“Il faut être léger comme l’oiseau et non comme la plume”* ~ Paul Valéry
Andei uma época da minha vida querendo ser piloto de avião. Aeromoça não, piloto mesmo. Mas bom... para o bem e saúde geral de muitos viajantes, acabei indo estudar Literatura, que no fim das contas também não deixa de ser um jeito de estar nas nuvens.
Minha palavra preferida era Varig. Eu gostava de viajar só por estar a bordo. Hoje isso mudou um pouco porque só sendo muito pancado da cabeça pra gostar de estar a bordo na classe econômica.
De todo modo, voar e ideias afins sempre povoaram a minha afeição. Portanto, cama elástica, dança de salão e cavalos são super bem cotados por aqui. Tudo no mesmo campo semântico do ir pelos ares. Se eu fosse circense, seria trapezista. Simpatizo particularmente com teleféricos também.
Não gosto muito de cair, no entanto.
Veja bem, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: cair é propriedade de um outro departamento, o buraco é bem mais embaixo. Eu não gosto nem de tropeçar. Tudo bem que estar no ar já traz em si um cair em potencial, mas eu confio em aviões, balões e parapentes (sobre a asa-delta ainda estou refletindo). Agora… atirar-se em queda-livre eu acho mais medonho. Nem cabum né nada comigo, me borro toda. Bungee jumping está na lista de afazeres, mas… A graça do ar, pra mim, não está na adrenalina de continuar vivo literalmente por um fio, de mergulhar na morte por estatelamento e ser (se Deus quiser) puxado de volta, de entregar-se de corpo e berros ao abismo V = g x t. Como diz um amigo, live fast, die young, fuck yeah! Não descarto absolutamente, que eu também sou meio lelé da cuca, mas talvez em outra ocasião. Hoje estou pensando em outro tipo de sensação.
Quando eu fui voar de parapente, confesso que também pensei “radicaaaal!” e só a ideia de estar parada de cara pro abismo da Pedra Bonita já me parecia o suficiente pra me elevar ao estágio absoluto da coragem. Chegar ao voo de fato, então… Kemi, a destemida. Contudo, uma conversa com um entendido do assunto tirou alguns “a” do “radicaaaal!” e fiquei só com um “radical” mais singelo, mas nem por isso menos destemido. Realmente, algumas pessoas disseram que o paraquedas é mais irado. Sei lá. Como esse mesmo entendido do assunto me explicou, a vibe é diferente. Disse ele assim: “a onda do voo livre é outra, tá muito mais pra curtir o visual, em paz, uno com a natureza, do que adrenalina ou coisa do tipo faca na caveira”. E então, depois de ouvir isso, curti ainda mais a onda do parapente porque me pareceu tão sossegado, tão (why not?) poético.
Ok, ok, tô ouvindo vocês chiando… “sossego a 520 metros de altura HAHA que desmiolada”. Mas é. Acreditem. Não sei se por eu ter uma quedinha por alturas ou pela segurança absurda que o instrutor passa ou sei lá eu o quê, mas medo é o que menos se
sente lá em cima. Tá, também não vou dizer que não dei uma tremidinha ali na pista porque seria parecer machona demais, mas passados os primeiros gritinhos da decolagem, os vinte minutos que seguem são nada menos do que sensacionais. Estar lá em cima, sentada no vento, sobrevoando a montanha e o mar, compartilhando do espaço dos pássaros e sorrindo sem parar é… Não vou ficar enchendo esse parágrafo de adjetivos da ordem do espetacular, vocês podem preencher isso sozinhos abrindo o dicionário. (Má blogueira que bota os leitores pra trabalhar…).
De todo modo, para quem me parabenizou pela coragem… Bem, se considerarmos que buscar a liberdade é um ato de coragem e que a felicidade é valente, até que sim.
Uma vez me perguntaram se eu tinha vertigem nas alturas. Como podem ver, obviamente que não. Eu tenho medo é do rasteiro…
* ”É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”, Paul Valéry





