O táxi parou na frente da
estação Siqueira Campos. Desci e andei a rua para procurar a Adega Pérola, em
que deveríamos nos encontrar. Descobri que se tratava de uma cantina cujo
cheiro de bacalhau não deixava mentir, era à portuguesa. Chovia, mas era final
de primavera e fazia aquele calor úmido que só é possível no Rio de Janeiro.
Sentia o suor no pescoço e nas costas e só pensava no cheiro do bacalhau e nos
pratos de frutos do mar no balcão e me embrulhava o estômago. As pessoas riam e
eu talvez fosse a única que se incomodava com o calor ali. E aquele cheiro do
bacalhau. E os compartimentos de inox oferecendo perninhas de lulas arroxeadas
nanicas e aceboladas. Ele chegou uns minutos depois com um boné branco por onde
os cachos transbordavam e disse que era seu lugar preferido na cidade. Eu só
pensava no cheiro de bacalhau e no suor que me escorria pelo pescoço. Chopp, caipirinha.
O chopp para mim. Depois de algumas palavras vazias trocadas em inglês e em sorrisos
amarelos feitos de calor, o que ele está falando de stock market?, o garçom nos
mudou de mesa, para uma mais perto do ventilador. Na mesa andava uma baratinha.
Um bebê barata, que acompanhei com os olhos, com ligeiro nojo. Não o suficiente
para querer matá-la, mas para que fosse preciso comentá-la: há aqui uma barata.
E pensava no bacalhau e nas perninhas de lula. Ao que ele respondeu mais non, c’est juste Édouard. Bacalhau
e perninhas de lula aceboladas à la Édouard. Édouard andou pelos sachês de
açúcar e pela caixa de azeite, Édouard até cheirou os guardanapos e farejou
minha tulipa de chopp como se fora um familiar e depois foi desaparecendo.
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