quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A barata que se chamava Édouard

O táxi parou na frente da estação Siqueira Campos. Desci e andei a rua para procurar a Adega Pérola, em que deveríamos nos encontrar. Descobri que se tratava de uma cantina cujo cheiro de bacalhau não deixava mentir, era à portuguesa. Chovia, mas era final de primavera e fazia aquele calor úmido que só é possível no Rio de Janeiro. Sentia o suor no pescoço e nas costas e só pensava no cheiro do bacalhau e nos pratos de frutos do mar no balcão e me embrulhava o estômago. As pessoas riam e eu talvez fosse a única que se incomodava com o calor ali. E aquele cheiro do bacalhau. E os compartimentos de inox oferecendo perninhas de lulas arroxeadas nanicas e aceboladas. Ele chegou uns minutos depois com um boné branco por onde os cachos transbordavam e disse que era seu lugar preferido na cidade. Eu só pensava no cheiro de bacalhau e no suor que me escorria pelo pescoço. Chopp, caipirinha. O chopp para mim. Depois de algumas palavras vazias trocadas em inglês e em sorrisos amarelos feitos de calor, o que ele está falando de stock market?, o garçom nos mudou de mesa, para uma mais perto do ventilador. Na mesa andava uma baratinha. Um bebê barata, que acompanhei com os olhos, com ligeiro nojo. Não o suficiente para querer matá-la, mas para que fosse preciso comentá-la: há aqui uma barata. E pensava no bacalhau e nas perninhas de lula. Ao que ele respondeu mais non, c’est juste Édouard. Bacalhau e perninhas de lula aceboladas à la Édouard. Édouard andou pelos sachês de açúcar e pela caixa de azeite, Édouard até cheirou os guardanapos e farejou minha tulipa de chopp como se fora um familiar e depois foi desaparecendo. 

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