sábado, 8 de fevereiro de 2014

Jucileide e as embalagens vazias

Jucileide guardava embalagens vazias, só porque tinha preguiça de jogar fora. Em seu armário do banheiro, havia, por exemplo, dois tubos vazios de pasta de dentes por debaixo do tubo novo, como cadáveres que tivessem ainda algum último suspiro para dar. Como se ela esperasse que dissessem, da morte, “estou morto”, para que ela então os pudesse deitar fora. Acontecia o mesmo com os xampus e condicionadores, com os restos de sabonetes, um trepado por cima do outro, como hóstias de cheiro, inúteis. Um dia ou outro ela acabava juntando tudo e levando ao lixo, só não fazia isso antes por pura preguiça. Ela deixava coisas diversas ficarem agonizando, já inúteis, no limbo entre o ter sido e o não ser mais. Estas apareciam em seus sonhos, em sua cabeça em viagens de ônibus, onde Jucileide as mantinha enquanto tinha preguiça de jogá-las fora. Sonhava com Colgates, potes de maionese, canalhas quaisquer, notas fiscais, calcinhas furadas, amigos de infância, dentes de leite, afetos antigos, desafetos recentes, esmaltes secos e uma infinidade de outras coisas diversas.

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