sábado, 29 de maio de 2010

Não-sei II


     O coração realmente bate mais rápido quando a gente escreve. Quase como se estivesse em cima de uma esteira aumentando a velocidade, inclinando o negócio todo, quase tropeçando nos pés e perdendo tudo e caindo pra trás, no chão, no ridículo. É isto escrever. Mesmo que não seja nada demais, nada de gênio, nada mesmo, nothing at all, rien de rien, nadica de nada. Com esse maldito teclado é quase trabalho de britadeira, tec tec tec tec tec tec. Sou um peão, cuspo em cima de tudo isso e se passa uma mulher eu grito gostosa, e eu passo a mão nela todinha. A mão literária, porque peão de obra também não passa a mão de verdade em ninguém. A não ser em estupro, eu sou boa em estuprar mulheres. Por favor, não descontextualize esta frase e não a use contra mim. Veja bem, estupro mulheres literariamente. A arte é maravilhosa, abro as pernas e me enfio entre fios de cabelo e xampus e sangues e tudo. Porque mulheres sou eu, são as minhas pernas que abro e tudo isto que escrevo tec tec tec tec tec, todas elas que desfilam com seus homens, seus amores, seus quilos, seus choros, suas paranoias, seus gritos, suas solidões, alegrias, todas elas são só um grande estupro a mim. E saio toda arrebentada. Estou toda arrebentada. E nada é bom. Elas são personagens ruins, muito provavelmente porque eu sou uma escritora ruim, mas também porque eu sou uma personagem ruim. Porque essa mania de fragmentação ? É fácil ver os pedacinhos de nós, dos outros, só fazemos é fofoca de nós mesmos. Dificil é se ver como inteiro. E eu sou tão inteira. E todos somos. Temos só um fio de vida que começa e termina. O mar não é fragmentado, o mar é um inteiro que tem ondas, que são quebradiças na praia, que batem cada vez diferentes e renovadas, mas ainda assim o mar é um inteiro. Fragmentação é o caralho. O que há comigo são ondas. Eu não sou cacos de vidro, não sou porra de mosaico nenhum. Mas não-sei me escrever por inteiro numa personagem que seja boa, ou em diversas personagens. Encontrar inteiridades nesse mundo fragmentador. Não-sei. Não-sei o que estou dizendo.

Não-seis


      Prometi que não iria mais escrever sobre escrever. E também não escreveria mais em francês. Mas o francês me tem vindo antes do português. Minha língua já não me diz. Já não me diz nada. Valha-me deus, se já disse algum dia alguma coisa, vou lá eu saber. Agora, sobre escrever, quanta merda. Não tenho o que dizer. Em sala de aula, digo sempre besteira, falo falo falo, melhor ser ignorante por três minutos que pela vida toda. Mas só eu sou ignorante. Todos sabem a vera, eu com hipóteses medíocres sobre um conto qualquer repetindo e repetindo as mesmas questões já cortadas pela professora – não, assim não pode ser, não, assim é que não é, porque, veja bem, Akemi, e assim por diante. Em conversa de bar, calo ou digo besteira, não sei do que estão falando ou sei muito pouco ou simplesmente não me sei fazer entender – eu deveria me fazer entender. Eu trabalho com a palavra. Mas engasgo em não-seis gaguejados, aquela má assassina que treme o dedo em cima do gatilho e, em vez do tiro, sai o grito – da derrota, é impossível atirar, é impossível dizer o que não sei o que é. Há algo ali que sinto, mas que não vejo. Não vejo. Talvez todo o blablabla da crítica literária seja esse tatear engasgado por cima do que se sente em não-sei. A língua não recobre tudo. A pele é celular. O celular é plástico. O plástico é petróleo. O petróleo é terra. A terra é big-bang. A luz se fez num estrondo molecular ou sei lá eu o que foi aquela porra. Não-sei o que foi aquela porra. Não-sei o que foi ontem, não-sei o que foi hoje, não-sei o que é isso, que merda, não-sei. Estou fazendo a mesma coisa que odeio que os outros façam, que escangalhem a língua, eu não escangalho a língua, mas que digam que há coisas maiores do que ela, menosprezando-a, mas usando-a e gastando-a e deixando-a toda encardida de nojo da palavra, do pensamento, de um querer saber através da língua, através, através, atravessado, num bum, num big-bang, jamais farei um big-bang, não sou poeta, não sou maratonista, meu fôlego está se perdendo, meus dedos em corrida de cem metros e eu só coloco vírgulas porque fazer ponto e shift letra maiúscula demora muito tempo, os acentos é o word que coloca.
      Ou sei lá. Só segura o meu cabelo e me deixa vomitar.
      Nada sei - sem nenhuma pretensão socrateana nenhuminha mesmo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do barulho insuportável


Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronta a estalagmite.

domingo, 9 de maio de 2010

2 notas mal feitas sobre a Literatura


1 – A literatura enquanto gastronomia

Diz Walter Benjamin, em seu texto clássico “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” (p. 205):

“A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão – no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. [...] O próprio Leskov considerava essa arte artesanal – a narrativa – como um ofício manual. ‘A literatura’, diz ele em uma carta, ‘não é para mim uma arte, mas um trabalho manual”

Ora, compartilho do maravilhoso insight de ser o labor literário um trabalho manual e a narrativa uma forma artesanal de comunicação. Mas me parece que o trabalho manual, no texto de Benjamin mais intimamente relacionado ao fiar e ao tecer, não chega a contemplar etapas importantes da escritura, e, por que não, da leitura. Eu diria que o fazer literário, das artes manuais, se aproxima mais da gastronomia. Da arte culinária.
Criar receitas, quebrá-las, renová-las. Juntar ingrediente daqui, dali e dacolá. Sujar tudo. Fazer experimentações, sentir com a boca o gosto, com o nariz o cheiro, com os olhos as cores e os ouvidos o mastigar, ver tudo se harmonizar debaixo da mesma água na panela, do mesmo vinho na língua. Provar da colher enquanto a panela está no fogo, colocar mais sal, mais pimenta, refogar. Não deixar ninguém chegar perto que a cozinha é minha. Tira a mão, menino! Encostar a barriga no forno, cortar o dedo, sangrar em cima do frango. Chamar sabores de todos os cantos do mundo e aprontar um prato de gosto único, assinar embaixo, a marca do chef. Ver o bolo crescer ou solar. Àqueles que escrevem, pergunto se isso não é igualzinho a literatura. Isso na feitura.
Na leitura – que pode ser tanto do chef quanto dos outros – ainda é a comida. As palavras, como a comida, também nos entram por todos os sentidos e, finalmente, nos fazem. Toma o corpo o que quer, o que precisa, e o resto joga fora, esquece. Às vezes certas coisas passam da dose, aí vem o colesterol, a insensatez, a diabetes, a sensibilidade aguda. O corpo tem memória do que comeu como o cérebro tem memória do que leu. O que se come molda o corpo e os exames de sangue assim como o que se lê molda o espírito e as páginas a serem escritas.
Fala-se tanto da experiência da morte na literatura – ver acabar uma história, ver o ponto final, morrer sem ter morrido de verdade. Com a comida também se morre nas últimas mordidas. Podemos atrasar o final da leitura de um livro com tanto pesar como se alenta a limpeza do prato, se não podemos repetir. Mas a leitura do livro pode ser feita de novo e a receita do prato também. Nunca serão exatamente os mesmos, lá isso é bem verdade. Os gostos sempre mudam das segundas, terceiras e infinitas vezes.
Vê-se aí por que meu blog de chama Tabuleiro de Bolo.

2 – Das interjeições

Comecei a ficar com raivinha da indústria literária ano passado, estudando Teoria da Literatura II, mas cada profissão tem sua sina de todo modo, é preciso que me ajeite com a minha.
Triste é ouvir que, enquanto críticos (valha-me deus) e professores, não podemos ler com interjeições, limitando nossas apreciações de um texto a “Oh! Ah! Uh! Ui!” e outras variações de reações imediatas e irrefletidas. Nós precisamos descobrir o porquê dessas reações, destrinchar e dissecar todas as palavras, o balé sintático, desnudar o mágico, revelar-lhe o truque. Não somos leitores comuns, claro está. Somos leitores chatos de galocha, os que vão lá tirar o fantoche e revelar o braço do ator. Não suportamos ser ludibriados pelo texto, chafurdamos nos clássicos para sempre. Pobres de nós. Ainda nos pagam para isso.
Hoje, lendo um texto de Teresa Cristina Cerdeira da Silva sobre Saramago (“José Saramago, entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”, Lisboa: Dom Quixote, 1989), vi que essa sensação não é apenas minha, vejam só: “Porque aqui se conta também uma história e uma história de paixão, que só os grandes textos sabem deixar no leitor, até mesmo naqueles que não conseguem mais – por força do hábito – gozar o prazer de uma leitura sem ter um lápis na mão”. Ai, que desgraça. Soubesse eu aos 16 anos que estava virando uma acadêmica e crítica literária quando rabisquei meu primeiro livro de ficção, teria voltado atrás! Agora é tarde, a mão coça, as interjeições, quando vejo, já se calaram.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Que fazer dos sonhos


Depois de meses sem sucumbir ao prazer infame da fumaça resistindo pateticamente com chicletes e adesivos espalhados pelo corpo, hoje não pôde. Tivera um sonho daqueles de que não se esquece nunca e que vêm, de quando em quando, de pouco em pouco, em outros sonhos ou de olhos abertos, a nos assustar novamente. Havia sido atingida e morta por uma bala saída de uma máquina fotográfica, dessas grandes, dos fotógrafos profissionais. Ela, que não era talentosa para sonhos, havia visto a si mesma por dentro, assistindo pararem seus órgãos, em espécie de pintura visceral de Frida Kahlo. Viu-se morta por fora e por dentro e acordou chorando, desesperada por estar morta. E então chorou ainda mais, por estar ainda viva depois de haver morrido. Precisava de alguém para contar e, no entanto, todos já se tinham ido. Pensou em ligar, mas sonhos não se contam por telefone por não serem coisa tão séria que valha o tempo e o preço. Sem mais ninguém na casa, nem um cachorro, nem um gato, nem um peixe ou hamster, foi para o espelho comprido do quarto, inchada, vermelha, com o rosto molhado de muitas lágrimas por fora e de muito sangue por dentro; a respiração perdendo-se entre soluços, engasgos e catarro – viva, viva, viva. Chegava-se mais e mais para perto da própria imagem, mimese fugaz, porém a mais honesta; e tratava de limpá-la quando o embaçado da expiração deixava-a nublada demais. Apesar de o embaçado lhe dar mais uma segurança de sua vivacidade orgânica, era preciso a nitidez. A nitidez precisa e imperturbável do espelho que, mesmo descolando-a de si, dava-lhe uma certeza mínima de que se mexia ainda e de que ia acontecendo-se. O espelho não a mataria jamais; ao contrário, ele ia morrendo em solidariedade. Foi atrás do último cigarro que guardara e o acendeu. E sentiu a garganta, os pulmões e tossiu. Só se despregou da hipnose da sobrevivência quando alguma coisa começou a ser dilacerada na construção em frente ao prédio, com tanta dor e tanto grito, grito de coisa a ser desfeita para que outra coisa se faça. Olhava pela janela hoje sem se preocupar em fechar as cortinas para que os operários não a vissem, olhava simplesmente, como quem percebe os átomos da vida a agitar-se e a fazer o mundo.