sábado, 19 de março de 2011

Japinha do meu coração

 

       Como sabemos, o Japão e a Líbia vêm disputando lugar no noticiário nas últimas semanas (e agora a França também tá procurando um lugarzinho ao sol). Mas como eu nada sei da Líbia, vocês terão que se contentar com mais um post japonês.

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         Não sei em que momentinho da minha infância eu não fiz click para a terra dos Pokémons. Como todos já sabem, eu não falo japonês. O único contato sentimental que eu tenho com a língua japonesa é o sotaque do meu pai. Cresci com primos (de olhos grandes, do lado da minha mãe) fascinados, estudando japonês, participando de concurso, montandoDSC02817 banda, pegando faixa-preta em artes marciais e o escambau. Mas eu, de olhos pequenos e cara achatada… nem tchum. Passei a infância quase sem me dar conta de que eu era “diferente”. Por incrível que pareça, só agora começaram a me chamar de japa, japinha, japinha-do-meu-coração.

 

 

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      Enquanto a viagem à França aos oito anos me rendeu um coup de foudre1 de me foutre2 para sempre, o Japão, aos seis, parece não ter me chacoalhado minimamente… (Não me venham com os “traumas de infância enrustidos”, que tenho P1000445horror!) Em julho de 2010, quatorze anos depois, estive lá novamente. Na primeira metade da viagem, em meu diário, cheguei a confessar uma frase dolorosa, que, depois de algumas observações politicamente incorretas sobre Tóquio, dizia: do Japão, amo o meu pai.

 

 

P1000435(Muito embora meu pai diga que “estou mais… mais para brasileiro, né? Eu sou japonês, eu sssou japonês... porém, pouco diferente do que Japão do hoje... talvez descendente japonês nissei... talvez seja educado mais japonês do que próprio eu... que sou Japão, nascido no Japão e formei lá no Japão... porém... me adaptei mais para cultura brasileira...”)

 

 

Eu, meu primo e os mistérios da privada

      Felizmente, quando começamos a sair do perímetro urbano e entrar na parte mais rural, com plantações de arroz, paisagens vulcânicas e construções mais tradicionais, meu humor foi melhorando. Mas veja, numa viagem como a minha, na correria de 16 cidades/lugares em mais ou menos 20 dias (Tóquio, Osaka, Nara, Quioto, Hiroshima, Miyajima, Nagasaki, Kumamoto, Mt. Aso, Beppu, Okayama, Atami, Hakone, Mt. Fuji, Niigata, Senami – ufa!), mais dormindo no ônibus e comendo no shinkansen do que andandoDSC03386 pela rua, não tive tempo de simplesmente take my time e flâner baudelaireanamente. Entrava e saía de pontos turísticos empanturrados de turistas (a.k.a. classe de gente mal educada). Tive muitos deslumbramentos, mas também muitos estresses, claustrofobias e, definitivamente, nenhuma epifania. Tive a pouca sorte de pegar muitos dias chuvosos e cheguei mesmo a pensar que naquela terra do sol nascente não havia sol algum. 

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         Mas há.

        O sol sempre volta a nascer.

        Nasceu para mim, que pareço estar ficando mais japonesa… Não é raro me encontrar emplastada de protetor solar, maquiagem, leque e sombrinha. Já era tempo. Daqui a pouco, estudo japonês. (Mas os cabelos azuis, continuo dispensando)

 

       Que o sol torne logo para os japoneses.


[1] amor à primeira vista

[2] f*der

sábado, 12 de março de 2011

Cucolândia das nuvens*

 

     Troquei umas palavrinhas com um professor de Direito outro dia. Um dos cursos que ele dá é Introdução ao Direito (ou equivalente). Tivemos mais ou menos o seguinte pequeno diálogo:

 

- E como é o curso? – eu pergunto.

- Ah, é uma… coisa, eu não sei bem…

-  Hum… Uma baboseira?

- Não… é uma mistura de Filosofia com Ciências Sociais...

- Justamente.

    

     Sei que não fui nada gentil, ele ficou boladex, mas depois de uma caipirinha eu perco minhas papas na língua e não foi por mal mesmo. Não disse isso porque deixo a baba escorrer nas aulas que exigem reflexão mais profunda. Esse não é o meu caso. Eu adoro. Acho divertidíssimo parar e ficar exercitando os cantos recônditos do meu cérebro, tramando como posso implicar com algum pensador metido a besta, principalmente se ele for um dos estelares da Constelação Impinatus Narigus. Quando um professor doutor me dá um Foucault intragável e me pede para dizer o que eu achei, tranquilizando com um “não tenha medo, pode dizer qualquer coisa, nem nós mesmos, professores, entendemos muito esse texto”, esse Foucault perde um tanto do prestígio, vira pó estelar. Eu só respeito os textos sedutores, aqueles que me querem. Os topetudos, que seguram a xícara com o dedinho mindinho levantado, fazendo gênero “eu sou muito inteligente pra você, mocreia”, ora… não. 

zequinha     Mas não é por questões de linguagem que eu disse aquilo da baboseira… Presto os devidos cumprimentos aos senhores pensadores, tiro o chapeu para muitos, levanto a saia para alguns e tudo o mais.  Uma vez que um dos princípios básicos da Filosofia é não se deixar acomodar num certo pré-conceito e não se alojar confortavelmente no senso comum; é sempre questionar a ordem pré-estabelecida e não aceitar as coisas como óbvias – enfim, uma vez que para filosofar é necessário ser um pentelho inconveniente, que pergunta “mas por quê?” ad infinitum, pensar é um pegapácapá, mermão. É um exercício de criatividade imenso, ginástica cerebral mesmo. É estar aconchegado na inquietação, no desvio.

 

     Isso fica claro quando pegamos uma obra de proposta “panorâmica”, que pretende colocar na mesa tudo o que já foi dito pelos nomes mais importantes sobre um determinado assunto. O objeto passa a ser mais o próprio discurso/debate filosófico do que o pobrezinho do peteleco inicial (o x da questão), e a obra inteira, uma ode à criatividade humana. Além do que cada um deles fala, também existem as discussões acerca do que os outros falaram sobre o que eles falaram, as milhares de interpretações e tentativas de decifrar suas abstrações. E aí, além da guerra de egos dos filósofos, entra a guerra de egos dos leitores/críticos, o que parece um pouco pior. Nesses últimos tempos, venho estudando o riso. O cabo de guerra entre forças titânicas que presenciei só me deixou com uma certeza: ninguém ri por último e, definitivamente, ninguém ri melhor.

     Mas a Filosofia não é pra dar certeza nenhuma pra ninguém mesmo. Ela existe pelo prazer (mesmo que para alguns possa ser masoquismo). É prazeroso admirar até aonde a mente humana consegue ir, as barras que força e transpõe, as bocas que deixa abertas, em reverência e pasmo. As brigas e teimosias. O pensamento que se forja na força do “mas” – Fulano disse isso, mas… Pensamos que algo é de certo jeito, mas talvez pode ser que seja de outra forma… Assim, assado, cozido, mal passado. De nada entendo das Ciências Sociais, mas imagino que seja a mesma coisa, uma vez que trata do ser humano. Quero dizer, é aquele negócio, não há verdade, há opiniões, ovo não dá mais colesterol alto, o Kadhafi se acha o rei da cocada preta, o que seria do verde se todos gostassem do amarelo, essa coisa toda.

     Não sei se chegamos de fato a aprender algo sobre alguma coisa, mas com certeza aprendemos a hell of a lot sobre a própria maquinaria pensante do homem e sobre toda a nossa baboseira eloquente e respeitável.


*Cucolândia das nuvens: termo de Nietzsche, em “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cale-se, cale-se! Você me deixa looouco!

 

 “Delícia de fechar os olhos, por um instante e assim ficar, sozinho, fabricando escuro… sabendo que existe a luz!” Mario Quintana


     Sempre vivi na cidade grande, com seus ruídos particulares e característicos. Mas sou daquelas que sente saudade de um silêncio ancestral, de uma quietude que quase nunca posso ouvir. Os barulhos da urbanização e da engenharia civil desembestada e desordenada – ai, que eu não posso com isso!

     Ao lado do meu apartamento, há um desses prédios subindo, em construção há uns dois anos agora. Acordo com as marretas, o cocoricó da urbis. Os caminhões enormes de cimento, grandes demais para minha rua estreita demais. É um ritmo mal orquestrado, com o qual nem dá pra se acostumar e anestesiar as caixas acústicas. Hoje sou portadora de déficit de atenção. É uma doença, não é? As crianças sofrem com esse diagnóstico. Mas não é que elas simplesmente sejam assim, elas pegaram, como uma gripe, desse mundo barulhento e perturbado. Na verdade, pode ser mais como uma tuberculose, que é mais séria. Quase posso sentir as britadeiras furando a porra dos meus tímpanos e daqui a pouco minhas orelhas vão cuspir sangue! Já chorei, de tanto desespero! Mesmo à noite, quando descansam, as porradas estão aqui, impregnadas no meu cérebro, acopladas aos meus ouvidos, como uma broca está acoplada ao punho de um dentista e de um peão. Os dois igualmente insuportáveis. Capitães Gancho da Era Moderna, terror das criancinhas e das moças de família.

     Também me incomoda a tagarelice, a voz alta, a televisão alheia. A Fátima Bernardes de outra pessoa é intragável. Shh… Falemos baixinho, como quem sussurra na maternidade… pois que eu acabo de nascer, agorinha.

     Não quero o silêncio constrangido de uma falta de assunto qualquer, não o silêncio mórbido do tédio e da indiferença, não o silêncio hospitalar do moribundo. Mas sim o sossego de um chuvisco, o acordo pacífico do grilo com a noite, a serenidade do motor da geladeira, a mudez afinada da respiração de dois corpos e outras cafonices...     

     Mario Quintana, meu poeta dos mais queridos, já disse que a amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo (e que o amor é quando o silêncio a dois se torna cômodo). Não há intimidade maior do que ficar em silêncio junto. Falar infinitamente e depois calar, com leveza, e assim conseguir permanecer, sem que seja um embaraço. Ser profundamente íntimo é poder ouvir tudo, qualquer segredo e qualquer besteira. Mas é também, e principalmente, poder ouvir nada… É não ser intimidado pelo silêncio, é compartilhá-lo e estar em paz, descansando de todo o barulho do mundo.  

 Shh… aquietemos, que hoje é quarta-feira de cinzas…

                                                                   Foto: Bárbara Porto


 

     Em geral, eu coloco vídeos como ilustrações, você clica se quiser e tal. Mas este aqui eu considero como mais do que mera ilustração. Ele é didático e deveria ser passado nas televisões das estações do metrô e dos ônibus…

     Longa vida aos headphones.

sábado, 5 de março de 2011

O blogueiro é um fingidor

Geri’s Game, Pixar

 

    Nestes dias em que tenho blogado sobre o eu, o início das minhas aulas de Literatura Portuguesa sobre Fernando Pessoa veio bem a calhar. Esse cara sabia o que não era o eu. Os heterônimos tinham mapa astral, for God’s sake. Se Fernando Pessoa blogasse, seria uma coisa de louco, bicho. Ele teria um tabuleiro de bolo, um de xadrez e um de ouija. Imagina, eu mal consigo dar conta desse aqui…


     Nos últimos posts, fiquei papagueando sobre mim como se isso muito interessasse a vocês… Oh, sim, eu não falo japonês, não tenho um autor preferido, tenho dúvidas lancinantes sobre fazer uma tatuagem e só furei as orelhas aos 12 anos. Mas o que aconteceu ou deixou de acontecer na minha vida não é o essencial de todo o meu egocentrismo blogueiro, dane-se! O que escolho dizer, como digo e quais as relações que faço entre as minhas experiências, no entanto, são  trampolim para outras questões bem mais interessantes do que os lóbulos das minhas orelhas.

     Para pegar um assunto em pauta atualmente, essa palestra sobre Mim serve, por exemplo, para discutir a propriedade intelectual (direitos autorais, plágio…). Hoje, no Prosa&Verso, d’O Globo, saiu uma entrevista com o pesquisador americano Lewis Hyde, com o título “Grandes criadores são seres coletivos”[1], em que ele discute, basicamente, a propriedade intelectual dos artistas e afins. Logo na primeira resposta, ele cita Goethe, assim: Goethe uma vez respondeu à pergunta “Quem sou eu?”, da seguinte forma: “Guardei e usei tudo que vi, ouvi e observei. Minhas obras foram nutridas por incontáveis indivíduos, inocentes e sábios, brilhantes e estúpidos. Infância, maturidade e velhice me trouxeram seus pensamentos, suas perspectivas de vida. Frequentemente colhi o que outros plantaram. Meu trabalho é obra de um ser coletivo que carrega o nome de Goethe”. A mesma ideia é reformulada por Borges[2], num trecho de entrevista exaustivamente citado por aí: No estoy seguro de que yo exista, en realidad. Soy todos los autores que he leído, toda la gente que he conocido, todas las mujeres que he amado. Todas las ciudades que he visitado, todos mis antepasados.

     Mas, escritores ou não, somos todos “um ser coletivo que carrega o nome de _____”. Eu sou uma massa de bolo, que convoca, necessariamente, vários ingredientes para o tabuleiro. A começar pelo meu corpo, “sou todos os meus antepassados”, é claro, está na cara: minhas grossas sobrancelhas portuguesas sobre meus olhinhos puxadinhos ling-ling. Depois, algumas caretas que são “coisa da minha irmã” e outros trejeitos que fui roubando aqui e ali, consciente ou inconscientemente, de pessoas aleatórias. Ao passar para o intelecto, devo o que penso e o que escrevo aos meus professores (alguns em muito especial), à família, aos amigos, aos amores, aos livros, aos filmes, ao Rio de Janeiro, às viagens que fiz, aos rótulos que me deram e etc ad eternum. Pois bem, se eu sou uma mistureba de tudo isso, o modo como conto a minha história é o que dá a liga.

pra viagem

     Por exemplo, eu gosto muito de viajar. É plausível que eu diga que gosto de viajar porque meus pais me carregaram junto com eles em todas as viagens que fizeram, e aos 6 anos eu estava enfiada na cabine de um Jumbo, conversando com o piloto. Outra possibilidade é que goste de viajar porque sempre recebi notícias de minhas irmãs por cartões postais e fotos de vários cantos do mundo. Ou posso dizer simplesmente que eu gosto de viajar porque sou sagitariana e fui batizada na capela do Galeão. Mas talvez eu só goste de viajar porque é um impulso comum a 80% da população mundial, que faz o trânsito aéreo/terrestre/marítimo e a indústria de turismo aumentarem todo dia. Escolhemos o que nos parece mais legal e contamos da forma que nos fará parecer uma pessoa mais interessante, mais propensa ao humor ou à tragédia.

     Precisamos olhar para o espelho e, com todo orgulho ou grande miséria, reconhecer em nossas rugas a nossa história. Escolhemos nossas memórias e narramos causas e consequências, como melhor nos aprouver. Aquietamos a mente com explicações e relações entre passado e presente que pareçam fazer sentido.

     Daí que o “trauma de infância” é o termo mais popular da Psicologia. Vamos procurar quem somos na intimidade da nossa infância, no limo do nosso passado. No divã, queremos tirar do armário nossos traumas enrustidos, esquecidos com o nosso bichinho de pelúcia encardido. Quer dizer, não precisa nem ser trauma, serve qualquer pista ou pontapé para algum traço da nossa personalidade, algum desejo, psicose ou úlcera.

    

 

      Eu é polêmico, pode ser que seja mesmo heteronômico…  Numa de minhas primeiras aulas na faculdade, minha professora, ao ver nossas carinhas embasbacadas com as coisas que ela falava (muito bem), disse, com humildade, que “nada disso aqui é meu, gente”. Mas tudo aquilo era ela, fazia parte dela, e foi através dela que chegou a mim, do modo brilhante como chegou. Toda e qualquer coisa que dizemos acaba sendo espécie de psicografia de um espírito que recolheu tudo o que já lemos, vimos e ouvimos, juntou tudo e assopra nos nossos ouvidos a cada vez que abrimos a boca para falar. E nem sabemos mais de onde veio… às vezes não é por mal que falhamos ao prestar a devida homenagem e conferir o devido crédito, com regras de citação da ABNT. É muito apud…*

      Eu só espero que haja uma boa dose de açúcar e chocolate na minha massa, sempre.

Porque eu… eu sou um docinho.

bad cupcake


[1] HYDE, Lewis. Grandes criadores são seres coletivos. O Globo, Rio de Janeiro, 05/03/2011. Prosa&Verso, p. 2.

[2] Não encontrei a referência original, mas através desse artigo, do jornal El País: http://www.elpais.com/articulo/ultima/BORGES/_JORGE_LUIS_/ESCRITOR/Jorge/Luis/Borges/estoy/seguro/exista/realidad/elpepiult/19810926elpepiult_6/Tes

*Pelo amor de Deus, não estou fazendo apologia e nem defendendo que podemos fazer trabalhos acadêmicos jogando as referências bibliográficas para as cucuias! Elas devem ser respeitadas!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Keminha, o bibelô trombudo

 

     Como disse no post passado, este aqui vai ser sobre os rótulos com que eu fui etiquetada até agora. Ninguém se manifestou no post passado sobre seus próprios rótulos, mas eu continuo achando que é no mínimo curioso pensar consigo mesmo sobre isso, olhando pro teto antes de dormir, no banho lavando a orelha, na aula de 7h da manhã da segunda-feira etc…


img038_thumb3      Eu sempre fui uma menina de regras, de obediência, de rabos-de-cavalo com gel, perfume de alfazema e elogios dos adultos. Uma garotinha comportada, risonha, tímida e puxa-saco que gostava de andar ao lado da professora nos passeios do colégio. Nunca me proporcionei o prazer de me jogar no chão e espernear, de gritar bravamente contra os despotismos maternos. Eu me resignava como uma dama da alta nobreza, cheia de dignidade, apesar do bico e dos impropérios de baixo calão que eu repetia mentalmente.

     Eu sempre fui a fofa.

    Minha mãe era daquelas sortudas que nunca precisou levantar a voz na rua. Ela me olhava – e era tudo. Só existíamos nós duas no mundo, o resto todo eram figurantes borrados, ao doce som da trilha sonora de Psicose. Ela nunca me bateu porque me dava uma coça com os olhos e me fazia temer alguma coisa pavorosa que eu nunca cheguei a saber o que era. E euzinha não ia dar a cara a tapa pra descobrir. Eu não fui uma criança insolente simplesmente porque eu me borrava de medo de alguma coisa. Nada mudou.

 

   Se você conhece a minha mãe, provavelmente acha que ela é muito-fofa-muito-fofa-muito-fofa e não consegue conceber que ela tenha esse olhar. Por conseguinte, caso você não seja muito próximo de mim e nunca tenha merecido a ira dos meus demônios e a desgraça dos meus hormônios, não consegue conceber que eu tenha esse olhar, já que eu “sou” a Fofa Filha. Meus apelidos vão de bonequinha à bibelô, passando por docinho. Mas o que acontece é que eu desenvolvi um olhar tão horripilante ou pior do que o dela, então… tadinho do meu pobre pai.

     Já meu pai me etiquetou como muito séria e antipática. Mas talvez a culpa seja toda dele. Um amigo meu, da escola, o apelidou de Tio Sorriso, e desde pequena ouvi minha mãe dizer que, com ele, era preciso tomar cuidado porque senão ele ria até de enterro. Com medo de ter herdado a propensão a esse vexame, fui passando de criança oferecida a pré-adolescente sisuda. Me interessei mais profundamente em aprender a controlar a sobrancelha esquerda, como meu avô, e a levantá-la ao menor sinal de desaprovação, dúvida, irritação, ameaça ou só pra fazer careta mesmo.

     Bem, mas o negócio é que um temperamento fulminante não fica bem ao lado de tanta fofura. Não combina, é tipo chinelo com meias, é contramão. Só que, repara, tem gente que usa chinelo com meias e é um super luxo…  E não posso esquecer que bombei a primeira prova prática do Detran porque entrei na contramão (oh boy). peq_freehugsipanema4.1

     Não quero assustar ninguém –  por favor! Toda a minha fofice me faz ser uma pessoa de paz, amor, Free Hugs, Korakor… DSC02680Vinde a mim os amiguinhos!

     O que quero dizer é que eu também tenho um cisne negro. Ora essa, eu tenho uma cauda de pavão inteira.  É aquilo: entre o branco e o preto há uma porção de tons de cinza. Ou a versão mais sinestésica da cantora Katie Melua: the piano keys are black and white, but they sound like a million colors in your mind…