terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pernas pra que te quero!


L’amour vient d’où? 
Et puis après, pour s’enfuir, 
comment est-ce qu’il court?

sábado, 19 de junho de 2010

O choro


     O choro é a verdadeira linguagem do homem. O homem não nasce falando como o pinto nasce piando. O homem nasce chorando.
   O choro é a verdadeira língua do homem. Esta que estou usando agora é estrangeira, estrangeiríssima, e nenhum de nós passa no exame de proficiência porque não há letra que escorra feito lágrima.

sábado, 29 de maio de 2010

Não-sei II


     O coração realmente bate mais rápido quando a gente escreve. Quase como se estivesse em cima de uma esteira aumentando a velocidade, inclinando o negócio todo, quase tropeçando nos pés e perdendo tudo e caindo pra trás, no chão, no ridículo. É isto escrever. Mesmo que não seja nada demais, nada de gênio, nada mesmo, nothing at all, rien de rien, nadica de nada. Com esse maldito teclado é quase trabalho de britadeira, tec tec tec tec tec tec. Sou um peão, cuspo em cima de tudo isso e se passa uma mulher eu grito gostosa, e eu passo a mão nela todinha. A mão literária, porque peão de obra também não passa a mão de verdade em ninguém. A não ser em estupro, eu sou boa em estuprar mulheres. Por favor, não descontextualize esta frase e não a use contra mim. Veja bem, estupro mulheres literariamente. A arte é maravilhosa, abro as pernas e me enfio entre fios de cabelo e xampus e sangues e tudo. Porque mulheres sou eu, são as minhas pernas que abro e tudo isto que escrevo tec tec tec tec tec, todas elas que desfilam com seus homens, seus amores, seus quilos, seus choros, suas paranoias, seus gritos, suas solidões, alegrias, todas elas são só um grande estupro a mim. E saio toda arrebentada. Estou toda arrebentada. E nada é bom. Elas são personagens ruins, muito provavelmente porque eu sou uma escritora ruim, mas também porque eu sou uma personagem ruim. Porque essa mania de fragmentação ? É fácil ver os pedacinhos de nós, dos outros, só fazemos é fofoca de nós mesmos. Dificil é se ver como inteiro. E eu sou tão inteira. E todos somos. Temos só um fio de vida que começa e termina. O mar não é fragmentado, o mar é um inteiro que tem ondas, que são quebradiças na praia, que batem cada vez diferentes e renovadas, mas ainda assim o mar é um inteiro. Fragmentação é o caralho. O que há comigo são ondas. Eu não sou cacos de vidro, não sou porra de mosaico nenhum. Mas não-sei me escrever por inteiro numa personagem que seja boa, ou em diversas personagens. Encontrar inteiridades nesse mundo fragmentador. Não-sei. Não-sei o que estou dizendo.

Não-seis


      Prometi que não iria mais escrever sobre escrever. E também não escreveria mais em francês. Mas o francês me tem vindo antes do português. Minha língua já não me diz. Já não me diz nada. Valha-me deus, se já disse algum dia alguma coisa, vou lá eu saber. Agora, sobre escrever, quanta merda. Não tenho o que dizer. Em sala de aula, digo sempre besteira, falo falo falo, melhor ser ignorante por três minutos que pela vida toda. Mas só eu sou ignorante. Todos sabem a vera, eu com hipóteses medíocres sobre um conto qualquer repetindo e repetindo as mesmas questões já cortadas pela professora – não, assim não pode ser, não, assim é que não é, porque, veja bem, Akemi, e assim por diante. Em conversa de bar, calo ou digo besteira, não sei do que estão falando ou sei muito pouco ou simplesmente não me sei fazer entender – eu deveria me fazer entender. Eu trabalho com a palavra. Mas engasgo em não-seis gaguejados, aquela má assassina que treme o dedo em cima do gatilho e, em vez do tiro, sai o grito – da derrota, é impossível atirar, é impossível dizer o que não sei o que é. Há algo ali que sinto, mas que não vejo. Não vejo. Talvez todo o blablabla da crítica literária seja esse tatear engasgado por cima do que se sente em não-sei. A língua não recobre tudo. A pele é celular. O celular é plástico. O plástico é petróleo. O petróleo é terra. A terra é big-bang. A luz se fez num estrondo molecular ou sei lá eu o que foi aquela porra. Não-sei o que foi aquela porra. Não-sei o que foi ontem, não-sei o que foi hoje, não-sei o que é isso, que merda, não-sei. Estou fazendo a mesma coisa que odeio que os outros façam, que escangalhem a língua, eu não escangalho a língua, mas que digam que há coisas maiores do que ela, menosprezando-a, mas usando-a e gastando-a e deixando-a toda encardida de nojo da palavra, do pensamento, de um querer saber através da língua, através, através, atravessado, num bum, num big-bang, jamais farei um big-bang, não sou poeta, não sou maratonista, meu fôlego está se perdendo, meus dedos em corrida de cem metros e eu só coloco vírgulas porque fazer ponto e shift letra maiúscula demora muito tempo, os acentos é o word que coloca.
      Ou sei lá. Só segura o meu cabelo e me deixa vomitar.
      Nada sei - sem nenhuma pretensão socrateana nenhuminha mesmo.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Do barulho insuportável


Chegando os operários, orquestrava-se o dia e o prédio em construção dava o tom de parte da manhã e de toda a tarde, que nunca era pacífico, mas sempre estridente, com a força das coisas que se vão fazendo e se vão chorando, aos pouquinhos, para depois calarem-se, fazendo então chorarem outras coisas. Neste caso, chorariam os céus a cada arranhão em suas nuvens, quando pronta a estalagmite.