domingo, 31 de julho de 2011

Hakuna matata

 

blog

     Quando me perguntam por que eu resolvi estudar Letras, algumas coisas me vêm à cabeça. A primeira talvez seja: por amor. E logo depois: por inconseqüência. Só os loucos fazem coisas por amor nesta vida.

      Não sei aonde Letras vai me levar, mas tô indo.       

domingo, 24 de julho de 2011

Para prestar atenção nos homens

 

     Somos poderosíssimas. Às mulheres é dedicado um dia do ano, três vagões exclusivos no metrô e 80% do shopping. Temos clínicas de exame especiais, sabonetes de higiene íntima especiais, academias de ginástica especiais. Para os homens qualquer coisa serve (se bem que os metrossexuais... hum). Ocupamos 95% da banca de jornal e 99,9% dos temas literários. Há uma etiqueta secular para tratar a mulher: abrir as portas, puxar as cadeiras, oferecer flores, pagar a conta, dar a mão para descer escadas, deixar que ela passe sempre na frente, deixá-la protegida do lado de dentro da calçada (agradecemos silenciosamente às mães dos homens que aprenderam tão direitinho). Não há uma etiqueta para tratar os homens. Nós limitamos nossas análises sobre os homens em três categorias: “imaturo”, “só quer me comer” e “não quis me comer, é viado”, parafraseadas de vários jeitos. Da parte deles, no entanto, há uma série ilimitada de reflexões, blogs, vlogs e conversas chorosas entre amigos sobre como as mulheres são complicadas, sobre como conquistá-las, sobre como funciona a nossa lógica sentimental e sobre como eles nunca vão conseguir descobrir completamente absolutamente nada. Nosso enigma é difícil demais, esfinges que somos. Legiões de bravos homens definham estrangulados entre nossas pernas! Sofrem tanto por essas vagabundas sem coração, interesseiras, exploradoras ditatoriais, meninas dos olhos sem menstruação! Oh Deus, por que ela não te ama?

     Bullshit. Tudo fachada.

     A mulher já foi espremida over and over again, só não entendeu quem é burro. Mas nós queremos continuar sendo espremidas porque gostamos de ser amadas contra a parede. Só que enquanto todas as atenções estão viradas para nós, enquanto estamos lá observando os homens “se contorcendo” de dor tentando descobrir nossos mistérios, enquanto nos achamos o máximo com tantos direitos e conquistas e carros exclusivos no metrô, os homens ficam confortavelmente protegidos no anonimato, com seu próprio mistério resguardado, com sua masculinidade imensamente complexa dissimulada em explicações simplórias e neandertais, reduzidos a sexo, futebol, carro e cerveja. Estratégia muito bem planejada. Tagarelar sobre as mulheres desvia a atenção das mulheres para as próprias mulheres, fazendo com que elas pensem mais sobre si mesmas do que sobre os homens. Eu já me peguei escrevendo sobre cinturas, mas nunca sobre peitorais, sobre jeitos de mexer no cabelo, mas nunca sobre jeitos de pegar o volante do carro. Não sabemos pensar os homens, nem escrever os homens, nem nada que não termine numa resolução superficial e denegridora! Teria até pena deles por esse pouco caso, se não estivesse plenamente convencida de que se trata de uma conspiração proposital! Faça a mulher pensar que está no controle e controle-a.

     Vejamos.

     Começou com os trovadores, primeiros poetas populares que vagavam de lugar em lugar entretendo a corte com canções em rima, na Idade Média. Um dos temas dessas canções era o amor – o amor cortês. Apesar de o trato com as mulheres não ser nada cortês naqueles séculos medievais, pode-se reconhecer aí as primeiras origens de toda uma enjoativa literatura-ode às mulheres, assim como de parte da criação do imaginário que nos cerca e nos assombra. Nas cantigas de amor desses trovadores, a característica principal da amada, além de ser linda e virgem, era ser inatingível. Estivesse ela muito longe, muito casada ou muito morta, o importante é que permanecesse eternamente inacessível. Num pedestal, numa redoma, intocável. É por isso, senhoras, que ainda hoje precisamos ser difíceis. Este nosso principal e mais atraente atributo remonta da Idade Média. Também é imprescindível que sejamos lindas (of course) e é bonitinho se ainda formos virgens (até uma certa idade). Para os poetas de hoje (que, é claro, disseminam o imaginário geral), legal é ser o fenômeno natural mais complicadamente delicioso que existe. Quando gritamos, o homem não deve se incomodar, deve apenas baixar a cabeça, prestando atenção: são gritos divinos. Somos perfeitas com nossas gordurinhas, celulites e estrias, eles nem as perceberiam se não fôssemos nós a apontá-las a cada vez, cheias de charmosa insegurança e timidez. Estamos sempre com cheiro de xampu e é sublime quando dizemos que estamos sem calcinha ou quando vestimos suas camisas sociais de manhã ou simplesmente quando encaixamos perfeitamente nossa cabeça em seus ombros.

 

     Confesso, é quase inevitável não nos sentirmos especiais e ficarmos todas derretidas com a poética da coisa. Mas olhando com mais cuidado, dá pra perceber que não se trata de uma simples poética cheia de atenções e admirações puras ao feminino, mas antes um manual de como uma mulher deve se comportar para conseguir tamanha admiração. Nenhuma dessas literaturas-ode é melhor do que qualquer revista de beleza. É evidente que não estar com a cabeça cheirando a xampu torna-se algo a ser corrigido imediatamente, e vestir a camisa social dele (apenas a camisa social dele) e ficar deslumbrante (descabelada, de preferência) passa a fazer parte da burocracia de um relacionamento. A verdade é que iremos ensaiar no espelho e prender a respiração diversas vezes até conseguirmos chegar pertinho dele, do modo que nos parecer menos ridículo, no meio de um jantar de família ou de negócios, e dizer, ao pé de sua orelha, estou sem calcinha...

sábado, 11 de junho de 2011

Conversa de pai e filha

 

    Depois do Dia das Mães, post temático do Dia dos Namorados (é, o blog é brega mermo). Desencavado de 2009, em diálogo com uma crônica lindinha de Antonio Maria, de mesmo título, mas do ponto de vista do pai. Se alguém quiser, posso passar por e-mail.


     - Pai, eu tenho um namorado.

     Menina, que tem que dizer isso pro pai, pela primeira vez, sente um medo muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o chão do mundo roda sob seus pés. A menina que um dia jurara que o único homem da vida dela seria ele, o pai. Ela deve agora, timidamente, olhando de baixo, dizer com jeitinho que não. Ela jurara errado.

     Pai, agora eu tenho um namorado. Sei que prometi, mas ele gosta tanto de mim! Me desculpe, eu gosto dele, também. Tenho certeza de que gosto, gosto muito, gosto mais do que tudo. Não, não mais do que de você, pai. Foi modo de falar...

     Mas ela gosta dele, sim, do namorado, mais do que tudo. Quando ele levanta o braço da cadeira no cinema e a beija na boca, a língua tem gosto de Mentos. E o filme todo fica com gosto de Mentos. Quando ele pega a mão dela na frente de todo mundo, a mão dela sua. E ela precisa disfarçar, fingir que vai arrumar o cabelo, secá-la rapidinho na roupa e devolvê-la a ele.

   Ele é um bom menino, sim, pai. Você não pode dizer nada, nem o conhece! Ele não vai se aproveitar de mim... ele me ama.

     E ela virará as costas e baterá a porta. Chorará e telefonará ao namorado, dirá que o ama infinitamente e perguntará se ele a ama também. Ele dirá que sim, e possivelmente será verdade. Ele a amará, sim, por duas ou dez sessões de Mentos no cinema. E então não amará mais. E nem ela a ele.

     Ela chegará em casa com os olhos inchados e dirá que não tem mais namorado nenhum. E jurará que nunca mais quer ter. O pai a olhará por cima do jornal e a acolherá em seus braços como antigamente, pequena e frágil, e com um amor só pra ele. Até que alguns dias ou semanas depois, ela entrará tímida em casa e dirá uma vez mais que jurara errado e que ama o novo namorado mais do que tudo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Técnica literária da Felicidade

 

     “What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly by a feeling of bliss - absolute bliss! - as though you'd suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe?” ~Katherine Mansfield


     Fala-se muito sobre a dificuldade de escrever sobre a catástrofe, de representar artisticamente aquilo que é tão mau e tão hediondamente real que não pode ser diminuído por nenhuma palavra ou nenhuma tinta. Aquilo que gostam de chamar de “irrepresentável” ou “indizível” porque está destinado a permanecer eternamente alojado na experiência bruta, como se alguém tivesse esquecido uma faca dentro do corpo depois de uma operação.

     Mas e o indecentemente delicioso? Como representá-lo para que também não seja diminuído por palavras; para que, sobretudo, não pareça… bobo? Para que não seja um gritinho fútil e histérico de uma menina de quatorze anos diante de Justin Bieber… A alegria parece sempre tão tolinha... Boba, boba, boba… bobona eu. Como escrever o sol fresco sem que ele pareça uma luz clichê? E o verde das folhas sem que pareça sátira ou paródia árcadblisse? Eu que andei vendo um sol e umas árvores tão

(cadê a palavra… palavra…? … fico com lindas mesmo)

lindas hoje. Tirei uma foto por falta de jeito de escrever. (Pode ser dor de cotovelo, mas) desconfio de que a extrema felicidade e a extrema dor são egoístas, incompartilháveis, verdadeira e unicamente nossas, não podemos dividir nem que queiramos.

     Escrever a tristeza e o amor é muito fácil, as metáforas chegam, elas se apresentam como uma legião de dominós. A felicidade no entanto exige um talento absolutamente maior. Ela demanda uma técnica muito mais delicada. Como é que se faz um texto sorrir? Cadê a bochecha do texto pra doer de sorrir?

     Será que se pode encarar a felicidade, em vez de escrever sobre ela dessa forma enviesada, perguntando como escrever sobre ela? Porque, bem, isso é roubar. Perguntar o que fazer com a felicidade é não fazer nada com ela. É um jeito fácil e malandrinho de se livrar do tête-à-tête. Técnica utilizada repetidas vezes ao longo de diversos escritores (maus escritores, suponho) para fugir de um determinado tema – perguntar como escrever sobre. É colocar a dúvida para dissimular a incompetência. É o mesmo que preencher páginas e páginas com a inquietação de não ter nada o que falar. Falou-se algo, um espaço foi preenchido, umas palavras foram borradas e pronto, já está, pode-se mandar para o jornal do dia seguinte.

     Meu caso aqui é um tiquinho pior porque não tenho obrigação nenhuma de escrever com prazos, nem escrevo sob encomenda, então meus temas são de minha responsabilidade, preciosamente escolhidos (não necessariamente bem tratados). E eu pateticamente escolho escrever sobre a felicidade com essa técnica insuportável e vagabunda dos incompetentes que não cansam de recorrer à metalinguagens fuleiras...

     Essa angústia vem muito de a minha memória literária ser despovoada de narrativas de felicidade. (E todo mundo sabe que os iniciantes escrevem amparados em exemplos – seja pra fazer parecido, seja pra transtornar). De furor romântico, sim, de momentos alegres, talvez, de enjoada cafonice, com certeza, mas a grande parte sempre termina com uma súbita melancolia, com um balde de água fria, com a derradeira verdade inconsolável: a felicidade é ilusória, é um desodorante de prazo pequeno para a podridão, que logo começa a feder. Não é essa que eu quero.

     Como se fala da felicidade de exatamente agora? Não da felicidade infantil de outrora, essa felicidade inventada com cheiro de bolo de fubá, mas uma felicidade genuína, que se sente na hora, que tá aqui, estalando, berrando, que sai desembestada campos fora como um potro que acaba de cair da mãe. Uma felicidade que não pode ser do tipo que é ficcionalmente lembrada (a felicidade de algum passado), mas esta que simplesmente não pode ser lembrada porque está acontecendo, no delicioso gerúndio do presente… Esta que me veio hoje, numa quarta-feira mediana extremamente cedo pela manhã, assim do nada, pulando como uma pulguinha, surgida de nenhum motivo assim muito óbvio, e que destrambelhou a me comichar para sorrir - “I must laugh or die!”

     Dizer que se está feliz a ponto de chorar, isso é tão bobo, mas e se eu realmente estiver com os olhos chuviscados, como se tivesse acordado marejada de orvalho fresco para um dia lindo… toda brega… e se meus lábios estiverem realmente tremendo de tanto eu tentar controlar esse choro para não parecer tão patética? Há tanta coisa ruim no mundo e eu gastando lágrimas com felicidade! Chorar tem que ser por coisas bem mais importantes. Ai meu Deus, como sou fútil, que não vejo nada de mais importante do que isso!img077

 

    Boba, que bobona…

domingo, 22 de maio de 2011

Um insignificante domingo por semana

 

dog

      O sambinha meio pulguento dos vizinhos fica flutuando aqui no vale, a voz de um outro desce pelo vão da coluna do banheiro social, um fulano ensaia uma guitarrinha, alguém no andar de cima (ou será embaixo) fica falando no skype sem fones de ouvido e fico ouvindo essa voz encaixotada de eco digital – sem entender, o que é pior. Na Igreja tem missa e coro. Tudo meio longe, mas não longe o suficiente, e fico com esses zumbidos amortecidos, chatiiinhos... o som é leeeento... mole que nem um vira-lata se espreguiçando e bocejando. Zumbidinhos que não são isso, nem aquilo, tudo a meio tom, sussurrento... Um incômodo, domingo é um encosto que não deixa seguir adiante... Tanto pra se fazer e não dá pra fazer nada. Domingo é um rodo que empurra tudo pra segunda. Pra piorar ainda é outono aqui. Você sabe que as tardes de outono aqui são insuportavelmente velhas. A temperatura é boa, o sol é amarelado como foto velha, até o verde fica meio sépia, tudo é velho no domingo de outono. E esse sambinha encardido, mas que merda! É chato o samba dos outros. Você sabe que eu gosto de música, mas não a música dos outros, que invade aqui meu campo acústico sem eu pedir. Os olhos a gente pode fechar, virar pro outro lado, a gente não precisa ver. Mas ouvir é ruim, ouvir é involuntário demais pra quem não se concentra. Eu não consigo me concentrar ainda... É, ainda não consigo... Nada me interessa tanto assim a ponto de eu não ouvir. Eu fico chateada de não estar inteira pro Lobo Antunes. Não é muito esperto ficar com ele num domingo, mas às vezes a gente não tem escolha, você sabe. Às vezes tem de ser, como domingo tem de ser.


Foto: http://www.flickr.com/photos/szalik/