domingo, 24 de abril de 2011

Contra o bullying vocabular

 

Ainda no PROCON escolar…


     Me sinto esquisita. Meus posts, consciente e blogueiramente elaborados, que eu pensava derivar dos anos de faculdade, na verdade não são mais do que um grande regresso aos meus doze anos, a um jeito primeiro e pré-adolescente de escrever. Pode? Chegar ao final da faculdade e reparar que meu estilo, depois de ter vagabundeado por vários rebuscados, fez um círculo e voltou ao ponto inicial. Voltei quase às primeiras letras quando deveria estar tinindo nas belas letras.

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      No dia 27 de maio de 2002, esta que vos fala tinha então 12 anos e escreveu, no caderno de português cor-de-rosa, uma redação com o título “Astrologia”, que começava assim: Eu não sei se acredito muito nesse negócio de Astrologia. Esta é uma frase que, palavra por palavra, certamente estaria presente num texto de 2011, caso me pedissem para escrever sobre Astrologia. Não apenas em afeto, mas linguisticamente, tecnicamente falando, eu ainda estou nesse caderno – ou este caderno ainda está em mim e por isso eu o reconheço. A menina sobreviveu. 

     Aos trancos e barrancos ela sobreviveu. Muito infelizmente, não há espaço para o cronista na escola. Depois da sexta série, quando todos começam a ficar preocupadíssimos com o vestibular, redações com notas melhores que medíocres são raras. Tanto tormento! Textos argumentativos numa terceira pessoa distante e apagada, mas que mesmo assim precisa dar uma opinião, camufladinha em sujeitos ocultos e pronomes apassivadores. Eu não pode dar a cara a tapa, ousar colocar a ponta do nariz num cantinho entre parênteses. Nem isso. A redação argumentativa vestibularesca perfeita possui trinta linhas bem dispostas em quatro parágrafos, sendo o primeiro para a introdução do tema e a exposição da tese, o segundo para argumentação a favor, o terceiro para contra-argumentação (que começa com no entanto, entretanto, porém, contudo; o mas é comum demais e não é de bom tom começar um parágrafo com ele), e o último, finalmente, para a conclusão (que deve começar com sendo assim, portanto, em resumo, para concluir). O escrever bem está equivocado e nos equivoca. Espremidos nessa fôrma insossa, ainda fazem questão de que sejamos espertos. Ninguém, isto é, ninguém em boa saúde literária, vai sentir prazer escrevendo assim. E a escrita deve ser, antes de tudo, um prazer. Uma masturbação, for Christ’s sake! Mas, bastante ao contrário, a redação escolar vestibularesca nos violenta.

     Nenhuma coloquialidade, nenhuma frase de efeito, nenhum proverbiozinho e – deus que me livre – nenhum clichê. Canetas vermelhas sedentas contra a máfia do clichê! Não vale palavra chula, mas também não vale palavra requintada demais. Um dia eu ousei soltar um “não obstante”… putz. A BIC vermelha sangrou em cima e eu fiquei encabulada.

    Saímos da escola cheios de preconceitos. Nada presta, qualquer palavrinha mais engraçada deve ser escorraçada, substituída por um sinônimo mais comportado. Sujeito bom é sujeito nulo (!). Não enganamos ninguém com adjetivos, advérbios também não são muito bem-vindos. Metáfora também não pode, pff, imagine! No final, o que acontece é que quase não sobra nada de interessante pra fazer, a não ser bocejar durante trinta linhas.

     Concordo absolutamente que também não podemos avacalhar. Virgular um texto escolar com “porra” e “tipo assim mano”... não. Só estou defendendo o lugarzinho ao sol a que todos têm direito. Todas as palavras são “escrivíveis”, clichês podem ser de lamber os beiços. É preciso apenas mostrar como aproveitar as brechas da escrita, dar aquele jeitinho, sabe coé? Abaixo o bullying vocabular! Tudo pode caber numa mala bem arrumada. Mais do que regras e proibições, é preciso ensinar o bom senso. Por exemplo, palavrões nunca são de bom tom, mas eu acabei de escrever “porra” ali em cima – ops, fiz de novo!

     Tive que dar de cara com esse meu caderno de português de nove anos atrás para perceber que eu me tornei proficiente em todo tipo de escrita para, afinal, escolher como minha justamente aquela que eu nunca precisei que me ensi

nassem. Aquela que é cara de pau, (mais ou menos) honesta e singela, que usa “acho” em vez de “penso”, “acho” em vez de “diz-se”, que se derrete com expressões coloquiais e palavras gostosas, que não dá tanta pompa para as mais sisudas e as enfeita com outras. De putasqueopariu à mesóclises de Matusalém, amo a todos.

     Mas é aquilo, não é…? Aquela velha medida hierárquica da sabedoria aristotélica: é mais sábio aquele não apenas faz, mas faz sabendo o que faz, as inúmeras regras e todos os porquês. Hoje, faço com a autoridade do diploma. Só tem licença poética quem sabe as regras e as quebra conscientemente. A criança que desconstroi a gramática, faz frases tortas, interseccionadas, sem pé nem cabeça, está só falando errado e maltrapilhando a língua porque ainda não a domina. O cara estudado, com um Bechara na mesa de cabeceira, no entanto, está fazendo poesia. Suas linhas tortas, muitas vezes ótimas mas tantas vezes feias, são protegidas por longos “uaus” de perplexidade vazia. 

     Escrever é brincar, no fim e no início das contas. Eu gostaria de poder me ter avisado isso mais cedo, mas ainda bem que acabei descobrindo mesmo assim. Escrever é escolher como brincar.

Mas, de todo modo, é natural que eu encare as coisas assim, desse jeito mais livre, lúdico e risonho… afinal eu sou sagitariana. Mas, quero dizer, isso já é outra coisa, porque esse negócio de Astrologia…

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ai, não seja tonto! 2

 

    Antes de tudo, perdoem pelo post rechonchudo. Não tive tempo de ser breve.[1]  


    Achei muito difícil falar sobre inteligências e burrices sem falar sobre a escola, o sistema escolar, onde se espera que nossa instrução comece. Por mais que seja generalista fazer esta afirmação, creio que todo mundo guarda certos traumas… E eu não tô falando só do pentelho que grudava chiclete no seu cabelo.

     Eu não sou da área de Pedagogia nem de Neurologia, pouco ou nada li sobre o assunto, mas meu (e de uma cambada de gente também) modelo utópico de educação (sobretudo no nível fundamental/médio) seria aquele em que as disciplinas trabalhariam em colaboração. Colocar realmente em prática aquilo que chamam de interdisciplinaridade. Na Academia e na vida prática, os saberes foram divididos assim como na indústria o artesão foi substituído por empregados fordistas. Em nome da rapidez da produção em massa (e outras cositas más…), enquadradamos os homens num único espaço, tampamos a visão periférica, assim como se colocam viseiras em cavalos de charrete. Nós, assim como os cavalos, nos assustaríamos se pudéssemos ver mais do que a bosta do outro que vai na nossa frente.

     Lá nos primórdios gregos já havia os funis escolares, em que crianças “mais espertas” eram selecionadas para uma educação diferenciada. Não sei exatamente como elas eram distinguidas, mas o importante é que esse tipo de funil continua e é responsável por várias frustrações. Me parece que a Teoria das Inteligências Múltiplas (que sugere basicamente as seguintes inteligências: lingúística, lógico-matemática, espacial, musical, cinestésica, interpessoal e intrapessoal) ainda não foi completamente reconhecida pelo sistema educacional a ponto de ser viavelmente aplicada na escola.

     A criatividade ainda não é suficientemente valorizada, a Arte é de importância menor, e a divisão dos campos de saber é insistente. Por mais que possa haver esforços nesse sentido, ainda precisamos caminhar muito para que a prática de fato funcione.

Parte 1

     Não quero botar abaixo as peculiaridades de cada área e os gostos particulares de cada um para domínios específicos. Mas sinto que me faltou quando criança, enquanto escolar e aprendiz de aprender, o link. Eu simplesmente não clicava para a continuidade dos tempos quando batia a sirene e os professores passavam a batata quente. Talvez (bastante talvez) eu tivesse simpatizado mais com a Matemática e meu amigo engenheiro, com a Filosofia, se eu tivesse sabido que a Matemática nasceu na Filosofia – e isso já é História, by the way! Trazendo o assunto aqui para mais pertinho do “meu campo de saber”, me pasma absolutamente que a Gramática nada tenha tido a ver com Redação. E que a Redação não estivesse minimamente ligando para a Literatura. Eu, graças a Deus, comecei a gostar de ler porque fui apadrinhada por Harry Potter aos 10 anos. A partir daí, eu quis me meter a escrever. Me metendo a escrever, passei a me interessar profundamente por Gramática. E, não fosse o-menino-que-sobreviveu, eu não teria sobrevivido a José de Alencar.

Parte 2

     A frase que eu mais ouvi na época de escola, enquanto me descabelava entre fórmulas, regras e linhas do tempo, foi “não adianta decorar[2], você precisa entender”. De fato, de pouco adianta decorar muita coisa e não entender quase nada. Decorar pode estar ligado ao conhecer, mas não entender é o primeiro passo para não saber. Com saber, eu me refiro a juntar lé com cré. Decorar regras gramaticais e passar a caneta vermelha com categoria não vai te fazer escrever bem, assim como decorar a fórmula de Bhaskara não vai me fazer resolver aquele problema daquela prova de matemática em que eu tirei 0,1. Como disse um amigo, “fundamental é saber o que fazer com o que você sabe, saber fazê-lo bem”. “Mais fundamental que tudo”, continua ele, “é saber organizar bem as ideias”. Não podemos ser apenas tupperwares de informações. É preciso que esse acúmulo de informações seja um trampolim para algo além. É preciso dar o salto do que se conhece para o que se sabe. Disse um outro amigo que a sabedoria coloca a erudição no bolso. A erudição é o que fica no bolso para ser citada quando necessário e, penso eu, é tanto mais válida quanto mais misturada. É preciso que se faça o link.

      Para simplificar: você tem Facebook? Show, lek! Mas todos nós temos. O importante é o que você faz com ele, o que você compartilha, com quem você está conectado e as pessoas que você ajuda a conectar.


[1] Padre Antônio Vieira: Peço desculpas por ter sido prolixo, porque não tive tempo de ser breve. Encontrei diversas paráfrases na internet e fico sem saber como foi a frase original, mas a ideia é essa e quem disse foi ele.

[2] Em português, a gente nem liga muito para as expressões “decorar” e “saber de cor”, mas se vemos os equivalentes em francês e inglês, é mais evidente: savoir par coeur, to know by heart. Eu não saberia explicar sobre os caminhos obscuros da etimologia, mas é visível que em alguma parte essas línguas pegaram atalhos diferentes ao se afastarem do latim. Acontece que “cor” em latim é coração. Suponho eu que do “cor” os franceses chegaram com mais simplicidade ao “coeur” e os ingleses simplesmente traduziram literalmente a expressão francesa, enquanto os portugueses foram mais eruditos e preferiram continuar usando a palavra latina (ou somente também imitaram os franceses, mas não conseguiam pronunciar “coeur” e, no meio das adaptações, virou “cor” mesmo, que por acaso, coincide com o “cor” latim). ENFIM, especulações linguísticas tão inúteis quanto guarda-chuva furado.

     Mas a desculpa é que o coração era considerado como a sede da afetividade, mas também da inteligência e da memória. Me desculpe, mas vamos combinar que na maior parte das vezes o coração é responsável por algumas das nossas maiores burradas. Concordemos que a sede da inteligência e da memória é o cérebro/razão mesmo. Os hispanófonos e italófonos foram, nesse ponto, mais dignos. As expressões equivalentes deles para “saber de cor” são, respectivamente, “saber de memoria” e “conoscere a memoria”. Concordo que retemos melhor na memória aquilo que sabemos “de coração”, aquilo que amamos e pelo que nos interessamos com todas as veias e artérias dos nossos átrios e ventrículos. Contudo, não é para esse tipo de memória que a expressão é empregada. Precisamos decorar aquilo que simplesmente é assim (como as capitais) ou cujas explicações simplesmente não conseguimos alcançar (como as fórmulas matemáticas). Decoramos aquilo sobre o que não refletimos.


Em tempo:

No reino das firulas do saber, existem três tipos de sabedores: os sábios, os sabidos e os sabichões. Os sábios são discretos. Os sabidos são interessantes. Os sabichões são um pé no saco. 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ai, não seja tonto!

 

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     Toda e qualquer possível imagem de intelectualoide que eu tenha deixado até aqui irá, doravante, descarga abaixo. Se você não quer se decepcionar, não prossiga. Espere o próximo post, em que eu tentarei parecer mais esperta de novo.

     Em alguma hora da vida precisamos assumir nossas falhas, nossos curtos-circuitos, nossas burrices – como chamam popularmente. Talvez não precisemos todos expô-las necessariamente em público, mas já que eu tenho um blog e não tenho papas na língua… bem. Além disso, não podemos ser tão solares e pensar que só vão coisas boas para os nossos tabuleiros. Essa massaroca que chamamos “eu” também acolhe tremendas burrices, alienações, ignorâncias, arrependimentos que (in)felizmente não matam e tonterías que tais.


     Lembro que quando eu era pequena, endiabrava o meu pai depois que ele chegava do trabalho e queria sentar sossegado pra ver Jornal Nacional. Eu tinha a minha TV e podia muito bem ver o Cartoon Network no meu quarto, mas na época era extremamente necessário para o meu crescimento saudável essa relação judoca pai & filha, em que eu ficava tentando roubar o controle remoto dele e mudar o canal. Tentei ser boazinha algumas vezes (poucas) e simplesmente sentar lá comportada pra assistir ao noticiário, mas era tão aborrecido que eu logo recomeçava a batalha pela hegemonia televisiva.

      Só que a gente cresce, eventualmente. E faz parte da vida adulta ver, gostar e comentar as notícias, as tragédias, os Bolsonaros da galáxia etc e tal. É feio trocar o Bonner, a Fátima e a Maria Beltrão pelo TVZ, Esquadrão da Moda e Truques de Oliver. Mas… pode acontecer de esbarrarmos acidentalmente no controle… é que me escapuliu.

     Nesse mundo algumas coisas nos escapolem, assim, numa buzina de bicicleta. Ops, fui desviar, pisquei, perdi, playba!

Muito me escapa, sem dó nem piedade. Vejam só, escapava-me há pouco que a capital da Austrália é Camberra. Ó dó. Também não sei em que momento desafortunado eu papei mosca e perdi a pérola youtubiana do carioca revoltado com a enchente – fui compartilhar no Facebook toda feliz e me avisam que se trata de um clássico há muito tempo. Que embaraço. Não me inteirei do caso Bolsonaro logo de cara e não estou mais sabendo a quantas anda a panela de pressão lá no Mundo Árabe, a não ser que as pipocas estão estourando.

 

     Eu não me salvo da desculpa ready-to-go para a alienação: é tanta coisa pra fazer, tanto pra ver, ler, reclamar, xingar e mandar tudo para o diabo que o carregue que fica difícil não ofegar no final do dia. Quero só brigar pela supremacia do controle com meu pai – e luto a favor de desligar. Mas ele insiste em ver aquele diabo daquele Conta Corrente…

      Repense bem aí aquela sua ideia de me apresentar aos seus amigos, tomar chopp e tal. Aquele livro mega cult de 1340? Eu não li. Aquele filme alemão do início da década? Eu não vi. Aquela bebida peruana? Eu não bebi. Aquela ex BBB que tá dando praquele empresário ali? Ãhn, cuma? Campeonato Brasileiro? Últimas fraudes do Senado? Er… Eu abro seis saquinhos de sal e fico brincando de desenhar na mesa, ketchup também é bacana. Morro de admiração e inveja de pessoas que conseguem se adaptar a qualquer roda de conversa, que têm comentários e opiniões sobre tudo, cospem citações e nomes e referências das mais variadas. Já leram de tudo, já viram de tudo, conhecem de tudo. Aqueles indivíduos que são antenados, tá ligado? Tenho um professor que é assim, e sem o menor topete – ele é capaz de juntar Ópera e Milan na mesma frase com uma naturalidade de tocar o coração. Uma outra professora estuda Caras e Tititi antes de ir ao salão de beleza. Tenho amigas que têm amigos dos 06 aos 60 e falam desenvoltamente com todos – de maquiagem Dior à Simone de Beauvoir, vem quente que eu tô fervendo.

      I wish.

     Primeiro que minhas cordas vocais são preguiçosas e eu não gosto muito de falar. Segundo que se for depender das informações gerais que eu acumulei ao longo da vida, ihhhh. Minha memória é ruim. Por mais que eu já tenha amado Chico Buarque em algum momento da minha vida, já devo ter esquecido 80% das letras, por exemplo. Meu pai lembra de coisas que aprendeu na escola aos oito anos e minha mãe, bem, eu já mencionei aqui que a memória dela é de elefante. Já eu – eu mal me lembro como se monta uma conta de divisão no papel (não, peraí também, essa parte é uma hipérbole).

     Citei Camberra ali no terceiro parágrafo – eu sempre fui péssima pra capitais. Foi um sufoco na 4ª série ficar com aquela listinha de estados e capitais na mão e só conseguir memorizar Rio de Janeiro – capital do Rio de Janeiro, e São Paulo – capital de São Paulo, enquanto poderia estar vendo Power Rangers no programa da Angélica. Eu posso entrar na Wikipedia agora e descobrir todas as capitais de todos os países do mundo, além das cidades mais populosas, mais poluídas, mais ecológicas, aquelas com maior risco de sofrerem abalos sísmicos e também aquelas com altas chances de virarem a próxima Pompeia debaixo de lava vulcânica – não importa. Posso fazer isso agora e amanhã já terei esquecido a maior parte do que li. Também não adianta me cantar os cálculos de probabilidade ou me explicar por que os vidros do carro ficam embaçados com o ar condicionado. Minha esponja cerebral não retém esse tipo de informação, não apreende, não aprende, não porra nenhuma.

     Imbeciloide? Alienada desvairada? Não sei. Desmemoriada e distraída, com certeza. Seja como for, eu tenho outras qualidades, estou completamente certa disso – e que exploda um bueiro de Copacabana sob os meus pés se for mentira!


Continua…

sábado, 26 de março de 2011

Nem japonesa, nem brasileira, nem paraguaia

 

    Esse post aqui é só pra dar uma arrematada no último. Está bastante chulé porque eu já me cansei desses assuntos nipônicos. Tá na hora de trocar a fita.


     Não sei se por influência familiar ou o quê, mas eu adoro estrangeiros – assim como o prostituto do pub, apesar de os nossos interesses neles serem diferentes. Por isso também eu adoro a Internet, ela me permite conhecer pessoas de longe, que talvez eu não conhecesse de outra forma. Minha primeira experiência foi aos doze anos (talvez onze?), quando, pelos mares pouco dantes navegados da web, esbarrei numa menina portuguesa, num fórum de fãs alucinados por Harry Potter. Ela se tornou uma amiga muito querida e foi uma imensa alegria quando nos conhecemos pessoalmente, alguns anos depois. Depois dela, vieram os paulistas, os franceses… e eu fui me danando toda, porque é uma dorzinha chata essa de estar distante. Morando sozinha, terei um sofá reservado à saudável prática do couchsurfing.

     Há quase dois anos, descobri o Korakor, uma organização (agora oficialmente oficial! yey!) com projetos filantrópicos, cuja filosofia é basicamente a interconexão e o amor entre… tudo.

O Korakor foi pensado inicialmente por Keveen Gabet, levado adiante com a ajuda de amigos queridos, em especial Gina Solorzano, Georges Pagani, Lilo Rivera, Cecilie Caspersen…, e apoiada por pessoas korakorescas de vários cantinhos do mundo. Com tanta internacionalidade, não me espanta que eu tenha querido me meter no meio.

 

     Meu pai diz que não deveria existir essa de “países”. O mundo deveria ser um único e imenso país. Pra ele, esse negócio de “sangue puro” é a maior balela. Porque japonês tem muito disso, né. Migra, mas casa com outro japonês pra fazer mais japonesezinhos “puros”, por mais que cresçam sem falar nada da língua ou não vivam de fato em imersão nipônica. Meu pai defende a mistura. Daí que eu e minhas irmãs somos mestiças. Dizemos que somos nisseis pra facilitar o entendimento daqueles que perguntam, porque aparentemente é muito difícil sacar a diferença entre nissei e mestiço. Para que fique claro, de acordo com o Houaiss: nissei – que ou aquele que é filho de pais japoneses nascido no continente americano; mestiço – diz-se de ou pessoa que provém do cruzamento de pais de raças diferentes. Como nossas mães são brasileiras, do olhão grandão, somos mestiças.

     Eu, na verdade, não sei muito bem o que pensar sobre a língua japonesa ter palavras específicas para cada tipo de… conterrâneo desterrado. É assim. Nikkei é o nome genérico, para todos os descendentes de japoneses nascidos fora do Japão ou com situação regular no exterior. Em seguida, temos nisseis (2ª geração – filhos), sanseis (3ª geração – netos), yonseis (4ª geração – bisnetos), gosseis (5ª geração – trisanetos) etc etc etc e eu nem vou fazer a piadinha do nonsei. A “impureza” está marcada na própria língua. É o rótulo depreciativo e egoísta. Ao mesmo tempo em que te afasta (já que na medida em que você é nissei/sansei/shichissei, você não é japonês), te quer de volta (você não é japonês, mas você também não é desse lugar aí onde nasceu). Talvez você seja uma classe mais baixa de japonês, um decassegui mal tratado que só serve mesmo para preparar bentô.  

      Ora, chega disso, né?

     Post passado eu perguntava se sou um produto paraguaio, fake e mal acabado. É claro que não. Eu sou bastante original, de acabamento perfeito (minha mãe é muito caprichosa). Qual é a marca do meu tabuleiro, onde foi feito? Não sei mesmo, não ligo pra marca, nunca comprei na Osklen. O que importa é que vá ao forno, não derreta e comporte bem a minha massaroca.

     Daí eu vivi feliz para sempre e vamos virar a página.

     Até a próxima, sobre a burrice.

domingo, 20 de março de 2011

A legião estrangeira

 

    Preciso confessar que tenho uma invejinha comichona dessas pessoas que têm muitas histórias pra contar e que contam bem. A vida deste cidadão não é um marasmo porque 1) coisas excitantes, engraçadas ou simplesmente incomuns acontecem com esse cara e 2) ele sabe transformá-las em boas histórias, ou 3) mesmo que não aconteçam coisas tão extraordinárias assim, o sujeito vai saber tirar uma boa história da ida mais comum ao supermercado, o que pode ser até melhor do que 1 e 2.

 

     Eu não herdei os talentos da minha mãe. Ela tem uma memória de elefante e é uma excelente contadora de casos. Eu tenho memória de peixe e sou uma péssima oradora. Eu talvez seja uma razoável ensaísta, mas tenho sérias dúvidas quanto ao meu talento para narradora de histórias – principalmente se for para uma mesa cheia de gente, e eu precise ser engraçada. Não dá, nasci sem o dom pra Stand Up e nunca fiz CAL. Coitados dos meus filhos, vão ficar sem historinha antes de dormir. Mas um negócio curioso aconteceu comigo há algum tempo e vou aproveitar que estou no território seguro do Windows Live Writer, tipografando mudamente.

 

    Estava eu num pub em Ipanema, cheio de turistas, com um casal de amigos estrangeiros que turistavam no Rio – ele francês, ela alemã. Falávamos em francês. Um tempo depois, chegaram dois amigos americanos (a gringalhada de dezembro). Daí mudamos para inglês.

Acontece que tinha um cara no balcão que me encarava descaradamente, mas tão descaradamente como nunca ninguém nem na Lapa tinha feito. Aí ele passou prum lado, voltou, passou de novo… quase enfiando seu grande sorriso “sedutor” na minha cara. Ficamos imaginando de que país essa criatura seria. Até que ele resolveu passar de novo e finalmente dizer you’re very beautiful!, com um sotaque que denunciava que ele não era falante nativo. Resolvi perguntar where are you from?. Então ele me diz, todo orgulhoso e gostosão: BRAZIL!

(…)

                                           Mas o pior ainda está por vir.

        Depois disso eu ri e falei ah! eu também sou brasileira!. E eis que ele me solta a pérola: caraca, DESCULPA! e simplesmente se escafede. 

Seria ele um prostituto querendo se aproveitar da estrangeira?

       Porque, sim, você pode se interessar por uma pessoa porque ela é estrangeira, porque é diferente, interessante, tem referências outras, fala, anda e olha com um sotaque muito sexy etc. Mas você se desinteressar por alguém porque ela não é estrangeira, aí you’ve gotta be kidding me, cumpadi. Eu só fui very beautiful enquanto era uma japonesa exótica e afrancesada, uma turista efêmera e… endinheirada? NOT. Pobre dele. Pois fique o senhor sabendo que eu sou very beautiful mesmo com o meu sotaque carioca de quem acabou de achar um isqueiro na esquina da escola.

        Eu sei que pode ser uma experiência incrível e espantosa ficar sabendo que eu sou carioca. Com essa onda de posts japoneses (eu sei que tá ficando repetitivo, mas um dia canso, depois de já ter cansado muitos de vocês), me perguntaram como é ser descendente numa cidade como o Rio, onde quase não se veem pessoas da minha espécie. E é verdade. Se você mora no Rio e tem algum tipo de tara por japas gatchenhas, meu camarada… eu sou o seu achado. (…) Brincadeiras à parte, no post clássico das perguntas frequentes (se você pretende acompanhar este blog, é bom que o tenha lido), faltaram justamente as que se referem ao tópico “natural de”. Acontece que muita gente, antes de perguntar se eu falo japonês, me pergunta “você é… japonesa? Nasceu lá?”. Aí eu respondo que não, sou brasileira. E a seguir vem… “então é paulista?”. Se bem que muitas vezes o “paulista” já é antecipado por aqueles que se consideram mais espertos.

      Pra vocês (leitores não cariocas? alguém?) terem uma ideia de como a paisagem aqui é desértica de japas, um caso curioso: uma amiga comentou há pouco tempo sobre um japa muito gato que conheceu, “o japa mais lindo do mundoooo”. E eu já fui falando o nome do indivíduo, apesar de não conhecê-lo realmente (uh, ninja). Se fosse o “loiro mais lindo do mundo” ou o “qualquer-coisa mais lindo do mundo”, eu daria de ombros e pediria pra ver o Facebook. Mas agora, o japa mais lindo… não dá pra ter dúvidas. E olha que eu nem sou chegada na micro-colônia.

      Mas o que é nascer aqui? Existe um ser daqui? Estar misturada, ser mestiça, ser uma nipo-brasileira afrancesada faz de mim um produto paraguaio? Made in India1? Quero dizer, mal acabada e fake? O que é estrangeiridade?

      A ver…


[1] Made in China poderia causar uma certa confusão, sabe-se lá.