sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A vida, Strasbourg, esse momento de dezembro…

 

Alguma coisa está a ponto de acontecer. Não sei se é porque leio Mrs Dalloway e porque aquela mendiga canta através dos séculos na boca do metrô e eu me esfolo porque preferi pegar a redução de seis euros no supermercado pra mim em vez de doar aos sem-teto – faz tanto frio na Europa. Ai, é só o medo que nos dá a medida do sofrimento dos outros. A mendiga eterna de Mrs Dalloway, aquele maluquinho que sacudia a cabeça na igreja do Largo do Machado e que depois mudou para Copacabana. Aquele que andava de terno e calça social em Laranjeiras. As crianças crescem pela primeira vez quando, andando na rua, pequenas, do mesmo tamanho de uma pessoa sentada no chão, são ensinadas a não olhar, a desviar seu ponto de vista privilegiado pela primeira vez. A humanidade se perde logo na primeira infância. Não nos perdemos quando nos desviamos do bom, nos perdemos quando nos desviamos do ruim. As roupas pesam tanto, as camadas de lã, as luvas, os chapéus, as botas... o peso da Europa, alguma coisa horrenda parece prestes a acontecer, estamos a dois anos dos cem anos do 14-18; uma ameaça, esse peso, o euro, a irmandade financeira para as cucuias, os gregos, os portugueses, os italianos, os árabes – sejam os árabes quem forem, são quase judeus (nunca aprendemos nada); em Strasbourg 80% dos estudantes sofrem de depressão. Os anos maravilhosos da juventude... deprimida, desempregada, suicida. Anthony Patch estava certo? Não se entende a melancolia pela infância antes de crescer. O que fez Gloria sair e comprar uma boneca, para conseguir dormir; o que faz uma mulher deitar a cabeça no travesseiro e chupar o dedo, para conseguir dormir. Sabemos que crescemos quando entendemos. Até as estrelas são canibais – é verdade, vi hoje cedo no jornal que uma estrela comeu uma outra – por que chorar de susto pelas pessoas canibais, pelas moedas canibais? E mesmo assim, contra essa natureza, não parece direito que nos engulamos uns aos outros. As favelas foram pacificadas, o G1 varreu as notícias de assalto e assassinato – quero acreditar nisso como acredito que uma estrela comeu a outra. Clarissa, eu também confundo os armênios e os turcos, também não toco piano, oh não, sou meio esnobe também, Clarissa. Que horror. Mas diferente de Micòl, porque não estou convencida de que Micòl Finzi-Contini fosse esnobe. Mas e a vida, essa chuva, Strasbourg, nesse momento de dezembro...

domingo, 14 de agosto de 2011

Grande-pai

 

     Nesse dia dos pais, vou falar do meu avô.    

     Meu avô mancava de uma perna e usava uma bengala de madeira clara, bem lisa, gasta, no formato daqueles docinhos que aparecem no Natal. Ele usava um All Star preto de cano alto, era careca, tinha bigodes brancos e orelhas grandes. Nunca descobri se usava dentadura, mas tenho minhas dúvidas. Ele lia todos os livros que me mandavam ler na escola (o preferido era A Bolsa Amarela), lia todas as partes do jornal, todos os classificados. Também desenhava barcos e via todas as novelas. Contava piadas, sempre as mesmas, mas demorava à beça pra chegar ao final porque sempre começava a rir no meio. Ele ria engraçado, não abria a boca, era uma gargalhada pra dentro que tremia o corpo inteiro e ele se chacoalhava todo, ficava com a careca rosada. Foi dele que eu mais ri na vida. Ele jogava damas comigo e deixava eu apoiar a cabeça em sua perna coxa quando queria dormir no carro. Era para o quarto dele que eu corria quando minha mãe brigava comigo. Ele contava sempre as mesmas histórias e me deu algumas lembranças preciosas, uma casa na Ilha do Governador, pipas, uma perna quebrada num jogo de futebol, o mar; esses lugares são como se fossem meus. A última coisa que ele me disse foi feliz aniversário. Ele andava muito devagarzinho pela casa, arrastando os chinelos, apoiando-se na bengala e nos móveis, eu quase o derrubava passando pelo corredor estreito. Foi por ele que eu mais chorei até hoje. Molhava dois pães de fôrma no café todas as tardes, e no café-com-leite todas as manhãs. Foi com ele que eu aprendi a levantar uma sobrancelha. E fazíamos o jogo do sério, eu sempre perdi. Ele era resmungão e falava com a TV. A letra dele era linda. E ele começa a ficar rarefeito. Às vezes saio correndo e consigo puxar de volta uma mancha no braço ou um gesto de mão quando já começam a desaparecer, mas o nariz já foi.

domingo, 31 de julho de 2011

Hakuna matata

 

blog

     Quando me perguntam por que eu resolvi estudar Letras, algumas coisas me vêm à cabeça. A primeira talvez seja: por amor. E logo depois: por inconseqüência. Só os loucos fazem coisas por amor nesta vida.

      Não sei aonde Letras vai me levar, mas tô indo.       

domingo, 24 de julho de 2011

Para prestar atenção nos homens

 

     Somos poderosíssimas. Às mulheres é dedicado um dia do ano, três vagões exclusivos no metrô e 80% do shopping. Temos clínicas de exame especiais, sabonetes de higiene íntima especiais, academias de ginástica especiais. Para os homens qualquer coisa serve (se bem que os metrossexuais... hum). Ocupamos 95% da banca de jornal e 99,9% dos temas literários. Há uma etiqueta secular para tratar a mulher: abrir as portas, puxar as cadeiras, oferecer flores, pagar a conta, dar a mão para descer escadas, deixar que ela passe sempre na frente, deixá-la protegida do lado de dentro da calçada (agradecemos silenciosamente às mães dos homens que aprenderam tão direitinho). Não há uma etiqueta para tratar os homens. Nós limitamos nossas análises sobre os homens em três categorias: “imaturo”, “só quer me comer” e “não quis me comer, é viado”, parafraseadas de vários jeitos. Da parte deles, no entanto, há uma série ilimitada de reflexões, blogs, vlogs e conversas chorosas entre amigos sobre como as mulheres são complicadas, sobre como conquistá-las, sobre como funciona a nossa lógica sentimental e sobre como eles nunca vão conseguir descobrir completamente absolutamente nada. Nosso enigma é difícil demais, esfinges que somos. Legiões de bravos homens definham estrangulados entre nossas pernas! Sofrem tanto por essas vagabundas sem coração, interesseiras, exploradoras ditatoriais, meninas dos olhos sem menstruação! Oh Deus, por que ela não te ama?

     Bullshit. Tudo fachada.

     A mulher já foi espremida over and over again, só não entendeu quem é burro. Mas nós queremos continuar sendo espremidas porque gostamos de ser amadas contra a parede. Só que enquanto todas as atenções estão viradas para nós, enquanto estamos lá observando os homens “se contorcendo” de dor tentando descobrir nossos mistérios, enquanto nos achamos o máximo com tantos direitos e conquistas e carros exclusivos no metrô, os homens ficam confortavelmente protegidos no anonimato, com seu próprio mistério resguardado, com sua masculinidade imensamente complexa dissimulada em explicações simplórias e neandertais, reduzidos a sexo, futebol, carro e cerveja. Estratégia muito bem planejada. Tagarelar sobre as mulheres desvia a atenção das mulheres para as próprias mulheres, fazendo com que elas pensem mais sobre si mesmas do que sobre os homens. Eu já me peguei escrevendo sobre cinturas, mas nunca sobre peitorais, sobre jeitos de mexer no cabelo, mas nunca sobre jeitos de pegar o volante do carro. Não sabemos pensar os homens, nem escrever os homens, nem nada que não termine numa resolução superficial e denegridora! Teria até pena deles por esse pouco caso, se não estivesse plenamente convencida de que se trata de uma conspiração proposital! Faça a mulher pensar que está no controle e controle-a.

     Vejamos.

     Começou com os trovadores, primeiros poetas populares que vagavam de lugar em lugar entretendo a corte com canções em rima, na Idade Média. Um dos temas dessas canções era o amor – o amor cortês. Apesar de o trato com as mulheres não ser nada cortês naqueles séculos medievais, pode-se reconhecer aí as primeiras origens de toda uma enjoativa literatura-ode às mulheres, assim como de parte da criação do imaginário que nos cerca e nos assombra. Nas cantigas de amor desses trovadores, a característica principal da amada, além de ser linda e virgem, era ser inatingível. Estivesse ela muito longe, muito casada ou muito morta, o importante é que permanecesse eternamente inacessível. Num pedestal, numa redoma, intocável. É por isso, senhoras, que ainda hoje precisamos ser difíceis. Este nosso principal e mais atraente atributo remonta da Idade Média. Também é imprescindível que sejamos lindas (of course) e é bonitinho se ainda formos virgens (até uma certa idade). Para os poetas de hoje (que, é claro, disseminam o imaginário geral), legal é ser o fenômeno natural mais complicadamente delicioso que existe. Quando gritamos, o homem não deve se incomodar, deve apenas baixar a cabeça, prestando atenção: são gritos divinos. Somos perfeitas com nossas gordurinhas, celulites e estrias, eles nem as perceberiam se não fôssemos nós a apontá-las a cada vez, cheias de charmosa insegurança e timidez. Estamos sempre com cheiro de xampu e é sublime quando dizemos que estamos sem calcinha ou quando vestimos suas camisas sociais de manhã ou simplesmente quando encaixamos perfeitamente nossa cabeça em seus ombros.

 

     Confesso, é quase inevitável não nos sentirmos especiais e ficarmos todas derretidas com a poética da coisa. Mas olhando com mais cuidado, dá pra perceber que não se trata de uma simples poética cheia de atenções e admirações puras ao feminino, mas antes um manual de como uma mulher deve se comportar para conseguir tamanha admiração. Nenhuma dessas literaturas-ode é melhor do que qualquer revista de beleza. É evidente que não estar com a cabeça cheirando a xampu torna-se algo a ser corrigido imediatamente, e vestir a camisa social dele (apenas a camisa social dele) e ficar deslumbrante (descabelada, de preferência) passa a fazer parte da burocracia de um relacionamento. A verdade é que iremos ensaiar no espelho e prender a respiração diversas vezes até conseguirmos chegar pertinho dele, do modo que nos parecer menos ridículo, no meio de um jantar de família ou de negócios, e dizer, ao pé de sua orelha, estou sem calcinha...

sábado, 11 de junho de 2011

Conversa de pai e filha

 

    Depois do Dia das Mães, post temático do Dia dos Namorados (é, o blog é brega mermo). Desencavado de 2009, em diálogo com uma crônica lindinha de Antonio Maria, de mesmo título, mas do ponto de vista do pai. Se alguém quiser, posso passar por e-mail.


     - Pai, eu tenho um namorado.

     Menina, que tem que dizer isso pro pai, pela primeira vez, sente um medo muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o chão do mundo roda sob seus pés. A menina que um dia jurara que o único homem da vida dela seria ele, o pai. Ela deve agora, timidamente, olhando de baixo, dizer com jeitinho que não. Ela jurara errado.

     Pai, agora eu tenho um namorado. Sei que prometi, mas ele gosta tanto de mim! Me desculpe, eu gosto dele, também. Tenho certeza de que gosto, gosto muito, gosto mais do que tudo. Não, não mais do que de você, pai. Foi modo de falar...

     Mas ela gosta dele, sim, do namorado, mais do que tudo. Quando ele levanta o braço da cadeira no cinema e a beija na boca, a língua tem gosto de Mentos. E o filme todo fica com gosto de Mentos. Quando ele pega a mão dela na frente de todo mundo, a mão dela sua. E ela precisa disfarçar, fingir que vai arrumar o cabelo, secá-la rapidinho na roupa e devolvê-la a ele.

   Ele é um bom menino, sim, pai. Você não pode dizer nada, nem o conhece! Ele não vai se aproveitar de mim... ele me ama.

     E ela virará as costas e baterá a porta. Chorará e telefonará ao namorado, dirá que o ama infinitamente e perguntará se ele a ama também. Ele dirá que sim, e possivelmente será verdade. Ele a amará, sim, por duas ou dez sessões de Mentos no cinema. E então não amará mais. E nem ela a ele.

     Ela chegará em casa com os olhos inchados e dirá que não tem mais namorado nenhum. E jurará que nunca mais quer ter. O pai a olhará por cima do jornal e a acolherá em seus braços como antigamente, pequena e frágil, e com um amor só pra ele. Até que alguns dias ou semanas depois, ela entrará tímida em casa e dirá uma vez mais que jurara errado e que ama o novo namorado mais do que tudo.