terça-feira, 17 de maio de 2011

I believe I can fly–Travessuras no céu

 

“Il faut être léger comme l’oiseau et non comme la plume”* ~ Paul Valéry

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     Andei uma época da minha vida querendo ser piloto de avião. Aeromoça não, piloto mesmo. Mas bom... para o bem e saúde geral de muitos viajantes, acabei indo estudar Literatura, que no fim das contas também não deixa de ser um jeito de estar nas nuvens.

     Minha palavra preferida era Varig. Eu gostava de viajar só por estar a bordo. Hoje isso mudou um pouco porque só sendo muito pancado da cabeça pra gostar de estar a bordo na classe econômica.

      De todo modo, voar e ideias afins sempre povoaram a minha afeição. Portanto, cama elástica, dança de salão e cavalos são super bem cotados por aqui. Tudo no mesmo campo semântico do ir pelos ares. Se eu fosse circense, seria trapezista. Simpatizo particularmente com teleféricos também.

      Não gosto muito de cair, no entanto.

     Veja bem, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: cair é propriedade de um outro departamento, o buraco é bem mais embaixo. Eu não gosto nem de tropeçar. Tudo bem que estar no ar já traz em si um cair em potencial, mas eu confio em aviões, balões e parapentes (sobre a asa-delta ainda estou refletindo). Agora… atirar-se em queda-livre eu acho mais medonho. Nem cabum né nada comigo, me borro toda. Bungee jumping está na lista de afazeres, mas… A graça do ar, pra mim, não está na adrenalina de continuar vivo literalmente por um fio, de mergulhar na morte por estatelamento e ser (se Deus quiser) puxado de volta, de entregar-se de corpo e berros ao abismo V = g x t. Como diz um amigo, live fast, die young, fuck yeah! Não descarto absolutamente, que eu também sou meio lelé da cuca, mas talvez em outra ocasião. Hoje estou pensando em outro tipo de sensação.

GOPR0766     Quando eu fui voar de parapente, confesso que também pensei “radicaaaal!” e só a ideia de estar parada de cara pro abismo da Pedra Bonita já me parecia o suficiente pra me elevar ao estágio absoluto da coragem. Chegar ao voo de fato, então… Kemi, a destemida. Contudo, uma conversa com um entendido do assunto tirou alguns “a” do “radicaaaal!” e fiquei só com um “radical” mais singelo, mas nem por isso menos destemido. Realmente, algumas pessoas disseram que o paraquedas é mais irado. Sei lá. Como esse mesmo entendido do assunto me explicou, a vibe é diferente. Disse ele assim: “a onda do voo livre é outra, tá muito mais pra curtir o visual, em paz, uno com a natureza, do que adrenalina ou coisa do tipo faca na caveira”. E então, depois de ouvir isso, curti ainda mais a onda do parapente porque me pareceu tão sossegado, tão (why not?) poético.

     Ok, ok, tô ouvindo vocês chiando… “sossego a 520 metros de altura HAHA que desmiolada”. Mas é. Acreditem. Não sei se por eu ter uma quedinha por alturas ou pela segurança absurda que o instrutor passa ou sei lá eu o quê, mas medo é o que menos seDCIM\100GOPRO sente lá em cima. Tá, também não vou dizer que não dei uma tremidinha ali na pista porque seria parecer machona demais, mas passados os primeiros gritinhos da decolagem, os vinte minutos que seguem são nada menos do que sensacionais. Estar lá em cima, sentada no vento, sobrevoando a montanha e o mar, compartilhando do espaço dos pássaros e sorrindo sem parar é… Não vou ficar enchendo esse parágrafo de adjetivos da ordem do espetacular, vocês podem preencher isso sozinhos abrindo o dicionário. (Má blogueira que bota os leitores pra trabalhar…).

     De todo modo, para quem me parabenizou pela coragem… Bem, se considerarmos que buscar a liberdade é um ato de coragem e que a felicidade é valente, até que sim.   

      Uma vez me perguntaram se eu tinha vertigem nas alturas. Como podem ver, obviamente que não. Eu tenho medo é do rasteiro…


* ”É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”, Paul Valéry

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ah! Uma infância errada…

 

     Nunca naveguei bucolicamente em córregos de carás dourados. Nadava de peito nos afluentes caudalosos de carros e faróis de freio. Nunca subi em árvore pra pegar fruta. Me empoleirava no carrinho de supermercado e catava biscoito de chocolate das prateleiras. Nunca corri por campos impressionistas com animais e nem assustei galinhas. Levava meu cachorro pra passear aqui na rua mesmo e os dois nos espantávamos, contemplativos, vendo um miquinho passear pelos fios de telefone. Nunca senti os cheiros dos doces da avó que nunca tive nas visitas de domingo que nunca fiz. Me regalava com o pudim da padaria ao lado de casa. Nunca galopei na correnteza que nem cavalo solto. Brincava de rema-rema-remador no sofá da sala com a empregada.

     Nunca vivi de infância lobateanamente prometida. Vivi de um não sei o quê urbano que parece não servir pra história, nem sonho e nem delícia.

     A literatura repetidamente me frustra com infâncias rurais oníricas, onde eu não estou… será que não fui criança, Deus meu? Ah! Que horror ter sido desviada da infância certa! A infância certa, aquela que dá colo e aconchega, é rural, tem cheiro de bosta de cavalo, é molhada de esguichos de córrego, é pulguenta e infestada de cicatrizes fundas. A infância certa sobe em árvore e come fruta do pé. A infância certa tem quintal. A infância certa tem sempre oito anos. A infância certa tem avós gordas e cozinheiras. A infância certa passa férias em sítios nas Minas Gerais. A infância certa pune todas as outras com seu tom de sépia bucólico e rústico e árcade, tão perfeito… se agasalha em lugares-comuns e neles permanece… inocência querida da infância perdida!

     Ah… pobre da minha infância errada…

 


Imagem: Renoir, L'enfant au fouet, 1885

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O brinco

 

     O pai não deixava a filha furar a orelha. Bebezinha, saíra da maternidade de cara limpa. Na escola, todas as meninas da sala usavam brincos. Pendurados havia ursinhos, pedrinhas, pokémons e argolas. Ela, coitada, levava o lóbulo nu.

     O pai não a deixava furar a orelha. O corpo é feito de pontos de energia, o que faz com que todo ele seja um sistema conectado e coeso. Um furo na orelha significaria a perda de alguma outra função corporal. Se ela nascera sem furo, é porque não era pra ser furada. Além disso, dói, sangra e o escambau. Trata-se de um costume primitivo. Era estranho para o pai que a filha procurasse a dor, o pus e o escambau.

     Então a frustração dos brincos de pressão. Dos brincos adesivos...

    Aos onze anos, contudo, não deu mais. Foi escondida à farmácia e pediu a pistola. Imediatamente a dor procurada. Uma dorzinha salgada, o tempero da vitória. O metal atravessado na carne, atarraxado nalgum ponto de energia. Você é uma mulher. Pai, eu não sou mais uma menina. Eu uso brincos. Eu uso brincos porque eu escolhi.

sábado, 7 de maio de 2011

Para Maitê, da mamãe

 

“Une mère, ça fait ce que ça peut,
Ça ne peut pas tout faire, mais ça fait de son mieux”
~Lynda Lemay


  Nesse dia das mães, para a minha filha:

     Aos dezessete anos descobri que o nome da minha filha será Maitê. Não sei por quê, não lembro como descobri Maitê. Reparei depois que rima com os nomes das sobrinhas e talvez isso seja bom pra poética familiar. Não conheço nenhuma Maitê e só tinha notícias de uma, a atriz. Mas isso não influencia em nada, que eu odeio essas coisas de homenagem, e minha Maitê passará longe da Proença, de cabelos alourados, mesmo que o pai venha a ser um norueguês louro de olhos claros. O sangue é forte desse lado. Não digo que Maitê terá os cabelos pretos como os meus, mas serão certamente mais para escuros, e os olhos também, talvez meio acastanhados. Talvez não tenha os olhos puxados, mas  digo isso porque nenhum dos meus sobrinhos tem, senão seria o mais provável.

     Reparou, Maitê, estou até rimando, mas é sem querer... mãe é um bicho cafona de dar dó. Coitadinha... Ainda é um anjinho lá no céu e eu aqui a profetizar como será, que tipo de cabelo, formato de unha... É preciso que baste que tenha todos os dedinhos, e que tenha cabelos. Era só isso que eu deveria dizer. Ai Maitê... desculpa a mamãe. Ainda estou na idade de brincar de Barbie, e quando se brinca de Barbie se é muito mimada. Você será como for. O que importa é que você será um grande sorriso, desenhado na minha grande barriga planetária, e eu, sem a menor culpa, poderei finalmente dizer que sim, só me preocupo com o meu próprio umbigo.

     Ai, te juro... tentarei não te sufocar de lirismo. Não te sufocar de amor... Assim a gente não ama bem, não é? Mas gritarei, sim, gritarei. Me chame louca, eu provavelmente estarei bem louca mesmo. Desculpa por todo o chocolate que eu não te deixar comer, por todas as balas proibidas, pelos penteados constrangedores, pelos beijinhos na frente da escola, pelo controle do boletim, pelos horários de dormir, pelos castigos, por não te deixar sempre dormir na casa das suas amigas, por não querer que suas amigas durmam sempre na nossa casa, pelos presentes que eu não te der, por frear a sua avó quando ela te mimar demais. Desculpa por todos os namorados que eu talvez não te deixe ter, pelos horários de chegar em casa, por não conseguir dormir enquanto você não chegar, por insistir em te levar e te buscar de carro e te deixar sempre na porta dos lugares, por te fazer ficar sem graça – e por dizer que bobagem, menina! quando você reclamar que tô te fazendo pagar mico… Desculpa por prestar atenção às suas amizades, por às vezes querer ser sua melhor amiga, por insistir que você é linda quando você se achar horrível, por arrumar seu armário e dizer que você é bagunceira, por não saber exatamente quando você me quer por perto e quando você me quer longe, e trocar as bolas na maior parte das vezes. Desculpa por te apontar o dedo na cara e dizer que você errou, mas será necessário – ah, Maitê! Será necessário... Desculpa por chegar a pensar que você não me ama tanto assim, eu sei que ama, estou só carente. Perdoa quando eu, sem mais nenhum argumento plausível, espernear que você vai entender tudo quando for mãe também – perdoa quando eu disser não, porque alguns sins, talvez eu jamais consiga me perdoar se os disser. Perdoa também por eu tantas vezes não entender direito o que você quer me ensinar, o que só você pode me ensinar. Tem paciência com a mamãe, Maitê… Desculpa pelas milhões de outras coisas que eu farei, das quais não faço a menor idéia hoje – por tudo o que eu farei, entre erros e acertos, na esperança de que um dia você me diga obrigada, mãe. Ou não esperando mesmo nada além de uma mulher cheia de luz, para a qual eu orgulhosamente darei a primeira faísca.

     Meu amor, não posso te dizer muito agora… Te espero, quando estivermos as duas prontas. E obrigada, por me engravidar já de tanto amor. Obrigada.

 


Obrigada, Mãe
~Akemi Aoki


[1] Uma mãe, ela faz o que pode / não pode fazer tudo, mas dá o seu melhor.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

everybody loves… Babies

 

    “On est né tout court avant de naître à la loi” ~ Jean François Lyotard1


      Igualdade é daquelas palavras que estufam o peito, é aquela palavra bonita de defender, que nos confere mais humanidade, mas no final todos sabemos que a minha igualdade depende do quão mais igual eu for a você, o gostosão do momento. Liberdade, igualdade e fraternidade!, grita uma mulher com o peito de fora – e ai de você se ousar meter uma burka aqui nas minhas fronteiras! Nesses dias turbulentos de “mundo árabe” e casamento gay, a polêmica dessa palavrinha fica a sassaricar por aí. Mas chega, não vou me enroscar mais em politicagens porque disso eu absolutamente nada entendo e por mais que eu seja corajosa no blog, isso já seria me encrencar demais.

     De todo modo, falem o que falem as revoluções, os livros, os socialistas, os ativistas, os humanistas, os valhamedeusistas, ninguém fala melhor do que um bebê. Ora, que contrassenso, ninguém fala melhor do que um infante, um in-fans, aquele que ainda não fala? Confirmo: ninguém evoca melhor a humanidade do que um bebê.

     Ontem tive o enorme prazer de ouvir quatro deles, na obra-prima de Thomas Balmès, “Bebês”. A sinopse já diz que ao seguir simultaneamente quatro bebês, do nascimento aos primeiros passos, na Mongólia, Namíbia, São Francisco e Tóquio, Bebês captura em filme os primeiros estágios da jornada da humanidade, que são ao mesmo tempo únicos e universais a todos nós. São três meninas e um menino, acompanhados desde a barriga da mãe até mais ou menos 1 ano, e para quem o mundo precisa abrir um espaço.

     A câmera é toda para o bebê. As mães são elementos secundários, conservatórios de leite; os pais praticamente não existem e quando aparecem fazem merda. Mais relevante que o seio materno é, evidentemente, o seio cultural. Através de diferentes espaços, lindamente fotografados, Balmès faz aparecer um mesmo chão humano. Não à toa escolheu crianças de, literalmente, quatro cantos do mundo. Aqui, as diferenças gritantes evidenciam a semelhança proporcionalmente estridente. 

     A esses bebês são oferecidos modos diversos de começar ‘the adventure of a lifetime’, mas o que eles nos oferecem de volta é uma mesma atitude primeira para estar no mundo. Antes de qualquer acostumar-se a um modo específico de viver e a alguma língua para enxergar, há o mesmo susto, o mesmo choro, o mesmo riso. O ‘oups’ dos acidentes, o choro das frustrações, a alegria do sucesso, a sobrancelha da dúvida. O mesmo estar rente ao chão, não importa se na terra ressecada ou num tapete persa, com vacas ou gatos de estimação ou os dois – temos todos a mesma cara abestalhada e nua, divertida ou apavorada,  de todo modo sempre perplexa diante de tudo, pois que tudo é deslumbramento. Não há filósofo que seja mais perplexo do que um bebê, não há poeta mais atarantado. A primeira infância é um espanto atrás do outro e é preciso realmente ser muito forte para aguentar o tranco de ser bebê. Nascemos fortíssimos e vamos murchando… Em pouquíssimo tempo fazer uma permutação entre essas crianças seria quase trágico, quem sabe o quanto essas crianças já não teriam deixado de ser simplesmente bebês e passado a ser crianças africanas, mongois, japonesas e americanas – crianças com o predicado da cultura (e potenciais adultos com o predicado da intolerância). O filme as acompanha cambalearem até o primeiro erguer-se e o primeiro caminhar, o primeiro afastar-se da terra e olhar o chão de cima, olhar para frente e não mais ao redor. O primeiro afastar-se do humano e da terra sem fronteiras e aproximar-se do Homem, das civilizações marcadas, demarcadas, cartografadas? O fim do tudo-junto-e-misturado e o começo do cada-um-no-seu-quadrado?

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      É um ponto de interrogação pessimista e broxante, mas ainda assim um ponto de interrogação que permite uma resposta confiante. Antes um ponto de interrogação que um ponto final definitivo e derradeiro. A filósofa Hannah Arendt2 tem um pensamento que me é muito querido. Diz ela que o nascimento de cada ser humano carrega potencialmente consigo um novo começo: “o milagre do aparecimento da novidade radical no mundo e a possibilidade sempre aberta da inauguração de um novo começo na história. O nascimento […] é o acontecimento inesperado que interrompe a segurança do mundo e a continuidade da história”. Nunca o corriqueiro e quase banal “as crianças são o futuro” me pareceu tão potente quanto depois de ler Arendt. Há aqui um grito coletivo pela humanidade, uma convocação a qual precisamos deixar que a infância responda. É papel dos adultos, da cultura. E este é o nó… Ajudar uma criança a crescer nunca pareceu tão dífícil.

      “Bebês” nos deixa com o primeiro erguer-se dessas crianças, que acompanha um grande ponto de interrogação. O que será delas a partir de então? Não podemos saber. Rezamos apenas para que as circunstâncias sejam favoráveis a um novo começo em direção ao bem…

     Mas me alegro de saber que elas tropeçarão ainda muitas vezes… Que tropecemos eternamente para que possamos ralar os joelhos no chão e nos lembrarmos dele, da terra que nos é comum e da humanidade que nos é infante.

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[1] “Nascemos tout-court antes de nascermos à lei”, p. 40 de LYOTARD, Jean-François. Lectures d’enfance. Paris: Galilée, 1991.

[2] ARENDT apud LARROSA, Jorge. “O enigma da infância”. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.