comprar, temos que beber aquela água de cinco reais e aquela longuinec de quinze, porque temos que nos vestir e porque temos que. Somos roubados fora das lojas porque temos que viver. Somos roubados, de um jeito ou de um outro, porque o bicho pega e, bicho, o bicho come, mas tá todo mundo rindo. Viver é melhor que chorar. E faz tempo, eu não vi você na rua, mas sei que seu cabelo esteve ao vento com outros cabelos de gente jovem. Você hoje é gente velha e eu tenho visto novos cabelos jovens reunidos. E esse é o quadro que dói mais, porque doemos como os nossos pais doeram. Ainda. E de novo. Mas de noite, ali na Lapa, na chuva, com o pivete, a gente ri porque nuns mais, noutros menos, a ferida é viva, mas viver é melhor que chorar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A vida dos outros

 

Não há muito além da vida dos outros. A vida dos outros é pelo que se acorda toda manhã, é pelo que se vai ao bar, é pelo que se marca encontro, é o que se suspira pelas alcovas e o que se fala alto pelos botecos. A vida dos outros é a razão de viver do palpitar, do mexerico, do disse me disse que me disse. A vida dos outros é pelo bem do assunto, é só porque se ela não existir, vai-se embora e não se falou nada. Palpitar igual sobre a vida dos outros é virar unha e carne, é ser do mesmo time. A vida dos outros serve para colocar os outros em nossas vidas. A vida dos outros é a mãe do Fulano e do Cicrano, que sou eu e é você. A vida dos outros é a mãe da Puta e do Filho dela também, que sou eu e é você, também. Digamos, a vida dos outros é a mãe do Vagabundo, do Cafajeste, da Maluca, da Histérica, é a mãe da Gostosa e da Gorda, também. A vida dos outros pariu a porra toda e é pela porra toda que afinal estamos todos aqui. A vida dos outros é pelo que se vive a própria vida, vida própria que é a vida alheia dos outros. Falem mal ou falem bem, que falem dos outros, a minha alteridade é minha e não é de mais ninguém, que eu não vou ficar sendo o Fulano de alguém – quer dizer, não vou ficar sendo o Fulano do Cicrano como o Cicrano é o meu Fulano. Entendeu. Não. Deixa pra lá, deu quatorze linhas de assunto.

domingo, 2 de junho de 2013

saber querer

Para experiências futuras, eu perguntei, o que eu deveria saber? e ele pensou um pouco sem querer imaginar que haveria para mim um futuro outro, olhou para baixo e olhou para mim e me disse enfim saiba querer, diga o que quer, porque é muito difícil não saber o que você quer e você deveria querer com toda a força, mesmo que tanto faça, não deixe que os outros escolham por você porque essa é a sua vida e pronto, não dá pra saber quando ela vai terminar. De improviso comecei a chorar e num soluço feio e sem nenhum ar disse eu não sei o que fazer da minha vida, isso está acabando e eu não sei o que fazer comigo. Além do mais tenho medo de incomodar o querer dos outros querendo demais, mas isso eu não disse porque tinha acabado o ar e se eu não pegasse a bicicleta e fosse embora teria desfalecido ali, sem nenhum querer.

domingo, 26 de maio de 2013

aos piolhos dos meus oito anos que os anos não trazem mais

A gente sabe que cresceu quando esquece o rancor pela infância e quer voltar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Eu disse não escrevo

Eu teria história pra contar. Não história minha, porque a minha vida não é que seja muito romanesca. Mas aquela história do pai da babá sueca dos meus sobrinhos, fugido do Irã como num filme de aventura. Aquela história da perna quebrada do meu avô e as pipas que vendia pela janela, na Ilha do Governador. A história de um incêndio na casa do melhor amigo do meu pai, no Japão, naquela época em que ele comia arroz e gafanhotos na miséria do pós-guerra. Gostaria de contar as histórias em tapetes mágicos da minha irmã no Marrocos. Mas em vez disso eu disse... eu disse não escrevo, não escrevo histórias.

Estou escrevendo isso só para não escrever outra coisa – a tese, largada em outro Word.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

o corpo da menina

 

Não é só o estupro que destrói o corpo da menina. Acontece também quando ela tem doze anos, menstruada aos onze e de sutiã 44 aos treze. Acontece então também quando ela tem doze anos e sai sozinha na rua pela primeira vez e para sozinha no sinal pela primeira vez. Num sinal que nunca fecha, numa curva, onde às vezes não atravessa ninguém. Acontece então quando ela tem doze anos e três entre quatro carros que passam buzinam e gritam coisas que ela não entende. Quando a olham diferente porque ela tem peitos e tem cintura e raspa os pelos. Acontece quando ela passa as tardes comendo batata frita e bebendo refrigerante pra não ter mais cintura. Quando ela se veste com roupas largas de garoto pra não ter mais peito. Acontece então quando ela quer finalmente mudar essas roupas e agora ninguém olha e nem buzina e nem grita e nem nada porque ela é gorda. E depois que ela fizer dietas, botar uma blusa decotada e disserem que ela é bonita, ela não vai acreditar porque quando ela tinha doze anos três entre quatro carros buzinaram e gritaram alguma coisa pra ela, quando ela tinha doze anos e não pensava em ser bonita e nem era bonita de buzina de carro.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

E era bonita

Ainda se fosse feia... Mas era bonita. Olhos verdes e tudo o mais. Fumava pelo bem da pose, um atrás do outro. Em público, no início, com vinho em copo de plástico, e depois até sozinha, com o rímel nas bochechas, logo depois de acordar, com café puro. Às vezes colocava um arco no cabelo, e fumava. O arco e o cigarro eram a combinação perfeita, ela tinha certeza. Tudo junto, porque tudo junto era complicado, era uma pergunta na beira do precipício. Ela pensava que todos eles morriam por uma pergunta na beira do precipício. Ela se punha perto dos que tinham um violão, dos que cantavam músicas antigas, dos que falavam de filmes antigos e de livros do underground. Falava por citação e tudo era lindíssimo. Dançava com o pescoço inclinado para trás, os olhos à metade fechados, fechados o suficiente para lembrar as letras, abertos o suficiente para ver quem a via. Desses chegava mais perto, tocava o braço, a culpa é da cerveja, a música é tão boa, não é? Belíssima. Então com esses cantava inclinando o pescoço para frente. Inclinava o pescoço para frente a todos os que via que a viam. Pensava pode ser esse, mas esse nunca era.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Livros de colorir

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Eu fui uma criança com lindos livros de colorir e bons lápis de cor. Para minha mãe, eram objetos de preservação: eu pintaria apenas as cópias das páginas, com lápis vagabundos. Aqueles lápis caros, em caixas lindas, presentes de gente que vinha do estrangeiro, tinham sido feitos para o sono eterno. Jazem aqui nesta gaveta lápis de cor holandeses, japoneses, franceses. Os livros e os bons lápis seriam conservados para um futuro misterioso, para um cuidadoso que um dia surgisse e não deixasse os lápis caírem e quebrarem por dentro. Um artista sobretudo respeitador das bordas dos desenhos. A única cor que há hoje nos originais é um amarelado antigo e triste, o sinal de que nunca nenhuma criança passou por ali. Os livros de colorir fornecem a didática dos limites, ensinam as fronteiras. Quando não há mais borrões para fora, é o final. Significa que o ensinamento se completou. Aprendeu-se a respeitar os limites. Uma mão que aprendeu a não borrar não borrará nunca mais. Essa é toda a tristeza dos livros de colorir: ninguém entendeu que seu verdadeiro ensinamento é o borrão.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Foi-se uma vez um bruxo

- Sim, diga-me.

- Me aconselha um livro de fantasia?

- Que fantasia você quer?

- Uma com personagens não-reais, mas...

- Eh! Mas...

- Só não queria o Harry Potter que não...

- Ah, tranqüila que Harry Potter não aconselho a ninguém!

A esse ponto vieram andando o bibliotecário e a menina em direção às estantes às minhas costas. Eu sorria ainda do modo com que ela encomendou um conselho de livro de fantasia. O bibliotecário me viu sorrindo e, provavelmente achando que eu era solidária ao seu mal-estar potteriano, me sorriu de volta trocando comigo um olhar presunçoso de literato: pff, Harry Potter... haha. Soubesse ele que eu estava ali naquele momento em grande parte graças ao Harry Potter, teria me caçado da biblioteca. É quase um horror dizê-lo em voz alta. Gostar de Harry Potter é fora da lei. Ele é um clandestino na estante, camuflado com dificuldade (afinal é um catatau de volumes) em meio aos maravilhosos herméticos da Grande Literatura. A Academia tem uma odiosa tendência a escorraçar o que faz sucesso. Os entendidos de Literatura Infantil analisam com olhos adultos e oferecem coisas que as crianças tantas vezes deixam pela metade. Depois começam a oferecer uma Literatura que a idade ainda não permite, que lêem com a obrigação da prova. Eu não gostava de ler até os dez anos. Com todos aqueles Machados de Assis e Josés de Alencar, teria continuado a não gostar de ler. E não creio que seja uma experiência idiossincrática. Você aí, admita. ADMITA! Nós, da geração de ‘90, estamos no mesmo barco furado. Uns mais esperançosos do que outros, nós esperamos a coruja na noite dos onze anos.

Hoje, dou a Machado a chance de ser a obra-prima que é, mas não dou a Harry Potter a derrota de se mostrar como a porcaria que dizem ser. É como descobrir que Papai Noel não existe. É triste. Dos livros muitas vezes não resta nada a não ser a impressão que deixou, a atmosfera do lugar em que líamos, a maciez do sofá, os pés para cima. De Harry Potter não me resta muito a não ser os pés para cima, a clausura no quarto até a última página, os amigos em vários cantos do mundo. Que fique assim. A adulta hoje cheia de não-me-toques não tem nenhuma autoridade sobre a criança que botou os pés para cima e leu. O cânone da Literatura Infantil não pode ser forjado a partir da Academia. O cânone da Literatura Infantil é pessoal e intransferível. Os sete volumes permanecerão intocados.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ah, a revolução…

Não me pego cantando, com a mão no peito, os olhos fechados e a boca no vinho, músicas de revolução. Difícil me lacrimejarem histórias de ditadura, revoltas estudantis, cassetetes esfolando um e outro. Pecado, eh! Pecado... Burrice juvenil, que soe como soe. As pessoas são ruins, criança, a tua coragem escandalosa não salva o mundo da cinta. A tua blusa comunista nunca pôs feijão no prato de ninguém. Fosse homem, não faria crescer a barba. Mulher, não faria crescer os pêlos do sovaco. Resolve o grito? A mim nunca sucedeu. Pecado! Nunca tive mãe que ouvisse a gritos. Talvez eu hoje acreditasse em músicas de revolução. Vida e liberdade sempre me pareceram outra coisa, coisa longe da morte. Mas a cada um a vida como lhe parece. Gritar só me escalpelou a vida sem nada me dar de resultado. Coragem maior é a de calar, de fazer a tua revolução no silêncio. Não é de uma vez que se ganha. Não é de duas. Um grito tem sempre um fôlego. E um fôlego acaba no zunido de uma cinta.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Bolonha § Bologna

 

“Bologna grows on you” ~Teo Green


20120914_112608Bolonha é uma cidade que te pára no meio da rua. Em Bolonha não se caminha em linha reta, com um único pensamento tranquilo desde o quarto até a destinação final, sem que algo te atropele com barulho e violência; violência feia ou bonita. Alguns passos fora de casa e poft, já tá escorregando em caca de cachorro. Mais alguns passos e... mas muita atenção ao dar esses passos, por favor! Não tropece nos punkabbestia, nos mendigos. Atenção às garrafas quebradas de cerveja, aos rabos dos cachorros, esteja atento! É a cidade dos cachorros, Bologna; dos cachorros abandonados adotados pelas pessoas abandonadas. “Temos fome, ajuda”, dizem os papelões.

Passos dados, nenhum rabo ferido, começa a ouvir uma música. Coisa boa na Piazza Maggiore. Jovens que se metem juntos pra fazer um dinheirinho dentro de um chapeu. Pensa que se soubesse tocar faria o mesmo. Que desgraça não saber nem segurar um violão. Sorri, lhes dá uma moedinha, agradece pela alegria, continua. Lá pela metade da Piazza te encontram os vendedores de livros de fábulas africanas. Você não sabe muito bem o que fazer, não é que as fábulas africanas te interessem assim tanto e além disso você já comprou um desses livros outro dia. Bate um papinho, diz não, obrigada, segue adiante. Vai fazer o aperitivo (evitar a Via Del Pratello!). Senta, e antes que te tragam o Spritz, te chegam os paquistaneses. Um atrás do outro, com flores murchas, chaveiros de plástico, coisinhas de todo gênero pra fazer luz de maneiras mil. Insistem, te tocam, ficam ali perto de você por alguns segundos de agonia. No início você diz não, obrigada querendo de todo o coração dizer sinto muito. Depois de um tempo diz não, obrigada querendo gridar não enche a porra do saco!

Termina de comer, dá uma volta na Via Zamboni, das sombras te sai uma voz... da escuridão te faz a oferta... “Bicicleta?”. Imediatamente te vem a angústia. Nem bem ontem te surrupiaram a tua bicicleta. Talvez seja exatamente a tua que agora querem te vender. Dá uma olhada. Não é a tua. Mas é a de uma outra pessoa. O cara te olha. Você olha o cara. Segundos horrendos se passam entre você e ele até que você finalmente diz: “STRONZO!”. Grita como nunca havia gritado antes, mas você se sente tão impotente por saber gritar só isso. Você é uma menina ridícula. “FILHO DA PUTA!”. Agora é uma estranheira ridícula. Mas o filho da puta já foi embora e todos te olham. Paciência. Eh, é preciso ter paciência, você desde ontem está a pé.

Chega ali onde vêm dar Via Zamboni, San Vitale e Strada Maggiore, em frente às Duas Torres. Eis-te quase atropelada por carros, vespas e bicicletas. Mas sobrevive. Volta à Piazza Maggiore, ali estão os paquistaneses fazendo voar luzinhas azuis pelos ares. É linda a Piazza Maggiore. “A piazza mais linda do mundo”, te disse um dia uma amiga numa época em que você ainda não podia entender. Agora preenche essa piazza de lembranças e a olha dizendo você também que está na piazza mais linda do mundo. Sem bicicleta, sem moedinhas, com caca de cachorro no sapato, mas com uma bela de uma janta na pança, com bons amigos no peito e com as chaves do apartamento no bolso. Esta é a minha casa. E eu gosto dela.

(Pelo menos até que cheguem os três metros de neve)


Bologna è una città che ti ferma per strada. A Bologna non si cammina mai sempre dritto, con un solo pensiero sereno dalla camera alla destinazione finale, senza che qualcosa ti si schiaffi addosso con rumore e con violenza, sia brutta che bella. Alcuni passi fuori casa e poof, ecco che scivoli sulla cacca di cane. Ancora alcuni passi e... ma attenzione bene a questi passi, mi raccomando! Non inciampare sui punkabbestia, sui senzatetto. Attento alle bottiglie rotte di birra, alle code dei cani, attento! È la città dei cani, Bologna; dei cani abbandonati che vengono adottati da persone abbandonate. “Abbiamo fame. Aiuto”, dicono i cartoni.

Passi fatti, nessuna coda ferita, cominci a sentire la musica. Roba buona in Piazza Maggiore. Ragazzi che si mettono assieme e si fanno i loro soldini dentro un cappello. Pensi che se sapessi suonare lo faresti pure tu. Che sfortuna non riuscire neanche a tenere una chitarra in mano! Gli sorridi, gli dai una monetina, li ringrazi per l’allegria, continui. A metà Piazza ti vengono incontro i venditori di libri di favole africane. Non sai bene cosa fare, non è che le favole africane ti interessino così tanto e ne hai già comprato uno l’altra volta, di libri. Chiacchieri un po’, dici no, grazie, vai avanti. Vai a fare l’aperitivo (mi raccomando, evitare Via Del Pratello). Ti siedi, e prima che ti servano lo Spritz, ti arrivano i Pakistani. Uno dopo l’altro, con fiori appassiti, portachiavi di plastica, cosine di tutti i generi per fare luce in maniere diverse. Insistono, ti toccano, rimangono lì vicino a te per qualche secondo di agonia. All’inizio dici no, grazie volendo dire con tutto il cuore mi dispiace. Dopo un po’ dici no, grazie volendo invece gridare non farmi girare le palle!

Finisci di mangiare, fai un giro in Via Zamboni, dall’ombra esce fuori una voce... dal buio ti fa un’offerta... “Bici?” Subito ti viene l’ansia. Appena ieri ti hanno fregato la tua bici. Forse è proprio la tua che ora ti vogliono vendere. Dai un’ occhiatina. Non é la tua. Ma è quella di qualcun altro. Il tizio ti guarda. Tu lo guardi. Orrendi secondi passano fra tu e lui finché finalmente tu dici: “STRONZO!”. Gridi come non avevi mai gridato nella vita, ma ti senti così impotente di aver saputo gridare solo quello. Sei una bambina ridicola. “FILHO DA PUTA!”. Adesso sei una straniera ridicola. Ma lo stronzo è già partito mentre tutti ti guardano. Pazienza. Eh, ci vuole pazienza, ormai sei a piedi.

Arrivi lì dove si incrociano Via Zamboni, San Vitale e Strada Maggiore, davanti alle Due Torri. Eccoti quasi ammazzata da macchine, vespe e biciclette. Ma ce la fai. Torni in Piazza Maggiore, ci sono i pakistani che fanno volare delle luci azzurre nell’aria. È bella Piazza Maggiore. “La più bella piazza del mondo”, ti ha detto un’amica tempo fa, quando ancora non lo potevi capire. Ora la riempi di bei ricordi e la guardi dicendo pure tu che sei nella più bella piazza del mondo. Senza bici, senza monete, con cacca di cane sulle scarpe, ma con buon cibo nella pancia, con buoni amici nel cuore e con le chiavi dell’appartamento in tasca. Questa è casa mia. E le voglio bene.

(Finché non arriveranno tre metri di neve).

Grazie mille ad Arianna per l’aiuto grammaticale!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Bolonha § comprei uma almofada de adulto

Minha almofada é bege. Ela não é cor de rosa. Ela não é estampada. Ela não tem frufru. Ela é singelamente bege.

Explico: há algum tempo atrás, me tornei uma rosa-compulsiva. Foi quando me libertei da idéia de que rosa era aquela cor brega para meninas. Eu não gostava do rosa do mesmo modo como não gostava do azul. Eu era politicamente correta e repudiava as coisas que corroboravam para a distinção entre as massas. Ter coisas cor de rosa era como anunciar a minha condição de mulherzinha: não, eu era uma pessoa cheia de personalidade que gostava de vermelho. Em algum momento, tudo mudou. Eu continuo não gostando muito de azul, mas tudo ao meu redor é hoje uma viadagem cor de rosa colossal – e o que não é rosa... tem tendências.

Com o rosa, veio uma trombada de outras infantilidades. A aceitação do rosa deveria ter sido um passo para a maturidade: eu não era mais uma pré-adolescente cheia de merdinhas, eu tinha aceitado todas as cores independentemente do seu valor social, eu tinha ido além. Mas a verdade é que o rosa é uma cor infantil e acaba infantilizando todo o resto da sua vida. Na faculdade, comecei a pesquisar sobre a infância. Aos poucos, comecei a simpatizar com as crianças e com toda a porcaria da indústria fofa e colorida para crianças. Quando você aceita o rosa, você não está aceitando somente o rosa, você está fazendo um pacto com o arco-íris e com a creche. Que nem quando você compra o primeiro produto Apple. E você nem está consciente.

brancadeneveA consciência me veio anteontem enquanto conversava com o meu room-mate. Estava eu dizendo que uma coisa que eu não gosto no Japão é o fetiche que eles têm por mulheres se comportando como garotinhas e o escambau do kawaii. Momento de embaraçosa queda da ficha. Momento em que a ficha cai com tanta força que faz um furo no chão, onde eu tenho vontade de enfiar a minha cabeça e a minhabonecada BrancadeNeveediçãocolecionadorqueestánaminhapoltrona, prontofalei. Olha, ela é simplesmente linda demais e nenhuma porcaria de maturidade vai tirá-la de mim, mas foi tudo culpa do rosa.

No entanto, a minha nova almofada... a minha nova almofada é bege. E uma nova era está para começar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O chocolate dos dedos

As unhas quadradas ao final da semana já estavam com o esmalte lascado. Eu percebia porque ela me pegava olhando pra mão dela e me mandava não olha, tá horrível! Ela não sabia que o que eu olhava eram os ossinhos, aqueles onde a gente conta os meses intercalando... Por mim, eu contaria tudo ali... os meses, os anos... contaria todos os meus segredos para aqueles ossinhos. Mas eu não dizia isso. Pegava-lhe as mãos e colocava atrás do meu pescoço, entre meu cabelo, forçava aquelas unhas de esmalte lascado pra dentro da minha pele e lhe beijava a boca.

De manhã ela se trancava no banheiro pra tomar banho e secar o cabelo. Quando o secador começava a roncar, eu entrava. Ela estaria nua, com os cabelos lambidos ainda pingando o meio das costas, a pele fria, o banheiro quente. O espelho embaçado, ela quase não percebia que eu entrava, só quando eu lambia uma gota de água do meio de sua espinha dorsal. Tremelicava, apavorada. Você sabe que eu não gosto que você me veja de cabelo molhado! Eu fechava os olhos e me abaixava até seus outros cabelos... O espelho se desembaçando se embaraçava agora...

Às vezes ela cismava de fazer bolo. Não queria que eu entrasse na cozinha, dizia que eu me metia. Mas eu calculava a hora em que ela estaria fazendo a cobertura e entrava. Ia direto na panela, ainda não muito quente. Não mete a mão na minha panela! Então eu a pegava pelo pulso, metia a mão dela na panela. E chupava o chocolate de seus dedos...

2008