“Rose, you must do me this honor. Promise me you will survive” ~Jack
Foi antes da neve. Foi antes do gelo. Foi no primeiro mês do ano, quando pensamos que o pior tinha passado em novembro. O inverno não chegaria. Era seguro. Foi ali na esquina que eu a vi, Rosie. Uma pequetita, abandonadazinha, encostada como se nada fosse, do lado de fora da loja fundo-de-quintal. 40 euros com revisão, daqui meia hora? Claro! Confiei no cara com nariz de brócolis e em sua loja mequetrefe. Meia hora depois, eu tinha uma bicicleta. O cara com nariz de brócolis tinha meus 40 euros.
Uma semana depois, sentia cada vez mais dificuldade de rodar. Primeiro pensei que fosse a falta de costume, minhas pernas não estavam acostumadas a pedalar, mas eu estaria logo em forma. Depois, colocando os bofes pela boca e quase não saindo do lugar, me disse que eu tinha ido com muita esperança ao pote. Nunca fora boa na bicicleta, não seria agora que iria melhorar. Demorou mais uns dias para que eu finalmente dissesse oups. A roda traseira estava arriada.
Levei-a ao cara do nariz de brócolis. Acho que o pneu de trás está furado…. Hum… vamos tentar encher, de repente só esvaziou. Se voltar a esvaziar, traga aqui de novo. Saí, pedalando toda leve, contente, imaginando que, talvez, ao contrário do que eu pensava, um pneu pudesse se esvaziar assim sozinho mesmo, porque ele quis. Ao chegar em casa já me sentia mais pesada. Estacionei. Não tinha tempo de voltar lá, ficaria pro dia seguinte. No dia seguinte, a temperatura foi abaixo de zero e assim ficou pelas semanas por vir. Rosie ali ficou, estacionada.
Veio o vento, a chuva, o gelo, a neve.
Passou fevereiro. A temperatura subiu, todos começaram a voltar para cima de suas duas rodas e as bicicletas estacionadas ao lado de Rosie começaram a fazer rodízio. Era a hora. O cadeado abriu, o que já era um bom começo, depois de tanta água em todos os estados. Um cocô de passarinho bem no meio do assento. Bom agouro. Um pombo morto e estatelado no meio da rua bem em frente ao estacionamento de Rosie. Mau agouro.
Fui com Teo à Vélo Station, uma espécie de associação/atelier que compra, repara, revende e, sobretudo, ajuda as pessoas a consertarem suas bicicletas, de graça. É assim: você se afilia por €17, depois você pode chegar lá com sua bicicleta e seu problema, alguém te dá os instrumentos necessários e te diz o que fazer. E é você mesmo que faz. Smile. Eu não sou afiliada (ainda), mas aceitaram cuidar da Rosie na conta da Teo. Mireille começou a nos dizer o que fazer…
Eu tinha feito as unhas no dia anterior. Não foi sem um bocadinho de dor no coração que botei a mão na graxa pra tirar a roda. Mas o pior foi desencaixar o pneu… Depois de uns bons minutos, tiramos a câmara de ar. Dois furinhos, como duas dentadinhas. Mireille nos trouxe um produtozinho colante pra passar em cima, com o band-aid de bicicleta. Ela verificou mais uma vez o resto da câmara e pronto, lindo. Agora pra colocar a câmara de volta pra dentro do pneu… Apareceu um senhor com bigode de dono de circo pra dar uma mão masculina. Nos ajudou também a encaixar de novo o pneu na roda… e encaixar a roda na bicicleta… “Mas esse pneu é enorme!”. Só conseguimos fazê-lo ficar centralizado na quarta tentativa.
Um oleozinho aqui, outro ali, coloquei Rosie de pé. Sorrisão, dever cumprido, Rosie de volta ao tranco, eu orgulhosa por tê-la curado com as próprias mãos e as de gente muito simpática. Já ia embora quando ele mandou um olhar 43 para Rosie. A válvula da roda dianteira, tem que ver isso aí. Meu sorriso murchou. E a válvula da roda traseira, quem fez isso aí? Euh, fomos nós, disse o senhor com bigode de dono de circo, era um furo na câmara, elas consertaram e nós colocamos a roda de volta. Colocaram mal, quem tava coordenando? Mireille. Laurent quis recomeçar tudo de novo mais uma vez ainda.
Tirou as duas rodas. Mas o que houve? Veio Chantal, a presidente da associação, elas não estavam consertando essa câmara aí? Mas a válvula também tá com problema, ouve só, tá escapando ar. Ah, a válvula! É… era a Mireille que tava coordenando… Ah. Segundos depois, chegou Mireille. Mas o que houve, a gente já consertou isso aí, era um furinho. Sim, mas é a válvula… Laurent bufando. Mas a gente já consertou, eu que coordenei, insistiu Mireille. Mas é a válvula! Ah. E Mireille foi embora. Laurent deixou a roda de trás e foi pra da frente. Olha só, a válvula tá torta, isso significa que a câmara pode estar atravessada dentro do pneu, e aí você arrisca a fazer um furo, tem que ajeitar. Ele então começou a tentar desencaixar o pneu. Mas tá fodido isso aqui! De fato, o pneu todo podre. Caraca, que pneu é esse! Passaram umas três pessoas fazendo o mesmo comentário. Ela com certeza está debaixo da chuva, não é? Laurent perguntou. Lembrei de todo vento, de toda chuva, de todo gelo e de toda neve que Rosie enfrentara nas últimas semanas, além de toda a eternidade que ela deve ter passado do lado de fora daquela loja mequetrefe, abandonadazinha, até que eu passasse para resgatá-la, por €40. Ahn… é. Tá fodido mesmo.
Ele ficou uns bons dez minutos tentando desencaixar o pneu. Chantal chamou James Potter para ajudar. Não conseguiu também. O que a gente faz? Laurent me perguntou, largando os braços em cima do pneu, meio derrotado. Dei de ombros, sem graça, já passava das 19h30 e todos estavam lá ainda só pela Rosie, em volta dela, comentando sobre o estado fodido dos seus pneus. Não sei o que fazer. Onde você comprou? Não foi aqui, né? Não, foi numa loja de bicicletas usadas ali na Place d’Islande. E quanto você pagou? 40 euros… Ah la la la la la laaaaa! Todo o atelier suspirou, levantando as sobrancelhas. E pensar que eu vendo minhas bicicletas por 35 e tá tudo em perfeito estado… lamentou Laurent. Eu odeio quem faz essas coisas com os estudantes, choramingou Chantal. James Potter balançou a cabeça tsc tsc tsc…
Bem, vamos deixar essa roda da frente assim mesmo. Se ela não te der problemas, nem pensa mais. É melhor nem pensar mais! Trocamos a câmara de ar da roda traseira por uma nova. James Potter reencaixou a roda em Rosie feito mágica. Enchemos o pneu. Bem. Enough. Dessa vez eu iria mesmo embora, com um sorriso bem menor, mas ainda ali, porque finalmente alguém tinha se importado de verdade com Rosie, mesmo que tenham acabado com toda a sua auto-estima. E além disso eu podia ir pedalando até em casa.
Agradeci a todos, coloquei meu casaco e já ia indo embora quando Mireille disse “e você mudou a válvula, não foi?” Sim, sim. E você pagou? Ai.meu.Deus. Pensei logo que a ajuda era de graça, mas que as coisas custariam os olhos da cara, pra compensar. Não, não paguei, quanto é? Pronta pra facada no coração, €20 uma câmara de ar, ou qualquer coisa assim. 1 euro e 50, ela respondeu. Quase caí pra trás, que horror ter pensado mal deles por alguns segundos! O €1,50 mais agradecido do mundo.
Estava indo embora, Laurent perguntou de novo, sombrio: E esse cara aí que te vendeu a bicicleta? Place d’Islande, né?
Fique tranqüila: eles farão parecer um acidente.
ResponderExcluirhahaha isso aí, Pacha ;)
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