Preciso confessar que tenho uma invejinha comichona dessas pessoas que têm muitas histórias pra contar e que contam bem. A vida deste cidadão não é um marasmo porque 1) coisas excitantes, engraçadas ou simplesmente incomuns acontecem com esse cara e 2) ele sabe transformá-las em boas histórias, ou 3) mesmo que não aconteçam coisas tão extraordinárias assim, o sujeito vai saber tirar uma boa história da ida mais comum ao supermercado, o que pode ser até melhor do que 1 e 2.
Eu não herdei os talentos da minha mãe. Ela tem uma memória de elefante e é uma excelente contadora de casos. Eu tenho memória de peixe e sou uma péssima oradora. Eu talvez seja uma razoável ensaísta, mas tenho sérias dúvidas quanto ao meu talento para narradora de histórias – principalmente se for para uma mesa cheia de gente, e eu precise ser engraçada. Não dá, nasci sem o dom pra Stand Up e nunca fiz CAL. Coitados dos meus filhos, vão ficar sem historinha antes de dormir.
Mas um negócio curioso aconteceu comigo há algum tempo e vou aproveitar que estou no território seguro do Windows Live Writer, tipografando mudamente.
Estava eu num pub em Ipanema, cheio de turistas, com um casal de amigos estrangeiros que turistavam no Rio – ele francês, ela alemã. Falávamos em francês. Um tempo depois, chegaram dois amigos americanos (a gringalhada de dezembro). Daí mudamos para inglês.
Acontece que tinha um cara no balcão que me encarava descaradamente, mas tão descaradamente como nunca ninguém nem na Lapa tinha feito. Aí ele passou prum lado, voltou, passou de novo… quase enfiando seu grande sorriso “sedutor” na minha cara. Ficamos imaginando de que país essa criatura seria. Até que ele resolveu passar de novo e finalmente dizer you’re very beautiful!, com um sotaque que denunciava que ele não era falante nativo. Resolvi perguntar where are you from?. Então ele me diz, todo orgulhoso e gostosão: BRAZIL!
(…)
Mas o pior ainda está por vir.
Depois disso eu ri e falei ah! eu também sou brasileira!. E eis que ele me solta a pérola: caraca, DESCULPA! e simplesmente se escafede.
Seria ele um prostituto querendo se aproveitar da estrangeira?
Porque, sim, você pode se interessar por uma pessoa porque ela é estrangeira, porque é diferente, interessante, tem referências outras, fala, anda e olha com um sotaque muito sexy etc. Mas você se desinteressar por alguém porque ela não é estrangeira, aí you’ve gotta be kidding me, cumpadi. Eu só fui very beautiful enquanto era uma japonesa exótica e afrancesada, uma turista efêmera e… endinheirada? NOT. Pobre dele. Pois fique o senhor sabendo que eu sou very beautiful mesmo com o meu sotaque carioca de quem acabou de achar um isqueiro na esquina da escola.
Eu sei que pode ser uma experiência incrível e espantosa ficar sabendo que eu sou carioca. Com essa onda de posts japoneses (eu sei que tá ficando repetitivo, mas um dia canso, depois de já ter cansado muitos de vocês), me perguntaram como é ser descendente numa cidade como o Rio, onde quase não se veem pessoas da minha espécie. E é verdade. Se você mora no Rio e tem algum tipo de tara por japas gatchenhas, meu camarada… eu sou o seu achado. (…) Brincadeiras à parte, no post clássico das perguntas frequentes (se você pretende acompanhar este blog, é bom que o tenha lido), faltaram justamente as que se referem ao tópico “natural de”. Acontece que muita gente, antes de perguntar se eu falo japonês, me pergunta “você é… japonesa? Nasceu lá?”. Aí eu respondo que não, sou brasileira. E a seguir vem… “então é paulista?”. Se bem que muitas vezes o “paulista” já é antecipado por aqueles que se consideram mais espertos.
Pra vocês (leitores não cariocas? alguém?) terem uma ideia de como a paisagem aqui é desértica de japas, um caso curioso: uma amiga comentou há pouco tempo sobre um japa muito gato que conheceu, “o japa mais lindo do mundoooo”. E eu já fui falando o nome do indivíduo, apesar de não conhecê-lo realmente (uh, ninja). Se fosse o “loiro mais lindo do mundo” ou o “qualquer-coisa mais lindo do mundo”, eu daria de ombros e pediria pra ver o Facebook. Mas agora, o japa mais lindo… não dá pra ter dúvidas. E olha que eu nem sou chegada na micro-colônia.
Mas o que é nascer aqui? Existe um ser daqui? Estar misturada, ser mestiça, ser uma nipo-brasileira afrancesada faz de mim um produto paraguaio? Made in India1? Quero dizer, mal acabada e fake? O que é estrangeiridade?
A ver…
[1] Made in China poderia causar uma certa confusão, sabe-se lá.






Sempre vivi na cidade grande, com seus ruídos particulares e característicos. Mas sou daquelas que sente saudade de um silêncio ancestral, de uma quietude que quase nunca posso ouvir. Os barulhos da urbanização e da engenharia civil desembestada e desordenada – ai, que eu não posso com isso! 


